O MITO DE CARONTE E O DO NATAL: DOIS PONTOS DE VISTA EM CONFRONTO
Escrito em 1958, o conto “Natal na barca” integra, originalmente, a obra
Antes do baile verde e, posteriormente, compôs a coletânea cuja temática se
engenha o título Histórias de mistério.
O conto tem em uma embarcação o cenário lúgubre para apresentação das quatro personagens da narrativa: a narradora, um velho bêbado que permanece adormecido ao longo de toda narrativa e uma mulher com um bebê nos braços. A curiosidade do leitor é despertada logo nas primeiras linhas, com uma descrição extremamente mórbida e sombria do lugar: “Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E me sentia bem naquela solidão.” (TELLES, 2011, p. 26).
A viagem da barca nos permite perceber uma exploração do inconsciente da narradora, que, em sua fala, sugere resistência ao abordar o que a levou até aquele lugar, bem como um desejo de mergulhar no sombrio, no plano do que não é conhecido. Não sabemos o que lhe aconteceu ou o que tenciona fazer, mas, aparentemente, a sua fala remete a um fato que lhe traz desagrado ou a constringe. Estar na barca, parece representar para a narradora uma espécie de fuga, um momento de transição. Os motivos que a levaram até ali são suprimidos por uma aparente conveniência, porém o ponto de vista que ela nos apresenta ao longo da narrativa pode estar relacionado com essa omissão. Essa lacuna acerca do acontecido antes do embarque pode oferecer possibilidades de interpretação.
É particular da obra de Lygia Fagundes Telles a presença de personagens que vivem o sofrimento da solidão, assim como no conto em exame. Neste, o impacto que a situação inicial traz, confere um caráter intimista, um tom confessional à narrativa. O silêncio é reinante e dá espaço para os monólogos interiores da narradora, que, no isolamento daquele
ambiente se dobra sobre si mesma e universaliza a situação humana de convívio com as próprias dores, dúvidas e esperanças.
Nos contos da escritora, o espaço participa ativamente na caracterização de uma atmosfera sombria e inquietante. A temática da morte faz parte do núcleo de muitos de seus contos de mistério. Observa-se que esse tema se amplia em todas as suas possibilidades, como a solidão, o abandono e a vingança. A morte, no entanto, aparece sempre como recurso cênico de representação do medo.
Na sequência temos uma descrição sombria do lugar em que as personagens se encontram: “Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos, deslizando na escuridão. Contudo estávamos vivos. E era Natal.” (TELLES, 2011, p. 26). A visão que a narradora tem de si mesma e dos outros aponta para um estado melancólico, de silêncio, de morte e de “escuridão”. Apresentado esse quadro axiológico, o leitor prepara-se para encontrar um olhar sobre a vida que muito se aproxima de Schopenhauer8.
Observa-se que a descrição do ambiente é permeada pela consciência da protagonista que o descreve e o avalia conforme o seu ponto de vista. A falta de interação entre as personagens grifa o isolamento que estimula ainda mais a narradora-personagem ao silêncio.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com a barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio. (TELLES, 2011, p. 28) O modo como a protagonista nomeia o espaço, “barco de mortos”, faz referência de forma hiperbólica ao mito de Caronte, personagem que Junito de Souza Brandão descreve como pertencente ao “mundo infernal”.
8 De acordo com Rüdiger Safranski, Arthur Schopenhauer (1788-1860) nasceu em 1788, Polônia, filho de Heinrich Floris Schopenhauer, um bem sucedido homem de negócios, e Johanna Schopenhauer, uma romancista e intelectual. Schopenhauer teve uma educação sólida e ampla, enriquecida por diversas viagens pela Europa, onde teve contato com variadas línguas e culturas. Tais experiências proporcionaram-lhe uma compreensão da miséria humana que o influenciou de modo decisivo em sua visão pessimista do mundo. (2011, p. 19-20)
[...] trata-se de um gênio do mundo infernal, cuja função era transportar as almas para além dos rios Hades, pelo pagamento de um óbolo. Em vida ninguém penetrava em sua barca, a não ser que levasse, como Eneias, um ramo de ouro, colhido na árvore sagrada de Core. (BRANDÃO, 1998, p. 317)
Na referência ao “barco dos mortos” vemos, de maneira bem clara, o cruzamento entre os textos. A aproximação da imagem do barco em que viajam as personagens da narrativa àquela do barqueiro Caronte, contamina-se do conteúdo mítico. No mito, Caronte tem por função conduzir as almas ao mundo dos mortos. Em “Natal na barca” a contiguidade das imagens personagens/mortos manifesta-se por meio da ambientação dominada pelo silêncio, pela inação do grupo, e não pelo estado ou destino das personagens. Diferentemente do texto matriz, não se trata de mortos, mas de vivos, possivelmente marcados pelo sentido da morte.
