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4. ANÁLISE DO MATERIAL SELECIONADO

4.2. Análise audiovisual do material selecionado

Para desenvolver a análise do conteúdo audiovisual online embasamos os estudos de análise da imagem, principalmente, na teoria do cinema e da televisão. Contudo, buscamos ao longo da pesquisa destacar as especificidades da produção de conteúdo audiovisual no meio digital.

Nesse processo compreendemos que a análise em si é realizada considerando o produto audiovisual como uma linguagem de quadros em movimento, dessa maneira, os quadros estáticos – frames - coletados são utilizados para apreciação detalhada e para ilustração da pesquisa.

Em primeiro lugar, os filmes que exigem deliberadamente, da parte do espectador, uma “leitura” simbólica global ou parcial. Compreendamos por leitura simbólica uma interpretação que não se detivesse no sentido literal [...], mas situa de imediato o que é dito e mostrado em relação com um “outro” sentido (VANOYE; GOLIOT–LÉTÉ, 1994, p. 59–60).

Baseado nisso, cabe não somente observar a obra audiovisual em meio a um contexto social, mas em uma construção por si, pois seus significados são construídos com a utilização de elementos da linguagem do vídeo “por intermédio da repetição, de formas de insistência (primeiros planos, planos longos, ângulos insólitos) ou de amplificação (deformações visuais, aumentos, efeitos sonoros, etc)” (VANOYE; GOLIOT–LÉTÉ, 1994, p. 65), constituindo uma narrativa audiovisual.

É preciso explicitar as técnicas usadas para realizar a coleta de dados, análise e interpretação sobre o produto que está sendo observado. Segundo Rose “se as técnicas forem tornadas explícitas, então o leitor possui uma oportunidade melhor de julgar a análise empreendida” (ROSE, 2002, p. 345). Dessa forma, é preciso descrever o âmbito das características não verbais que estão envolvidas na realização da presente pesquisa. E captar não somente a imagem em si, mas sim como essa imagem está inserida no contexto de produção de conteúdo na Internet, mais especificamente, no YouTube. Ao longo da pesquisa bibliográfica foram observadas técnicas e métodos para que a análise fosse realizada de maneira a atender às necessidades do objeto de estudo. Tendo em vista que

os meios audiovisuais são um amálgama complexo de sentidos, imagens, técnicas, composição de cenas, sequência de cenas e muito mais. É, portanto, indispensável levar essa complexidade em consideração, quando se empreende uma análise de seu conteúdo e estrutura (ROSE, 2002, p. 343).

A observação está dividida de maneira a apreciar elementos da linguagem audiovisual (planos, enquadramento), buscando compreender qual a razão e a função diegética desses elementos na composição da produção de sentidos.

Analisa–se um filme quando se produz uma ou várias das seguintes formas de comentário crítico: a descrição, a estruturação, a interpretação, a atribuição. A intenção da análise é sempre a de chegar a uma explicação da obra analisada, ou seja, à compreensão de algumas de suas razões de ser (AUMONT; MARIE, 2003, p. 13).

Busca–se, portanto, por meio do processo de descrição das cenas retiradas dos vídeos publicados no YouTube, reconhecer a forma (os elementos plásticos, visuais) não dissociando esses frames de seu vídeo inicial. Assim, as imagens que constam nessa pesquisa são apenas ilustrativas, não sendo analisadas enquanto elementos isolados. A análise é baseada no produto audiovisual completo.

Ao longo da análise há uma atenção voltada inteiramente para descrição da cena, ocasião em que são observados os pontos de análise que compõe essa pesquisa. A “escolha dentro de um campo múltiplo é especialmente importante quando se analisa um meio complexo onde a translação irá, normalmente, tomar a forma de simplificação” (ROSE, 2002, p. 344).

Simplificação essa que tentamos adaptar para melhor estabelecer parâmetros de análise e realizar um trabalho detalhado, mas sem dispersar o foco dos objetivos dessa pesquisa. Segundo Aumont e Marie (2009, p. 75–76) “qualquer descrição de imagem repousa, portanto, na escolha de certos eixos de pertinência, que são os do analista”.

