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5.  Estrutura da tese 

2.4  A Constituição de 1988: a celebração do Estado Democrático de Direito e a inflexão nas relações Estado­sociedade 

2.4.2  O processo Constituinte e a promulgação da Carta de 1988 

Quando  a  redemocratização  efetivamente  entra  na  agenda  política  e  a  sociedade  civil  assume sua autonomia, a dinâmica de relação entre Estado e sociedade no Brasil começa  a apresentar sinais de mudança. Assim, a Constituição de   é um marco que celebra a  inflexão das relações Estado‐sociedade, que já vinha sendo gestada nas décadas que a  antecederam.  

Em um primeiro momento, a sociedade civil – por meio dos movimentos sociais – busca  romper  com  a  tradição  de  cooptação,  assumindo,  inicialmente,  uma  postura  de  autonomia e de contestação; já em uma segunda fase, durante o processo constituinte,  sua postura é de negociação.  

Essas  transformações  no  âmbito  do  Estado  e  da  sociedade  civil  se  expressam em novas relações entre eles: o antagonismo, o confronto e a  oposição  declarados  que  caracterizavam  essas  relações  no  período  da  resistência  contra  a  ditadura  perdem  um  espaço  relativo  substancial  para  uma  postura  de  negociação  que  aposta  na  possibilidade  de  uma 

atuação  conjunta,  expressa  paradigmaticamente  na  bandeira  da  “participação  da  sociedade  civil”  DAGNINO,  ,  p.  ;  grifos  da 

autora . 

A Carta de  , analisada não apenas do ponto de vista das resoluções e conquistas  sociais presentes em seu texto final, mas também a partir do seu processo constituinte, é  fruto  desse  forte  movimento  de  mobilização  social.  Plínio  de  Arruda  Sampaio    explica  que  o  processo  para  a  elaboração  da  Constituição  contou  com  a  participação 

ativa da sociedade por meio da forte pressão por ela exercida  ARRUDA SAMPAIO,  ,  p.  . 

Nos  anos  ,  essas  organizações,  fruto  da  longa,  penosa  e  perseverante  resistência  de  alguns  setores  da  população  durante  os  Anos  de  Chumbo  da  ditadura,  estavam  fortalecidas  e  exigiam  que  a  participação  popular  no  processo  de  democratização  fosse  bem  mais  ampla do que o centro e a direita estavam dispostos a aceitar  ARRUDA  SAMPAIO,  , p.  .  Assim, a própria redação da Carta representou um marco institucional da participação  social, pois foi permeada por emendas populares que apresentaram propostas ao texto  constitucional. No discurso de promulgação da Constituição Federal, Ulisses Guimarães  destacou o papel relevante da Constituição em romper com os padrões de tomada de  decisão até então vigente: 

A  Assembleia  Nacional  Constituinte  rompeu  contra  o  establishment,  investiu contra a inércia, desafiou tabus.  ...  Foi de audácia inovadora a  arquitetura  da  Constituinte,  recusando  anteprojeto  forâneo  ou  de  elaboração  interna.  O  enorme  esforço  é  dimensionado  pelas  .   emendas,  além  de    emendas  populares,  algumas  com  mais  de    milhão de assinaturas, que foram apresentadas, publicadas, distribuídas,  relatadas e votadas, no longo trajeto das subcomissões à redação final. A  participação foi também pela presença, pois diariamente cerca de   mil  postulantes  franquearam,  livremente,  as    entradas  do  enorme  complexo  arquitetônico  do  Parlamento,  na  procura  dos  gabinetes,  comissões,  galeria  e  salões.  Há,  portanto,  representativo  e  oxigenado  sopro  de  gente  ...   GUIMARÃES,  U.  Discurso  de  promulgação  da  Constituição Federal,   .  

Esse  caráter  participativo,  que  envolveu  a  constituinte  e  a  própria  atuação  dos  movimentos  sociais  ao  longo  do  processo  de  democratização,  permitiu  que  a  Constituição de   fosse, de fato, o marco tanto da restauração do Estado Democrático  de  Direito  no  Brasil,  como  da  inauguração  de  um  novo  sistema  de  políticas  sociais,  rompendo com o caráter excludente das políticas sociais adotadas sob a égide do regime  militar.  É  por  esta  razão  que  Ulisses  Guimarães  batizou  a  Constituição  de    de 

constituição cidadã . 

Ou seja, além do fundamental restabelecimento dos direitos que dizem  respeito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei e à  participação  nas  decisões  políticas,  inscrevia‐se  na  Carta  também  uma  série de direitos sociais, com o objetivo de promover mais igualdade na 

participação  dos  cidadãos  no  desenvolvimento  econômico  do  país  IPEA,  , p.  

A Constituição de   instituiu uma República Presidencialista, com bicameralismo e  representação  proporcional  de  listas  abertas  para  eleição  dos  deputados  federais,  estaduais  e  vereadores.  Para  a  eleição  do  Presidente  da  República,  senadores,  governadores  e  prefeitos  definiu‐se  como  sistema  o  majoritário.  Inicialmente  fora  estabelecido  que  os  cargos  do  executivo  teriam  um  mandato  de  cinco  anos,  vedada  a  reeleição para o ano seguinte. Todavia, a emenda constitucional de revisão nº , de  ,  reduziu  de  cinco  para  quatro  anos  o  tempo  dos  mandatos  executivos  e  a  emenda  constitucional  , de  , previu a possibilidade de reeleição destes cargos para um  único  período  subseqüente  ANASTASIA  &  NUNES,  .    Com  efeito,  desde  sua  promulgação, a Carta já sofreu várias alterações, recebendo mais de sessenta emendas  constitucionais  ARANTES  &  COUTO,  ,  P.    A  Constituição  previu  também  a  separação de poderes permitindo o controle via pesos e contrapesos. Deve‐se mencionar  ainda  que  com  a  Constituição  de  ,  pela  primeira  vez  na  história  do  País,  os  analfabetos passaram a ter o direito de escolher seus governantes. 

A Carta Magna inaugurou profundas alterações no campo social, introduzindo medidas  de  garantia  de  uma  série  de  direitos  sociais,  ao  permitir  o  acesso  da  população  a  determinados bens e serviços. No artigo  º, do capítulo que discorre sobre os direitos  sociais, estabeleceu‐se como  direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a  segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos  desamparados .  O  artigo  º,  por  sua  vez,  equiparou  os  direitos  dos  trabalhadores  rurais  aos  urbanos  e  estabeleceu  o  salário  mínimo  fixado  em  lei  e  nacionalmente  unificado.  A  Constituição  Federal  favoreceu  o  caráter  universal  das  políticas  sociais  e  promoveu sua descentralização político‐administrativa. Assim, são alteradas as normas  e  regras  centralizadoras  e  são  distribuídas  as  competências  na  gestão  das  políticas  sociais entre a União, Estados e municípios.  

A  descentralização  é  acompanhada  da  criação  de  mecanismos  institucionais  de  participação social, os conselhos de políticas públicas e as conferências, representando        

canais  institucionais  e  formais  de  expressão  de  interesses  e  de  representação  de  demandas e atores junto ao Estado   JACCOUD,  , p.  . A seguir serão exploradas  essas inovações institucionais de participação introduzidas com a Constituição de  . 

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