• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 2 OS ACIDENTES DE TRABALHO

2.4 O enfrentamento dos riscos

As atitudes e comportamentos dos trabalhadores, patrões e sociedade, diante dos riscos que permeiam a ocupação, também devem ser considerados na multiplicidade de fatores que con- tribuem para os acidentes dos motoboys. Estudos recentes revelam que a aceitabilidade de risco varia de acordo com características sociais de uma sociedade, e acrescentam que socie- dades afluentes aceitam menos os riscos que sociedades pobres. Conforme estes estudos, a aceitabilidade de riscos está permeada por uma diversidade de fatores, destacando-se os fato- res culturais e o grau de organização dos diferentes grupos sociais (ALMEIDA e BINDER, 2000).

Para Dejours (1992), o risco confirmado pelo acidente e sua imprevisibilidade dá origem a uma ansiedade que geralmente se manifesta sob forma de tensão nervosa, como se observa no depoimento de Renato (26 anos):

Na profissão de motoboy nós corremos riscos constantemente, pois estamos expostos o tempo todo. Isso nos mantém ansiosos o tempo todo, pois qualquer descuido é um aciden- te, um atropelo. Isso faz a gente ficar o tempo todo tenso, ligado. Para sofrer um óbito é daqui para ali, como aconteceu com um rapaz que foi botar gasolina a menos de um qui- lometro de sua casa, a moto derrapou, ele caiu, teve traumatismo craniano e morreu.

O enfrentamento dos riscos se apresenta de forma diferenciada, entretanto, algumas condutas são comumente observadas, como neutralizar o risco, naturalizando-o; neutralizar o risco, destacando o poder da tecnologia de segurança; culpabilizar o indivíduo pelo ato inseguro; neutralizar o medo, a angústia e a ansiedade própria da situação de perigo (SANTOS, 1992). Difundir a idéia de que o risco está presente em qualquer atividade humana, e por ser algo natural pouco ou nada pode ser feito, significa naturalizar o risco. Esta concepção, fortalecida

pela precarização do mercado de trabalho, contribui para que o trabalhador aceite o trabalho sob riscos e desenvolva mecanismos de defesa psíquicos que lhe auxilie no enfrentamento dos mesmos. Neste sentido, o motoboy Mário (37 anos) refere-se ao acidente envolvendo motoci- clista como uma situação absolutamente natural e esperada, ponto de vista compartilhado por muitos destes trabalhadores:

O jogador do nosso time perdeu a perna num acidente de moto. Da nossa diretoria anteri- or todos sofreram acidentes, com exceção de um ou dois. Mas não é só motoboy não, mo- to é constante. É normal o acidente de moto.

Ressalta-se que os motoboys têm clareza em relação aos riscos a que estão expostos, entretan- to, justificam estes riscos como próprios à estrutura de uma ocupação que tem por finalidade a rapidez na prestação dos serviços. Esta percepção leva alguns trabalhadores a compreenderem e até eximirem os patrões da responsabilidade frente à pressão por rapidez, além de ocultar uma ideologia defensiva, que segundo Dejours (1992), é construída pela coletividade para se proteger do sofrimento psíquico que emerge do processo de trabalho, aí se entendendo as condições e principalmente a organização do mesmo. Ao naturalizar o risco – como algo con- tra o qual nada pode ser feito por ser inerente à ocupação – os trabalhadores indiretamente garantem seu lugar no mercado de trabalho. Alguns depoimentos ilustram esta situação:

Eu, por exemplo, trabalho numa pressão muito grande, mas não é a empresa é o código da atividade. Eu trabalho com alimentos, tenho 40 minutos para a entrega, só que nesse in- tervalo eu não tenho só um pedido, tenho 2, 3... Então eu tenho que ser veloz e habilido- so, porque vai entrar a coisa que é mais preciosa que é a minha vida, poupar a minha vida (Norman, 48 anos).

Quando alguém solicita um serviço de motociclista é porque tem pressa, você tem que se virar. Nós temos que ser rápidos, aliás, o serviço de moto é rápido (Telma, 29 anos). Se você tem muita coisa pra fazer, você sai agoniado, então isso contribui muito para o acidente. Você trabalha estressado, cobrado muito, pressionado, porque muitas empresas pressionam mesmo, até mesmo por conta do trabalho que você desenvolve. Em alguns casos, nem é mesmo o cara [o patrão] que quer cobrar, ser chato, mas é porque o trabalho exige que você seja rápido. A moto é isso. Ela surgiu para tentar ser rápida. Para você ser o mais rápido possível (Cley, 31 anos).