A transcrição das imagens para texto ocorre a partir da decupagem como forma de reunir os dados sobre as cenas que compõe os vídeos. “A finalidade da transcrição é gerar um conjunto de dados que se preste a uma análise cuidadosa e a uma codificação” (ROSE, 2002, p. 348), simplificando, assim, a imagem complexa em palavras. Uma vez que “frequentemente, refletir sobre a imagem não consiste em produzir imagens, mas sim em produzir palavras” (METZ, 1974, p. 17).

A construção dos métodos de pesquisa é realizada a partir de decisões que melhor se aplicam à realização da mesma em constante e recíproca correlação com o quadro teórico de referência. Como forma atender as necessidades oriundas do objeto teórico para a construção do objeto empírico, devemos ter em mente que

a metodologia na pesquisa se situa no plano da prática e indica os métodos efetivamente usados numa pesquisa. Aqui, método é entendido como um conjunto de decisões e opções particulares que são feitas ao longo de um processo de investigação. Os métodos constituem uma das instâncias da prática metodológica (LOPES, 2003, p. 94).

A partir da reflexão metodológica e do levantamento bibliográfico para embasamento teórico da pesquisa, observamos que muitos textos sobre universo audiovisual estavam voltados para uma análise ora teórica ora técnica, assim como aponta Lorite (2001). Com isso, utilizamos como elemento teórico e apontamento metodológico dessa pesquisa as práticas de Lorite (2001) e seus desdobramentos sobre o conceito de pedagogia ativa. Pedagogia ativa (LORITE, 2001) é método de análise que consiste em ir da prática para a teoria, do contexto para o texto, da dialética para o conceito, da observação para o conhecimento, como forma de estabelecer relação entre essas duas áreas, teoria e prática.

Analisar produção de conteúdo audiovisual na internet é uma questão que explora várias frentes para realizar sua função principal. Essa análise transversaliza as áreas e busca relacionar questões que se conectam ao longo do processo de produção de conteúdo audiovisual na internet. Não se torna uma análise de redes sociais, como propõe Fragoso, Recuero e Amaral (2015), buscando as conexões e limites dos usuários nas redes. Também não se limita a análise da linguagem audiovisual em uma determinada mídia ou plataforma. Realizar uma análise em um ambiente virtual no qual imagem, conteúdo e relações virtuais estão intrinsecamente relacionadas é buscar encontrar os pontos nos quais seus enlaces constroem o escopo do estudo.

Trata-se de observar, coletar dados e relacionar como essas frentes são responsáveis, de maneira articulada, pelos modos de consumo desse conteúdo na internet, especialmente, do site de distribuição de vídeos YouTube.

Deve-se compreender que a análise busca mapear padrões da produção de conteúdo audiovisual na plataforma, busca-se observar as práticas que são desenvolvidas ao longo do processo de produção audiovisual no YouTube. Considera-se a complexidade da produção audiovisual inclusive em um meio no qual a relação entre produtor de conteúdo e audiência se torna mais próxima.

A análise das características visuais dos vídeos selecionados visa, apreender sobre as práticas utilizadas pelos YouTubers na produção de seus vídeos e como elas são identificadas enquanto práticas comuns ao conteúdo publicado no site. Identificar as práticas de produção presentes na plataforma auxilia a um entendimento contextualizado sobre o tipo de produção, o consumo do público e a situação do mercado audiovisual na produção de vídeos para Internet.

O primeiro ponto a ser analisado é a proporção da tela exibida nos vídeos consumidos pelos usuários (Gráficos 2, 3, 4, 5 e 6). Todos os vídeos selecionados para a análise possuem resolução acima de 720p, sendo a resolução conhecida como HD e formato de tela Widescreen (16x9). No entanto, observa-se que os primeiros vídeos dos canais 5incoMinutos e MaspoxaVida, criados no ano de 2010 foram publicados com a resolução máxima de 480p e formato de tela Standard (4x3).

Gráficos 2, 3, 4, 5 e 6 - Resolução dos vídeos publicados analisados

Fonte: Elaborados pela autora.

Ainda considerando o formato da tela, alguns canais, fazem a inserção de vídeos de dispositivos de captação diferentes em um mesmo conteúdo, exemplo disso é a inserção de um vídeo de smartphone captado na vertical. Um vídeo na vertical, na proporção de tela 9x16 ou 3x4, ao ser inserido em um material na posição horizontal da tela, 16x9 ou 4x3, deixa parte da tela sem conteúdo imagético, assim, a tela fica preta nas laterais, onde não há vídeo inserido.

