Capítulo 2 OS ACIDENTES DE TRABALHO
2.2 O ambiente de trabalho e seus agentes
O ambiente de trabalho dos motoboys está constituído pelas vias públicas, e nele interagem agentes físicos, químicos e biológicos, além do componente humano representado pelos pe- destres e motoristas.
Os agentes físicos estão representados pelos ruídos, condições meteorológicas (calor, chuva, vento) e condições da via (buracos, areia, cascalho, etc.); os agentes químicos estão caracteri- zados especialmente pelo monóxido de carbono liberado pelos veículos em circulação; e os agentes biológicos, representados pelos cães e gatos que circulam pelas pistas de rolamento e que são responsáveis por inúmeros acidentes.
Referências aos ruídos advindos do trânsito e da própria moto foram constantes e algumas vezes inusitadas. Existem motoboys, que apesar de incomodados com o ruído peculiar ao trânsito, como buzinas, barulhos dos motores e das carrocerias, freios, entre outros, retiram o silencioso da própria moto por considerarem agradável o ruído daí emanado.
Alguns trabalhadores atribuem ao capacete a proteção contra o ruído, de forma que este não chega a incomodá-los, enquanto para outros, o ruído, além de provocar grande desconforto, ainda interfere na sua segurança ao dirigir, como afirma Renato (26 anos):
A zoada nos deixa atordoados. Para a nossa segurança, nós usamos muito a audição. A gente ouve a zoada do carro e olha pelo retrovisor. Muitas vezes passa um caminhão fa- zendo uma zoada danada, e de repente surge um carro que a gente não vê de onde vem porque a zoada do caminhão não permitiu. Muitas vezes o ruído faz a gente perder esse contato auditivo no trânsito, e daí pode surgir um acidente.
Estudos existem que revelam o papel do ruído como agente estressor e a diversidade de efei- tos que o mesmo pode trazer à saúde. Para Seligmann-Silva (1992), o ruído exerce efeitos significativos sobre o humor, expressos através de irritabilidade e exacerbação da ansiedade, fatores predisponentes de acidentes.
Queixas relacionadas ao calor, à chuva, e à poeira, foram também bastante freqüentes. O des- locamento diário sob sol e calor intenso tem criado transtornos para estes trabalhadores. Neste sentido, Seligmann-Silva (1992) afirma que “o calor intenso, além de provocar irritação, di-
minui a capacidade de concentrar a atenção, aumentando os riscos de acidente.” Além disso, o calor traz outros inconvenientes, como relata Hélio (33 anos):
O pessoal reclama muito do calor. Eu procuro usar roupas claras que não retenha calor. O pessoal também reclama muito do capacete, pois você anda com a cabeça pegando fogo. Quem trabalha diariamente com capacete tem que cortar cabelo quinzenalmente, porque com a quentura o cabelo cresce rapidamente... Tanto cresce como cai. Quem tem tendên- cia à calvície fica careca mais rápido.
Não só o calor provoca desconforto que pode potencializar outros fatores desencadeantes de acidente, mais especialmente a chuva traz muitos problemas. Durante a chuva e vento intenso, as alterações das vias se acentuam, exigindo dos motoboys uma maior atenção, além da ado- ção de estratégias de proteção as mais diversas:
Na chuva, quando tem uma cratera ou um buraco na pista e está coberto com água, não dá para ver, e a gente pode cair no buraco. Neste caso, a gente tem que ver onde o carro da frente está passando para seguir a roda dele. Tem que ter essa outra atenção (Fábio, 22 anos).
Telma (29 anos), moradora do Subúrbio Ferroviário, faz referência ao perigo de atravessar a linha de trem quando está chovendo. Segundo ela, nestas ocasiões os trilhos ficam bastante escorregadios, podendo provocar derrapagens:
Eu já me acidentei na linha do trem molhada. Quando a linha do trem está molhada tem que atravessar com muito cuidado porque ela escorrega muito e você cai. Foi o que acon- teceu comigo.
A questão da visibilidade em dias chuvosos também merece atenção. Alguns motoboys utili- zam capacete de qualidade inferior, cuja visibilidade fica comprometida durante a chuva, ha- vendo necessidade de suspender a viseira. Esta solução, embora melhore a visibilidade, pro- voca desconforto e dor, pois os pingos da chuva com a moto em movimento dão a sensação de que pedras estão sendo lançadas contra os seus olhos:
Quando chove a viseira fica toda embaçada, fica toda escura... Aí a gente tem que sus- pender de qualquer jeito e aí a chuva bate no olho... Parece até que é uma pedrada que a gente está tomando. Se ficar com a viseira baixa pode acontecer qualquer acidente, por- que escurece tudo (Pedro, 31 anos).
A manutenção das pistas de rolamento é outro aspecto a ser considerado. Quando precária, com presença de óleo, areia ou buracos, causa sérios problemas para o motoboy, podendo desequilibrar o seu veículo. Pistas recém cobertas com cascalho, ou com pedregulhos, tornam o equilíbrio e o controle da motocicleta bem mais difícil.
A circulação de animais – cães e gatos – na pista de rolamento tem provocado um grande nú- mero de acidentes, alguns de grandes proporções, como foi narrado por Telma (29 anos):
Eu atropelei um cachorro e até hoje não me recuperei. De uma hora para outra o cachorro cruzou na minha frente. Chovia demais e eu atropelei. Perdi o platô da tíbia, tive 16 fratu- ras e adquiri deficiência física. Tive uma pancada tão forte na cabeça que o capacete ra- chou, mas, mesmo assim, eu fui salva pelo capacete.
Luciano (28 anos), também considera extremamente perigoso a presença destes animais, e é mais uma vítima de acidente provocado por um cão:
Arraia e cachorro é um problema sério na rua. Um dia eu vinha do aeroporto junto com outro colega quando um cachorro atravessou na frente da gente e eu atropelei. A gente ca- iu e se arranhou bastante.
