A Análise de Discurso Francesa (AD) é a principal metodologia adotada neste estudo. Esta teve origem na segunda metade da década de 60, como uma escola de pensamento lingüístico e filosófico, configurada na confluência entre o Marxismo, a Lingüística e a Psicanálise. As pesquisas em AD foram consagradas com a publicação, em 1969, por Michel Pêcheux, seu maior expoente, do número 13 da revista Langages, com o título “A análise de discurso”, e de
Analyse Automatique du Discours (MAINGUENEAU, 1998; ADINOLFI, 2005).
A Análise de Discurso Francesa se aproxima do campo da Lingüística ao levar em consideração que a linguagem não é neutra nem transparente, ou seja, “a relação linguagem / pensamento / mundo não é unívoca, não é uma relação que se faz termo-a-termo, isto é, não se passa diretamente de um a outro” (ORLANDI, 2002, p. 19). Esta relação pressupõe que “os sentidos não estão assim predeterminados por propriedades da língua. Dependem de relações constituídas nas/pelas formações discursivas” (idem, p. 44).
Para Bakhtin (1997), a expressividade da palavra isolada não é propriedade da própria palavra, enquanto unidade da língua, e não decorre diretamente de sua significação. Ela se prende quer à expressividade padrão de um gênero, quer à expressividade individual do outro que converte a palavra numa espécie de representante do enunciado do outro em seu todo – um todo por instância determinada de um juízo de valor.
A contribuição do Marxismo (do Materialismo Histórico) vem da pressuposição de que há um real na história e de que o homem faz história, mas esta também não lhe é transparente. “Daí, conjugando a língua com a história na produção de sentidos, esses estudos do discurso trabalham o que vai-se chamar a forma material (não abstrata como a da Lingüística) que é a forma encarnada na história para produzir sentidos: esta forma é portanto lingüístico- histórica” (ORLANDI, 2002, p. 19).
A filiação com a Psicanálise acontece porque a AD desloca a noção de homem para a de sujeito e leva em conta que este sujeito é afetado pela língua e pela história e constitui-se na relação com o simbólico. Segundo Orlandi (2002, p. 20), o sujeito discursivo funciona pelo inconscie nte e pela ideologia.
O quadro epistemológico desenhado por Pêcheux no final da década de 60 desdobrou-se, principalmente a partir da década de 80, em inúmeras outras correntes, que mantêm familiaridades variadas com o primeiro.
A opção por AD, neste estudo, justifica-se pela necessidade de compreender como as matérias de CT&I dos telejornais produzem sentidos (designados em AD de “efeitos de sentidos”) – e como os sujeitos se constituem (e a seus receptores). A respeito dos meios de comunicação, Orland i (1996) considera que, dada a complexidade do campo da Comunicação, a Análise de Discurso, além dos mecanismos intradiscursivos de que trata a Semiótica (e sem desprezá- los), procura dar conta da Comunicação como resultado das condições sócio-históricas. Tais condições sócio-históricas são tomadas no trabalho como o contexto imediato (a relação do que é divulgado pela matéria de CT&I e o acontecimento em si, bem como com os demais fatos divulgados pelos telejornais) e o contexto mais amplo (as relações sociais e institucionais e como tais matérias produzem efeitos de sentidos em consonância com o que circula – e o que é impedido de circular – na/pela sociedade).
O objetivo foi empregar o dispositivo de interpretação proposto pela AD e lançar mão deste para a análise das matérias de CT&I dos telejornais. “Este dispositivo tem como característica colocar o dito em relação ao não-dito, o que o sujeito diz em um lugar com o que é dito em outro lugar, o que é dito de um modo com o que é dito de outro, procurando ouvir, naquilo que o sujeito diz, aquilo que ele não diz mas que constitui igualmente os sentidos de suas palavras” (ORLANDI, 2002, p. 59). “Através do dispositivo analítico – cuja forma é determinada pela relação entre a natureza do material analisado, a questão posta pelo pesquisador e os procedimentos analíticos escolhidos – o analista vai formular os resultados no batimento entre descrição e interpretação” (ORLANDI, 2001, p. 52) (grifo nosso).
