CAPÍTULO 3 A MINUSTAH E A REFORMA DA POLÍCIA NACIONAL
3. IMPLEMENTAÇÃO DA MINUSTAH
3.3. ANÁLISE DOS DADOS
Neste item, apresentamos alguns dados do Haiti, em paralelo com dados de mais dois países, para que seja possível comparar os níveis de violência nesses países. Os países escolhidos foram Colômbia e República Dominicana. O primeiro, por ser considerado o país mais violento da América Latina, e o segundo, por ser o país que faz fronteira com o Haiti. É importante destacar que nosso objetivo não é de fazer um trabalho comparativo mais
detalhado entre esses três países, mas mostrar a diferença dos seus números referentes à violência.
Após a exposição desses dados, será exposto o IDH haitiano, no decorrer dos anos em que a MINUSTAH desenvolveu as suas atividades no Haiti. O motivo da exposição desses dados é importante, pois será através deles e das conclusões dos relatórios do Secretário-geral da ONU, que avaliaremos se os índices de violência diminuíram e se afetaram o IDH do país, mostrando que a condição de vida dos haitianos melhorou com o passar dos anos e com a reforma da PNH.
Mostramos, ainda, dados do Political Terror Scale, através de dados da Anistia Internacional e do Departamento dos Estados Unidos. O Political Terror Scale publica dados anuais que medem a violação dos direitos da integridade física, a violência política e o terror presentes nos países. A Anistia Internacional é independente de qualquer governo e ideologia política, interesse econômico ou religião. É financiada pelos doadores e membros. Visa assegurar que as pessoas usufruam dos direitos consagrados na Declaração Universal de Direitos Humanos. O Departamento de Estado dos Estados Unidos visa a liberdade para o povo americano e a comunidade internacional ajudando a construir um mundo mais democrático, seguro e próspero, composto de bons governantes que respondam às necessidades de seu povo.
O Heidelberg Institute for International Conflict Research é outra fonte de dados analisada. O Heidelberg Institute for International Conflict Research é uma associação do Departamento de Ciência Política da Universidade de Heidelberg, que publica, anualmente, os resultados da pesquisa que medem a intensidade de conflitos decorrentes pelo mundo.
Tabela 2: Índices de violência da Colômbia, do Haiti e da República Dominicana, de acordo
com o Political Terror Scale
ANISTIA INTERNACIONAL DEPARTAMENTO DE
ESTADO DOS EUA
Ano Colômbia Haiti Rep.
Dominicana
Colômbia Haiti Rep.
Dominicana 2011 5 1 3 3 3 4 2010 5 2 3 4 3 4 2009 5 3 4 4 2 4 2008 5 2 4 4 3 4 2007 4 4 3 4 3 3 2006 5 4 3 4 3 3 2005 5 4 3 4 4 3 2004 5 5 2 5 4 3 2003 5 3 3 5 3 3 2002 5 3 2 5 3 3 2001 5 3 3 5 3 3 2000 5 4 2 5 3 3 1999 5 3 3 5 3 3 1998 5 3 3 5 3 3 1997 5 2 3 5 3 3 1996 5 3 3 5 3 3 1995 4 2 2 5 3 2 1994 5 5 2 5 4 2 1993 5 4 2 5 4 2 1992 5 4 2 4 4 2 1991 5 4 2 5 5 2 1990 5 4 2 5 4 2
Fonte: Elaborada pela autora através de dados do Political Terror Scale (PTS)16
16Political Terror Scale, disponível em:
Esses índices relacionados à violência têm como características os crimes praticados pelos grupos armados - roubos, tortura, assassinatos, sequestros, tráfico e, sobretudo, desrespeito aos direitos humanos. Podemos classificar esses crimes como crimes violentos letais intencionais (CVLI), pois fazem parte desse tipo de crime os homicídios dolosos e demais crimes que resultem em mortes, tais como latrocínio, estupro seguido de morte, lesão corporal seguida de morte, entre outros17.
Como o foco aqui é o Haiti, escolhemos os índices a partir do ano de 1990 porque foi quando a violência ganhou destaque devido à saída do autoritarismo militar para um governo em que o presidente foi eleito pelo povo (Jean-Bertrand Aristide), apesar de essa eleição ter sido considerada fraudulenta. Essa mudança política trouxe muito descontentamento entre os militares, o que ocasionou o início dos conflitos entre os defensores e os opositores de Aristide, que perduram atualmente. Na Colômbia, o conflito teve início em 1961, entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), pela luta pelo poder nacional. Na República Dominicana, foi identificado que forças de segurança estavam envolvidas em assassinatos ilegais, injustificados, e envolvidos no uso excessivo da força.
