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2.3) Conceitos e problemática 2.3.1) Conceitos de CT&

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Ao longo do tempo, tem havido grande dificuldade, por parte de pensadores, em definir o conceito de Ciência e de conhecimento científico. Não há una nimidade entre os autores sobre a concepção de Ciência e esta muda com o próprio desenvolvimento da Ciência. Os Estudos Sociais da Ciência (ESC) reúnem uma gama de disciplinas que, de formas distintas, tentam dar explicações sobre o “fazer científico”. Diferentes concepções do que é Ciência têm sido oferecidas pelas grandes matrizes disciplinares que tratam do assunto: a Filosofia da Ciência, a História, a Sociologia do Conhecimento e a Sociologia da Ciência. As diferenças de posicionamentos levam em conta o valor que é dado à Ciência enquanto produção de conhecimento.

Para a Filosofia da Ciência, a demarcação do que é – e do que não é – Ciência tem sido o interesse principal. A resposta dada pela Filosofia é de que a Ciência é mutável com o passar do tempo. Pensadores dessa corrente têm como foco de atenção a forma como a Ciência foi concebida e operacionalizada com o objetivo de submetê- la à medição estatística. Para isso, pesquisadores desenvolveram, ao longo do tempo, critérios de delimitação do conhecimento cient ífico que consideravam a distinção do conhecimento científico de outros tipos de conhecimento. Entre os critérios tomados como base para a delimitação da Ciência estão: os

falseabilidade. No entanto, apesar dos esforços, nenhum dos critérios é capaz de satisfazer, de

forma absoluta, a todos os casos. Woolgar (1991), contestando tais critérios, avalia que o conhecimento científico não é o resultado da aplicação de regras de decisão pré-existentes a hipóteses particulares ou generalizações.

A História analisa o processo de desenvolvimento da Ciência ao longo do tempo para procurar defini- la. Nesse aspecto, segundo a corrente histórica, a organização da Ciência passou por três etapas: Amateurs (Amadores) (entre 1600 e 1800), período em que a Ciência era realizada fora de universidades, de instituições governamentais e do governo. A Ciência, naquela época, era desenvolvida por profissionais economicamente independentes;

Acadêmica (de 1800-1940) época em que se passou a dar maior atenção à formação técnica

dos pesquisadores. Essa época foi marcada pelo ingresso e desenvolvimento das atividades científicas nas universidades; Profissional, que corresponde à etapa atual (depois de 1940), caracterizada pelo aumento gradual dos esforços dos cientistas em dar aplicabilidade e utilidade ao conhecimento científico e da inserção dos pesquisadores em grandes grupos. De acordo com Woolgar (1991), a partir de então, o trabalho científico se organiza progressivamente segundo padrões disciplinares especializados. Além disso, a preparação de novos membros da comunidade científica converte-se em parte das obrigações dos cientistas. Dentro da perspectiva da História, a partir dos anos 60 proliferaram estudos quantitativos que procuravam demarcar a especialidade do conhecimento científico. Um dos pioneiros desta tendência é Solla Price (1980). As análises quantitativas do autor basearam-se nos artigos publicados em revistas científicas. A Ciência, para Solla Price (1980), pode ser definida como sendo os trabalhos que tenham resultado em publicações em revistas indexadas. Os artigos científicos são fontes seguras de investigação para o autor, devendo isso aos critérios metodológicos de avaliação dos artigos.

Através do aumento exponencial das publicações – que tem sido constante durante vários séculos, o autor avaliou que, em todos os campos do conhecimento e em quase todos os países, o número de publicações científicas tem duplicado a cada dez ou quinze anos. A partir daí, afere que cada um desses artigos produz a média de uma citação por ano e que cada novo artigo refere-se a mais ou me nos doze citações. Sendo assim, ele avalia que, a cada dez anos, há uma duplicação da Ciência.

Em relação à Tecnologia, Solla Price (idem) a considera como inter-relacionada à Ciência e admite que ambas se desenvolvem ao mesmo ritmo. Ele define Tecnologia como aquela investigação cujo produto principal é uma máquina, um medicamento, um produto ou um processo de qualquer tipo, e não um artigo. Com uma taxa de crescimento similar a da Ciência, a Tecnologia se desenvolve, segundo ele, na maioria das vezes, como a Ciência, a partir da acumulação de conhecimentos. No entanto, essa não pode ser mensurada através dos artigos científicos. A análise da Tecnologia pode ser feita através das patentes.

Solla Price (ibidem) faz uma diferenciação entre Ciência e Tecnologia a partir das publicações. Enquanto na Ciência há um incentivo à publicação de artigos em revistas especializadas, na Tecnologia procura-se, ao máximo, ocultar o processo de desenvolvimento, devido à concorrência para obter um novo produto ou processo antes dos outros.

