5. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.6. Análise da dimensão 6: Operações/Processos
A transformação das operações/processos inclui escolhas relativas às mudanças e adaptações operacionais necessárias aos atuais processos empresariais (Hess et al., 2016). Por um lado, a automatização das operações permite reduzir significativamente os requisitos de mão-de-obra, melhorar a qualidade dos produtos e aumentar o desempenho ambiental, de saúde e de segurança. Por outro lado, as intervenções tecnológicas na comunicação interna (e-mail, intranet, software corporativo e redes sociais) permitem às empresas virtualizar o trabalho individual, facilitar a partilha de conhecimento entre colaboradores e obter uma visão global e em tempo real das suas operações (Westerman et al., 2014b, 2014a). Por isso, a automatização dos processos operacionais e a intervenção tecnológica de comunicação interna são os dois indicadores da dimensão de transformação digital sob análise. Por um lado, como forma de verificar a integração de tecnologias digitais nos processos operacionais das empresas, foi questionada a sua relevância nas atividades de fabricação do calçado através da Q.8. Por outro lado, como forma de conhecer as intervenções tecnológicas de comunicação interna, foi questionada os canais digitais de comunicação corporativa através da Q.9.
a. Automatização dos processos operacionais
As cinco empresas que fazem parte integrante desta investigação funcionam por subcontratação, não tendo fábrica própria, recorrendo a fabricantes de Viana do Castelo (Augustha), São João da Madeira (Egídio Alves e Josefinas) e Guimarães (Friendly Fire). Numa das empresas, pelo facto de ter nascido de um projeto familiar em Felgueiras, são os próprios membros da família que se
encontram responsáveis pela fabricação do calçado, comprovado pelas expressões “o fabrico do calçado é o meu pai que trata e a minha mãe ajuda também nessa parte” (Entrudo).
Todas as empresas oferecem produtos artesanais, construídos e inspecionados por pessoas, de forma exclusiva ou em séries muito pequenas, valorizados pelo cliente pela singularidade, individualidade e exclusividade – principais razões para a compra de marcas de luxo (Balasyan &
Casais, 2018) – através do “savoir-faire” português. A expressão “savoir-faire” refere-se ao processo artesanal de fabricação do calçado e é utilizada no texto de apresentação no website de três empresas (Entrudo, Friendly Fire e Josefinas). No entanto, uma dessas empresas vai mais longe ao tornar essa expressão num dos três principais valores da marca. Além disso, ao utilizar a expressão “savoir-faire”numa opção na página inicial da sua loja online (Figura 17), a empresa instiga a curiosidade do cliente e leva-o a continuar a navegar pelo website, onde é possível encontrar vídeos, imagens e textos que não só explicam a forma como o calçado é produzido, mas também fornecem informações sobre o segmento do luxo, reforçando a identidade da marca.
Neste sentido, não há valor em automatizar os processos tradicionais, nem em aumentar a produção, caso contrário, a empresa não irá corresponder às necessidades dos consumidores relativamente à exclusividade, diferenciação e criação de valor adicional (Tekic & Koroteev, 2019).
Figura 17 – Opção “Savoir-Faire” na página inicial do website da Josefinas
Fonte: josefinas.pt
A Tabela 30 reúne os excertos retirados das entrevistas de acordo com a Q.8, que comprovam se existe ou não existe automatização dos processos operacionais, de cada empresa que faz parte integrante desta investigação.
Tabela 30 – Casos de estudo de acordo com a Q.8
Excerto retirado das entrevistas Automatização
Augustha
“Os sapatos Augustha são produzidos numa das melhores e mais conceituadas fábricas de calçado em Portugal. Nessa fábrica é privilegiado o trabalho manual, aliado às melhores matérias primas. Foi opção minha fazer os sapatos da forma mais manual possível, pensando na criação de valor. (...) Se transmitirmos ao cliente que os sapatos são feitos com as melhores peles, de forma manual, quase exclusiva, numa fábrica que os produz da melhor forma, isto aliado à passagem de valores de poder, estatuto, exclusividade, faz com que a nossa mensagem chegue da forma correta ao nosso mercado alvo.”
NE
Egídio Alves “Em vez de fazermos 10 000 pares, fazemos 1 000. Mas ganhamos o mesmo de quem faz 10 000 porque são mais caros.”
“Nós procuramos isso, a diferenciação sempre.” NE
Entrudo “Os sapatos têm uma componente manual muito grande (...) o fabrico do calçado é o meu pai que trata e a
minha mãe ajuda também nessa parte.” NE
Friendly Fire
“O calçado é uma área muito específica da indústria que inevitavelmente exige muito trabalho manual e ele existe aqui na empresa, mas tudo o que é possível mecanizar, está mecanizado, ou praticamente tudo.
Portanto, temos as duas vertentes muito bem desenvolvidas.”
“Mesmo a parte de, pelo menos a maquinaria que nós temos cá na empresa, presumo que seja atual e mesmo essa parte exige mão-de-obra física, precisa de operadores digamos assim. Há muita manipulação do produto, em todo o processo.”
