CAPÍTULO I- SAÚDE, EDUCAÇÃO E PRÁTICAS CORPORAIS: APROXIMAÇÕES
CAPÍTULO 2 – SUS FUNDAMENTOS DO SISTEMA E OS PROGRAMAS
2.4 O Programa Academias de Saúde
O Ministério da Saúde atentou em 2011, para o desenvolvimento de um novo projeto no campo da atenção básica, o Programa Academia da Saúde (PAS) (BRASIL, 2014a). Este programa está obrigatoriamente vinculado à atenção básica em saúde e foi criado por dois motivos principais: A mudança do perfil de saúde dos brasileiros, o qual “evidenciou-se um aumento significativo de condições crônicas de saúde, sobretudo no que tange ao excesso de peso e obesidade” (BRASIL, 2014b, p.5) e pela dificuldade de implantar a PS de forma eficaz, como afirmado no mesmo documento.
Embora a iniciativa tenha surgido sustentada na justificativa da insuficiência de atividade física da população, a qual é associada ao crescimento de doenças crônicas não transmissíveis, o foco do programa não é somente aumentar a atividade física com finalidade de prevenir e amenizar essas doenças, mas como uma das formas de promover saúde (BRASIL, 2013a). Seu objetivo é constituir-se como um espaço de encontro, com diversos atrativos que possibilitem a ressignificação e apropriação da saúde, considerando as particularidades e intencionalidades dos sujeitos. “É o lugar onde o produzir saúde tem significado mais amplo e concreto” (BRASIL, 2013a, p.9).
A intencionalidade do programa está relacionada à promoção da saúde, produção do cuidado e de modos de vida saudáveis, a partir da ação de profissionais qualificados, que atuariam em espaços dotados de infraestrutura adequada e construídos especialmente para esse fim. Mais do que falar sobre, o programa tem o intuito de “promover o acesso à espaços de produção, ressignificação e vivência, favoráveis à construção coletiva de modos de vida saudáveis” (BRASIL, 2014a, p.9). Para que as ações do programa sejam efetivas e duradouras é preconizado em suas diretrizes que “os usuários sejam protagonistas, considerando seu
conhecimento sobre a sua saúde, crenças, confiança, atitudes, percepções, apoio social e fatores ambientais que permeiam sua vida” (BRASIL, 2013a, p.101)
Iniciativas regionais, como as Academias de Terceira Idade, também denominadas Academias ao Ar Livre, já vinham sendo implementadas para promover a prática de atividade física como principal ação no enfrentamento de sobrepeso e obesidade, em espaços construídos para o desenvolvimento das ações. Essas iniciativas constituíram-se como base para o PAS. Entretanto, os objetivos desse programa são ainda mais amplos, pois não visam somente aumentar o nível de atividade física, mas também:
Fortalecer a promoção da saúde como estratégia de produção de saúde; Promover práticas de educação em saúde; Promover ações intersetoriais; Promover a convergência de projetos ou programas nos âmbitos da saúde, educação, cultura, assistência social, esporte e lazer; Ampliar a autonomia dos indivíduos sobre as escolhas de modos de vida mais saudáveis; Aumentar o nível de atividade física da população; Promover hábitos alimentares saudáveis; Promover mobilização comunitária com a constituição de redes sociais de apoio e ambientes de convivência e solidariedade (BRASIL, 2014a, p. 8).
Entre os eixos destacados para o desenvolvimento das ações do Programa Academia da Saúde estão: “Práticas corporais e atividades físicas; produção do cuidado e de modos de vida saudáveis; promoção da alimentação saudável; práticas integrativas e complementares; práticas artísticas e culturais; educação em saúde; planejamento e gestão; mobilização da comunidade” (BRASIL, 2014a, p.8).
Ao analisar as iniciativas similares que balizaram este programa, identificou-se que o ponto comum entre estas se relacionava a importância de se contar com estrutura física própria e adequada. A partir disto, entendeu-se que uma estrutura física, além de potencializar as atividades, permitiria o enriquecimento da própria realidade espacial do território, criando mais um espaço de uso e vivência para as comunidades locais. Essa estrutura passou então a ser denominada polo (BRASIL, 2014b, p.14). Logo, a ação inicial do programa, foi financiar a construção destes polos. Para orientar os municípios neste processo foram publicados manuais com informações referentes à construção, financiamento e funcionamento do programa.
Os municípios podem solicitar o financiamento para a construção do polo mediante cadastro de sua proposta no Sistema de Monitoramento de Obras (Sismob), utilizado pelo Ministério da Saúde para monitoramento de obras na atenção básica, indicando entre outros: A localização do polo do Programa Academia da Saúde a ser construído com fotos do terreno; Número de habitantes a serem beneficiados; Estabelecimento de saúde no âmbito da atenção básica ao qual o polo estará vinculado e NASF do território, quando houver. Importante destacar
que o polo deve ser cadastrado dentro da região de abrangência do estabelecimento de saúde de referência (BRASIL, 2014b).
