ANÁLISE DE QUESTÕES DE TRADUÇÃO
2 QUESTÕES SINTÁTICAS
2.2 Questões de concordância dentro de expressões que envolvem coordenação
A concordância pode ser definida, de uma forma simplificada, como o processo linguístico através do qual certos constituintes sintáticos partilham valores de género, pessoa e/ou número uns com os outros. Em português, existem várias construções em que se verifica obrigatoriamente uma relação de concordância. Por exemplo:
➢ Concordância do adjetivo atributivo com o nome (“Comprei fruta fresca”); ➢ Concordância do verbo com o sujeito (“Eles saíram agora”);
➢ Concordância do adjetivo predicativo com o sujeito (“Ela continua cansada”);
➢ Concordância do particípio passado com o sujeito nas frases passivas (“O ladrão foi encontrado ontem”).
Observemos os seguintes exemplos, que ilustram a concordância entre adjetivos atributivos e os nomes que modificam:
Exemplo Texto Texto de partida Texto de chegada
(71) Texto 3 for the effective and sustained suppression of forced or compulsory
labour
destinados a suprimir de forma efetiva e
duradoura o trabalho forçado ou
81
Exemplo Texto Texto de partida Texto de chegada
(72) Texto 3 The definition of forced or compulsory labour contained in the
Convention is reaffirmed
É reafirmada a definição de trabalho
forçado ou obrigatório que consta na
Convenção
Exemplo Texto Texto de partida Texto de chegada
(73) Texto 5 where the removal is performed without the free, informed and specific consent of the living or
deceased donor
A extração for realizada sem o
consentimento livre, informado e específico do dador vivo ou morto
No caso destes exemplos, embora estejamos perante coordenações de adjetivos, não há espaço para quaisquer dúvidas sobre a forma como a concordância se deve desencadear: os adjetivos coordenados concordam em género e número com o nome que modificam (*”consentimento livres, informadas e específicas”).
Contudo, em determinadas situações, devido a diversos fatores (como, por exemplo, a presença de outros constituintes sintáticos, como advérbios, que separem os elementos que têm de concordar entre si, ambiguidades, coordenação de elementos de diferentes géneros e/ou números, etc.), pode tornar-se complicado entender que constituintes concordam entre si ou qual é a forma correta que deve resultar dessa concordância.
Vejamos o seguinte excerto, que ilustra uma questão de concordância verbo-sujeito:
Exemplo Texto Texto de partida Texto de chegada
(74) Texto 12 Any State or the European Union may
specify the territory or territories to which this Protocol shall apply
Qualquer Estado ou a União Europeia
podem (…) indicar o ou os territórios aos
quais se aplica o presente Protocolo
Nesta situação, foi um tanto ou quanto confuso perceber qual a flexão correta do verbo, uma vez que estamos perante um sujeito composto, coordenado pela conjunção disjuntiva “ou”.
Sabemos que, na língua portuguesa, a coordenação copulativa de dois constituintes no singular gera concordância verbal no plural (“O apartamento e vivenda foram vendidos”), assim como a de dois elementos no plural (“Os edifícios e os carros contrastam com a natureza”) e a de um elemento no plural e outro no singular (“Os quartos e a sala são espaçosos”). Porém, em (74), o problema que se levantou foi perceber como se desencadeia este tipo de concordância quando se está perante um sujeito composto coordenado pela conjunção disjuntiva “ou”. Em inglês, este problema não se coloca, dado que o verbo
82
auxiliar may não declina conforme a pessoa ou o número. O mesmo não acontece com o verbo “poder”, em português.
Pensávamos, até então, que a coordenação de constituintes através da conjunção “ou” desencadeava sempre concordância verbal no plural. No entanto, após realizarmos alguma pesquisa, apercebemo-nos de que esta conjunção pode ter valor inclusivo (em que um elemento não exclui o outro) ou exclusivo/disjuntivo (em que um elemento necessariamente exclui o outro) e, neste último caso, o verbo pode estar no singular, segundo Matos (2003).
Embora a distinção entre os dois valores de “ou” nem sempre seja evidente, no exemplo (74) entende-se que a concordância deve ser feita no plural, pelo facto de ser difícil interpretar a conjunção disjuntiva com outro valor que não o inclusivo: entende-se que tanto os Estados como a União Europeia gozam do direito descrito. Uma leitura em que apenas um dos dois constituintes tem poder para indicar os territórios aos quais se aplica o Protocolo (valor exclusivo) fugiria à ideia que se pretendia veicular.
Passemos a outro exemplo:
Exemplo Texto Texto de partida Texto de chegada
(75) Texto 5 For the purposes of this Convention, the term:
– “trafficking in human organs” shall mean (…);
– “human organ” shall mean (…).
Para efeitos da presente Convenção, entende-se por:
– “Tráfico de órgãos humanos” (…); – “Órgão humano” (…).
Este excerto foi incluído neste trabalho devido a uma dúvida que se levantou no decorrer do processo de tradução.
Como foi referido anteriormente, a coordenação copulativa produz pluralidade e esta regra é transversal às línguas portuguesa e inglesa (The kitten and the dog run freely outside; “O gatinho e o cão correm livremente lá fora” / *The kitten and the dog runs freely outside; *“O gatinho e o cão corre livremente lá fora”). Com base nesta premissa, numa primeira análise, parece haver uma incorreção no TP: onde lemos term, deveríamos ler terms. No entanto, cada alínea pertence a um fragmento textual diferente, isto é, cada uma é tomada como uma possível continuação da frase iniciada antes da enumeração: For the
purpose of this Convention, the term “trafficking in human organs” shall mean (…) e For the purpose of this Convention, the term “human organ” shall mean (…). Deste modo, se a unidade lexical em questão se
encontrasse no plural, a coesão frásica seria afetada, uma vez que os elementos não ocorrem no interior da mesma frase, numa estrutura de coordenação. Assim, aquilo que, inicialmente, parecia ser uma gralha, observando a construção atentamente, não é nada mais do que um mecanismo de asseguração da coesão frásica, dada a preferência de organização textual do autor.
83
No TC, esta situação foi contornada pela forma como se escolheu traduzir o excerto que antecede as alíneas, como se pode ver em (75).
Esta secção inclui questões que, ainda que pareçam simples, constituíram alguns problemas de tradução e levaram a uma reflexão sobre o papel do tradutor, quando se depara com dúvidas que parecem colocar em causa certos conhecimentos que tem e até a sua ética de trabalho, especialmente em textos desta índole. Reparar na potencialidade que há, numa frase, de gerar incompreensão ou num erro que a mesma contém e ter capacidade de solucionar essas situações são habilidades que levam tempo a desenvolver, mas que é essencial que um tradutor possua.