A protagonista faz uma caracterização de si e dos outros companheiros em contraposição com a data que dá nome ao conto, o Natal. Ou seja, há uma relação de oposição entre elementos associados à morte e à data natalina. Sabemos que para os cristãos, o Natal representa a vinda do salvador, Jesus, daquele que redimira o homem e retomara o contato entre Deus e a humanidade. Portanto, a data traz consigo uma carga semântica de vida, de nascimento e de novo começo. Ao utilizar a conjunção adversativa contudo, a narradora expressa sua constatação de que a realidade se contrapunha à data em que viviam. A todos os passageiros ela atribui um sentido mórbido e desesperançoso: “Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos, deslizando na escuridão.”
Ao analisarmos o título, reconhecemos nele uma relação de tempo e de espaço, pois se trata de uma data comemorativa, o Natal, que se passa em uma barca. Sentidos opostos se põem lado a lado. A vida e a morte que são apresentadas no título se propagam nas falas, nas expressões e nas ações das personagens. Embora a barca esteja associada aos valores da morte, reforçadas pelo mito de Caronte, no conto de Telles ela assume os valores concernentes ao Natal.
de um meio de transporte, já que a narrativa apresenta a jovem mãe como moradora de uma cidade próxima, Lucena, e que a conselho de um farmacêutico decide levar o filho doente a um médico, portanto, faz uso da barca como meio de locomoção. Em outra possibilidade de sentido do termo, podemos reconhecer a barca como símbolo de travessia e transição de estágio humano. Portanto, pode-se afirmar que o ato de atravessar as águas esteja associado ao batismo cristão, o qual simboliza um renascimento para uma nova vida. De acordo com o dicionário de símbolos, a barca possui simbologias que podem ser pertinentes à análise do conto.
Na arte e na literatura do antigo Egito, acreditava-se que o defunto descia para as doze regiões do mundo inferior numa barca sagrada. (apud OLIVEIRA, 2012, p. 136)
[...]
Na tradição cristã, a barca dentro da qual os crentes ocupam seus lugares a fim de vencer as ciladas desse mundo e as tempestades das paixões é a Igreja. A esse propósito, pode-se evocar a Arca de Noé, que é a prefiguração da Igreja. (apud OLIVEIRA, 2012, p. 136)
Oliveira (2012, p. 136) conclui que a definição cristã de que a barca representa um refúgio perante as dificuldades da vida pode atribuir esse sentido à fala da mãe: “Já tomei esta barca não sei quantas vezes [...] ” (TELLES, 2011, p. 29) e mais adiante o relacionamos também às duras adversidades que a jovem mãe enfrenta.
Nessa linha de pensamento, a barca deixa de ser símbolo de partida e passa a assumir o caráter de elemento tranquilizador que ameniza as dificuldades da vida. No texto, a imagem da barca participa da temática de proteção no embalar materno: “A criança agitou-se choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná- la com um brando movimento de cadeira de balanço” (TELLES, 2011, p. 29). Da mesma forma que o rio acolhe a barca, a barca acomoda a mãe, e esta faz dos braços o aconchego do filho doente, todos seguindo o mesmo movimento tranquilizador da “cadeira de balanço”, do balanço das águas do rio. Associando a essa simbologia da intimidade, temos ainda a caixa que guarda os fósforos, a sacola que abriga os objetos, o manto e o xale que cobrem a
mulher e os panos que envolvem a criança. Todos eles são símbolo da intimidade que transmite calor, segurança, tranquilidade e introversão.
Portanto, é evidente que o espaço contribui sobremaneira para a caracterização psicológica das personagens. O caráter polissêmico da barca reforça sua indefinição, gerando mistério, ou, segundo José Paulo Paes, “uma premonição entre o natural e o sobrenatural” (1998, p. 82).
O ambiente noturno conduz à quietude e à particularização do ser, incitando uma viagem introspectiva da narradora. Nesse momento, ela se vê, talvez inconscientemente, dividida entre o desejo de estar só “[...] me sentia bem naquela solidão” (TELLES, 2011, p. 28) e a necessidade de envolver-se com o outro, carência essa inata ao ser humano:
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços humanos – já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. Mas agora não tinha forças para rompê-los. (TELLES, 2011, p. 30)
A citação em tela é construída pela tensão. Apreende-se o desejo de isolamento, acompanhado de sentimentos que desvelam vivências que se rejeitam e um anseio por se negar à compaixão. Pela fresta da enunciação, a narradora deixa entrever um passado de sofrimento, de desejo de ser cruel, que é surpreendido no presente pela aparição dos “laços humanos” que espreitam e avançam diluindo a amargura, a insensibilidade.