As linhas das arraias e pipas, independente de trabalhadas ou não com cerol, têm provocado acidentes graves, daí algumas empresas que possuem frota própria, a exemplo da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, instalarem em suas motos antenas anti-cerol, dotadas de lâminas cortantes que tem por finalidade cortar o fio da arraia/pipa quando da proximidade do veículo. Luciano (28 anos) ilustra esta questão:
O acidente com linha de arraia às vezes é muito grave e o cara até pode morrer.
Eu tenho um colega, que a linha da arraia apesar de estar sem cerol, cortou o seu pesco- ço. Sangrou muito, ele caiu da moto, desmaiou, e ainda roubaram seu veículo.
A multiplicidade de estímulos presente na via, e a necessidade de estar atento a todos eles, provoca no trabalhador uma sobrecarga cognitiva, que, segundo Seligmann-Silva (1992) pode se expressar principalmente através de fadiga física e mental, fatores determinantes dos aci- dentes de trabalho. Fábio (22 anos) faz referência a esta situação, com o seguinte depoimento:
A moto para trabalho é bastante cansativa. Apesar de estarmos ali sentados a tensão no trânsito é muito grande e constante. O motociclista tem que está prestando atenção a ca- chorro, a gato, a pedra, buraco, pedestre, transversais, gente fora da faixa, frente de ôni-
bus... A gente tem que estar ali naquela malícia toda, e isso cansa muito. Se o motoboy não tiver jogo de cintura ele se incomoda com tudo e se estressa rápido.
Com relação ao monóxido de carbono emitido pelos veículos, foram feitos alguns comentá- rios direcionados a danos à saúde, sem relação direta com os acidentes de trabalho.
2.2.1 Motoristas e pedestres: o componente humano do ambiente de trabalho
Motoristas e pedestres têm participação ativa no ambiente de trabalho dos motoboys e juntos contribuem para a ocorrência de acidentes. As relações estabelecidas entre estes atores são geralmente conflituosas, e se originam tanto de atitudes dos próprios trabalhadores, como dos demais atores.
Foram constantes as queixas relativas ao desrespeito dos motoristas para com os motociclis- tas. Para os motoboys, as atitudes de desrespeito decorrem da falta de cidadania e de educação para o trânsito, do desconhecimento por parte de alguns motoristas das normas contidas no CTB – especialmente aquela que permite a circulação pelos corredores – ou ainda das atitudes discriminatórias dirigidas aos motoboys. Neste sentido, Norman (48 anos) acrescenta:
Tem muito motorista com raiva do motociclista, tem muita gente malvada. Um dia, eu pa- rei no sinal e do lado de um carro passou um passarinho, eu adiantei um pouco minha moto para olhar o passarinho e esse rapaz achou que eu queria sair na frente dele. Jogou o carro em cima de mim. Eu saí para o lado e ele freou em cima de mim... Foi assim por quase um quilômetro. No tempo que eu era motoqueiro, eu parava, dava uma pedrada no vidro dele e ia embora, e ele nunca ia me encontrar no engarrafamento que estava, mas eu entreguei ele a Deus. Eu senti que ele era um provocador, ele estava procurando fazer uma vítima no trânsito.
Outras situações foram também citadas pelos motoboys como fonte de conflito e risco de aci- dente, como as ultrapassagens, conversões, mudanças de faixa, e paradas, sem a devida sinali- zação.
Há queixas de que os motoristas muitas vezes se deslocam a baixa velocidade pela faixa da esquerda, não permitindo a passagem do motoboy, e estes se vêem forçados a realizar ultra- passagens pela direita, expondo-se desta forma a um risco maior de acidente. Esta situação é percebida por Mário (37 anos), que faz o seguinte comentário:
Uma coisa que causa muito acidente são as pessoas andando a baixa velocidade no lado esquerdo da pista, que é o lado da ultrapassagem. Esse é o maior inimigo do motoboy. O motoboy tem que ser rápido, tem que passar, e aí tem que passar pela direita porque o ir- responsável não sai. E quando você vai ultrapassar pelo lado direito é que ele resolve sair, o que atrapalha tudo e provoca muito acidente.
Situações como as descritas levam os motoboys a avaliarem o comportamento do motorista como de desrespeito total pela categoria. Alguns trabalhadores chegam a afirmar que entre cair em um buraco da via ou atropelar um motoboy, o motorista opta pela segunda alternativa. Como já discutido anteriormente, os trabalhadores reconhecem também que atitudes irrespon- sáveis e imaturas de alguns motoboys contribuem decisivamente para a ocorrência de aciden- tes, além de distorcer a imagem da categoria e fortalecer a discriminação. Os motoboys ainda acrescentam que os colegas mais jovens se expõem demasiadamente:
O comportamento do motociclista contribui muito para os acidentes. Se você observar no índice de mortalidade do motoqueiro, a maioria é tudo novinho, dezoito, dezenove anos. Andam de uma roda, querem sair costurando no trânsito, cortam os outros, começam a quebrar retrovisor de carro... A coisa não é por aí... Acontece de queimar a classe (Valdir, 31 anos).
Atitudes inadequadas dos motoristas e a convicção de que existem motoboys que praticam manobras de risco leva os trabalhadores a afirmarem que os acidentes decorrem da imprudên- cia de ambos, motoristas e motociclistas. Entretanto, esta afirmativa não impede que os traba- lhadores reconheçam que os pedestres que atravessam repentinamente e fora das faixas, e as crianças jogando bola ou empinando arraia ou pipa, causam sérios transtornos à circulação das motos e também contribuem para a ocorrência dos acidentes.