Concede-me um olhar, um só olhar fagueiro. E que me importa o mais? (Shakespeare, Romeu e Julieta,
trad. de B. Pato) I
Há criaturas nascidas para se amarem. Se lhes perguntarem desde quando se princi- piaram a estimar, não o saberão dizer, por mais que busquem ou inquiram, parece-lhes mesmo que antes de virem ao mundo tinham sido inscritas no livro do destino que ata e desata.
Um escritor espanhol diz que há convénios tácitos que dão um éden de desconheci- dos gozos d’alma ao homem e à mulher que se amam em segredo.
O século atual crismou esses amores de assolapados, mas ainda hoje de vez em quando aparecem esses amores puros e santos que nós veneramos, por isso que nossos pais nos contavam as histórias ao serão das serenatas às portas dos conventos aonde os motes e as glosas mais finas se trocavam através daquelas grades que prendiam tão formosas damas brilhando pelas suas virtudes e pelo seu espírito.
Os tempos que correm são outros, mas desgraçada da regra se não fosse a exceção. ____________
Em 1870 na ilha de S. Vicente existia uma formosa e elegante menina possuidora de mais duas formosas e elegantes irmãs.
Deus querendo formar com elas um perfeito bouquet deu a cada uma a sua cor. Uma era branca qual perfumado lírio; a segunda era morena e a terceira era trigueira.
As duas primeiras realizaram os seus castelos de cartas, os seus sonhos dourados. Ambas casaram muito bem, depois de leves oposições. Restava a terceira que conheci naquela ilha, e vos posso afiançar[,] caras leitoras e leitores, ser o ente mais perfeito que o criador formou. Saíra ela forçosamente dum beijo da virgem. Um rosto oval com
Amor! Ai! Quem dera
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113as linhas mais perfeitas, alta como tenro e delicado arbusto que se baloiça ao sopro da brisa da manhã, a cintura podia cingir-se em um pequenino anel, a mão mais mignone que se pode imaginar, e um pé que se podia bem esconder na algibeira do colete. No seu rosto espelhava-se a graça da bondade e a melancolia da ternura. Não sei mesmo dizer se os anjos lhe não teriam inveja.
Um dia festejava-se um aniversário duma senhora muito conhecida na ilha, e toda a sociedade mais escolhida aparecera nos salões da nobre dama.
Entre as senhoras mais formosas encontrámos Georgeta da Silva a quem ofere- cemos o nosso braço em recompensa da primeira quadrilha.
Durante o resto do tempo observámos que o seu par constante era Rodrigo Montei- ro, um rapaz belo, sonhador de idílios, e capaz de diligenciar apanhar uma estrela ao firmamento para oferecer à mulher a quem amasse. Até ali tinha sido virgem o seu coração.
Rodrigo Monteiro era um dos meus mais prediletos amigos, conversava comigo as suas confidências mais pequenas. Era uma alma d’oiro.
Seis horas da manhã batiam e um dourado horizonte dava os prenúncios de que o rei do dia vinha visitar-nos.
Os últimos sons da orquestra era[m] como que um dobre para muitos corações. Eu e Rodrigo Monteiro subimos pelo braço um do outro e fomos para a nossa casa, deitando-se ele em cima dum sofá.
– Dá-me um livro para fazer sono – disse-me Rodrigo. Dei-lhe um livro de poesias de Mendes Leal.
Poucos momentos depois sentia-o a chorar e indo ler o livro encontrei: «Ao ver-te a vez primeira nesse baile,
Radiante de galas e de amor,
Perdi-me a contemplar-te transportado, E ceguei-me do teu rosto no fulgor.» II
Eu tinha direito a pedir explicações daquela abertura dos selos do coração do meu jovem amigo.
Soube então que dous olhares se abraçaram e que dançaram até ao fim e ainda mais que houvesse.
Seguiram-se os dias aos dias, as semanas passaram, os meses aos meses, os anos uns aos outros, os dous jovens namorados levantavam-se com os passarinhos; Rodrigo passava por defronte de casa da Georgeta, sem terem durante esse tempo dirigido uma
única carta um ao outro.
São estes os amores espirituais para os quais é desnecessária a matéria.
Ambos escreviam dia a dia o seu diário, com as mais pequenas impressões d’alma que se agitavam entre um e outro.
Não pensavam no futuro, liam sobre o presente, a felicidade hauriam-na com a es- perança dum dia se reunirem e cambiarem os mais santos afetos.
Rodrigo Monteiro pensou um dia em que a carreira mais nobre que tinha a escolher era a militar, porque com os conhecimentos que tinha podia vir a ser oficial.
