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AMOR, METAMORFOSE E MORTE: O PERCURSO DO MISTÉRIO EM “LUA CRESCENTE EM AMSTERDÔ

O conto “Lua crescente em Amsterdã”, tem como protagonista um jovem casal que viaja pelo exterior. Chegando à cidade holandesa, os jovens enfrentam adversidades no seu relacionamento juntamente com dificuldades financeiras, que resultam em uma discussão que é o fio condutor da narrativa. Sem ter o que comer nem onde dormir, eles se sentam em um banco de uma praça e observam o que os rodeia. Famintos, notam uma garota holandesa que caminha com um pedaço de bolo na mão e, diante do desespero causado pela fome, a jovem lhe suplica por alimento, mesmo sabendo que a garota não entenderia seu idioma. Nesse cenário, os fatos se desenrolam à medida que o diálogo expõe os verdadeiros sentimentos entre o casal.

— Vai me dar um pedaço desse bolo? – pediu a jovem estendendo a mão. — Me dá um pedaço, hem, menininha? — Ela não entende – ele disse.

A jovem levou a mão até a boca.

— Comer, comer! Estou com fome – insistiu na mímica quase acelerou, exasperada. — Quero comer!

— Aqui é a Holanda, querida. Ninguém entende. (TELLES, 2011, p. 46).

Este trecho da narrativa ilustra o imenso desconforto que o casal vive, a angústia, porém, manifesta-se de forma mais evidente em Ana, a moça que pede por comida e deseja, desesperadamente, voltar para casa. A restrição financeira e as dissemelhanças entre o casal somam-se à impossibilidade de comunicação, por não possuírem conhecimentos da língua local.

Em torno da fábula apresentada se erige predominantemente uma narração heterodiegética, segundo a terminologia cunhada por Gèrard Genette (1995, p. 244), procedimento em que o narrador relata os fatos em terceira pessoa, fora dos acontecimentos. A eleição do discurso direto credita o efeito de imparcialidade do narrador, de confiabilidade do relato, dados que serão desconstruídos no final da narrativa, como se verá neste estudo.

O início da narrativa, apresenta uma atmosfera de magia que permeia todo o conto:

O jovem casal parou diante do jardim e ali ficou, sem palavra ou gesto, apenas olhando. A noite cálida, sem vento. Uma menina loura surgiu na alameda de areia branco-azulada e veio correndo.

[...]

— Que lua magrinha. É lua minguante? [...]

— Acho que é crescente, tem o formato de um C. Vem, querida, ali tem um banco. (TELLES, 2011, p. 46, 47). O espaço não ganha variedade ao longo da narrativa, ainda que o título remeta a uma ampla localização geográfica: Amsterdã. Há nele, porém, elementos simbólicos que muito contribuem para a construção do mistério, pois permitem ao leitor múltiplas interpretações, devido à ampla carga semântica que tais dados contêm.

O jardim, espaço selecionado como cenário principal desse conto agrega uma grande carga simbólica que auxilia na criação do mistério na narrativa. Esta paisagem é recorrente nos contos de Lygia Fagundes Telles, como pudemos observar no conto Natal na barca, ambiente que se faz presente no sonho da mãe. No conto em exame, o jardim não é descrito com cores ou com maior detalhamento, porém, há algumas especificações: trata-se de um “pequeno jardim redondo”. De acordo com Chevalier e Gheerbrant, o jardim:

é um símbolo do Paraíso terrestre. [...] Já foi dito apropriadamente, dos jardins da Roma antiga que eram lembranças de um paraíso perdido. [...] O jardim circular, como o Éden, que cerca o Ming-t`ang, é bem de natureza paradisíaca. [...] Em nível mais elevado, o jardim é um símbolo de cultura por oposição à natureza selvagem, de reflexão por oposição à espontaneidade, da ordem por oposição à desordem, da consciência por oposição ao inconsciente. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2009, p. 512, 513)

De forma semelhante, Vera Maria Tietzmann Silva (1985, p. 44) descreve a simbologia do jardim como um local de regresso, de retorno à tranquilidade e também como lugar de revelação. Representa também “o jardim estranho e conhecido, por entre cuja folhagem se esconde o caçador.