De acordo com o PTS, o nível 1 corresponde ao Estado sob regra da lei, em que a tortura e os assassinatos políticos são raros; no nível 2, há uma quantidade limitada de prisões por ações violentas (de natureza não políticas), tortura e espancamento são excepcionais, e assassinatos políticos são raros; no nível 3, há prisões massivas, devido a ações violentas relacionadas à política, e execuções e assassinatos políticos são comuns; no nível 4, as práticas do nível 3 são expandidas para números maiores; e no nível 5, toda a população é afetada pela extensão do terror do nível 4.
Quanto aos índices acima mostrados, ficou claro que o Haiti tem passado por períodos intensos de violência, que se intercalam entre os níveis 3 e 4 e chega ao ápice, o nível 5 no ano de 2004, fator determinante para o estabelecimento da MINUSTAH no território haitiano. As principais causas da insegurança no Haiti estão relacionadas à insurreição armada causada pelos ex-militares do Exército Nacional que fora dissolvido por Aristide, à luta de outros grupos armados pelo poder, à politização e à desintegração do setor de segurança e à falta de capacidade do Estado de fornecer serviços básicos para a população.
17Informações retiradas do site
http://www.paraiba.pb.gov.br/especiais/pbunidapelapaz/boletim/2012/Metodologia_de_contagem_de_Crimes_V iolentos_Letais_Intencionais.pdf
Em 2005, após um ano do estabelecimento da MINUSTAH, ficou perceptível que os números relacionados à violência passaram a diminuir no Haiti, tanto do ponto de vista da Anistia Internacional, quanto do Departamento de Estado dos EUA. Um fator positivo, pois representa que as atividades da missão em campo, destinadas ao restabelecimento da paz e da ordem, estavam surtindo efeito.
Fazendo uma comparação dos dados haitianos com os colombianos e dominicanos, é visível que a violência presente no Haiti poucas vezes chegou à mesma intensidade, quando comparado à Colômbia. Em relação à República Dominicana, percebemos a existência de uma equidade entre os dois países, com destaque, nos últimos anos, para 2008, 2009, 2010 e 2011, quando o índice haitiano chegou a ser menor quando comparado ao seu vizinho.
Para se ter uma visão mais ampla a respeito desses números, mostraremos outro instituto de pesquisa de conflitos, para fazer um contraste entre esses números. O Heidelberg Institute on International Conflict Research (do Departamento de Ciência Política da Universidade de Heidelberg), através do Conflict Barometer, mede o conflito haitiano. Segundo essa pesquisa, o conflito do Haiti é decorrente da luta pelo poder nacional por parte do governo e da oposição. Esse conflito teve início em 1986, com o fim da ditadura dos Duvalier. Foi um período marcado por assassinatos, prisões ilegais, sequestros, motins e protestos violentos. Com as eleições realizadas em 1990 que elegeu Aristide, a violência aumentou entre os grupos pró-Aristide e os seus opositores.
O Conflict Barometer mede a violência de acordo com os seguintes indicadores:
- Nível de intensidade: 1, 2, 3, 4, 5;
- Nome da intensidade (de acordo com o nível de intensidade):
1. Conflito latente: existência de conflito de interesse em relação aos valores nacionais
entre, pelo menos, duas partes;
2. Conflito manifesto: inclui a utilização de medidas que estão localizadas na fase
preliminar de força violenta, por exemplo, pressão verbal, ameaça explícita com meios violentos ou imposição com sanções econômicas;
3. Crise: Uma crise se torna uma situação de tensão quando, pelo menos, uma das partes
4. Crise grave: Um conflito passa a ser uma crise grave quando a força violenta é usada
de forma organizada;
5. Guerra: A força violenta é utilizada com certa continuidade, de forma organizada e
sistemática. O grau de destruição é enorme e de longa duração.
Os anos avaliados pelo Conflict Barometer que antecedem 2004 são 2003 e 2002. Os dados desses anos também serão mostrados para que possamos saber como a violência estava dominando o país.