0 14 Mas Poxa Vida 720p 1080p 2 12 5inco Minutos 720p 1080p 10 4 Luba TV 720p 1080p 9 5 Whindersson Nunes 720p 1080p 2 12 Jout Jout Prazer 720p 1080p

Quanto a linguagem audiovisual utilizada nos vídeos podemos identificar uma relação entre as práticas de produção dos canais. Todos os canais analisados utilizaram ângulo normal em pelo menos uma parte de seus vídeos (Tabela 9).

Como parâmetro para catalogação dos dados foram considerados o ângulo plongê como um ângulo alto, no qual a câmera está posicionada de maneira que registra o elemento fílmico de cima para baixo no quadro fílmico. Outro ângulo de visão é o contraplongê, ângulo baixo, que capta o elemento fílmico de baixo para cima. E, por último, para o recorte da pesquisa, o ângulo normal, que apresenta o elemento fílmico registrado a partir da altura dos YouTubers, ou seja, traz a câmera posicionada na altura dos olhos.

Apesar de na linguagem cinematográfica a escolha do ângulo estar ligada à carga dramática da cena, assim como à possibilidade de sua execução, na produção de vídeo para a Internet, com recorte nos vídeos para YouTube, a escolha do ângulo está ligada a espontaneidade da produção do conteúdo e às limitações de captação da imagem. Contudo, consideramos os estudos de Mascelli (2010, p. 17) nos quais ele coloca que:

Um ângulo de câmera cuidadosamente escolhido pode aumentar a visualização dramática da história. Um ângulo escolhido de modo negligente pode distrair ou confundir o público ao representar a cena de uma maneira que dificulte a compreensão de seu significado. Portanto, a seleção de ângulos de câmera é um fator de extrema importância na construção de um filme que seja interessante do início ao fim (MASCELLI, 2010, p. 17).

Observa-se que mesmo que os ângulos de captação estejam, usualmente, ligados à captação da imagem com dispositivo de captura na mão do YouTuber, a questão interpretação dramática do conteúdo ainda ocorre.

Tabela 9 - Ângulos de câmera utilizados nos vídeos

MasPoxa Vida 5inco Minutos LubaTV Whindersson Nunes JoutJout Prazer CP AN PG CP AN PG CP AN PG CP AN PG CP AN PG 1 X X X X X X X 2 X X X X X X X 3 X X X X X X X X X 4 X X X X X 5 X X X X X X 6 X X X X X X 7 X X X X X X X 8 X X X X X X X X 9 X X X X X X X X 10 X X X X X X 11 X X X X X X X X 12 X X X X X X X 13 X X X X X X X X X

14 X X X X X

Total 6 14 6 1 14 2 4 14 7 2 14 1 0 14 0

Fonte: Elaborada pelo autor.

O canal MasPoxaVida é o que apresenta maior variedade na utilização dos ângulos de câmera em seus vídeos. Apesar da linguagem do seu canal ser baseada na fala direta para a câmera em plano médio, o YouTuber produz vídeos em formato de daily vlog e vlogs de viagem, conteúdos que possibilitam outras formas de gravação de conteúdo.

Já o canal JoutJoutPrazer se destaca por não ter utilizado, nos vídeos selecionados, outro ângulo que não o normal. O canal também apresenta uma linguagem audiovisual na qual a YouTuber se posiciona de frente para a câmera e fala com o dispositivo de captação da imagem na altura dos seus olhos.

Outro ponto para análise das práticas de captação da imagem são os planos de captação. Para o recorte dessa pesquisa houve a delimitação em três tipos de planos de captação da imagem. O primeiro envolve os planos de captação fechados, englobam os planos de Detalhe, Super Close, Close. Esse recorte imagético parte de planos muito próximos ao elemento fílmico até ângulos que captam o rosto do YouTuber (do queixo ou topo da cabeça), registrando toda a face do produtor de conteúdo. O segundo plano de captação selecionado é o Plano Médio, que segundo Mascelli (2010, p. 35) “fica entre um plano geral e um close” (MASCELLI, 2010, p. 35). A partir desse recorte, o plano médio envolve planos que aproximam a câmera do elemento fílmico, mas não de modo tão próximo quanto a categoria anterior. E o terceiro recorte é o Plano Aberto, que reúnem os planos de apresentação do espaço, Grande Plano Geral e Plano Geral. Esse tipo de enquadramento usualmente relacionam o YouTuber com o espaço no qual está inserido.