A Análise de Discurso Francesa tem o discurso como objeto de estudo. “O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando” (ORLANDI, 1996). O discurso, para Baccega (1998), é o lugar de encontro entre o lingüístico e as condições sócio-históricas constitutivas das significações, e a Análise de Discurso se constrói nesse encontro. A Análise de Discurso, segundo a autora, não vai ao texto para extrair o sentido, mas para apreender a sua historicidade, o que significa ao analista do discurso colocar-se no interior de uma relação de confronto de sentidos.
Para dizer, o sujeito é constituído pela ideologia e se submete à língua. Na concepção de AD tomada neste estudo, o indivíduo é assujeitado pela língua, significando-se e fazendo significar pelo simbólico na história. “Quando dizemos que o sujeito, para se constituir, deve- se submeter à língua, ao simbólico, é preciso acrescentar que não estamos afirmando que somos pegos pela língua enquanto sistema formal, mas sim pelo jogo da língua na história, na produção dos sentidos” (ORLANDI, 2001, p. 102). Para Manhães (2005, p. 306), a Análise de Discurso Francesa é caracterizada pela ênfase ao assujeitamento do emissor, que se expressa na incorporação de discursos sociais instituídos, como o religioso, o científico, o filosófico, o mitológico, o poético, o jornalístico, o publicitário, o corporativo etc.
Neste estudo é adotado o referencial teórico-metodológico da Análise de Discurso Francesa em relação às contribuições desta para a análise de matérias sobre CT&I do telejornalismo, a partir dos pressupostos lançados por Pechêaux, principalmente na perspectiva do discurso como acontecimento, lugar de dispersão de diversos sentidos. Dentre os autores com os quais se dialoga estão Foucault (2000; 2002), Ducrot (1981), Orlandi (1987; 1993; 1996; 2001; 2001b; 2002), Maingueneau (1998; 2001) e Althier-Revuz (1999). Dentro desse quadro teórico, as principais formulações da AD trabalhadas/discutidas são:
Formação discursiva: A Análise de Discurso Francesa trabalha com a noção de formação discursiva a partir de colaborações de autores como Foucault, Pêcheux e Althier-Revuz, levando em conta a heterogeneidade do discurso. É a formação discursiva que determina o que pode e deve ser dito a partir de uma posição dada numa conjuntura dada (MAINGUENEAU, 1998; ADINOLFI, 2005). Dessa forma, um discurso pode adquirir variados sentidos de acordo com a posição ocupada pelo sujeito, e um mesmo sujeito pode atribuir sentidos diferentes a um mesmo discurso, variando a posição ocupada por ele no jogo discursivo. “O sentido das palavras é completamente dependente das diversas formações discursivas em que elas aparecem, ou seja, de memórias que determinam os sentidos permitidos para aquelas palavras, memórias que constituem o já-dito, que autorizam certos sentidos e desautorizam outros” (ADINOLFI, 2005, p. 64). Para Orlandi (2001, p. 103), a formação discursiva representa o lugar de constituição do sentido e de identificação do sujeito.
Papel: Trata-se das posições que ocupam os participantes de uma determinada interação dialógica. É na interação que são construídos/negociados os papéis dos sujeitos. Atribui-se ao conceito de papel duas concepções: o papel discursivo, que é ocasional e refere-se à posição ocupada e à função desempenhada pelo s participantes do diálogo e o papel institucional que se refere aos papéis institucionalizados e estão em íntima relação com o status social dos participantes do processo dialógico. “Não é necessário ser professor por profissão para se encontrar numa posição de ensinamento numa interação. Ademais, os papéis são constantemente percebidos com relação ao status: um patrão que, na interação com um subordinado, desempenha o papel de confidente, permanece também patrão, com toda a ambigüidade que isso implica” (MAINGUENEAU, 1998, p. 103).
