CAPÍTULO I- SAÚDE, EDUCAÇÃO E PRÁTICAS CORPORAIS: APROXIMAÇÕES
CAPÍTULO 5- PROGRAMA ACADEMIA DA SAÚDE NA REGIÃO
5.3 Análise das características dos sujeitos
5.3.2 Análise dos aspectos referentes ao contexto
A análise do contexto se fez necessária, pois houve o intuito de identificar os emaranhados em que os profissionais de educação física estão inseridos no campo da atenção básica em saúde e a relação de dependência entre estes fatores. Outro aspecto importante ao analisar o contexto, referiu-se as considerações de Tardif (2013) sobre a mobilização dos saberes de acordo com a necessidade do contexto do trabalho. Para estabelecer os elementos analisados no contexto, pautou-se no que preconizam os documentos orientadores do PAS (BRASIL, 2013a; BRASIL, 2014c; BRASIL, 2015a).
Quadro 7- Contexto de trabalho dos profissionais de educação física
S Implantação do programa ideal ao preconizado Vínculo do Programa com princípios da AB Território adscrito/ Usuários
PAS articulado com Equipe de Saúde Equipe de saúde e/ou gestão conhece os objetivos do PAS Profissional conhece os objetivos do PAS S N S N S Em parte N S N S N 1 X X X X X 2 X X X X X 3 X X X X X 4 X X X X X 5 X X X X X 6 X X X X X Legenda – S: Sujeitos
Quanto à implantação do programa em relação ao ideal preconizado, os enfrentamentos são diversos. Em relação ao vínculo do programa e profissionais que atuam neste com os princípios da atenção básica em saúde, observou-se que três sujeitos (S1, S3, S5) trabalham nesta lógica, embora em suas falas isso não apareça de forma consciente. Isso ocorre, pois trabalham dentro da equipe de saúde (espaço físico) (S1, S3) e/ou seguem o fluxo de atendimento já existente, especialmente no que tange ao território adscrito (S5) e vínculos com comunidade (S1, S3, S5). Contudo, não demonstram clareza no entendimento destes aspectos de forma que orientem a atuação. Os demais, (S2, S4, S6) não mencionaram fatos ou situações
que pudessem sugerir noções do trabalho voltado para o território adscrito, integralidade, humanização. Todavia, o S2 e S6 estabelecem bons vínculos com a comunidade.
A mesma situação foi detectada por Silveira (2012) ao analisar a prática dos profissionais de educação física na saúde coletiva. Este autor observou que a proposta de intervenção dos profissionais que atuam no projeto da Academia da Cidade, no município de Aracajú, não se integra aos princípios e diretrizes de funcionamento da atenção primária em saúde e seu território. As ações atendem somente a proposta de trabalho do referido projeto. Assim, a intervenção dos profissionais está voltada para a execução das atividades, que, no entanto, não se envolvem enquanto profissionais da rede de saúde coletiva.
No que toca aos horários de funcionamento dos polos, todos os educadores entrevistados afirmam que realizam atividades nos três turnos, com horários e atividades diversas, atendendo ao que se preconiza no programa (BRASIL, 2014b).
A infraestrutura para realização das atividades do programa é considerada minimamente adequada pelos profissionais. Porém, destaco que quatro destes utilizam espaços adicionais como ginásio, salão da comunidade e escolas inativas. O programa preconiza que o espaço com equipamentos fique aberto, ao ar livre, a disposição da comunidade. Entretanto, o espaço de vivência pode ser coberto e até fechado. Este aspecto ganha importância maior na região sul do país, que enfrenta baixas temperaturas, especialmente no inverno. A justificativa para utilização dos espaços secundários é que não existe demanda para atendimento no polo durante 40 horas, pois em geral se tratam de municípios pequenos com comunidades distantes (S1, S2, S3, S6), que não se deslocam ao polo. Do mesmo modo, essas comunidades somente desenvolvem PCAF quando orientados pelos profissionais nos espaços estabelecidos. Neste aspecto a atuação profissional precisa ser qualificada no sentido de contribuir para a identificação e utilização de forma cada vez mais autônoma destes espaços, para que os usuários não fiquem dependentes da presença exclusiva de um profissional, nos horários em que este está disponível. Os profissionais de educação física que atuam na atenção básica entrevistados porNeves (2015),reconhecem esta perspectiva e reforçaram a necessidade deles próprios criarem estratégias de indicar aos usuários e seus familiares locais de práticas corporais exteriores às unidades de saúde.