Além disso, deve ser informada a modalidade do polo a ser construída. Existem três modalidades disponíveis:
• Modalidade Básica: Conta com o financiamento de R$ 80.000,00. Deve possuir uma área de 300 m2. Deve ser composta por um espaço de vivência, espaço de equipamentos e espaço multiuso.
• Modalidade Intermediária: Conta com o financiamento de R$ 100.000,00. Deve contar com uma área de 312 m2. Além dos espaços descritos na modalidade anterior, este precisa ainda de uma estrutura de apoio.
• Modalidade Ampliada: Conta com o custeio de R$ 180.000,00. Precisa ser construída atendendo aos requisitos anteriores, porém com uma área mínima de 550 m2.
Os repasses para a construção se dão em três parcelas, correspondentes respectivamente à 20 %, 60% e 20%, liberadas mediante a informação do progresso da obra.
O Ministério da Saúde na portaria nº 2684, define uma programação arquitetônica bem como equipamentos e infraestrutura mínima. Os equipamentos mínimos são: espaldar, barra paralela, banco, prancha para abdominal, barra horizontal tripla e barras marinheiro, barra fixa de apoio (BRASIL, 2013b). Estes devem estar em um ambiente ao ar livre destinado às práticas corporais e atividades físicas. Nenhum destes equipamentos apresentados pode deixar de ser construído, entretanto a disposição destes e sua utilização deve ser discutida com os profissionais (BRASIL, 2014b). O manual do programa sugere a disposição em circuito, favorecendo ao usuário a utilização de forma sequencial e autônoma. Além do espaço ao ar livre com equipamento, é obrigatório um espaço de vivência coberto, cujo tamanho aumenta de acordo com a modalidade do polo construída.
A modalidade básica é constituída apenas da estrutura mínima (equipamento e espaço de vivência). Na modalidade intermediária, deve ser incluído maior número de equipamento como também uma sala para depósito e 2 sanitários. Na modalidade ampliada, além da estrutura básica e intermediária, a portaria define a inclusão de maior número de equipamentos, bem como uma sala de orientação, copa e depósito de materiais de vivência (BRASIL, 2014b)
Embora a portaria não permita excluir ou diminuir as dimensões das estruturas que compõe o polo em sua estrutura mínima, é possível incluir outras estruturas físicas. Podem ser feitas implementações (ampliar a estrutura) que serão considerados itens complementares à proposta. De forma geral, as implementações devem visar explorar os potenciais de uso da
infraestrutura a partir das características locais da comunidade como também as distinções climáticas, topográficas e geográficas (BRASIL, 2014b).
Além do financiamento da construção dos polos, o governo federal destina recursos para o custeio mensal das atividades do programa. Este custeio pode ser utilizado para reforma, aquisição de materiais de consumo; e as despesas de capital (investimento) à construção, ampliação e aquisição de equipamentos e material permanente. Existem duas formas de solicitar o custeio para o programa, e isto dependerá se o polo está ou não vinculado a uma equipe de NASF. Para os municípios com NASF, a portaria nº 2684 define que o incentivo mensal é oriundo do piso variável de atenção básica (BRASIL, 2013b). Assim, a solicitação de custeio deve ser feita à Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde (SAS/MS). Para tanto, é necessário realizar a inclusão do polo no Cadastro Nacional de estabelecimentos de saúde (CNES) bem como a vinculação dos profissionais responsáveis pelo programa e depois solicitar no sistema de apoio à implementação de políticas em saúde (SAIPS) o custeio (BRASIL, 2015b).
No caso dos municípios sem NASF, a portaria nº 183 define que o incentivo é oriundo do fundo nacional de vigilância em saúde (BRASIL, 2014c). O custeio deve ser solicitado à Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS). É necessário realizar a inclusão do polo e dos profissionais no CNES, demandar aprovação da Comissão Intergestores Bipartite (CIB) e enviar ofício ao gabinete da SVS, que emitirá parecer técnico favorável ou contrário (BRASIL, 2015b). Neste caso, o repasse mensal, corresponderá à R$ 3.000,00, por município, independentemente do número de polos implantados (BRASIL, 2014b). Em ambos os casos, a aprovação fica condicionada a verificação do cumprimento das exigências do programa para a emissão de portaria específica pelo Ministério da Saúde de habilitação do município para o recebimento do incentivo financeiro de custeio pleiteado (BRASIL, 2013b).
O Ministério da Saúde também a abriu a possibilidade de financiamento para polos similares ao PAS. Isto é, custeio para municípios que já haviam construído espaços similares anteriormente ao PAS e funcionam na mesma lógica do programa (BRASIL, 2014b). Estes não recebem recurso para construção, mas apenas para custeio.
