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8 ELEMENTOS DE EFETIVIDADE PROCEDIMENTAL E APRENDIZAGEM

8.2 Análise comparativa do conteúdo do RAS e EIA/RIMA

A partir da consulta aos arquivos do processo de licenciamento, foi possível obter acesso ao RAS de dois projetos, Central Geradora Eólica (CGE) Coqueiros e CGE Paraipaba I, II e III, para os quais, após a emissão da LP, também foi apresentado um EIA/RIMA. Diante do sistema de AIA apresentado no Capítulo 5 e para compreender melhor o papel do RAS e do EIA/RIMA no processo decisório, foi realizada uma comparação entre o conteúdo dos documentos constantes no processo desses dois projetos.

Devido à dificuldade de acesso aos processos, foi possível avaliar apenas estes dois casos. Portanto, as conclusões desta análise não podem ser extrapoladas para todos os processos, mas exemplificam e indicam elementos do contexto do objeto de estudo.

A seguir, será apresentada uma descrição dos resultados da comparação entre o RAS e o EIA/RIMA elaborados para o licenciamento ambiental da CGE Coqueiros e CGE Paraipaba I, II e III.

CGE Coqueiros

A partir da comparação direta entre os documentos RAS e EIA, observou-se que em geral, o EIA apresenta informações mais detalhadas do projeto e diagnóstico ambiental da área de influência. O diagnóstico ambiental no EIA contemplou informações complementares, especialmente em escala local, porém com mesmo escopo que o RAS, em relação aos componentes ambientais descritos.

A descrição dos componentes da CGE, sistemas elétrico e estruturas associadas à fase de obras também foi apresentada com maior detalhamento no EIA. Observou-se que não foram realizadas alterações significativas no projeto, com exceção da área total do terreno, inicialmente informada 298,8 ha (RAS) e posteriormente 228 ha (EIA).

Também foram constatados trechos do texto similares ou até mesmo idênticos nos dois documentos, como é o caso dos capítulos de descrição das alternativas locacionais e tecnológicas e da descrição de algumas atividades potencialmente causadoras de impactos e de medidas mitigadoras.

Contudo, nenhum dos dois documentos contemplou alternativas locacionais e tecnológicas, apenas uma descrição de alguns fatores usados para a escolha do local e vantagens da fonte eólica em relação à outras fontes de energia.

Para a identificação dos impactos, a metodologia em ambos os documentos foi informada como

“checklist”. Porém, a listagem de impactos usada como base para análise não foi apresentada,

tendo sido denominado como “checklist” o quadro resumo dos impactos identificados. Em relação à avaliação dos impactos, no RAS os atributos avaliados foram caráter, magnitude e duração, enquanto que no EIA são também avaliados a escala e a ordem. Em ambos os documentos, a significância dos impactos não é avaliada.

Em termos quantitativos, no EIA foram identificados 14 impactos a mais do que no RAS. Em ambos estudos, os impactos gerados por mais de uma “ação do projeto” são contabilizados e analisados mais de uma vez, refletindo em um número alto de impactos totais, 126 no EIA e 112 no RAS. O aumento do número total dos impactos está associado à análise de atividades impactantes adicionais e à revisão da relação de causa e efeito em alguns casos.

As atividades adicionadas ao EIA são: Limpeza da área e Interligação com a Subestação. Para as atividades de Manutenção, Funcionamento e Vias de acesso foi identificado um número

maior de impactos no EIA, porém, observou-se que os impactos “adicionais” já haviam sido identificados em outras “ações do projeto”, indicando que o aumento no número total de impactos não está ligado à previsão de impactos não identificados no RAS.

Em relação às medidas de mitigação e programas ambientais de controle e monitoramento, foi possível observar informações mais detalhadas no EIA, assim como a inclusão de 3 programas:

Plano de Auditoria Ambiental, Plano de Comunicação Social, e Plano para identificação de Sítios Históricos e Arqueológicos.

Nota-se que os aspectos particularmente importantes para AIA, como avaliação dos impactos ambientais e análise de alternativas, não foram aperfeiçoados entre o RAS e o EIA, uma vez que as informações apresentadas no RAS foram mantidas de modo muito semelhantes no EIA. Sendo assim, a apresentação de informações mais detalhadas e complementares no diagnóstico ambiental do EIA não indicam ter possibilitado melhoria significativa na identificação e avaliação dos potenciais impactos.

CGE Paraipaba I, II e III

Assim como identificado no processo da CGE Coqueiros, observou-se que em geral, o EIA apresenta informações mais detalhadas do projeto e diagnóstico ambiental da área de influência, mas mantém deficiências nas etapas de análise de alternativas e avaliação dos impactos. No caso da CGE Paraipaba, também se verificou a inclusão de diversos Programas ambientais de controle e monitoramento.