A humanidade vence a aridez, quando a atenção da narradora é direcionada à mulher com a criança no colo. Sua imagem enigmática atrai o interesse e a sua curiosidade. Apesar da resistência da protagonista não acontecer de imediato, esta não resiste ao diálogo, interessando-se pela história daquela mulher, faz perguntas e compadece-se de seu estado. Apesar de o diálogo se iniciar quase ao final da viagem, cria-se a expectativa de que a conversa a ser travada entre as personagens será importante para a narradora, pois, do contrário não provocaria recordações. A hesitação que a narradora tem em falar com a jovem mãe parece incomodá-la, pois é como se uma oportunidade importante estivesse sendo perdida: “Pensei em lhe falar assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra.” (TELLES, 2011, p.
28). A importância da mulher com a criança no colo para a narradora é um dado não esclarecido para o leitor, o que gera uma maior expectativa em relação ao desfecho do conto.
O início do diálogo se dá quando ambas expressam suas perspectivas e visões acerca do rio.
A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.
– Tão gelada – estranhei, enxugando a mão. – Mas de manhã é quente.
[...]
– De manhã, esse rio é quente – insistiu ela me encarando. – Quente?
– Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa, pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas? (TELLES, 2011, p. 29)
Para Oliveira (2012, p.139), o diálogo inicia-se pela discordância entre percepções. No que se refere ao espaço definido das águas, há uma caracterização díspar, pois as águas são descritas simultaneamente como “gelada” pela narradora e “verde e quente” pela jovem mãe. Assim como Oliveira, também entendemos que a barca se torna uma união de opostos, representados não somente pelos diferentes perfis de mulheres, como também pelo que elas evocam quanto ao sentido de vida e morte. O rio, nesse conto, pode representar o curso da vida e suas intempéries e a postura da narradora frente a ele é de estranhamento e desconforto, bem como sua visão de vida. Já a jovem mulher refere-se às águas de maneira oposta, considerando-as de forma positiva: “verde e quente”, simbolizando a esperança e o pulsar da vida.
A mulher com o bebê, ao perceber que a narradora tem uma visão tão contrária à sua, sente a necessidade de apresentar seu ponto de vista. A narradora espanta-se com a informação e demonstra certa curiosidade, isto é, parece ser intrigante para ela o fato de haver outro entendimento, diferente do dela.
De acordo com Bakhtin/Volochinov “criar um ambiente para o diálogo não é criar um ambiente de concordâncias e harmonia. É antes, uma “arena
para o confronto dos valores sociais vivos”. (BAKHTIN/VOLOCHINOV,1997, p. 46).
A percepção do rio expressa pela protagonista dialoga com seu estado emocional. Para ela, o barco deslizava sob um rio escuro e, ao tocá-lo, descreve-o como gelado. Tudo que a circunda, remete à ideia de morte: o barco, a gelidez do rio, os passageiros e por fim ela mesma. A estrutura de mistério se manifesta também na narrativa pela pontualidade com que a temática da morte aparece, que se repete constantemente: os passageiros estão solitários na barca “como mortos num antigo barco de mortos, deslizando na escuridão”; o diálogo entre as mulheres tem por tema central a morte do filho primogênito seguida da morte da criança que estava no colo da mãe, segundo a avaliação cética da narradora; o fim do casamento da jovem mãe também sugere a morte do relacionamento e por fim, a morte da fé da narradora, que diante de um provável problema se vê sem perspectiva de um futuro “laço humano”. Portanto, o rio torna-se apenas a representação simbólica de suas crenças e de seu discurso pessimista. Quando a jovem mãe lhe apresenta a visão de um rio verde e quente, tem-se logo uma associação à esperança e à vida em oposição aos sentimentos que dominam a narradora até aquele momento.
A interação entre as personagens cresce à medida que a mulher com o bebê se vê confortável para abordar assuntos delicados e profundos a respeito de sua vida pessoal. A narradora, a todo o momento, deseja fugir dos “tais laços humanos” que a envolvem, porém não encontra forças para rompê-los.
— Seu filho?
— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem, mas piorou de repente. Uma febre, só febre... Mas Deus não vai me abandonar.