Tabela 3: Índices de violência na Colômbia, no Haiti e na República Dominicana de acordo
com o Conflict Barometer
Colômbia Haiti Rep. Dominicana
Ano Intensidade Mudança Intensidade Mudança Intensidade Mudança
2011 4 x 3 x - - 2010 4 x 3 x 2 2009 4 x 3 x 3 NEW 2008 4 x 3 x - - 2007 4 x 3 x - - 2006 4 x 3 - - 2005 4 x 4 x - - 2004 4 4 x - - 2003 5 x 4 x - - 2002 3 x 3 - -
Escalada por dois níveis Nenhuma mudança x Escalada por um nível Desescalada por um nível
Desescalada por três níveis Novo conflito: NEW
Segundo a tabela, o Haiti passou, durante três anos consecutivos, em estado de crise grave (nível 4), ou seja, quando a força violenta é usada de forma organizada. Essa situação se faz presente no país, com a presença das gangues criminais e dos ex-militares, que agiam com atos violentos como forma de atingir o governo. Dois anos após o início da MINUSTAH, a realidade haitiana passou para o estado de crise (nível 3), em que a força violenta é usada em incidentes esporádicos. De acordo com o Conflict Barometer, o Haiti permaneceu nessa situação até 2011, ano em que os dados estavam disponíveis para análise.
Em comparação com a Colômbia e a República Dominicana, a situação do Haiti permaneceu a mesma que a relatada na análise dos dados do Political Terror Scale, isto é, poucas vezes chegou à mesma intensidade do país colombiano. A Colômbia foi o país que teve por mais anos consecutivos o nível 4 de intensidade de violência, enquanto a República Dominicana só apresentou dados nos anos de 2009 e 2010. Podemos visualizar que, no país, não houve, nesse período, uma grande intensidade de violência no novo conflito que surgiu com o Haiti, e que diminuiu no ano seguinte, como podemos observar na tabela. O motivo do conflito com o Haiti foi devido à imigração ilegal dos haitianos para o país dominicano. Como resultado, um haitiano foi morto e dois foram feridos pelas Forças Armadas dominicanas. A MINUSTAH interveio na situação, diminuindo a tensão entre os dois países.
Apresentados os níveis de violência do Haiti e por termos percebido a sua estabilização, mostramos agora, dados do Peace Global Index, que medem a posição das nações e das regiões, considerando-as pacíficas ou menos pacíficas. Os dados são produtos do Instituto de Economia e Paz, desenvolvidos em conjunto com institutos, grupos de reflexão e especialistas que estudam a paz. Os dados disponíveis para análise datam de 2008.
Tabela 4: Índice do Peace Global Index
PEACE GLOBAL INDEX
Ano Colômbia Haiti Rep.
Dominicana Total analisado 2012 144 107 90 158 2011 139 111 92 153 2010 136 113 81 148 2009 129 115 69 146 2008 128 107 80 138
Fonte: Produzida pela autora, de acordo com dados do Peace Global Index
De acordo com o Peace Global Index, quanto maior for a posição, menos pacífico é o país. Partindo desse entendimento, percebemos que o aumento do índice do Haiti, de 2008 para 2009, foi pequeno, contudo, a partir de 2010, esse número declinou, mostrando que o país se tornou mais pacífico com o passar dos anos. A Colômbia foi considerada menos pacífica, e a República Dominicana, o país mais pacífico dos três analisados. Esses números estão em consonância com os números de violência que foram mostrados pelos outros institutos de pesquisa. Isto é, à medida que os índices de violência, no Haiti, foram estabilizando, ele foi sendo considerado um país mais pacífico. Já a Colômbia, que apresentou os maiores índices de violência, foi o país menos pacífico, e a República Dominicana, que não apresentou conflitos graves, foi considerada o país mais pacífico.
A população é a mais afetada com a violência decorrente no território, pois, em um ambiente onde impera a violência, não é possível as pessoas se sentirem seguras. Como consequência negativa desse fator, o ambiente não é propício ao desenvolvimento econômico e social, as instituições não funcionam de forma efetiva e não há um Estado forte que
imponha a sua autoridade perante seus cidadãos e lhes forneça os serviços básicos essenciais para terem uma vida digna.
