em 14 de Novembro de 1975 , que criou o Programa Nacional do Álcool
4.1.3 Análise do processo decisório do Proálcool
Tomando como base o estudo de Santos pode‐se verificar que o processo decisório do Proálcool foi marcado por um sistema de representação de interesses voltado à defesa dos objetivos do grande capital, no qual se identificam práticas de lobby e a existência de vínculos horizontais temporários, típicos do modelo dos aneis burocráticos praticados no regime militar de . Ademais, por se estar diante de um regime militar não‐democrático, todo o processo de discussão da política pública esteve inserido no âmbito do Executivo, com a ausência da participação do Legislativo. Contudo, observam‐se manifestações públicas da COPERSUCAR, o que aponta também para o início da distensão política.
Por conta das disputas interburocráticas, Santos demonstra claramente que a palavra final e o rumo definitivo da política pública estiveram nas mãos do presidente Geisel, que conferiu prioridade ao tema e cujo posicionamento determinou o encaminhamento da política. Todo o período de conflitos e indefinições quanto ao rumo do Proálcool foi encerrado no momento em que Geisel decide envolver‐se e interferir diretamente no problema:
As preferências do Presidente tomam imediata precedência sobre todas as dos demais atores. ... Quando ele decide interferir, a resultante das forças em jogo tem sempre a direção de suas preferências de política
Santos, , p. .
Isso é acentuado, principalmente, quando se verifica que o lócus central de decisão do Programa acabou sendo o Conselho de Desenvolvimento Econômico CDE , presidido
por Geisel. Mantega destaca o poder centralizador de Geisel e a importância do CDE nas decisões de governo:
Desde o primeiro dia de governo, [Geisel] deslocou o eixo da política econômica para o planejamento, reduzindo o poder da Fazenda e colocou a si próprio como comandante e chefe das grandes decisões dessa área estratégica do Governo, ocupando o assento de presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico ... . Geisel fez um governo imperial, que exerceu, em sua plenitude, a espantosa carga de poder que pode reunir um chefe de Estado no Brasil, munido de vários instrumentos de arbítrio MANTEGA, , pp.. , .
E quanto à estrutura de participação social no processo decisório, Santos afirma, em estudo posterior, que neste período há:
... um sistema de representação de interesses que elimina os grupos desprivilegiados e se abre complexamente ao grande capital através de representações coletivas associações corporativas oficiais e paralelas e individualizadas, formais, informais e institucionais‐informais agências atuando como brokers de interesses privados junto a outras instancias burocráticas , além de anéis burocráticos SANTOS, , p.
.
E no caso específico do processo decisório do Proálcool, verificamos que nele, de fato, se apresentam as formas de intermediação de interesses próprias do regime militar de , por meio do predomínio das práticas dos aneis burocráticos e uso do lobby. O corporativismo bifronte também está presente, porém de maneira bem menos acentuada.
O corporativismo bifronte é identificado apenas na relação entre o IAA e os plantadores de cana e produtores de açúcar, que possuem assento no conselho deliberativo do Instituto SANTOS, , p. . Mas, vale mencionar, a COPERSUCAR, principal entidade de representação dos interesses da indústria sucroalcoleira paulista não se vê representada pelo órgão.
Inclusive, a estrutura corporativa oficial, formada por sindicatos pertencentes à estrutura criada por Vargas, atua ao lado das associações de representação de interesse paralelas que, deve‐se mencionar, tomaram a frente nos rumos decisórios e atuaram de maneira bastante ativa no processo de formulação do Proálcool. Entre elas, destacaram‐
se a COPERSUCAR, que atuou ao lado do Sindicato da Fabricação do Álcool no Estado de São Paulo que, aliás, compartilhavam o mesmo presidente , e a COPERFLU, que dividiu a representação política com o Sindicato da Indústria e da Refinação do Açúcar dos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.
O fato mais marcante dessa dinâmica de representação de interesses é que os atores privados direcionaram suas demandas às associações de classe que, por meio de seus contatos informais, tiveram acesso aos atores estatais e influenciaram suas decisões. É neste aspecto que se evidenciam práticas próprias do modelo dos aneis burocráticos. Esse recurso foi utilizado, por exemplo, pelos produtores paulistas, que desfrutavam de vínculos de relacionamento com a alta burocracia estatal. Com efeito, as intervenções da COPERSUCAR, sejam publicamente, sejam nos bastidores, alteraram os rumos da política do álcool.