— É o caçula?
Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos.” [...]
— Seu marido está à sua espera?
A fala da jovem mulher apresenta a marcação rítmica das reticências. Sabemos que esse recurso é utilizado não apenas para marcar a pausa, mas também para indicar sentimentos e sensações e, nesse caso, essa pontuação marca exatamente os momentos de maior emoção, transmitindo ao leitor o suprimento do pensamento, a intensificação dos sentimentos.
Diante de um relato tão triste e de preocupação da mãe com o estado da criança, a narradora começa a questionar a mulher a respeito de suas convicções. Para ela a razão de tanta confiança e determinação tinha origem no conformismo.
— A senhora é conformada.
— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou. — Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas... (TELLES, 2011, p. 31)
Focalizando a análise na mãe, notamos que essa personagem, inicialmente secundária, ganha espaço e destaque a começar por sua descrição física. A figura da jovem com o filho nos braços, faz alusão à iconografia da Virgem Maria com o Menino Jesus: “A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.” (TELLES, 2011, p. 28).
Podemos observar que a descrição da mulher não faz referências apenas à figura bíblica, mas, de modo geral, sua caracterização reflete a tradição da época reinante até a primeira metade do século XX. A volta à casa dos pais em decorrência do abandono do marido apresenta uma postura preocupada com sua imagem diante da sociedade, bem como seu ofício de professora numa “escolinha”, revelando o respeito que provavelmente tinha na comunidade patriarcal. Sua “pobreza [...] espiava pelos remendos de sua roupa” (p. 31) e sua postura passiva diante de uma traição comunicada por uma carta denotam a condição de uma mulher cujos direitos lhe foram negados. No entanto, essas razões não a levam ao ceticismo.
Observa-se nesse posicionamento, uma característica não peculiar às obras de Lygia Fagundes Telles, pois nelas se apresenta uma larga aparição de personagens femininas que lutam pela liberdade, buscam sua identidade e, diversas vezes, são vítimas de desencontros, traições, preconceitos e perdas. Nessa obra, percebe-se a intenção de deixar à vista a condição da mulher que é abandonada pelo marido, bem como os valores preconceituosos da sociedade que a obriga sempre estar sob a tutela do pai ou do marido.
Apesar de enfrentar numerosos momentos de sofrimento, a jovem mãe exibe “olhos vivíssimos” e “mãos enérgicas”. Para a narradora, há muitos motivos para que a jovem mãe não apresente sinais de esperança, de luta. Contudo, os fatos dolorosos e extremamente tristes são apresentados com leveza. Não há sequer sinal de revolta ou apatia o que leva a narradora a encarar a situação de modo irônico e a irritar-se ao questionar se tal atitude não seria fruto de um conformismo.
A resistência com a resposta da mulher é interrompida por um momento de epifania. Affonso Romano de Sant’Anna em O ritual epifânico do texto, trata desse fenômeno presente na maioria dos contos de Clarice Lispector. Para ele, epifania é “o relato de uma experiência que a princípio se mostra simples e rotineira, mas que acaba por mostrar toda a força de uma inusitada revelação.” (2013, p. 128).
No que diz respeito ao conto de “Natal na barca”, podemos perceber que este é um dos momentos em que a narradora vivencia uma compreensão da fé e da experiência religiosa que até então não tinha significância em seu mundo racional. A resposta da jovem mãe, com um viés religioso, apresenta uma justificativa plausível para sua postura serena: a confiança em um Deus que não a abandonará.
Ao citar “a tal da fé que removia montanhas...” o conto dialoga diretamente com a passagem bíblica em que Jesus faz uma analogia da fé com a figueira seca. Numa conversa com seus discípulos, Cristo diz que se a fé fosse incontestável, eles poderiam obter tudo aquilo que pedissem.
Jesus respondeu: Em verdade vos digo: se tiverdes fé, sem duvidar, fareis não só o que fiz com a figueira, mas até mesmo
se disserdes a esta montanha: Erga-te e lança-te no mar, isso acontecerá.
E tudo o que pedirdes com fé, em oração, vós o recebereis. (Mateus 21:21)
A reflexão da narradora exprime um posicionamento de racionalismo, e portanto, certo ceticismo em relação àquela convicção tão crédula em Deus. Porém, a mulher continua seu testemunho e relata uma situação vivenciada após a morte de seu filho. Nessa fala, ela conta que em meio ao desespero, tem uma espécie de consolo divino por meio de um sonho:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele... Sentei num banco do jardim onde toda tarde levava ele para brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, só se mostrasse um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao