4 AS INTERROGATIVAS WH MÚLTIPLAS
4.2 Descrição tipológica
4.2.1 Interrogativas WH múltiplas nas línguas em geral
4.2.1.1 As interrogativas WH múltiplas matrizes do PB
4.2.1.1.2 Quando um dos sintagmas WH é argumento e o outro é adjunto
Interrogativas WH múltiplas que combinam um argumento e um adjunto, embora sejam razoavelmente boas, apresentam problemas de aceitabilidade entre os falantes. Nas sentenças abaixo, nas quais temos sintagmas WH objeto direto e adjunto, a interrogativa (14b), na qual o adjunto onde aparece no início da sentença, é melhor do que a interrogativa (14a) com o adjunto no final da sentença. Observe igualmente que neste caso os elementos WH não podem permanecer ambos in situ, como em (14c):
(14) a. ??Quem o João viu onde? b. ?Onde o João viu quem? c. *O João viu quem onde?
Observe que o paradigma é o mesmo com adjuntos do tipo quando e como:9
(15) a. ??Quem o João viu quando/como? b. ?Quando/como o João viu quem? c. *O João viu quem quando/como?
Se na combinação adjunto / objeto direto este último for [- animado], em (16) abaixo, então os sintagmas WH podem marginalmente permanecer in situ (16a) ou
9 O elemento WH adjunto por que não pode ser o segundo sintagma WH em uma interrogativa múltipla
(i)-(ii) do PB. Este comportamento peculiar é observado não só no PB, como também em outras línguas como o inglês (iii) (Xu, 1990:374):
(i)*Quem o João viu por quê? (ii)*O João viu quem por quê?
(iii)*I wonder who bought the books why?
/eu quero saber quem comprou os livros por que/ “Eu quero saber quem comprou os livros por quê?”
Para uma explicação do comportamento peculiar de por que na língua inglesa veja Stroik (1992). Para uma explicação dos sintagmas WH adverbiais do PB, veja capítulo 5 desta tese.
qualquer um dos dois pode aparecer no início da sentença (16b-c), embora tais interrogativas não sejam totalmente aceitáveis:
(16) a. ??A Maria comprou o que onde? b. ?O que a Maria comprou onde? c. ?Onde a Maria comprou o quê?
Além disso, a interrogativa se torna agramatical se ambos estiverem no início da sentença, como mostra (17) abaixo:
(17) a. *O que onde a Maria comprou? b. *Onde o que a Maria comprou?
No caso de os sintagmas WH objeto direto e adjunto não estarem adjacentes, como em (18) abaixo, em que um objeto indireto os separa, a interrogativa ainda assim apresenta problemas:
(18) ??A Maria emprestou o que pro João quando?
Por outro lado, se um dos sintagmas for movido para o início da sentença, aquela que apresenta o adjunto in situ é pior do que aquela que apresenta o objeto direto in situ. Veja os dois casos em (19a) e (19b), respectivamente:
(19) a. ??O que a Maria emprestou pro João quando? b. ?Quando a Maria emprestou o que pro João?
No caso de interrogativas que combinam sintagmas WH objeto indireto e adjunto, a sentença é agramatical se os dois sintagmas permanecem in situ, como é o caso de (20a) abaixo. Se um dos sintagmas WH é movido para o início da interrogativa, novamente aquela com o adjunto in situ será pior, como mostra (17b), em contraste a (20c), com objeto indireto in situ:
(20) a. *A Maria emprestou o livro pra quem quando? b. ??Pra quem a Maria emprestou o livro quando? c. ?Quando a Maria emprestou o livro pra quem?
Veja que também não é possível mover ambos os sintagmas WH para o início da sentença, como mostra (21) abaixo:
(21) a. *Pra quem quando a Maria emprestou o livro? b. *Quando pra quem a Maria emprestou o livro?
Observe que o problema maior nas interrogativas acima sempre está naquelas que apresentam um adjunto in situ, tanto em interrogativas nas quais ambos os sintagmas WH estão in situ como naquelas em que o outro elemento WH (objeto direto ou indireto) foi movido para o início da sentença. Todavia se os sintagmas WH adjuntos são do tipo D-linked, este problema desaparece, como mostram os contrastes abaixo:
(22) a. ??Quem o João viu onde? b. ?Onde o João viu quem? c. *O João viu quem onde?
(23) a. Que professor o João viu em que bar? b. Em que bar o João viu que professor? c. O João viu que professor em que bar?
(24) a. *A Maria emprestou o livro pra quem quando? b. ??Pra quem a Maria emprestou o livro quando? c. ?Quando a Maria emprestou o livro pra quem?
(25) a. A Maria emprestou o livro pra que aluno em que dia? b. Pra que aluno a Maria emprestou o livro em que dia? c. Em que dia a Maria emprestou o livro pra que aluno?
As interrogativas em (22) e (23) apresentam sintagmas WH adjunto e objeto direto e as interrogativas em (24) e (25) apresentam sintagmas WH adjunto e objeto
indireto. Observe que nos exemplos (23) e (25), que apresentam sintagmas WH D-
linked, não há mais problema em o adjunto permanecer in situ.
Além disso, interrogativas WH múltiplas são agramaticais se os dois sintagmas WH estiverem do início da sentença. Todavia, se os elementos WH são do tipo [WH+N], as sentenças se tornam melhores e a agramaticalidade mostrada acima nos exemplos (17) para objeto direto e adjunto e (21) para objeto indireto e adjunto desaparece. Isso pode ser visto nas interrogativas em (26) e (27), respectivamente:
(26) a. ??Que livro em que loja a Maria comprou? b. ??Em que loja que livro a Maria comprou?
(27) a. ?Pra que aluno em que dia a Maria emprestou o livro? b. ?Em que dia pra que aluno a Maria emprestou o livro?
Em uma interrogativa WH múltipla é possível combinar também sujeito e adjunto, como mostra (28) abaixo. Novamente, a sentença em (28a), na qual o adjunto
onde aparece in situ, tem problemas de aceitabilidade. Por outro lado, os dois sintagmas
WH no início tornam a sentença agramatical (28b):
(28) a. ?Quem comprou o livro onde? b. *Onde quem comprou o livro?
Contudo, observe em (29a) abaixo que, se o sintagmas forem do tipo [WH + N], a sentença é aceitável mesmo com o adjunto em que livraria no final da sentença. De maneira semelhante, a interrogativa (28b) acima, que era agramatical com os dois sintagmas WH simples no início da sentença, torna-se um pouco mais aceitável com sintagmas [WH + N], em (29b):
(29) a. Que aluno comprou o livro do Fernando Pessoa em que livraria? b. ??Em que livraria que aluno comprou o livro do Fernando Pessoa? d. ?Que aluno em que livraria comprou o livro do Fernando Pessoa?
Nesta seção, vimos que interrogativas WH múltiplas em que um dos sintagmas WH não-D-linked é um adjunto (in situ ou deslocado) apresentam problemas de aceitabilidade. Por outro lado, se as mesmas sentenças são construídas com sintagmas
WH D-linked, elas se tornam gramaticais. A tabela abaixo resume os fenômenos em relação a interrogativas WH múltiplas que apresentam um sintagma WH argumento e outro adjunto:
(30) Gramaticalidade da interrogativa quanto à posição que sintagmas WH múltiplos argumento/adjunto ocupam na sentença em sintaxe visível
Ambos in situ 1 movido e 1 in situ Ambos movidos
N-D-linked D-linked N-D-linked D-linked N-D-linked D-linked
ADJ / OD − − ? Ok * ?? OD / ADJ * / ??10 Ok ?? Ok * ?? ADJ / OI − − ? Ok * ?? OI / ADJ * Ok ?? Ok * ?? SUJ / ADJ − − ? Ok * ? ADJ / SUJ − − * ?? * ??
Já a tabela abaixo resume o comportamento das interrogativas com sintagmas WH argumento/adjunto quanto ao Efeito de Superioridade:
(31) Efeito de Superioridade em interrogativas WH múltiplas matrizes quanto à posição que sintagmas WH argumento/adjunto ocupam na sentença:
Não-D-linked D-linked ADJ / OD OD / ADJ ADJ / OI OI / ADJ SUJ / ADJ *ADJ/ SUJ ADJ / OD OD / ADJ ADJ / OI OI / ADJ SUJ / ADJ ??ADJ/ SUJ
10 * = objeto direto [+ animado]
Veja que a única sentença que apresenta Efeito de Superioridade visível é aquela na qual o sintagma WH adjunto precede o sintagma WH sujeito. Note também que a sentença melhora com sintagmas WH D-linked.
Na próxima seção, examinaremos como se comportam interrogativas WH múltiplas que apresentam apenas adjuntos.