A portaria nº 24 define que o cadastro do polo no CNES deve ser realizado com o código de estabelecimento de saúde 74 (Polo de Academia de Saúde) e a este deve ser vinculado o/os profissional/ais que atuará no programa (BRASIL, 2014d). A dedicação deste deve ser de 40 horas ou ainda, pode-se optar pelo cadastro de 2 profissionais que atuarão 20 horas cada. Cabe destacar que esta é a carga horária mínima, o que não impede a vinculação de mais/outros profissionais. No caso de o município possuir NASF, estes devem estar obrigatoriamente
vinculados também às equipes do NASF. As categorias profissionais que podem exercer as atividades do polo das AS são apresentadas no Quadro 3.
Quadro 3- Descrição de Ocupação
Profissional de educação física na saúde Assistente social Terapeuta ocupacional Fisioterapeuta Fonoaudiologo Psicólogo clínico Sanitarista Educador social Musicoterapeuta Arterapeuta Nutricionista
Artista da dança (exceto dança tradicional e popular) Dançarinos tradicionais e populares
Fonte: Portaria 24 (BRASIL, 2014d) - Quadro adaptado
A portaria nº 2684 determina que o Ministério da Saúde pode suspender o repasse de recursos financeiros de custeio quando forem identificadas irregularidades, à exemplo: Falta de alimentação regular aos sistemas de informação vigentes com informações referentes às atividades desenvolvidas no polo do Programa Academia da Saúde; Detecção de malversação ou desvio de finalidade na utilização dos recursos financeiros; Ausência, por um período superior a 60 (sessenta) dias, de profissional habilitado ou descumprimento da carga horária prevista para o programa (BRASIL, 2013b). A suspensão dos repasses cessa à medida que as situações sejam regularizadas.
O programa está sujeito ao monitoramento, atividade que tem o intuito de produzir informações que subsidiem a qualificação e o fortalecimento deste programa. Inicialmente o monitoramento era semestral, mas devido ao aumento exponencial na construção de polos, agora é realizado anualmente, com data fixada no mês de maio. O monitoramento consiste em formulário (questionários online) que devem ser respondidos pela gestão estadual, gestão municipal e pelos polos em funcionamento. Os dados nacionais e regionais são devolvidos/divulgados, com análise de cada item, enfatizando os comentários nos pontos críticos identificados, lembrando que o objetivo é a qualificação do programa.
Com relação ao horário de funcionamento do polo, a Portaria nº 2684, em seu artigo 25, estabelece que as atividades devam ocorrer em dois turnos no mínimo, os quais são definidos por cada município (BRASIL, 2013b). Contudo, recomenda-se que o horário de funcionamento (turnos) seja fixado a partir das necessidades da população, de forma a ampliar o acesso evitando ociosidade e mau uso dos espaços e equipamentos (BRASIL, 2014b).
Com relação às atividades desenvolvidas, “espera-se que nas Academias da Saúde haja uma diversificada agenda de atividades, abarcando os oito eixos temáticos, voltados para a comunidade como um todo e de forma integrada” (BRASIL, 2014b, p. 19). Compreendendo que um único profissional possivelmente não dê conta de todos os eixos a serem trabalhados nas academias de saúde, remete-se a importância da realização de um trabalho conjunto com o restante da equipe da ABS, ESF e NASF (BRASIL, 2013a). O Ministério da Saúde sugere ainda que haja a formação de um grupo de apoio à gestão do polo. Este grupo contribuirá na confecção de identidade e na relação com o contexto no qual o programa está inserido. Além dos profissionais, este grupo pode ser composto pelos usuários e pelos demais membros da comunidade.
Desde a implantação do programa, segundo dados do monitoramento de 2015, já foram habilitados 3790 polos em 2849 municípios do Brasil (BRASIL, 2015b). Destes, 1165 estão concluídos, 450 são propostas similares, 1298 já estão com obras iniciadas e 1255 não começaram a construção. Ou seja, 1615 polos devem estar em funcionamento. O monitoramento aponta ainda que menos de 400 estão recebendo recurso para a manutenção das atividades. No Rio Grande do Sul, os polos habilitados somam 382, sendo 5 similares e 163 com obras concluídas (BRASIL, 2015b).
Todas as ações desenvolvidas no programa devem estar culturalmente inseridas e adaptadas aos territórios locais. Mais que assegurar práticas diferenciadas, o programa visa utilizar-se dessas ações para desenvolver os princípios de autonomia; empoderamento; participação social; governança; equidade; intersetorialidade; redes sociais; sustentabilidade e integralidade, em iniciativas promotoras da saúde (BRASIL, 2013a). As atividades desenvolvidas devem ultrapassar a dimensão prática, e perpassar pelas questões mediacionais e valorativas. Entretanto questiono: Os profissionais que atuam neste programa, e mais especificamente os profissionais de educação física compreendem essa intencionalidade e tem um contexto adequado para trabalhar sob esta perspectiva?