Há que se considerar que a iniciativa dos profissionais de educação física e equipes de saúde ao deslocarem-se para as comunidades é bastante produtiva, uma vez que há a intencionalidade de aproximar a saúde do dia-dia da população. Mostra ainda uma dificuldade do programa, que ao financiar a construção dos polos, pode não atender efetivamente a demanda
da população e deste modo qualificar pouco as práticas de promoção da saúde, especialmente nos municípios de pequeno porte. Isso porque nesses municípios em que atuam os S1, S2 e S3 o polo é visto, até mesmo como desnecessário pelos profissionais, considerando que a demanda de atendimento maior não ocorre nestes espaços e sim nas comunidades, perto da vida das pessoas, que é um dos objetivos da atenção básica em saúde. Apesar disso, é importante considerar que no caso do S1, S3 e S6, o programa foi fundamental para que iniciasse este tipo de atividades, que até então inexistiam.
Um aspecto a ser discutido e que precisa atenção especial é a população atendida pelo PAS. Em geral é constituída de adultos jovens, idosos e grupos destinados a portadores de doenças crônicas, ou grupos informativos instituídos pelo ESF (tabagistas, doença mental, gestantes). Nenhum dos profissionais realiza ações voltadas para crianças e adolescentes. Neves (2015) também identificou que o trabalho dos profissionais de educação física tem ênfase em intervenções nos grupos, especificamente nos grupos de tabagismo e gestação.
A maior parte dos profissionais participantes deste estudo desenvolve algum tipo de trabalho conjunto, em maior ou menor grau, com o restante da equipe de saúde. Esse trabalho em conjunto, no entanto não reporta-se a um cuidado integral em nenhum dos casos, contrariamente, notavelmente fragmentado. Isso percebe-se em falas do tipo: “Cada um faz sua
parte” (S3) ou “ele me encaminha” (S2). Integralidade, na educação física, segundo Freitas,
Carvalho e Mendes (2013) se reduz à ideia do “sujeito integral”, envolvendo a dimensão física, psicológica e social. No entanto, no contexto do SUS, o princípio do cuidado integral pressupõe tanto o reconhecimento das distintas dimensões relacionadas com o processo saúde-doença, quanto à prestação continuada do conjunto de ações e serviços com o propósito de assegurar promoção, proteção, cura e reabilitação para sujeitos e coletividades (FREITAS; CARVALHO; MENDES, 2013). No entendimento de Carvalho (2007, p. 66)
A integralidade implica na escuta dos trabalhadores e serviços de saúde de modo a deslocar a atenção da perspectiva estrita do seu adoecimento e dos sintomas para o acolhimento de sua história, de suas condições de vida e de suas necessidades de saúde, respeitando e considerando suas especificidades e suas potencialidades na construção dos projetos e da organização do trabalho sanitário.
No âmbito do PAS, a integralidade se constitui como uma diretriz, que no caso do contexto deste estudo parece estar descaracterizada. O PAS não deveria ser visto como um serviço isolado. Ele compõe a rede de atenção à saúde e como componente da atenção básica e tem maior possibilidade de resolubilidade quanto estabelece o cuidado integral e ainda vínculos
intersetoriais (BRASIL, 2014b). No caso do S1, S3, S5 o PAS é entendido como componente da rede de atenção à saúde, contudo o princípio da integralidade está fragilizado.
É importante refletir sobre o desconhecimento da equipe de saúde e/ou gestão sobre os objetivos do PAS. Neves (2015) aponta em seu estudo que na perspectiva dos gestores do SUS, a atuação do profissional de educação física na saúde pública é ainda pouco definida. No que diz respeito a isso, Carvalho e Nogueira (2016) afirmam que a falta de clareza abarca em compreensões equivocadas e simplistas sobre a atuação dos profissionais de educação física na saúde, dos quais se espera apenas o incentivo ao aumento do nível da atividade física, cujos resultados na saúde biológica são amplamente divulgados.
