4 AS INTERROGATIVAS WH MÚLTIPLAS
5.5 Análise das interrogativas com WH in situ
De acordo com o que vimos no capítulo 2 desta tese, Mioto (1994) mostra que as interrogativas WH in situ do PB se submetem ao Critério WH de Rizzi (1996) no nível LF. Para tanto, os sintagmas WH devem passar por movimento WH em LF a fim de ocupar, neste nível, uma posição que os configure como operadores WH. Isto ocorrendo, o Critério WH será satisfeito através de concordância dinâmica em LF. Note que nesta abordagem é preciso assumir movimento WH em LF.
A partir de Chomsky (1995) e da análise de NHG (2001), vimos que nas interrogativas WH in situ simples não há movimento em sintaxe visível porque o traço WH de C é não-forte. Isso significa que este tipo de estrutura não viola Procrastinar. Neste quadro, então, de acordo com o que vimos na seção 2.3 do capítulo 2 desta tese, podemos tratar as interrogativas WH in situ de duas maneiras diferentes.
Na primeira, podemos assumir que o traço WH do sintagma WH in situ se move em LF a fim de entrar, neste nível, em relação de checagem com o traço WH não-forte de C. Na segunda, podemos postular que não há movimento WH de forma encoberta e que o escopo do sintagma WH in situ precisa ser determinado de outra maneira, como, por exemplo, da maneira proposta por Reinhart (1994). Antes de optar por uma destas análises, é preciso discutir se os sintagmas WH in situ de interrogativas WH simples do PB apresentam diagnóstico de movimento em LF.
Em primeiro lugar, note-se que vimos neste capítulo que sintagmas WH in situ apresentam as mesmas propriedades de escopo WH que sintagmas WH deslocados. Isso significa que as relações de escopo dos sintagmas WH in situ precisam ser legitimadas de alguma forma. Observe-se também que o argumento principal de Reinhart para assumir que não há movimento WH em LF está ancorado na questão de que Subjacência deve ser obedecida também em LF (e não apenas em sintaxe visível, como propôs Huang, 1982). Além disso, vimos no capítulo 4 que WH in situ em PB parece não se mover em LF, já que sintagmas WH in situ violariam Subjacência neste nível.35
Uma das possibilidades de análise para WH in situ seria, pois, adotarmos a abordagem de Reinhart (1994).
Se assumimos esta análise, então os sintagmas WH in situ são interpretados in
situ via funções de seleção. Entretanto, em interrogativas WH simples do PB sintagmas
WH adverbias são bons in situ, o que talvez possa trazer problemas para o tratamento proposto pela autora para os sintagmas WH adverbiais.
Uma análise possível é de qualquer modo considerarmos que sintagmas WH adverbiais em interrogativas WH simples podem ser interpretados in situ. Essa solução, entretanto, além de contrariar a abordagem de Reinhart (1994), nos faria tratar os sintagmas WH adverbiais em interrogativas WH simples de maneira diferente de quando eles aparecem em interrogativas WH múltiplas, já que nessas estruturas adverbiais WH não são bons in situ. Essa diferença de comportamento é inesperada na análise de Reinhart (1994), que aliás só toma como exemplos os fenômenos de WH múltiplo do inglês.
Por outro lado, se assumimos que a abordagem de Reinhart está correta e que, portanto, sintagmas WH adverbiais não podem ser interpretados in situ, mesmo sendo bons in situ em interrogativas WH simples, podemos pensar em uma análise alternativa para eles. Vejamos o conjunto de dados do PB que precisam ser explicados:
(62) a. A Maria falou com o Pedro onde? b.?? Quem falou com o Pedro onde?
c. * Quando a Maria falou com o Pedro onde? d.* Onde a Maria falou com o Pedro quando?
Veja que temos que explicar por que WH adverbiais são bons in situ em interrogativas WH simples (62a), mas são marginais in situ em interrogativas WH múltiplas (62b), ao mesmo tempo em que não podem ocorrer dois WH adverbiais na mesma estrutura (62c-d). Em estruturas múltiplas, WH adverbiais não podem ser interpretados in situ, de acordo com a análise de Reinhart (1994), o que deriva o comportamento de (62c-d); mas o mesmo não ocorre com os sintagmas WH adverbiais em estruturas WH in situ simples e portanto (62a) é o inesperado. Temos aqui dois caminhos a tomar.
No primeiro, mantemos a distinção entre estruturas múltiplas e estruturas simples e assumimos que sintagmas WH adverbiais nas estruturas simples recebem a análise de interpretação in situ de Reinhart (1994) e nas múltiplas eles recebem um outro tipo de análise, a ser apresentado ainda. Veja que este tipo de abordagem coloca
todo o peso na distinção entre interrogativas WH simples e interrogativas WH múltiplas, e por isso fica com o problema de criar dois mecanismos de interpretação e de marcação de escopo para um mesmo item: os sintagmas WH adverbiais.