Pode‐se afirmar, portanto, que o formato da representação de interesses no Brasil no período autoritário refletido no processo decisório do Proálcool foi marcado pela participação dos atores sociais que recorreram a caminhos não institucionais e apoiando‐se fortemente nas práticas de lobby, por meio da atuação de suas representações de interesse. Um evento emblemático desse formato de atuação situa‐se na divulgação da minuta do Programa Nacional do Álcool pela COPERSUCAR. Este foi o meio encontrado pela entidade para manifestar publicamente sua insatisfação e tornar público o debate. É público, pois ele avança os limites da arena burocrática, todavia não é democrático, pois dele participam apenas os atores sociais que têm acesso privilegiado, por meio de contatos pessoais, aos centros de poder, e podem dispor de recursos financeiros para acessar os canais de comunicação e promover suas práticas de lobby.
Note‐se que se está diante de um regime autoritário, no qual as manifestações públicas contra o regime são reprimidas. O fato do setor sucroalcooleiro ter encontrado vários espaços de manifestação é explicado pelo momento político que se vive: o início da distensão política.
Adicionalmente, pode‐se observar que este modelo de representação de interesses atendeu aos objetivos econômicos do País e também dos grandes empresários. Com efeito, a questão econômica dominava a agenda de governo neste período e priorizar os
interesses do capital privado nacional era coerente com a estratégia preconizada pelo II PND.
De fato, não houve, em momento algum no processo de decisão do Proálcool, a participação dos representantes dos trabalhadores rurais e pequenos produtores, pois a questão social não era considerada prioritária para o governo. Além de não serem representados institucionalmente em nenhum órgão de governo como é o caso do IAA, que representava a indústria sucroalcoleira e teve participação ativa no processo de formulação , esses atores sociais não recorreram a nenhuma outra prática informal de intermediação de interesses, recurso amplamente utilizados pelos representantes da agroindústria: a análise revela um sistema de representação de interesses que exclui os grupos desprivilegiados afetados pelo Proálcool trabalhadores canavieiros e pequenos plantadores de cana e se abre complexamente ao grande capital SANTOS, , p.
.
Ademais, a despeito do apoio do Ministério da Agricultura e da Secretaria de Tecnologia Industrial, a intenção de se incluir um componente social entre os objetivos do programa esvaziou‐se não só por falta de apoio técnico e financeiro, mas também por falta de apoio institucional de importantes articuladores do Proálcool, mais precisamente o MME e o MIC, que não eram favoráveis a esta iniciativa.
Em última instância, como o tema ascende à agenda de decisão estimulado por problemas de cunho econômico, pode‐se afirmar que – e a despeito das discretas e limitadas tentativas de incorporar um vertente social do programa –, seus objetivos foram essencialmente econômicos: melhorar a balança de pagamentos e criar um mercado alternativo para situações de crise de superprodução de açúcar e de redução de seus preços no mercado internacional. Algo coerente com o contexto político e econômico do período. E, conforme visto, estes objetivos deram o tom que marcou o processo de decisão do Proálcool.
A seguir, segue uma figura que relaciona, esquematicamente, as variáveis independentes e dependente:
Variáveis independentes
• Estrutura Institucional
• Regime militar não-democrático • Executivo com amplos poderes • Legislativo com poderes esvaziados • Forte poder de decisão nas mãos do
Presidente • Contexto Político
• Governo Geisel
• início do fim do “milagre econômico” e problemas com balança de pagamentos
• Crise do petróleo • II PND
• Início da distensão política
Variável dependente: Processo decisório do Proálcool
• Formação da Agenda • Tipo de agenda: de decisão • Tema: fomento à produção nacional
do álcool carburante, considerando: • redução da importação do petróleo • equilíbrio da balança de
pagamentos
• fortalecimento da agroindústria do açúcar: produção do álcool sem afetar exportações do açúcar • Empreendedor: Geisel • Processo de Formulação
• Arenas de decisão: instâncias do Executivo
• Atores envolvidos: governamentais e representantes do capital nacional privado
• Interesses: múltiplos interesses políticos e econômicos em jogo; na disputa, ausência dos interesses sociais
• Negociação: espaço para negociação intergovernamental (destaque para poder de atuação do MIC). Ao final, decisão top-down (escolha final do Presidente), com predomínio da decisão política • Relações Estado-sociedade:
• Predomínio de práticas de aneis burocráticos e de lobby (indústria sucroalcoleira)
• Discreta representação corporativista bifronte • Ausência de participação
democrática com espaço
institucional para manifestação dos demais interesses em jogo (em particular trabalhadores rurais e pequenos produtores)
Figura 4: Relação entre variáveis independentes e dependente no processo decisório do Proálcool (Elaboração própria)