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ANÁLISE DE QUESTÕES DE TRADUÇÃO

2 QUESTÕES SINTÁTICAS

2.1 Ambuiguidade estrutural

De acordo com Beaugrande e Dressler (1981), existem diversos fatores que permitem que um conjunto de frases seja considerado um texto. Entre eles, citamos, a título de exemplo, a coesão, a coerência, a intencionalidade e a informatividade. São esses mesmos aspetos que contribuem para a sua clareza e, portanto, para o seu sucesso. Nos textos de especialidade, particularmente pelo tipo de linguagem que os caracteriza, o qual definimos previamente na secção 2 do capítulo I deste trabalho, estes aspetos parecem pesar ainda mais pelo facto de a objetividade desempenhar um grande papel na transmissão da informação que se pretende veicular. Porém, existem aspetos, como a vagueza, sobre a qual já nos debruçámos no capítulo anterior deste trabalho, ou a ambiguidade, à qual dedicaremos a presente secção, que constituem uma ameaça à eficácia comunicativa do texto.

A ambiguidade consiste na coexistência de pelo menos duas leituras possíveis para um mesmo segmento textual e pode ser desencadeada por diversos fatores. Dependendo da sua origem, podemos classificá-la como estrutural ou sintática, lexical, semântica, referencial e de escopo. Para os propósitos deste trabalho, iremos centrar-nos apenas na primeira, a ambiguidade estrutural, a qual decorre do facto de à mesma combinação de palavras poderem ser atribuídas diferentes estruturas sintáticas e, consequentemente, diferentes leituras possíveis, o que pode comprometer a correta interpretação do texto. Não serão poucas as vezes em que a ambiguidade é apenas potencial, dado que, dentro de determinados contextos em particular, sejam eles discursivos ou situacionais, é inequívoca a forma como o escritor ou falante pretende que o seu interlocutor interprete o texto. Porém, para evitar possíveis dúvidas, pode recorrer-se a estratégias de desambiguação. Alterar a ordem das palavras, substituir elementos por equivalentes e optar por uma construção alternativa são algumas dessas mesmas estratégias.

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Os excertos em seguida apresentados são exemplos de ambiguidades estruturais, ou seja, de combinações de palavras às quais é possível atribuir mais do que uma estrutura sintática.

Exemplo Texto Texto de partida Texto de chegada

(69) Texto 5 in pursuance of the relevant applicable international, regional and bilateral treaties on extradition

and mutual legal assistance in criminal matters concerning the

offences established

nos termos dos tratados internacionais,

regionais e bilaterais pertinentes aplicá- veis no domínio da extradição e do auxílio judiciário mútuo em matéria penal relativos às infrações estabelecidas

Na língua inglesa, como voltaremos a ver mais adiante na secção “Outras questões”, na qual estão incluídas questões sintáticas de diversas naturezas, os adjetivos não possuem qualquer tipo de flexão de número nem marcação de género, o que, muitas vezes, pode levantar as suas dificuldades de interpretação. No exemplo (69), deparamo-nos com uma construção na qual, na verdade, a ausência de marcas de número cria questões de ambiguidade, o que dificulta o processo interpretativo para todo e qualquer leitor que não esteja informado acerca da matéria em questão, tenha ele inglês como língua materna ou seja ele “apenas” um falante proficiente dessa mesma língua, levantando, consequentemente, problemas de tradução.

No que diz respeito à unidade lexical concerning, é legítimo levantar a questão: será que modifica apenas o segundo constituinte da coordenação principal da frase ou ambos os constituintes que fazem parte dessa mesma coordenação? A resposta a esta questão está longe de ser intuitiva. Caso a primeira opção fosse a correta, “relativo” seria a tradução adequada. Ao traduzir-se o item lexical do modo como surge em (69), força-se, então, a interpretação pretendida, isto é, a de que o mesmo modifica toda a expressão destacada que o antecede.

Em casos como este, o tradutor tem de ser capaz de realizar uma análise contextual e/ou procurar informar-se sobre o assunto em fontes externas ao texto que tem em mãos, de forma a não produzir uma tradução que induza o leitor em erro. Quando aplicável, se houver essa necessidade, deve consultar um superior para saber como lidar com a questão da melhor maneira.