Algumas críticas podem ser feitas à metodologia utilizada por Solla Price (ibidem) e também às suas conclusões. A definição de Ciência que ele utiliza (os artigos publicados em revistas indexadas) deixa de fora muitos outros trabalhos que, por diversos motivos, não alcançaram

estas revistas. Outro aspecto que pode ser contestado refere-se ao vínculo do crescimento da Ciência ao aumento do número de publicações. A mesma observação pode ser feita para a Tecnologia, já que nem todo produto ou processo tecnológico resulta em patentes. Este método pode avaliar quantitativamente um aumento da produção científica, mas, de modo algum, pode fornecer dados sobre o que isso representa em termos de avanço no conhecimento ou mesmo de desenvolvimento qualitativo da Ciência e de investimento nas pesquisas.

Os pensadores da Sociologia do Conhecimento, por outro lado, acreditam que há uma certa variedade do que é Ciência diante do contexto social em que esta é gerada. Woolgar (1991) explica que a maior especialização e diferenciação da Ciência têm exigido um aumento do controle (tanto interno quanto externo) das organizações sociais. De acordo com o autor, tem havido um grande investimento na Ciência e grandes gastos em equipamentos e técnicas especializadas para possibilitar o trabalho em equipe. O cientista agora pertence a uma complexa rede social.

Para alguns pesquisadores da Sociologia da Ciência, a preocupação tem sido em como a Ciência, enquanto instituição social em rápido crescimento, se auto-organiza e auto-regula. Tem-se prestado atenção especial na relação existente entre os produtores do conhecimento e seus contextos: suas relações sociais, a natureza do sistema de financiamento, a competitividade e, especialmente, o sistema de normas segundo a qual guiam-se as ações dos cientistas. “A sociologia da ciência originalmente teve como foco a estrutura institucional da ciência, para, mais tarde, abordar os grupos de pesquisa e as interações no laboratório, incluindo o próprio conhecimento científico dentro de seu objeto de estudo” (DAGNINO & THOMAS, 2002, p. 09).

Bucci (2000), dentro desta perspectiva, avalia que, atualmente, o desenvolvimento científico não é mais público – ele foi privatizado nas grandes corporações, incorporado pela atividade econômica na condição de um fator estratégico para o lucro de longo prazo. “Vale dizer: a Ciência foi privatizada na sociedade contemporânea” (p. 196).

A Ciência e a Tecnologia relacionam-se mutuamente, de modo que uma depende da outra para o próprio desenvolvimento de cada uma delas. De acordo com Solla Price (1980), a Ciência sem a Tecnologia é estéril e, em diversos casos em que a sociedade decidiu pagar pela Tecnologia, que dava maior retorno econômico imediato, e desprezar a Ciência, a Tecnologia entrou em coma.

Segundo Bunge (1980, p. 31) a diferença entre Ciência (básica e aplicada) e Tecnologia é que, enquanto a Ciência se propõe a descobrir leis que possam explicar a realidade em sua totalidade, a Tecnologia se propõe a controlar determinados setores da realidade, com a ajuda de todos os tipos de conhecimento, especialmente os científicos.

A Ciência, para Martínez (1998), é um sistema organizado de conhecimentos referentes à natureza, à sociedade e ao pensamento. Eventualmente, a Ciência pode ser aplicada à produção ou à distribuição de bens e serviços, mas somente de forma indireta e imediata. Em sentido mais amplo, segundo o autor, a Ciência não é neutra, alheia aos valores ou não- normativa, mas, de forma semelhante a outras formas de organizar a realidade e disponibilizar informação, a Ciência é gerada em contextos históricos e sociais que implantam seus va lores e interesses sociais em sua estrutura.

Martínez (idem) afirma que Ciência e Tecnologia se encontram extraordinariamente inter- relacionadas. Por um lado, segundo ele, há uma crescente “cientificação da produção”. Por outro, a Ciência e o conhecimento científico, freqüentemente, requerem soluções técnicas para seus problemas e materialização de suas descobertas.

Para o autor, Tecnologia é o conjunto de conhecimentos e métodos para o desenho, a produção e a distribuição de bens e serviços. É, segundo ele, um sistema de conhecimentos técnicos.

A Inovação, para Martínez (ibidem), trata-se da introdução de uma técnica, produto ou processo de produção ou serviço novos. Para ele, é um processo que, com freqüência, é seguido de um processo de difusão. Existem, para Martínez, três tipos de Inovação: de produto, de processo e organizativa (no âmbito das empresas).

A Invenção trata-se da descoberta ou desenho de um produto, processo ou sistema novo. A Invenção, para Martínez (ibidem), é uma contribuição discernível e pontual ao conhecimento técnico, à mudança tecnológica, ainda que não seja a única forma na qual a Tecnologia muda. A Invenção, segundo ele, é uma etapa do desenvolvimento tecnológico na qual uma idéia tem avançado suficientemente para desenhar planos, construir um modelo de trabalho ou de alguma forma determinar a factibilidade técnica.

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