Por meio do levantamento (Tabela 10) e análise dos vídeos, percebe-se a utilização do plano médio em todos os vídeos analisados. Contudo não há exclusividade desse plano de captação ao longo de toda a duração dos vídeos. Por haver a possibilidade de movimentação da câmera pelo espaço, aproximação e afastamento do elemento fílmico por meio de cortes na pós- produção e ainda a possibilidade de movimentação do personagem em cena, os planos podem mudar ao longo do vídeo.

Tabela 10 - Uso de planos do quadro fílmico nos vídeos analisados

MasPoxa Vida 5inco Minutos LubaTV Whindersson Nunes JoutJout Prazer PA PM PF PA PM PF PA PM PF PA PM PF PA PM PF 1 X X X X X X X X X X X X X 2 X X X X X X X X X X

3 X X X X X X X X X X X X X 4 X X X X X X X X X X 5 X X X X X X X 6 X X X X X X X 7 X X X X X X X X 8 X X X X X X X X X X 9 X X X X X X X X X X X X 10 X X X X X X X X X 11 X X X X X X X X X X X X 12 X X X X X X X X X X 13 X X X X X X X X X X X X X 14 X X X X X X X X X Total 8 14 8 6 14 7 8 14 9 12 14 7 4 14 4

Fonte: Elaborada pela autora.

Entre os modos de utilização dos planos de captação da imagem, o Plano Médio é o que mais se destaca na linguagem audiovisual do formato vlog. Por se tratar de um produto cujo foco é o direcionamento da fala do YouTuber diretamente para a câmera, isso se dá comumente próximo do dispositivo de captação de imagem e som. Os Planos Fechados são utilizados para exibir algo próximo e também como estratégia para aproximar o rosto do YouTuber. Os Planos Abertos são utilizados em momentos de daily vlogs e vlogs de viagem, ou em ocasiões nas quais a câmera registra os espaços nos quais o YouTuber está transitando.

Outro ponto de referência para a imagem é a movimentação da câmera ou a sensação de câmera parada registrando a fala do YouTuber. Considera-se, aqui, câmera parada a câmera que não tem a intenção de explorar o espaço fílmico. Dessa maneira, o registro com a câmera na mão, por mais que crie um movimento de trepidação na imagem não é considerada movimentação de câmera. Os movimentos considerados para a catalogação dos dados são os movimentos da câmera de captação das imagens do vídeo.

Tabela 11 - Movimento de câmera ao longo dos vídeos

MasPoxa Vida 5inco Minutos LubaTV Whindersson Nunes JoutJout Prazer MC CP MC CP MC CP MC CP MC CP 1 X X X X X X X 2 X X X X X X 3 X X X X X X X X X 4 X X X X X 5 X X X X X X 6 X X X X X X 7 X X X X X X 8 X X X X X X 9 X X X X X X 10 X X X X X X

11 X X X X X

12 X X X X X X X

13 X X X X X X X

14 X X X X X

Total 8 12 5 13 6 11 2 14 2 14

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto a movimentação da câmera pelo espaço fílmico, a maior parte dos vídeos analisados apresenta câmera parada como principal forma de captura da imagem. Contudo, em registros nos quais os YouTubers transitam por seus espaços, usualmente é utilizado um registro com a câmera na mão, expondo o ambiente conforme o deslocamento do produtor de conteúdo. Outro modo de utilização dos movimentos de câmera são momentos nos quais, os YouTubers retiram a câmera do seu local de estabilização e apresentam o espaço ao redor, movimentando a câmera pelo ambiente.

Como ferramenta para explorar questões detalhadas sobre as práticas de utilizadas pelos YouTubers para criação de seu conteúdo, vamos explanar ainda sobre os pontos de convergência e divergência de suas práticas enquanto produtores de vídeo para o YouTube.