Por fim, note-se que, ainda que o texto nunca fosse destinado à tradução e que estes problemas nunca fossem colocados sob esse prisma, para o leitor do TP, estas questões continuam a ser pertinentes. A sua única solução é, de facto, procurar esclarecer o que o autor quer transmitir, informando-se sobre o tema ou entrando em contacto com quem seja experiente na matéria. A vantagem dos leitores de traduções feitas para línguas nas quais os adjetivos possuem marcas de número é significativa, visto que esse trabalho já terá, à partida, sido realizado pelo tradutor, o que não implica que o leitor dessas línguas não faça o seu trabalho de pesquisa, caso deseje aprender mais acerca do tema.

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Exemplo Texto Texto de partida Texto de chegada

(70) Texto 5 in pursuance of relevant applicable international and regional instruments and arrangements

agreed

nos termos dos instrumentos

internacionais e regionais pertinentes aplicáveis e dos acordos celebrados

No caso do exemplo (70), há dois problemas distintos relativos a questões de ambiguidade. Por um lado, temos um problema que é levantado pela adjetivação pré-nominal, posição comum dos adjetivos na língua inglesa. Quando existe adjetivação, seja esta pré ou pós-nominal, se o adjetivo é colocado antes ou depois de toda a estrutura nominal coordenada, quando os nomes coordenados copulativamente pertencem ao mesmo género, ocorrendo o adjetivo nesse mesmo género (“A Rita tem pequenas malas e carteiras”; “O Pedro viajou em carros e barcos luxuosos”), ou quando pertencem a géneros diferentes, o que resulta, normalmente, numa forma masculina do adjetivo (“Aqui há bonitos jardins e casas”; "Aqui há casas e jardins bonitos") e o adjetivo ocorre adjacente ao nome masculino2, a tarefa de compreensão do texto e de análise sintática é dificultada, uma vez que não é fácil entender se apenas um dos nomes é modificado pelo adjetivo que o antecede ou precede, ou se é modificada toda a coordenação. Neste excerto, a situação que se coloca é o facto de não se perceber ao certo se a concatenação de adjetivos relevant applicable international and regional se aplica somente a instruments ou também a

arrangements, sendo possível obter, além da tradução oficial, que dissipa esta ambiguidade, a seguinte

leitura:

(70a) “nos termos dos instrumentos e acordos internacionais e regionais pertinentes aplicáveis

celebrados”.

No entanto, como já mencionado, foi privilegiada uma leitura na tradução, quando se optou por colocar a concatenação de adjetivos em posição posterior relativamente ao nome que modificava e por repetir parte da fraseologia que já tinha sido utilizada no início do excerto (“nos termos de”), o que indica claramente ao leitor que o sintagma que irá ler em seguida está coordenado com toda a expressão anterior.

Por outro lado, existe a questão levantada pela forma participial do verbo “celebrar”, colocado depois do item lexical arrangements, que, quer em (70), quer na alternativa apresentada, (70a), também levanta um problema de interpretação. Poderia atribuir-se esta incerteza ao facto de, em inglês, as formas participiais dos verbos não possuírem marcas de género nem de número, que, potencialmente, determinariam qual o alcance desta expressão. Contudo, neste caso, ainda que as possuíssem, seria indiferente, uma vez que ambos os nomes com que esta forma iria concordar são do género masculino, o que, como já vimos, resultaria sempre num plural masculino, não ajudando na matéria. Deste modo,

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podemos interpretar a sequência segundo a leitura presente em (70), que, na verdade, deixa a interpretação em aberto, ou segundo (70b), a qual, descobrimos a-posteriori, é, de facto, a leitura que se pretende:

(70b) “nos termos dos acordos celebrados e dos instrumentos internacionais e regionais

pertinentes aplicáveis”.

Desfazer uma ambiguidade nem sempre é uma tarefa fácil. No entanto, é importante destacar que, nestes casos, o contexto pode nem chegar a permitir tantas opções interpretativas e, ainda que o permita, o conhecimento da área de especialidade poderá ser uma ferramenta fundamental para chegar ao real significado do texto. Neste caso em particular, nem a restante frase nem mesmo o parágrafo continham quaisquer elementos informativos que, por si só, ajudassem a iluminar um tradutor principiante sobre as questões que se levantaram, pelo que, apenas através do conhecimento e da experiência da Dra. Sofia Favila-Vieira relativamente à realidade da cooperação internacional, entendemos, após esclarecimentos, como se deveria solucionar corretamente qualquer uma das questões que se levantaram.

Em seguida, iremos debruçar-nos brevemente sobre o tema da concordância que nos parece colocar questões interessantes.