NE
Josefinas
“... nós usamos máquinas (...), mas são máquinas que não funcionam autonomamente, isto é, têm pessoas a operar as máquinas e a conseguir que o produto chegue a um determinado estado pelo seu trabalho, por isso é que nós dizemos que trabalhamos com artesãos e é realmente. Não é em todas as fases do produto. Por exemplo, cortar a pele, moldar a pele, tudo isso é manual sem recurso a máquinas.
(...) O nosso foco é sempre a produção manual, ou seja, tentamos que a maior parte do produto seja feita realmente por artesãos e pessoas que têm muita experiência nessa área, mas há coisas que não dá e que é impossível. Nesse caso, não optamos por máquinas robô. Optamos sempre pelos nossos artesãos e sapateiros que têm as máquinas e eles próprios operam para atingir um determinado resultado.”
NE
Fonte: Compilação da autora Legenda: E – Existe NE – Não Existe
b. Intervenção tecnológica de comunicação interna
A utilização de tecnologias digitais nos processos internos permite às empresas unir equipas de trabalho, criar pontes entre departamentos e investir no desenvolvimento de novas competências e pensamento criativo, o que aumenta a produtividade dos colaboradores da organização (von Leipzig et al., 2017). As respostas à Q.9 evidenciam que os canais digitais de comunicação corporativa predominantemente utilizados pelas cinco empresas que fazem parte integrante desta investigação – e-mail, intranet e software corporativo – apresentam a mesma finalidade e são utilizados como sistemas de informação e de acesso, resultados sustentados por Argenti (2006).
Apenas duas empresas fizeram referência à utilização de um software corporativo desenhado e desenvolvido especialmente para si que “reúne toda a informação necessária na empresa, desde
a receção de matérias-primas até à saída de stock” (Friendly Fire) e “onde fica o registo do histórico do desenvolvimento dos produtos” (Josefinas). Por outras palavras, trata-se de um software que assegura um conjunto de atividades interligadas e de relações indispensáveis à criação de determinado produto e/ou serviço, formando uma única entidade virtual (Subramaniam et al., 2019). Desta conectividade digital resulta a otimização dos processos internos – melhor aproveitamento dos recursos existentes e dentro dos esquemas existentes, utilizando as tecnologias digitais (Tekic & Koroteev, 2019) – para uma melhor tomada de decisões estratégicas (Kane et al., 2015). De notar que esse software interno serve meramente para o acesso e partilha de informações, dado que ambas as empresas privilegiam a comunicação pessoal, comprovado pelas expressões “a parte de comunicação é pessoalmente ou via e-mail” (Friendly Fire) e “nós trabalhamos muito próximos uns dos outros na verdade, por isso nós falamos muito e discutimos muito os produtos pessoalmente” (Josefinas).
Apenas duas empresas mencionaram a utilização de redes sociais na comunicação interna, em particular as plataformas digitais WhatsApp (Entrudo) e Instagram (Josefinas), devido à alegada facilidade de acesso e fonte de inspiração, respetivamente, um resultado sustentado por Fitzgerald et al. (2014) e ainda Sisko Maarit Lipiäinen et al. (2014). A Tabela 31 reúne os excertos retirados das entrevistas de acordo com a Q.9, que comprovam se existe ou não existe intervenção tecnológica de comunicação interna, de cada empresa que faz parte integrante desta investigação.
Tabela 31 – Casos de estudo de acordo com a Q.9
Excerto retirado das entrevistas Intervenção
Augustha “Essencialmente o e-mail. Tratamos quase tudo por esta via. Eu não tenho redes sociais, por opção própria, portanto privilégio o webmail da Augustha como forma de conseguir chegar ao contacto com as pessoas que trabalham comigo.”
E
Egídio Alves
“Usamos o e-mail só. Muito o e-mail, mas basicamente é só. Não trabalhamos com nada mais digital que
eu esteja a ver.” E
Entrudo “Na maioria dos casos é por e-mail, senão pelo WhatsApp também costumamos fazer isso e é muito mais fácil. Acho que hoje em dia muitas mais pessoas acabam por agilizar as coisas muito mais facilmente e acabam também por simplificar porque o WhatsApp não é só para falarmos com os nossos amigos, acaba por ser uma boa ferramenta de negócio também.”
E
Friendly Fire “Os processos digitais normais já existem desde sempre, o e-mail, mesmo o software interno de gestão e de comunicação, mas é por aí só.”
“Portanto, nós temos um software desenhado para nós que liga todo o processo produtivo do início ao fim e todos os funcionários tem algum papel nesse software, à exceção dos operários.”
E
• Software
Josefinas
“Mas depois claro, e-mail, redes sociais, telefone, tudo isso em qualquer trabalho (...). Depois temos uma plataforma própria desenvolvida para nós ...”
“Se eu vir alguma coisa que me parece interessante, se calhar vejo no Instagram e envio para a designer porque pode ser uma inspiração interessante. Pronto, é uma comunicação muito informal porque, lá está, somos muito próximos e discutimos aqui as ideias antes de avançarmos.”
E
• Software
• Instagram Fonte: Compilação da autora Legenda: E – Existe NE – Não Existe