2. A RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR POR ACIDENTE DO TRABALHO39
2.2. A RESPONSABILIDADE CIVIL DERIVADA DO CONTRATO DE TRABALHO
2.2.1. Pressupostos da responsabilidade civil subjetiva
A responsabilidade civil subjetiva propriamente dita, ou aquiliana, é a clássica responsabilidade que deriva de um dever universal anterior de não prejudicar ninguém. É a regra geral adotada pelo ordenamento pátrio.
No contrato de trabalho, a responsabilidade subjetiva decorre da inexecução de obrigações contratuais, tanto por parte do empregado como do empregador, em relação às obrigações de meio, sejam principais, secundárias ou deveres anexos de conduta118.
A responsabilidade civil trabalhista está insculpida no rol dos direitos sociais fundamentais:
Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
[...]
XXVIII - seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa;119
A responsabilidade civil geral tem previsão legal nos arts. 186, 187 e 927, caput, do Código Civil, que estabelecem:
Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
116 Ibid. p. 59.
117 MONTEIRO, Carolina Masotti. Acidente de trabalho e responsabilidade patronal objetiva. In:
GUNTHER, Luiz Eduardo; ALVARENGA, Rúbia Zanotelli (Coord.). BUSNARDO; BACELAR (Org.).
Direitos humanos e meio ambiente do trabalho. São Paulo: LTr, 2016, p. 24.
118 DALLEGRAVE NETO, 2017. p. 59.
119 VADE MECUM
Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.120
O primeiro elemento a ser analisado nesse regime de responsabilidade é a conduta humana. O ato jurídico praticado pelo ofensor deve ser considerado um ato ilícito para que haja o dever de reparar. O ato ilícito está caracterizado pelos artigos supracitados (arts. 186 e 187) do Código Civil, que estabelecem que o ilícito civil será a conduta contrária ao Direito, e causadora de dano, cometida culposamente ou dolosamente.
A doutrina aponta como elementos subjetivos da responsabilidade civil a existência de uma conduta humana e de culpa lato sensu (dolo ou culpa)121.
Maria Helena Diniz descreve três elementos que compõem a responsabilidade subjetiva: a) uma ação, comissiva ou omissiva, qualificada juridicamente como ato ilícito; b) a ocorrência de um dano moral ou patrimonial causado à vítima; c) o nexo de causalidade entre o dano e a ação, constituindo-se fato gerador da responsabilidade122.
Para Flávio Tartuce os elementos são quatro: a) conduta humana; b) culpa genérica, em sentido amplo ou lato sensu; c) nexo de causalidade; d) dano ou prejuízo123. Sendo a conduta e culpa lato sensu os elementos subjetivos, o nexo como o elemento imaterial e o dano como elemento objetivo.
Portanto, para haver responsabilidade civil, o primeiro requisito é que haja ação ou omissão de um ser humano livre, por meio de ato seu ou de um terceiro vinculado a si, ou mesmo por fato de uma coisa que seja sua ou esteja em sua posse124.
O segundo requisito é que essa ação ou omissão esteja caracterizada pela culpa em sentido amplo. A culpa lato sensu abrange o dolo (intenção deliberada de executar o ato ilícito) e a culpa em sentido estrito (imprudência, negligência ou imperícia).
A doutrina e a jurisprudência têm adotado a aplicação da culpa com gradações, ou seja, tem-se defendido a utilização de graus de culpa tanto para a
120 VADE MECUM
121 TARTUCE, 2018, p. 225.
122 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro. Responsabilidade civil. 27. ed. São Paulo:
Saraiva, 2013. v. 7. p. 52-54. Apud. TARTUCE, 2018, p. 225-226.
123 TARTUCE, 2018, p. 227-228.
124 CAIRO JÚNIOR. 2015. p. 48.
fixação da responsabilidade civil quanto para se aferir o valor da respectiva indenização125. Cairo Júnior defende que a estipulação gradativa da culpa tem aplicação justificável nas ações de danos morais, pois nesses casos há uma reparação de natureza compensatória, e não ressarcitória126.
O ônus probatório da culpa do agente é sempre da vítima, exceto nos casos de culpa presumida e responsabilidade objetiva. Após a prova do elemento subjetivo da responsabilidade, justamente o pressuposto que diferencia se o caso será de responsabilidade subjetiva ou objetiva, é que se parte para a análise dos outros elementos.
Há, ainda, a possibilidade de excludentes da responsabilidade nos casos em que o dano ocorre e há nexo causal entre a ação e o resultado, porém a ação ocorreu em um contexto de licitude. São os excludentes de ilicitude previstos no art.
188 do Código Civil, que os define como legítima defesa, exercício regular de um direito e estado de necessidade.
O nexo de causalidade é o elemento imaterial que vincula os resultados danosos ao ato praticado pelo agente causador do prejuízo. Pode ser definido como
“a relação de causa e efeito entre a conduta do agente e do dano causado”127.
Assim, se um ato ou fato não é a condição necessária, ou não contribuiu de qualquer forma para a formação do prejuízo (concausa), não é possível se configurar a responsabilidade civil128.
Há, também, excludentes do nexo causal, comumente apontados na doutrina129 e amplamente utilizados na jurisprudência: a culpa exclusiva da vítima, o fato de terceiro e a ocorrência de caso fortuito ou força maior.
Existem inúmeras teorias e estudos que se desdobram sobre as minúcias do nexo de causalidade, o debate é extenso demais para figurar neste trabalho, portanto, nos contentaremos com a definição básica.
Por sua vez, o dano é o resultado objetivo da ação, é a perda patrimonial ou extrapatrimonial que decorre da ação ilícita e afeta o prejudicado. Pode ser definido,
125 CAIRO JÚNIOR. 2015. p. 50.
126 Idem.
127 TARTUCE, 2018, p. 292.
128 CAIRO JÚNIOR. 2015. p. 52.
129 Cf. DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade civil no direito do trabalho. 6. ed.
São Paulo: LTr, 2017; OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por acidente do trabalho ou doença ocupacional. 11. ed. São Paulo: LTr, 2019.
ainda, como “toda diminuição ou destruição efetiva no patrimônio da pessoa, seja material ou moral”130.
Importante frisar, e por mais óbvio que pareça, não existe responsabilidade civil sem dano efetivo. Não basta ajuizar uma ação pleiteando reparação civil por ato ilícito sem se comprovar a existência de dano. Essa premissa tem lógica de fácil entendimento na teoria, porém no campo prático existem inúmeros debates sobre uma possível responsabilização sem dano, sobre as formas de se provar ou presumir o dano e sobre a própria definição do que seria dano e do que seria “mero aborrecimento”.
O dano pode ser patrimonial ou extrapatrimonial. Os danos patrimoniais mais comuns na doutrina e jurisprudência da responsabilidade civil são os danos emergentes, o lucro cessante e os danos por perda de uma chance. Os danos extrapatrimoniais incluem os danos morais, os quais serão melhor apresentados no último capítulo deste trabalho, os danos existenciais e os danos estéticos.