CAPÍTULO 3 A MINUSTAH E A REFORMA DA POLÍCIA NACIONAL
3. IMPLEMENTAÇÃO DA MINUSTAH
3.1. Mandato da MINUSTAH
De acordo com a Resolução 1542, do Conselho de Segurança, os objetivos principais da MINUSTAH estão divididos em três grandes áreas:
I – Ambiente seguro e estável
a) Apoiar o Governo de Transição (GT), visando garantir um ambiente seguro e estável, para que o processo político e constitucional tenha lugar;
b) Ajudar o GT na reestruturação, no monitoramento e na reforma da PNH, de acordo com os padrões democráticos de policiamento, através da habilitação e certificação de seu pessoal, sua reorganização e formação, incluindo a formação de gênero;
c) Ajudar o GT, principalmente a PNH, com o desarmamento, a desmobilização e a reintegração (DDR) para todos os grupos armados, incluindo mulheres e crianças associados a esses grupos;
d) Apoiar a restauração e a manutenção do Estado de direito; e) Proteger o pessoal da ONU, suas instalações e equipamentos; f) Proteger civis sob a ameaça iminente de violência física.
II – Processo político
a) Apoiar o processo constitucional e político do Haiti;
b) Ajudar o GT em seus esforços para trazer um processo de diálogo e reconciliação nacional;
c) Ajudar o GT a organizar, monitorar e realizar eleições municipais, parlamentares e presidenciais, através de apoio técnico, logístico e administrativo;
d) Ajudar o GT a estender a sua autoridade em todo o território haitiano e apoiar a boa governança em nível local.
a) Apoiar o GT, bem como instituições e grupos de direitos humanos no Haiti, em seus esforços para promover e proteger os direitos humanos, especialmente de mulheres e crianças;
b) Monitorar e informar sobre a situação dos direitos humanos, em cooperação com o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Percebemos que o mandato da missão se atrela fortemente à problemática existente no Haiti, ou seja, as atividades se concentram na área de segurança devido à grande escalada de violência que tomou lugar nesse país; passando pela área política, a grande causadora da violência no território; e por fim, os direitos humanos, já que é a população a grande vítima do caos instaurado no país. Como o foco deste trabalho e a reforma do setor de segurança, enfatizando a reforma da PNH, deter-nos-emos na primeira área do mandato: ambiente seguro e estável. Para tanto, veremos como a MINUSTAH está estruturada para o alcance desses objetivos.
3.1.2. Estruturação da MINUSTAH na área de segurança
Segue um organograma que ilustra como a MINUSTAH está estruturada em suas variadas áreas de atuação.
Figura 6: Organograma da organização da MINUSTAH15
Fonte: Corbellini, 2009, p. 108.
De acordo com Corbellini (2009), os escritórios, os setores e as unidades mostrados no esquema englobam os assuntos que são trabalhados na missão. Conforme representado, todas
15 É válido mencionar que tal estruturação pode mudar de acordo com o desenvolvimento das atividades da
as áreas estão subordinadas ao Escritório do Representante Especial do Secretário-geral. O núcleo da missão, também chamado de Core Group, é constituído pelos Estados Unidos, pelo Canadá, pelo Chile, pelo Brasil, pela Argentina e pela França.
Cada país tem um lugar de destaque na missão, como Argentina, Brasil e Chile, por exemplo, que são os responsáveis pelo restabelecimento da paz e da segurança, enquanto o Canadá, os Estados Unidos e a França atuam de forma destacada em áreas de cooperação e desenvolvimento, através da prestação de auxílio técnico, com o intuito de fortalecer as instituições do país.
A população haitiana receia a presença estadunidense e a francesa em seu território, pois vê nos Estados Unidos uma ligação com o golpe de Estado que tirou Aristide do poder e lembra-se dos franceses da época da colonização. Entretanto, os haitianos acreditam que os países sul-americanos - Argentina, Brasil e Chile – são, de fato, os promotores da MINUSTAH.
Aldunate (2010) destaca que a MINUSTAH é mais do que uma missão para resolver uma situação de emergência, e o seu maior desafio é recriar um país destruído. Para tanto, é necessário que haja a coordenação entre o governo de transição, a sociedade haitiana, o Core Group, as ONGs presentes no país, a ONU e os outros atores internacionais. É por esse motivo que a MINUSTAH é considerada uma missão complexa, devido à variedade de atores envolvidos e à dificuldade de haver uma coordenação perfeita entre eles. Como o seu objetivo, inicialmente, era de restabelecer a paz e a ordem no Haiti, é importante conhecer como essa área funciona. O autor supracitado mostra que há duas forças paralelas subordinadas ao Escritório do Representante Especial do Secretário-geral: a força militar comandada pelo Escritório do Comandante das Forças, e a força policial (UNPOL – Polícia das Nações Unidas), comandada pelo Escritório do Comissário de Polícia.
De acordo com Aldunate (2010), no início da missão, a força militar era composta de 6.400 homens dos países que participavam da missão. A UNPOL dispunha de 1.897 homens vindos de trinta e quatro países. Desse número, 1.000 estavam em unidades de assalto, isto é, em Unidades de Polícia Formada, cuja principal função era lidar com tumultos. A UNPOL também tinha policiais contratados da ONU. Muitos deles já estavam aposentados em seus países de origem e foram recrutados pela MINUSTAH para aconselhar e ajudar a PNH.
Havia um problema de coordenação entre essas duas forças paralelas, porque a UNPOL não estava sob autoridade do Escritório do Comandante das Forças, o que contradiz
o que estabelece o princípio da unidade de comando, de acordo com Aldunate (2010, p. 69). A UNPOL apresentava relutância em aceitar comandos que não fossem do seu pessoal (Escritório do Comissário de Polícia). Além da força militar e da UNPOL, havia um terceiro ator na área de segurança: a PNH. O que representava um problema, uma vez que a força militar e a UNPOL não confiavam na PNH devido a sua competência duvidosa e à sua fraqueza estrutural.
Os oficiais da PNH deveriam fornecer para os militares da MINUSTAH o que eles não tinham: conhecimento da área, dos criminosos e da cultura local. Contudo, a confiança na PNH era mínima, pois muitos dos seus oficiais eram corruptos e tinham ligações com as gangues criminosas. Mais de trinta por cento da corrupção no Haiti podem estar ligadas aos oficiais da PNH (ALDUNATE, 2010, p. 70).
O problema da coordenação entre a força militar, a UNPOL e a PNH foi resolvido em 2006, quando foi realizada uma reunião com o Departamento de Operações de Manutenção da Paz, foi acordado que deveria haver um único comando paras as operações militares em campo no Haiti. Com o passar do tempo, a questão da coordenação entre essas três áreas de segurança foi melhorando gradualmente, o que se tornou um ponto positivo para a reforma do setor de segurança haitiano, principalmente para o processo de reforma da PNH.