2 COMPREENDENDO A ADOLESCÊNCIA, O ADOLESCENTE NA
2.8 Ambivalência dos pais
Uma verdade é que a adolescência é difícil para filhos e para aqueles que com eles convivem. Os pais passam por um processo de desprendimento de um filho criança para uma relação com um filho que está crescendo, em verdade, um adulto que se constrói em meio à profunda angústia. Agora esses pais já não são os heróis da criança, mas têm que se adaptar a um novo lugar, qual seja, de humanos, demasiadamente humanos, com fraquezas, inseguranças e incertezas.
Esses pais vão começar uma relação cheia de ambivalência e, muitas vezes, de críticas. Veem-se diante de suas angústias também existenciais, causadas por fatores como envelhecimento, solidão, o paradoxo vida-morte, pois os pais estão também vivendo seus conflitos e, de certa forma, revisitando suas questões parentais, que envolvem a sua própria adolescência e suas resoluções. O filho aqui é a testemunha tanto do fracasso, quanto da realização. Na verdade, como aponta Aberastury (1983), o verdadeiro drama edípico se instala na adolescência. Com as mudanças corporais, o adolescente se define com o papel de procriador, e o filho agora se torna duplamente rival, se torna um competidor real e sério na situação incestuosa, que pode assumir a paternidade. Eis o que esse autor considera o verdadeiro drama edípico.
Estamos aqui também falando da ambivalência e a resistência dos pais e da sociedade em aceitar o processo de crescimento do adolescente. Esse processo leva o adolescente a abandonar o corpo infantil, construir uma identidade adulta e a se prender em uma ideologia para enfrentar o mundo. É sim difícil para pais e filhos, mas não devemos deixar de lado sua criatividade e felicidade, que também são características da adolescência (ABERASTURY, 1983).
Os conflitos vivenciados por pais e os seus filhos adolescentes decorrem muitas vezes dessa dificuldade de deixar que o adolescente elabore por ele mesmo os lutos necessários, por dificuldades suas de lidar como crescimento do mesmo. É comum os pais terem dificuldades de aceitar o crescimento do filho, ou seja, lidar com desprendimentos nos dois processos, dos filhos e dos pais. Ou os pais reprimem toda tentativa de autonomia, como escolher o que comer, o que vestir, o melhor para estudar, ou dão ao adolescente uma imensa liberdade que o adolescente vive como abandono. São as dualidades liberdade-repressão; dependência/independência, aceita o crescimento/nega o crescimento.
2.8.1 O desenvolvimento da inteligência na adolescência
O rápido crescimento do corpo com suas alterações, como a maturação sexual, não é o único fenômeno que marca a adolescência, pois a atividade mental também passa por uma significativa reestruturação. Por exemplo, o adolescente já consegue compreender noções complexas como correlação, probabilidade, proporção entre outros conceitos, ele é capaz de refletir sobre conceitos e pensar em seus pensamentos, esse também é um fenômeno novo para ele.
Na adolescência, então, as transformações cognitivas fazem parte do centro evolutivo da experiência da vida. O pensamento é parte fundamental da vida subjetiva do sujeito. A adolescência é o momento em que aumenta a capacidade de estabelecer relações mentais, traz consigo uma profunda transformação do aparelho mental, que vai modificando o conjunto de experiências subjetivas, trazendo novos horizontes ao adolescente. Ele vive novos aspectos da vida influenciados pelo desenvolvimento cognitivo, por exemplo: atividade afetiva, personalidade social, pensamento lógico, autoimagem, entre outros (CLOUTIER; DRAPEAU, 2012).
Considerada a importância da dimensão cognitiva no desenvolvimento psíquico dos indivíduos, vale a pena entender como se dá sua psicogênese em sua relação com os estímulos do meio social.
2.8.2 O desenvolvimento cognitivo no olhar de Piaget
Para Piaget (1896-1980), a inteligência humana diz respeito a uma forma de adaptação, sendo uma ampliação dos mecanismos de adaptação biológicos. A função da inteligência é organizar a realidade em estruturas que culminam no raciocínio formal do adolescente e do adulto. No que tange ao desenvolvimento da inteligência, Piaget continua a principal referência na contemporaneidade. Piaget dividiu o desenvolvimento em períodos/estágios, cada estágio se caracteriza por uma organização própria, numa estrutura funcional específica, cada novo estágio vai dando origem a uma reorganização das estruturas anteriores da mente, cada um com suas características cognitivas. Os estágios são os seguintes:
a) inteligência sensório-motora: de 0 a 2 anos;
b) inteligência simbólica e intuitiva (Período Pré-operatório): de 2 a 7 anos; c) inteligência operatório-concreta: de 7 a 12 anos;
d) inteligência operatório formal: de 12 anos até a idade adulta.