Discurso de Divulgação Científica: O entendimento sobre a constituição do discurso da Divulgação Científica é visto de formas diferentes por autores de AD. Para Althier-Revuz (1999, p. 12), o discurso de Divulgação Científica é constituído pela tradução (de menor qualidade) do discurso científico. “No nível do fio do discurso, é a comparação com a tradução que me parece a ma is esclarecedora: o divulgador é freqüentemente representado como um perito em tradução, a quem é necessário recorrer em virtude de uma ´ruptura` de comunicação na sociedade (...)”. Em contraposição a essa visão, Orlandi (2001) afirma que o discurso de Divulgação Científica não se trata de tradução do discurso científico, pois não são duas línguas diferentes, mas são dois discursos diferentes na mesma língua. “O discurso de divulgação científica não é uma soma de discursos: ciência mais jornalismo igual divulgação científica (C + J = DC). Ele é uma articulação específica com efeitos particulares, que se produzem pela injunção a seu modo de circulação, estipulando trajetos para a convivência social com a ciência” (ORLANDI, 2001, p. 151). De outra perspectiva ainda, Zamboni (2001) defende que o discurso de Divulgação Científica resulta de um trabalho de formulação de um novo discurso, “que se articula, sim, com o campo científico – e o faz sob variadas formas – mas que não emerge dessa interferência como o produto de uma mera reformulação de linguagem. Muito menos corporificando a imagem de um discurso da ciência ´degradado`, que celebraria, de seu lugar de vulgarizado, o discurso absoluto da ciência”, enfim, segundo ela, o discurso de Divulgação Científica trata-se de um gênero de discurso específico. Neste trabalho, o discurso de Divulgação Científica é tomado a partir da perspectiva defendida por Zamboni (2001).
Ethos e tom: O conceito de ethos, desdobramento da retórica tradicional, é tomado neste
trabalho como a personalidade do enunciador revelada pela enunciação. Esse ethos, segundo Maingueneau (2001), compreende o conjunto das determinações físicas e psíquicas ligadas pelas representações coletivas à personagem do enunciador. Trata-se dos atributos ligados a um caráter (gama de traços psicológicos) e a uma corporalidade (gama de traços psicológicos). Além das características atribuídas a si mesmo pelo sujeito enunciador e reconhecidas pelo co-enunciador, o discurso também apresenta um tom, uma forma específica de conduzir o discurso, que permite ao co-enunciador, segundo Mainguene au (2001), construir uma representação do enunciador.
O dito e o não-dito: A relação entre o que é dito e não-dito em determinado discurso tem sido objeto de análise de diversos autores. Ducrot (1981) distingue entre pressuposto, aquilo que não é dito, mas que deriva da própria linguagem, e subentendido, como aquilo que se dá em determinado contexto. Orlandi (1993; 2002) trabalha o não-dito a partir da perspectiva de
silêncio. A autora distingue o silêncio fundador (que indica que o sentido pode ser outro) e a política do silêncio. A política do silêncio, por sua vez, dividi-se em duas: a do silêncio
obrigatoriamente, não dizer outras coisas – e o silêncio local, caracterizado como censura, algo que é proibido dizer em determinada circunstância.
Inferência: Tomada aqui na concepção de Ducrot (1981) para o qual existem, em certos enunciados da linguagem comum, relações de inferência, tais que se admitimos uns somos obrigados a admitir os outros. Maingueneau (1998) avalia que inferências são as proposições implícitas que o co-enunciador pode tirar de um enunciado apoiando-se nesse mesmo enunciado ou em informações tiradas do contexto da enunciação.
Este trabalho também tem como premissa o dialogismo da linguagem – princípio lançado por Bakhtin, que considera o dialogismo (a interação entre sujeitos e as coisas e entre os próprios discursos) a condição de existência de todo e qualquer discurso. De acordo com Bakhtin (1997), o dialogismo ocorre de duas formas: uma delas é a de que todo discurso é constituído no meio do “já-dito” por outros discursos. Para o autor, todo discurso traz a memória de outros discursos, visto aqui como interdiscurso. Segundo ele, todo discurso remonta outros discursos. A outra se refere ao destinatário5 do discurso: todo discurso é produzido levando em conta a quem ele se destina. Dessa forma, o destinatário tem papel ativo na formulação de todo discurso. O autor ressalta que o destinatário, e a sua presumida resposta, faz com que o locutor selecione os recursos lingüísticos de que necessita. Dessa forma, as marcas do destinatário estão presentes no discurso.