Para demonstrar que um ambiente violento acarreta más condições de vida, mostraremos alguns números referentes ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Haiti no decorrer dos anos. O IDH utilizado neste trabalho é o projetado por Amartya Sem e Mahbul ul Haq, que idealizaram uma nova forma de contabilizar o IDH diferente da perspectiva do crescimento econômico, em que se vê o bem-estar de uma sociedade apenas pelos recursos ou pela renda que ela pode gerar.
Essa nova abordagem procura olhar diretamente para as pessoas, suas oportunidades e capacidades:
O desenvolvimento tem a ver, primeiro e acima de tudo, com as possibilidades das pessoas viverem o tipo de vida que escolheram – e com a provisão dos instrumentos e das oportunidades para fazerem suas escolhas. (...) essa é uma questão tanto de política quanto de economia – desde a proteção dos direitos humanos até o aprofundamento da democracia (RELATÓRIO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO, 2004, p. v).
Assim, considerando que as pessoas são a riqueza das nações, Amartya Sem e Mahbul ul Haq criaram o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH)18 que, além de incluir o IDH, apresenta dados e análises relevantes para a agenda global. Esse documento aborda também questões sobre políticas públicas que colocam as pessoas no centro das estratégias de enfrentamento dos desafios do desenvolvimento. O RDH é reconhecido pela ONU, e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) publica, anualmente, um RDH global. Esse relatório pode ser uma ferramenta importante, não somente para os governos, como também para todos nós, porque, com mais informações, podemos nos tornar mais conscientes e atuantes para resolver os problemas que nos rodeiam. Isso justifica o fato de termos escolhido o IDH, visto que ele avalia o progresso do desenvolvimento humano em três dimensões básicas: vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e padrão de vida decente. Segue um gráfico que representa o IDH do Haiti.
18
Gráfico 3: Tendências do IDH
Fonte: http://hdrstats.undp.org/es/paises/perfiles/HTI.html19
Em relação ao gráfico 3, visualizamos o IDH haitiano em comparação com os países da América Latina e do Caribe, de países com baixo desenvolvimento humano e dos países do mundo, desde os anos 1980 até 2010. Apesar de o Haiti ser um país caribenho, quando comparado aos demais países da região e da América Latina, percebemos uma grande diferença de IDH. Essa mesma tendência é vista em relação aos demais países do mundo.
Fazendo uma comparação com os países de baixo desenvolvimento humano, como por exemplo, os africanos, o Haiti passou cerca de vinte e cinco anos com o IDH acima. Apesar de o IDH haitiano ser considerado de baixo desenvolvimento, aumentou com o decorrer dos anos, mesmo passando por períodos sem alterações. De acordo com o PNUD, entre os anos de 1980 e 2011, o valor do IDH aumentou de 0,332 para 0,454, um aumento médio anual de cerca de 1,0% ao ano.
Relembrando a figura 1 que ilustra o esquema a ser alcançado através da reforma do setor de segurança em um determinado Estado, e também, através de todos os índices e análise documental referente à MINUSTAH que aqui foram mostrados, como, por exemplo,
19
os Relatórios do Secretário-geral da ONU, os índices de violência, de paz e de IDH que foram apresentados, será possível responder se a segurança humana está sendo fornecida para os haitianos.
Com relação à democratização e à boa governança, o Relatório S/2012/678 destaca que importantes marcos políticos foram obtidos no Haiti, o que mostra que o processo de democratização e estabilização política progrediriam no país. Podemos elencar como positivo para o processo político do país a ratificação pelo Senado de um novo Primeiro Ministro; a publicação da versão corrigida da Constituição haitiana; a criação do Conselho Eleitoral Permanente para apoiar as próximas eleições; e o estabelecimento do Conselho Superior de Magistratura para fortalecer a independência do poder Judicial. Todos esses fatores reforçam ainda mais as instituições de direito do país.
Programas para o desenvolvimento do país continuaram sendo realizados, tanto por parte do governo haitiano, como em conjunto com a ONU, o PNUD e outros atores internacionais. Em junho de 2012 o financiamento desses programas totalizou o valor de 184 milhões de dólares, um valor que ainda é considerado pouco em relação à real necessidade do país. Por isso, é importante que os atores internacionais continuem com o seu apoio para que resultados mais abrangentes sejam alcançados. Desde 2010 o principal objetivo da missão é o fortalecimento institucional da governança em nível local e nacional, a fim de que o próprio governo tenha condições de fornecer aos seus cidadãos os serviços básicos essenciais para a sobrevivência.