No capítulo de descrição do projeto e diagnóstico ambiental do EIA da CGE Paraipaba I, II e III destaca-se a inclusão de mapas do projeto e do ambiente afetado em escala local, definição de Área de Influência, Inventário Florestal e dados de medição de ruído ambiente e previsão do ruído durante a operação. Por outro lado, também foram identificados textos sem nenhuma alteração em relação ao RAS para caracterização da fauna e meio antrópico, assim como alternativas locacionais e tecnológicas. Destaca-se que não foram apresentadas alternativas locacionais e tecnológicas em nenhum dos estudos.

A mesma metodologia foi utilizada para a identificação e avaliação dos impactos no RAS e EIA. Para identificação o método foi apresentado como “checklist”, porém sem a apresentação da listagem de impactos usada como base para análise. Para avaliação, apenas os atributos de caráter, magnitude, duração, escala e ordem foram considerados. A significância dos impactos não foi avaliada.

Em ambos estudos, os impactos gerados por mais de uma “ação do projeto” são contabilizados e analisados mais de uma vez, refletindo em um número alto de impactos totais: 133 no EIA e

132 no RAS. A partir da comparação entre o quadro de impactos apresentado no EIA e no RAS foi possível verificar que a avaliação dos impactos se manteve praticamente a mesma nos dois documentos, com apenas 6 itens divergentes:

(i) Dois impactos identificados no RAS não foram apresentados no EIA: Incremento

da exploração mineral durante a construção de vias de acesso (positivo) e Produção de resíduos sólidos associado ao canteiro de obras;

(ii) Quatro impactos apresentados no EIA não haviam sido avaliados no RAS:

Crescimento do Comércio Regional durante a montagem das torres; Emissão de gases durante a montagem dos aerogeradores (implantação) e manutenção do

complexo (operação); Interesse Didático pelo Empreendimento na operação; e

Interferência eletromagnética na operação.

A descrição dos impactos por atividade ou etapa do projeto foi exatamente a mesma entre o RAS e o EIA. Contudo, o EIA apresentou de modo complementar uma descrição dos impactos em relação aos meios afetados.

A principal complementação de conteúdo do EIA em relação ao RAS foi a inclusão de 9 Programas ambientais de controle e monitoramento, conforme sintetizada no Quadro 17.

Quadro 17 – Síntese das diferenças sobre os programas ambientais observadas entre o conteúdo do EIA e do RAS elaborados para o projeto CGEs Paraipaba

Programa ambiental RAS EIA

- Plano de Monitoramento da Qualidade da Água (Superficial e Subterrânea); X X - Plano de Recuperação de Áreas Degradadas; X X - Plano de Proteção ao Trabalhador e Segurança do Ambiente de Trabalho; X X - Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR); X X - Plano de Comunicação para as Comunidades Vizinhas ao Empreendimento; X X - Programa de Saúde das Populações Circunvizinhas ao Empreendimento; X X - Plano de Desmatamento Racional X X - Programa de Resgate de Achados do Patrimônio Arqueológico, Cultural e Histórico; X X - Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos da Construção Civil X X - Plano de Monitoramento da Fauna; X X - Plano de Conservação Paisagística; X - Plano de Eventual Desativação do Empreendimento X - Programa de Monitoramento de Avifauna e Quirópteros; X - Programa de Gerenciamento das Áreas de Preservação Permanente (APP); X - Plano de Monitoramento da Qualidade do Solo; X - Plano de Monitoramento do Nível de Ruídos e Vibrações; X - Programa de Educação Ambiental (PEA); X - Programa de Auditoria Ambiental (PAA); X - Plano de Ações de Emergências (PAE); X Fonte: elaborado pela autora

Portanto, assim como no processo da CGE Coqueiros, observa-se que para a elaboração do EIA/RIMA há o levantamento de informações mais detalhadas sobre o meio ambiente

potencialmente afetado e detalhamento do projeto técnico. A maior diferença entre os documentos foi observada para a etapa de mitigação e monitoramento, com a introdução de programas e medidas no EIA, não contempladas no RAS, e informações mais detalhadas sobre os mesmos. No entanto, em relação à análise da viabilidade ambiental e potencial de gerar impactos significativos, não foram observadas melhorias significativas ou alteração do projeto. Se avaliarmos o processo de licenciamento ambiental tal como proposto na Resolução CONAMA 01/86 e 237/97, o objetivo do licenciamento prévio é avaliar a viabilidade ambiental do projeto em relação a sua localização e concepção. Sendo assim, nesta fase é importante que a análise de alternativas locacionais e tecnológicas seja realizada visando à prevenção de impactos e identificação de áreas sensíveis e vulnerabilidade do meio ambiente. O detalhamento das medidas e programas de controle e monitoramento para os potenciais impactos significativos residuais é previsto na etapa do licenciamento de instalação.

Nesse sentido, no caso do projeto da CGE Paraipaba, os resultados indicam que o RAS e o EIA não estão atendendo satisfatoriamente ao propósito da etapa prévia do licenciamento, e o EIA tem apresentado conteúdo vinculado à licença de instalação.