Assentou praça na companhia da ilha aonde seguiu até ao posto de primeiro sargen- to, sendo despachado alferes para S. Tomé. Os parentes empenharam-se e conseguiram a transferência do jovem oficial para caçadores 1, sendo nomeado comandante da ilha.
Romeu e Julieta amavam-se como no primeiro dia em que se tinham visto.
Em 1879 era agitada a cidade da Praia pela triste notícia da morte de 50 dos nossos soldados nas praias de Bolor.
Estes acontecimentos determinaram o ser decretada a transferência do Batalhão pa- ra a Guiné.
Derramaram-se lágrimas de despedida III e lá se foi por esse mar fora a bordo IVda
corveta Duque da Terceira o simpático batalhão.
A canhoeira Rio Lima foi a S. Vicente e trouxe o resto da força.
Rodrigo Monteiro não tivera tempo para despedidas. Enviara pelos ares um beijo a Georgeta e caíram-lhe as lágrimas ao embarcar no escaler.
Georgeta soube da partida de Rodrigo só ao meio-dia, ajoelhara aos pés da virgem da Conceição e orara.
* * *
Rodrigo Monteiro desembarcara em Bissau e essa noute escrevera compridas pági- nas no seu diário, interrompido pela viagem, por isso que durante a travessia padecera bastante do mal do mar.
Os seus companheiros d’armas achavam-no mudado, triste, afastado, rabugento, hi- pocondríaco.
Não tinha a alma ainda temperada na desventura e sentira somente dela os ressai- bos.
O Batalhão esteve V em Bissau pouco tempo, embarcou novamente na corveta e de-
Amor! Ai! Quem dera
|
115Rodrigo foi hospedado pelo capitão Fonseca que lhe deu um esplêndido quarto e uma mesa opípara.
O nosso alferes sentia-se morrer; cada dia que passava causava visíveis estragos na- quela débil organização.
Ele não se queixava mesmo porque não tinha de que.
Admirava a soberba vegetação que orla as margens do rio, surpreendia-o a soberba majestade do altivo e sempervirente VI poilão, misteriosa árvore que se deixa despir da
sua folhagem, para como para VII encanto se cobrir dela, mais mimosa e esmeráldica.
Surpreendia-o ainda esses bosques umbrosos, frescos, extensos, sem fim, formados das mais ricas e copadas árvores aonde se engrinaldam formosas e elegantes trepadei- ras com as suas flores iriadas debruçadas da ramagem.
E os bandos de grandes aves de miríade de cores, que estendem no espaço as suas compridas asas ou poisam nas praias de areia?
E os mil passarinhos em ranchos alegres, em famílias, que cantam e chilreiam as mais harmoniosas melodias, saltitando de árvore para árvore e de ramo para ramo alan- do-se ao sentirem os mais leves passos no mato?
Rodrigo Monteiro ia todos os dias à caça, mas trazia sempre a arma carregada. Um livro que o acompanhava trazia porém soberbas impressões que a alma sente e jamais esquece.
* * *
Quando vinha o vapor das ilhas e nele pessoa conhecida, o alferes Monteiro infor- mava-se de Georgeta, da mãe, nobre e distinta senhora.
Nas noutes de luar, chamava ele ao arruinado e velho satélite sua madrinha, via o molho de couves tradicional naquelas VIII manchas escuras, e encarregava aos raios
luminosos daquele astro de serem portadores dos seus sonhos e pensamentos à ilha que guardava o seu encanto.
I
Raimundo António de Bulhão Pato (*1828 †1912) traduziu na íntegra duas peças de Shakespea- re: Hamlet (1879) e O mercador de Veneza (1881). De Romeu e Julieta verteu apenas a cena II do ato II, incluindo esse trabalho em Flores agrestes (Porto: Viuva Moré, 1870). A passagem em causa surge, com ligeiras variantes, na p. 107.
II
Trata-se dos v. 5-8 da I parte do poema «Impropérios», publicado no vol. XV, n.º 6 de O pa-
norama, de 6-II-1858, p. 46 (com variante de pontuação) e depois incluído no livro Poesias (Lisboa:
Typ. do Panorama, 1859). O autor, António Joaquim Teodorico Mendes Leal (*1831 †1871), era irmão de José da Silva Mendes Leal.
III No testemunho por gralha, despedido. IV No testemunho, por lapso, borda. V No testemunho, por falha, estave. VI
Não encontrámos esta forma dicionarizada, sendo talvez de admitir que se trate de gralha (sem-
pre virente).
VII
Parece haver gralha no original, sendo a forma correta por.
VIII
A morte de D. João
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117Fonte: A Imprensa, n.º 52, 23-VI-1881, p. 1-2 e n.º 54, 07-VII-1881, p. 1-2 [incompleto, dada a im- possibilidade de localizar outros números do jornal].