Retomando a última citação do conto, pode-se dizer que o conteúdo semântico do vocábulo “jardim” dispõe o leitor para uma situação de serenidade, de felicidade. A par desse possível sentido da palavra, a descrição da reação das personagens diante dessa paisagem trabalha, a princípio, na composição de uma ambiência que desperta o êxtase. Forma-se nesse instante a isotopia do encantamento que se completa com a presença da lua – que, em seu devir, gera o diálogo que intenta fixá-la, libertá-la de sua transitoriedade – e com o tratamento carinhoso do jovem para com a parceira. No entanto, neste espaço atuará também o sentido simbólico do “caçador”, daquele que presidirá à busca identitária, como se verá, adiante, no processo de autoconsciência, especialmente de Ana.

A narrativa tem seu curso com o comentário do rapaz acerca de uma estatueta:

― Um abraço tão apertado ― ele disse. ― Acho que este é o jardim do amor. Tinha lá em casa uma estatueta com um anjo nu fervendo de desejo, apesar do mármore, todo inclinado para a amada seminua, chegava a enlaçá-la. Mas as bocas a um milímetro do beijo, um pouco mais que ele abaixasse... A aflição que me davam aquelas bocas entreabertas, sem poder se juntar. Sem poder se juntar. (TELLES, 2011, p. 47)

O modo como o jovem descreve a estatueta faz o leitor associá-la à obra do escultor Antonio Canovas (1757-1822), denominada Psiquê revivida pelo

beijo de Eros (1787-1793). Esta escultura faz parte de um grupo temático de

obras que simboliza o mito de Eros e Psiquê e é muito visitado no Museu do Louvre, em Paris. A imagem captura o momento em que Eros revive Psiquê com um beijo após a jovem ter absorvido a poção mágica que a lançara num sono eterno. Tais semelhanças nos conduzem à inevitável relação entre a ficção de Telles e o mito já mencionado que originou a obra de Canova.

Fonte: Museu do Louvre. CANOVAS, Antonio. Psiquê revivida pelo beijo de Eros.9

(1787-1793).

Junito de Souza Brandão descreve e comenta o mito que trata do amor entre Eros, filho de Afrodite, e Psiquê, mortal de beleza inigualável. A cena que a escultura de Canova representa é descrita por Brandão como o desfecho de uma série de desventuras e desencontros vividos pelo casal e que por fim culmina em uma reconciliação:

Eros, já curado do ferimento produzido pelo óleo fervente, morto de saudades da esposa, adivinhando o que se passava, escapou pela janela do quarto, que lhe servia de cárcere e, num voo rápido e nervoso, aproximou-se de Psiquê. Recolocou cuidadosamente na caixinha o sono letárgico e despertou sua Bela Adormecida com o leve toque de uma de suas flechas. ( BRANDÃO, 1987, p. 219)

Na referência à imagem que ilustra o mito, pode-se estabelecer um trabalho de intertextualidade entre o relacionamento do casal apresentado no conto de Telles e o conhecido casal mítico. Ambos enfrentam, em dado momento, o fim do amor.

No texto mitológico, Eros e Psiquê possuem um relacionamento intenso e recíproco, embora a moça desconheça a face de seu amado. Por ser proibida

9CANOVAS, Antonio. Psiquê revivida pelo beijo de Eros. 1787-1793. Mármore – 1.55 m x 1.68 m x 1.01 m. Museu do Louvre.

de desvendar o rosto de Eros, a jovem deixa-se influenciar por suas invejosas irmãs que alegam ser seu marido uma serpente. Tomada pela curiosidade, Psiquê decide desvendar o mistério:

Eros a seu lado dormia tranquilamente. Como fora de si, a jovem esposa reuniu todas as suas forças: numa das mãos o candeeiro, na outra o punhal. Muito de leve aproximou a luz do rosto do marido. Estava revelado o grande segredo: viu a mais delicada, a mais bela de todas as feras. Eros, o deus do amor, ali estava diante de seus olhos. A jovem empalidece, treme, cai de joelhos. Olhando-o, contempla-o embevecida e "especulando-o", Psiqué, como Narciso, não mais pôde tirar os olhos dele. [...] Agora, mais que nunca, sua paixão seria eterna. Inflamada de amor, inclina-se sobre ele e começa a beijá-lo como louca. Esquecida do candeeiro, deixa-o curvar-se em demasia e uma gota de óleo fervente cai no ombro do deus adormecido. Eros desperta num sobressalto e, ao ver desvendado seu segredo, levantou voo no mesmo instante; sem dizer uma só palavra, afastou-se rapidamente da esposa. Foi então que, descendo das alturas celestiais e pousando num "cipreste", Eros falou à sua amada: [...] teu castigo será minha ausência. (BRANDÃO, 1987, p. 213, 214)

O fim do relacionamento entre Eros e Psiquê apresenta como causa a quebra da condição imposta por ele para que o amor entre o casal fosse possível, já que a missão inicial do deus era cumprir as ordens de sua mãe, Afrodite, que, por inveja, desejava que seu filho matasse a bela moça. No entanto, Eros transgride essas ordens ao se apaixonar por Psiquê e viver um amor às ocultas dos olhos maternos. Seu romance com a mais bela das mortais torna-se seu paraíso. Psiquê, contudo, não se contenta com o amor clandestino e misterioso e anseia por desvendar o rosto de Eros.

Tal ação tem origem no significado de seu nome. De acordo com Brandão, “Psiquê é igualmente a alma personificada. Em grego (psykhé), do v.

(psýkhein), "soprar, respirar", significa tanto "sopro" quanto "princípio vital".

(1987, p. 209). Trazer à luz o que está encoberto é próprio da essência psíquica de Psiquê, a consciência. Desta feita, viver o amor na escuridão não a satisfaz.

Examinando o gesto de Psiquê valer-se do candeeiro para conhecer Eros, pode-se dizer que esse instrumento quebra o tabu do mistério, da invisibilidade de seu amado. Neste momento, Psiquê passa a amar Eros não por seus apelos carnais, mas pela consciência de quem ele é. A luz traz à tona

os sentimentos do amor verdadeiro, os do conhecimento. Sua explosão de amor, expressa pelos beijos é interceptada pela gota de óleo fervente que fere o ombro de Eros e desperta nele um profundo descontentamento. O óleo que o fere é originado da luz que o iluminou, não há mais, portanto, o que esconder, o amor entre o casal agora é consciente, o que acarreta dor física e emocional no jovem deus. O afastamento de Eros é fruto de uma consciência dos atos de Psiquê.

De forma semelhante, a presença da luz também comparece em “Lua crescente em Amsterdã” como símbolo do final de relacionamento do casal. Os jovens percebem que o amor chegou ao fim e agora só restam as lembranças e ressentimentos:

Ele avançou até o meio da alameda e expôs a cara que se banhou na luz do céu estrelado.

[...]

― Não me chame mais de querida. ― Está bem, não chamo.

― Não somos mais queridos, não somos mais nada. (TELLES, 2011, p. 47)

Antes do exame desta citação, é necessário recuperar as reflexões dispostas anteriormente sobre o significado de jardim como símbolo de tranquilidade, bem como toda a ambientação inicial que moldura um cenário paradisíaco. O pedido intempestivo da jovem para que o rapaz não a chame mais de “querida” rompe com a ideia de harmonia do quadro amoroso ali instalado e introduz a primeira fissura que torna extemporâneo o tratamento afetivo. Por extensão, todo o desenho previamente proposto de vivência paradisíaca, tais quais réplicas de Adão e Eva no paraíso, derrui-se.

Neste momento da narrativa, o rompimento do afeto instaura melhor analogia com a ideia de paraíso perdido, uma vez que o amor do casal não mais existe e resta apenas, no discurso amoroso, a mera lembrança de sentimentos passados, que insistem em permanecer na retórica impregnada do automatismo do tratamento cotidiano.

Os motivos pelos quais o amor do casal chega ao fim não é explicitado, mas é possível estabelecer um cotejo entre a função da luz no mito de Eros e

Psiquê com a que ela exerce no diálogo da citação que se segue. A luz que faz surgir um amor mais consistente em Psiquê, gera, em Eros, a dor da traição da promessa que lhe fora feita pela amada. No casal mítico, ao desvelamento da verdade sucede a separação; para o casal de Telles, a mesma luz que traz reflexão, ressentimento, traz também a consciência de que o amor chegou ao fim.

No conto da escritora, a consciência parte de Ana, que declara inicialmente sua percepção de que o amor entre ela e o rapaz se acabou. Embora o jovem pense de forma semelhante, a confirmação só é dada quando insistentemente é pedida pela moça.

― Você disse que seria a menina mais feliz do mundo quando pisasse comigo em Amsterdã.

― Tenho ódio de Amsterdã. Eu era tão perfumada, tão limpa. Me sujei com você.

― Nos sujamos quando acabou o amor. Agora vem, vamos dormir naquele banco. Vem, Ana.

Ela puxou-lhe a barba.

― Quando foi que fiquei assim tão imunda, fala! ― Mas eu já disse, quando deixou de me amar.

― Mas você também ― ela soqueou-lhe fracamente o peito. ― Nega que você também...

― Sim, nós dois. A queda dos anjos, não tem um livro? Ah, que diferença faz. Vem. (TELLES, 2011, p. 49)

O diálogo apresentado revela a consciência de Ana marcada pelo ressentimento. Ao constatar o fim do relacionamento, a moça verifica a mudança do estado positivo em que se encontrava (“perfumada”, “limpa”) para a atual condição negativa (“imunda”, “sujei” e correlatos). Essa averiguação apresenta sinais de transformação interna, possivelmente apontada pela mágoa.

Apesar de lidar com a situação de forma mais objetiva, o rapaz também se mostra desgostoso com o relacionamento ao mencionar que Ana deixou de amá-lo. Admitir que o fim do amor chegou para ambos faz o rapaz associar o relacionamento ao livro A queda dos anjos. Embora seja essa uma obra de autor desconhecido, o livro faz referências diretas ao Gênesis bíblico. O livro relata a história de um casal que vivia feliz em um paraíso, até o momento em que pecaram e foram expulsos do jardim do Éden, como se encontra no texto bíblico:

Então disse o Senhor Deus: “Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre”. Por isso o Senhor Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado.

[...]

Deus disse a Noé: Darei fim a todos os seres humanos, porque a terra encheu-se de violência por causa deles. Eu os destruirei com a terra. (Gênesis 2: 22 e 24, 6: 13)

O trecho transcrito apresenta a queda do primeiro casal no paraíso. Segundo as Escrituras, o casal fora criado por Deus para dominar todo o jardim, porém havia apenas uma árvore cujo fruto não deveria ser comido. Desobedecendo às ordens de Deus, o casal que vivia dentro do perfeito plano divino é expulso e exposto a todo tipo de pecado e às suas consequências. A insatisfação divina recai sobre os descendentes de Adão e Eva e mais tarde é necessária a designação de Noé para a formação de uma nova nação, livre do pecado.

Por extensão, podem-se traçar relações entre a queda do casal bíblico e a queda dos homens e, em especial, com o casal de Telles. O paraíso idealizado do amor agora é inacessível e já não é visto como um local imaculado, assim como ocorre com o casal bíblico: “Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobrir-se.” (Gênesis 3: 7). O fim do amor romântico permite ao casal da narrativa em exame perceber aspectos negativos que antes não eram constatados. A queda do casal se faz presente no discurso de Ana ao declarar sua sujidade.

No trecho é possível observar que a mágoa se faz mais evidente em Ana e seu estado emocional intenso permite-nos afirmar que o fim do relacionamento é melhor aceito pelo rapaz do que pela jovem. A todo momento, ele tenta amenizar a situação, em atitude de cuidado, procurando não intensificar as emoções, tratando de assuntos triviais, como se o fim do relacionamento ainda fosse desacreditado.

As sensações de desconforto e de aflição também podem ser representadas pelas imagens que caracterizam a atmosfera do conto: o banco

de pedra e o vento, dados que sinalizam uma viagem não planejada, bem como a pouca pesquisa sobre o destino. Tais elementos compõem um cenário inquietante:

― Está certo. Agora vem.

― O banco é frio, quero minha cama, quero minha cama ― ela soluçou e os soluços fracamente se perderam num gemido. ― Que fome. Que fome. (TELLES, 2011, p. 47)

O discurso repetido de Ana “quero minha cama, quero minha cama” estabelece um contraponto com o banco frio e desconfortável onde, provavelmente, iria dormir. A energia em demonstrar a sua resistência vai se dissipando: primeiro ela soluça e depois geme.

A pedra, material de minério duro e sólido, é um dos elementos que compõem a terra. De acordo com Chevalier e Gheerbrant (2009), seu valor simbólico, a partir do imaginário dos povos, mantém uma relação estreita com a alma, podendo relacionar-se com o mito de Prometeu, em que as pedras conservam o odor do homem, sua essência. Na narrativa a imagem da pedra aparece na forma de banco, lugar que Ana tenta evitar, dizendo que é desconfortável e frio e, por fim, é o lugar onde o conto se encerra. Portanto, é um local significativo para a narrativa e pode estar relacionado com os eventos insólitos que finalizam a história e onde a personagem se transforma em um ser de essência semelhante a sua, a borboleta.

O vento, outro elemento importante, traz a simbologia da instabilidade e da inconstância, mas pode também ser sinônimo de refrigério, sopro e influxo espiritual. Nesse conto, o vento pontua momentos importantes da narrativa: no estágio inicial, a noite é descrita como “sem vento”; há uma suavidade e um ambiente harmônico de uma noite tranquila. Mais adiante, a figura do vento surge como elemento mágico de transformação sugerido pela fala do rapaz: “― Sopra o vento e a gente vira outra coisa.” (TELLES, 2011, p. 47). Neste momento, retorna o cruzamento entre o conto e o mito de Eros e Psiquê.

Zéfiro, deus-vento, filho de Astreu e Eos, aparece em diversos mitos como elemento de transposição ou transporte. No conto de Eros e Psiquê, Zéfiro é ordenado de início a transportar a bela jovem à morte, depois é solicitado a trazer as irmãs de Psiquê a seu castelo, mais adiante o deus-vento castiga as

irmãs conduzindo-as ao abismo, e por fim, obedece às ordens do jovem Eros para resgatar sua amada:

Eros, todavia, que em lugar de ferir com suas flechas a Psiqué, havia sido ferido por ela, ordenou ao vento Zéfiro que a transportasse para um vale macio e florido, que se estendia ao sopé da montanha. (BRANDÃO, 1987, p. 225)

De forma semelhante, o vento no conto de Telles exerce a função de levar as personagens a outros estágios. Conforme o vento age, as mudanças na narrativa acontecem e deste enfoque, o vento se torna o elemento não só meio de transporte, mas de transformação, como examinaremos adiante.

Outro elemento simbólico no conto que compõe o espaço é mencionado no título, no início da narrativa e é retomado no final do conto, a saber, a “lua crescente”. No começo da narrativa, os dois jovens contemplam a lua e procuram identificar a fase em que ela se encontra:

— Que lua magrinha. É lua minguante? [...]

— Acho que é crescente, tem o formato de um C. Vem, querida, ali tem um banco. (TELLES, 2011, p. 46, 47).

Convém refletir sobre a natureza inconstante da Lua. À medida que a Lua se movimenta ao redor da Terra durante o mês, apresenta diversas fases e sua forma parece variar gradualmente. Esse fenômeno estudado desde a Antiguidade por Aristóteles (384-322 a.C.) evidencia que as fases da Lua resultam do fato de que ela não é um corpo luminoso, e sim um corpo iluminado pela luz do Sol. De forma similar às mudanças de fases da Lua, a relação do casal manifesta oscilações em seus sentimentos.

A fase de Lua crescente ou Lua quarto-crescente tem a forma de um semicírculo com a parte convexa voltada para o oeste. Lua e Sol, vistos da Terra, estão separados de aproximadamente 90°. A Lua nasce aproximadamente ao meio-dia e põe-se aproximadamente à meia-noite. Após esse período, a fração iluminada da face visível continua a crescer pelo lado voltado para o oeste, até que atinge a fase Cheia. A separação entre Lua e Sol e a consequente diluição da visibilidade desse astro na Terra sugere, no conto,

o desvelamento de que o amor acabou e a distância entre eles está em constante progresso.

Segundo Chevalier e Gheerbrant (2009, p. 581), a lua “simboliza a dependência e o princípio feminino (salvo exceção), assim como a periodicidade e a renovação. Nesta dupla qualificação, ela é símbolo de transformação e crescimento.” Portanto, observa-se que a presença deste símbolo nos momentos da narrativa complementa, novamente, a mensagem de mutação. No trecho que antecede o clímax do conto, a lua crescente aparece antecedida como elemento de contradição: “Contudo, era lua crescente. E estavam em Amsterdã.” (TELLES, 2011, p. 49). Ao que parece, a lua crescente, neste caso, funciona como um indicador de que algo inusitado estaria para acontecer bem como elemento que instaura o sentido de oposição.

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