A tomada de posse de um novo Governo, a publicação de uma versão corrigida as emendas constitucionais e da criação do Conselho Superior de Poder Judiciário são marcos importantes nos esforços do Haiti para reforçar o processo de democratização e as instituições de direito do Haiti. As medidas já tomadas pelo novo Governo para atrair o investimento estrangeiro, combater a corrupção e contrabando e promover projetos voltados para a criação de empregos são indicadores de um genuíno desejo de avançar com o desenvolvimento socioeconômico do país.
A MINUSTAH juntamente com a equipe da ONU finalizaram no período desse relatório um projeto estratégico para o período de 2013-2016, que está alinhado diretamente com o desenvolvimento do governo haitiano, que aborda um contexto de transição com dois objetivos centrais: continuar com o fortalecimento das instituições locais para a entrega dos
serviços para o governo, ocasionando assim, a redução gradual da presença da MINUSTAH no Haiti.
E de acordo com o próprio Secretário Geral, à luz dos progressos realizados nos últimos meses, “estou otimista de que os líderes do Haiti têm a oportunidade de fazer um verdadeiro progresso na reconstrução da nação, no fortalecimento das instituições, em atrair investimento, promover o desenvolvimento sustentável e em consolidar o respeito pelo Estado de direito e direitos humanos no Haiti” (S/2012/678). É aliado à estabilidade do território haitiano que o alcance desses objetivos serão possíveis.
De acordo com a estabilização dos índices de violência que foram mostrados, e com os avanços atingidos nas áreas política, economica e social, e com o aumento do IDH do Haiti, podemos dizer que a situação da segurança humana dos haitianos melhorou com o passar dos anos, desde o estabelecimento da MINUSTAH no país no ano de 2004 até o período analisado, 2012. Contudo, é importante destacar que muito trabalho ainda deve ser realizado no Haiti, pois mais de duzentos anos de cultura de violência não acabam em oito anos de trabalho que vem sendo desenvolvido no país.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ficou claro através do que foi exposto, que os desenvolvimentos dos estudos de segurança trouxeram visibilidade para as ameaças que afetavam diretamente para a existência do indivíduo, abordagem da segurança humana. Contudo, não podemos desconsiderar a importância da segurança do Estado, abordagem tradicional de segurança, pois o Estado é o organismo que proporciona a segurança para os seus cidadãos.
Foi com o fim da Guerra Fria que o Terceiro Mundo, assuntos regionais e não ocidentais, passaram a ser levados em consideração. Isto é, a bipolaridade característica da Guerra Fria cedeu espaço para a multipolaridade. Foi nesse período que o Haiti passou a chamar atenção do cenário internacional, em meados dos anos de 1990. O país estava passando por uma grave crise política que começou pela eleição de um civil, Jean-Bertrand Aristide, e que foi seguida por um golpe de Estado organizado pelos militares que até então governavam o país.
Foi possível observar que casualidades internas e externas contribuíram para a crise e instabilidade do Haiti. É verdade que a sua história é diferenciada dos demais países, pois foi o primeiro país da América Latina que alcançou a independência, vale salientar, através de uma revolução escrava. Esse foi um dos fatores que influenciaram para a pobreza presente no país, pois, a época da sua independência remota do período escravagista, 1804. E os países poderosos da época, os grandes colonizadores, aflitos que esse acontecimento incitasse as demais colônias, impuseram vários bloqueios à república negra, o que ocasionou um entrave para o desenvolvimento do país.
Apesar de a luta pela independência ter unido os diferentes grupos sociais, como os mulatos e os negros, depois da Independência, a comunhão se transformou em conflito, pois ambos os lados objetivavam tomar o poder. Foi a partir daí que o conflito interno teve início no país, e a principal causa era o domínio do poder nacional. Muitos conflitos foram travados entre os mulatos, o Partido Liberal, e os negros, que compunham o Partido Nacional.
Outro fator relevante que pode ser observado para a instabilidade do país foi a organização política do Estado haitiano. Logo após a independência o Haiti passou por duas monarquias (1811-1820; 1849-1855), com cerca de quinze anos aproximadamente no total. Em 1915 houve a intervenção dos Estados Unidos, que durou dezenove anos. Logo após, em