Figura 1 – Estágios do desenvolvimento
Fonte: Piaget (1967)
Compreendidos esses estágios, vamos nos deter na inteligência operatório formal, haja vista o foco de nosso trabalho. A adolescência traz consigo uma reorganização do aparelho conceitual. Por volta dos 12 anos, o pensamento hipotético-dedutivo vem à tona, o que permite que o adolescente elabore hipóteses diante das situações que lhe aparecem, e teste de modo sistemático a autenticidade delas, para, no final, então tomar uma decisão. O pensamento formal permite estabelecer relações entre o real e o possível (CLOUTIER; DRAPEAU, 2012). O adolescente traz em si a capacidade de abandonar o concreto e de ter acesso ao abstrato, a hipótese e a dedução, então ele pode planejar atividades, estabelecer estratégias, ver as chances de dar certo e errado, para tirar suas conclusões.
O pensamento formal é uma das aquisições mais importantes da adolescência, ela dá acesso a uma ampliação do universo mental. Vejamos então algumas características do pensamento formal:
a) ele é hipotético dedutivo;
b) ele é capaz de funcionar em um nível abstrato, portanto ele é independente do conteúdo;
c) permite resolver problemas multidimensionais (por exemplo, tempo, distância percorrida e aceleração);
d) também é possível a operação a partir de operações (execução de operações de segundo grau).
Quanto a sua estrutura, o pensamento formal, no adolescente, eleva-se a partir de duas estruturas de conjunto 1) sistema combinatório ou lógica de preposições, por exemplo ele consegue trabalhar com combinatórias. 2) o grupo INRC que acrescenta dimensões que tornam o pensamento abstrato mais versátil e eficaz para tratar informações e resolver problemas, corresponde as esferas de organização da mente: identidade, negação, inversão, reciprocidade, correlatividade e reversibilidade (CLOUTIER; DRAPEAU, 2012).
2.8.3 A metacognição
Estuda-se também a evolução do raciocínio adolescente relacionado a objetos de seu universo pessoal e social, isto é, a capacidade do adolescente de “pensar em seus pensamentos”, a isso chamamos metacognição. Essas tendências são beneficiadas pela tendência a introspecção da adolescência, uma grande parte dos adolescentes sente necessidade de introspecção que são reflexões sobre suas próprias experiências, sobre sua intimidade, seus sentimentos\emoções, sendo assim, eles ficam refletindo, tentando compreender o seu mundo interno e o mundo que os cerca, as relações sociais (CLOUTIER; DRAPEAU, 2012). São as chamadas experiências metacognitivas:
As experiências meta cognitivas prendem-se com o foro afetivo e consistem em impressões ou percepções conscientes que podem ocorrer antes, durante ou após a realização de uma tarefa. Geralmente, relacionam-se com a percepção do grau de sucesso que se está a ter e ocorrem em situações que estimulam o pensar cuidadoso e altamente consciente, fornecendo oportunidades para pensamentos e sentimentos acerca do próprio pensamento. (RIBEIRO, 2003, p. 111).
Hoje se reconhece a importância da metacognição no processo de aprendizagem. O adolescente consegue pensar de forma abstrata, consegue não somente tirar regras, mas, a partir de suas experiências e observações, também refletir sobre suas próprias regras. Ele desenvolve uma reflexão sobre a sua mente, uma consciência de sua própria atividade mental.
Essa consciência tem várias repercussões, entre elas, compreensão dos outros, comunicação, atenção, memória.
Dessa forma, podemos pensar em como a escola pode auxiliar no desenvolvimento do adolescente e a estimular a metacognição. Cabe ao professor, nesse estágio do desenvolvimento, trazer para sala de aula as situações abertas de investigação, as resoluções de problemas complexos, sendo o adolescente chamado a escolher entre várias alternativas e a propiciar uma reflexão sobre as consequências dessas escolhas. Dessa forma, a eficácia da aprendizagem depende também da aquisição de estratégias cognitivas e metacognitivas, que possam possibilitar a esse estudante planejar e monitorar o seu desempenho escolar (RIBEIRO, 2003). Percebe-se que, atualmente, a reflexão sobre esse assunto é um desafio constante. Isto porque o modo como as escolas se organizam chega a ser desumanizante, não havendo espaço para sensibilidade, diálogo. Os jovens são, cotidianamente, tensionados a buscar resultados cada vez melhores e, dessa forma, vão sendo violentados pedagógica e psicologicamente.