Na neutralização do risco com ênfase na tecnologia de segurança, o risco é reconhecido, po- rém o poder que é atribuído aos mecanismos de controle, proteção e prevenção contra este

risco é tão grande, que o mesmo acaba sendo anulado ou eufemizado pelo trabalhador. Nestes casos o trabalhador percebe a tecnologia de segurança como um recurso de salvação. Em con- trapartida, o desconhecimento dos limites do risco e/ou dos métodos de prevenção eficazes, acaba contribuindo para aumentar o medo decorrente daqueles riscos.

Outra forma de enfrentar o risco é culpabilizando o indivíduo pela ocorrência do acidente, como mencionado anteriormente, independente das condições do trabalho serem ou não segu- ras. Entender que os acidentes do trabalho decorrem, sobretudo, de atos inseguros praticados pelos trabalhadores, implica em centrar as ações preventivas no comportamento destes, elimi- nando a investigação das reais causas do acidente e deixando assim intocados os fatores de- terminantes. Tais concepções não só pressupõe que os trabalhadores são capazes de manter elevado grau de vigilância durante toda a jornada de trabalho – o que é incompatível com as características bio-psico-fisiológicas humana – como entende que a integridade física do tra- balhador está na dependência quase exclusiva de seu desempenho na execução da atividade (ALMEIDA e BINDER, 2000). Para Santos (1992), a culpabilização do trabalhador pelo ato inseguro cumpre também um papel ideológico no sentido de “segregar determinados indiví- duos cujo capital sócio-cultural do risco pode torná-los mais susceptíveis aos acidentes...” Na profissão dos motoboys é muito freqüente patrões e o própria sociedade culpabilizarem o trabalhador pelo evento acidentogênico até como uma forma de eximirem-se de responsabili- dades frente ao mesmo. A responsabilização extrema do motoboy pelo acidente, além de pe- nalizar o trabalhador – que é levado a assumir todo o ônus – ainda contribui para a formação de estigmas, daí a rotulação dos motoboys de provocadores de acidentes. Vale ressaltar, que a culpabilização destes trabalhadores também acontece nos episódios de vitimização pelo cri- me, como veremos mais à frente.

A neutralização do medo, da angústia e da ansiedade, inerentes à situação de perigo, segundo Dejours (1992), surge como uma ideologia defensiva contra as condições agressivas vivenci- adas no trabalho, e se manifesta através dos mecanismos de defesa do trabalhador. A negação do medo, comum a esta situação, está bastante evidente na fala de Cley (31 anos), quando se refere ao fato de já haver cochilado diversas vezes ao conduzir sua moto na madrugada, para entrega de jornais:

Já aconteceu de quando eu abri o olho estar no acostamento... Mas caí, ainda não! Ainda não aconteceu nenhum acidente.

Ao dizer ainda não, é como se Cley estivesse negando o medo e aguardando passivamente o acidente acontecer.

Para Dejours (1992, 1994), o efeito dos medos que se originam na organização do trabalho pode ser aumentado ou diminuído a depender da satisfação que o trabalho proporciona. Neste sentido, trabalhar pilotando uma moto é extremamente prazeroso para o motoboy, e ajuda a minimizar os efeitos negativos advindos da precariedade das condições de trabalho. Nos de- poimentos que se seguem, este fato fica evidenciado:

Eu sempre fui apaixonado por moto, sempre me identifiquei muito com ela. Eu gosto do que faço, faço por amor, por prazer (Renato, 26 anos).

Se o sujeito gosta da moto, ele já optou pela independência dele. Só em ter uma moto já está dizendo: eu sou independente. Eu vejo assim (Norman, 48 anos).

A gente se habitua a esse trabalho. A gente tem liberdade de estar andando na rua, vendo gente, tendo contato com as pessoas. Isso é muito melhor do que você trabalhar num es- critório, num lugar fechado, com patrão por perto (Renato, 26 anos).

Eu gosto de moto, eu acho que moto é um símbolo de liberdade, é muito gostoso (Mário, 37 anos).