Observou-se no presente estudo que além da gestão e equipes de saúde, os próprios profissionais de educação física que atuam no PAS não têm clareza sobre estes objetivos. O resultado é a efetivação diferente do que é preconizado quando considerados os princípios e diretrizes do programa. Skowronski (2014) verificou em seu estudo que os profissionais de educação física desenvolvem seus trabalhos com certo distanciamento da proposta original no PAS, em parte por não terem conhecimento destes objetivos ou por seguirem metodologias de trabalho em consonância com projetos que antecederam o programa. O autor interpretou que os profissionais que trabalham a mais de um ano no programa, trabalham de forma mais direcionada aos objetivos deste, na lógica do diálogo com outros profissionais e com vistas no cuidado mais integral. No meu estudo, esta hipótese pode ser considerada, tendo em vista que alguns profissionais têm pouco tempo de experiência no PAS bem como já atuaram em projetos semelhantes, portanto podem ter transferido o modelo de atuação. Entretanto, aqueles profissionais que já atuam no programa a mais de um ano não realizam ações no sentido de atender aos objetivos do programa, o que é mesmo improvável, visto que o contexto pouco contribui para o aprendizado dos profissionais sobre o PAS e princípios da atenção básica.
A organização das ações do programa é feita em geral pelos profissionais de educação física. Para definir (onde, o quê e com quem fazer) consideram os programas de atividades físicas já realizadas nos municípios e os desejos dos sujeitos que frequentam. Para se orientar sobre como fazer as ações do programa, os profissionais têm como fonte de referência os trabalhos que já desenvolveram anteriormente em qualquer ambiente, bem como seu conhecimento prévio acerca das diferentes modalidades. Mobilizam assim, seus saberes da experiência e da formação profissional. Do mesmo modo, atendem pedidos esporádicos das equipes de saúde e da gestão, como ginástica laboral e participação em palestras para fazer recreação e/ou alongamento.
Embora haja de certa forma uma participação da comunidade e equipe na organização das ações, isso não é feito de forma articulada visualizando um processo mais amplo. Esta organização conjunta deveria servir para a realização de um trabalho contínuo e integral, de forma a atender as necessidades de saúde de determinada comunidade, despertando os princípios de autonomia e empoderamento (BRASIL, 2014b). No entanto, ela é feita para agradar a todos dos envolvidos.
Os contextos apresentados assemelham-se ao mesmo tempo em que se distinguem, portanto não poderiam ser totalmente agrupados. Em alguns casos (S1, S3 e S5), embora ainda distantes das diretrizes do programa, os contextos parecem colaborar em maior grau para que os profissionais desenvolvam saberes processuais, e a partir destes se alinhem a uma atuação voltada para integração do PAS aos demais serviços da atenção básica, que não ocorre na atuação dos outros sujeitos. O desenvolvimento do trabalho de alguma forma articulada com a equipe é uma possibilidade que o contexto oferece para que os profissionais se integrem ao funcionamento do serviço e acompanhem o trabalho de outros profissionais. Ao mesmo tempo estimula que desenvolvam os saberes vinculados a este funcionamento.
No entanto, nenhum dos contextos parece contribuir para o aprendizado do profissional de educação física quanto aos princípios e diretrizes do SUS para além de sua funcionalidade. Não há instigação para que os profissionais busquem reconhecer os documentos reguladores do sistema ou mesmo informações relativas especificamente ao PAS e seus objetivos. Os profissionais (S1, S2, S3, S6) afirmaram ter buscado informações na internet quanto ao programa quando iniciaram suas atividades. No primeiro momento, o reconhecimento da intencionalidade e funcionalidade do programa pareceu fundamental, mas ao longo da experiência no contexto de trabalho não se fez necessário. Mesmo que tenham constituídos em parte os saberes estes não precisam ser mobilizados.
Destaco neste aspecto que os saberes de cada profissional se constituem ao longo de sua trajetória (acadêmica, pessoal, profissional), porém eles são mobilizados e consolidados no cotidiano de acordo com a necessidade e validação de cada contexto. Nesse sentido, Tardif (2013, p. 17) afirma que “a utilização dos diferentes saberes se dá em função do seu trabalho e das situações, condicionamentos e recursos ligados à este trabalho. Em suma, o saber está à serviço do trabalho”. No caso de não haver utilidade ou necessidade de mobilização no cotidiano laboral, o saber tende a ser menos requisitado ou mesmo ignorado.