Ademais, como Reinhart nota, sintagmas WH adverbiais não possuem o conjunto N e, portanto, nem regra-N ou variável, o que implica em eles não poderem ser interpretados via funções de seleção selecionando um indivíduo do conjunto ou um conjunto dentro de um conjunto. E isso, evidentemente, independe do fato de sintagmas WH adverbiais estarem em uma estrutura múltipla ou em uma estrutura simples. Portanto, este primeiro caminho parece estar inexoravelmente comprometido.
O segundo caminho a tomarmos seria unificar o tratamento dos sintagmas WH adverbiais tanto em contextos WH in situ simples como em múltiplos. Isso significa que, uma vez que eles não podem ser interpretados in situ em interrogativas WH múltiplas, eles também não podem sê-lo em estruturas in situ simples, já que adverbiais não apresentam um conjunto N. Resta explicar, entretanto, por que eles são perfeitamente aceitáveis in situ em interrogativas WH simples, mas apresentam problemas se permanecem in situ em contextos múltiplos.
Se sintagmas WH adverbiais não podem ser interpretados in situ, a partir da análise de Reinhart (1994), eles precisam ser interpretados e ter seu escopo marcado de alguma outra forma. Uma análise possível para sintagmas WH adverbiais seria QR , isto é, movimento em LF, o qual deve obedecer, segundo Reinhart, todas as restrições que se aplicam a uma operação de movimento: deve respeitar Subjacência e não pode estar restrito a uma só oração. O que é preciso mostrar, então, é que WH adverbiais obedecem Subjacência, além de poderem ocorrer em outras estruturas, tais como infinitivas simples e complementos ECM. Os exemplos abaixo mostram que de fato WH adverbiais em estruturas in situ simples deve obedecer Subjacência (63) e que podem ocorrer em outras construções, tais como infinitivas simples (64) e complementos ECM (65):
(63) a. ?A Maria encontrou o homem que falou com o João quando? b. *Quando a Maria encontrou o homem que falou com o João?
(64) A Maria parou de fumar quando?
Sintagmas WH adverbiais in situ não estão restritos a um tipo só de oração, como mostram os exemplos em (64)-(65). Por outro lado, violam Subjacência se movidos em LF, como mostra a representação LF de (63a) em (63b). Isso significa que uma análise para os sintagmas WH adverbiais não-D-linked in situ do PB não pode contar com movimento em LF, se supomos que Subjacência deve ser obedecida neste nível.
Já os demais sintagmas WH in situ do PB podem ser interpretados in situ, portanto, a partir da análise de Reinhart (1994), ou seja, sem passar por movimento em LF. Esta abordagem pode ser combinada, pois, à analise de força do traço para dar conta das estruturas do PB simples e múltiplas com WH in situ.
Por outro lado, parece não ser possível compatibilizar a proposta de Reinhart (1994) com o sistema de Critérios. No caso das interrogativas WH múltiplas em que um dos sintagmas WH passa por movimento WH visível, até seria possível combinar as duas abordagens, já que o Critério WH já foi satisfeito, restando apenas interpretar o sintagma WH que permaneceu in situ. Contudo, o Critério WH enfrenta problemas nas estruturas WH in situ simples e nas estruturas múltiplas em que todos os sintagmas WH permanecem in situ em SS, já que não haveria movimento WH em LF para que o Critério WH fosse satisfeito através da configuração Spec-núcleo. Se o Critério WH não for satisfeito, não se pode sequer interpretar a sentença como uma interrogativa.
5.6 Resumo do capítulo
Este capítulo discutiu o comportamento das interrogativas com WH in situ do PB, procurando mostrar de que forma o sistema de Critérios de um lado e a teoria de força do traço de outro lidam com os fenômenos das interrogativas WH in situ do PB. Para o sistema de Critérios, tais estruturas não são problemáticas, já que WH in situ não se configura como operador, não violando, portanto, o Critério WH, que será satisfeito via concordância dinâmica em LF. O problema desta abordagem, no entanto, é que parece que os sintagmas WH in situ do PB não passam por movimento WH em LF. Se em PB permanecem in situ neste nível, então o sistema de Critérios não explica satisfatoriamente os dados desta língua.
No caso da abordagem de traços, uma vez que o traço WH de C é não-forte, não há necessidade de o sintagma WH se mover em sintaxe visível, o que o faz permanecer
in situ. Como os sintagmas WH in situ de interrogativas WH simples do PB de forma
geral apresentam evidências de permanência in situ, optamos por interpretá-los utilizando a análise de Reinhart (1994) Assim, os sintagmas WH in situ do PB são interpretados via funções de seleção e tomam escopo de forma não seletiva, à exceção dos sintagmas WH adverbiais, os quais carecem ainda de uma análise plausível que não deve colocar em jogo movimento em LF, se levamos em conta as sentenças em (63) acima.
Vimos também que a análise interpretativa de Reinhart (1994) não é compatível com o sistema de Critérios, já que nas interrogativas em que todos os sintagmas WH permanecem in situ em SS o Critério WH não pode ser satisfeito. Isto porque na análise de Reinhart há possibilidade de movimento em LF somente para os sintagmas WH adverbiais, mas não para os demais sintagmas.