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CAPÍTULO 4 – A PESQUISA QUALITATIVA CRÍTICA: APRESENTAÇÃO

4.5 Abordagem descritiva e analítica dos dados

4.5.1 Análise dos elementos externos dos textos

Na análise dos elementos externos dos textos, procederei ao exame de suas relações com os três níveis de abstração da análise social, pela proposta de Fairclough (2006), os níveis dos eventos sociais, práticas sociais e estruturas sociais. Assim sendo, a relação dos textos com esses outros elementos de eventos sociais pressupõe o exame de como os textos figuram em ações, identificações e representações.

Em qualquer lugar e a qualquer época em que as pessoas engajem-se em atividades sociais, elas reflexivamente produzem representações desse meio e do

necessidade de garantir competição justa entre grupos, a fim de que todos tenham chances iguais para expressar seus desejos e se fazer representar.

próprio lugar no interior dele, na visão de Fairclough (2006), essas representações podem ser consolidadas e estabelecidas por meio de vários discursos compartilhados e estes podem incluir imaginários para possíveis formas alternativas da atividade social e podem vir a ser partes de estratégias para a mudança social. Portanto, ainda de acordo com Fairclough (op. cit.), ao realizar-se a análise de qualquer atividade social ou dos processos desenvolvidos socialmente, deve-se estar consciente tanto das suas características pré-construídas estruturalmente quanto da ação estratégica de grupos de pessoas para mudá-los em direções particulares, o que inerentemente inclui discursos que representam, simbolizam e narram a atividade ou o processo em questão de modos particulares.

Dois conceitos importantes, que transitam na busca transdisciplinar da abordagem discursiva crítica, far-se-ão presentes, nesse momento, para a investigação dos elementos externos aos textos, compondo a análise da perspectiva social: a noção de campo e a de habitus estabelecidas por Bourdieu (1997, 1980), como foi visto em “2.3.1 A inserção no social”, capítulo 2. O conceito de habitus (BOURDIEU; WACQUANT, 1992) que possibilita a abordagem das pessoas envolvidas no evento para consideração na análise de texto, ou seja, suas disposições personificadas de ver e agir de certos modos baseados na socialização e na experiência, que é, em parte, disposição de falar e de escrever de certa maneira.

Portanto, o objetivo maior desta tese, no que concerne à análise dos eventos sociais, das estruturas sociais e das práticas sociais, é identificar e desvendar, em discurso específico, o da mídia impressa pós-moderna, as estratégias que a este se associam e o efeito destas na constituição identitária da mulher no cenário político brasileiro atual.

Ainda na dimensão da investigação das relações externas, considerarei a intertextualidade, os entrelaçamentos de um texto com outros textos exteriores a este, e o modo como outras vozes são incorporadas, referenciadas, compreendidas e qual o grau de diálogo com a voz do outro. A relevância da análise da intertextualidade recai no fato de ela nos possibilitar o estudo dos textos como heterogêneos (FAIRCLOUGH, 2002) e ressaltar elementos e linhas diversos, muitas vezes contraditórios, que participam da constituição textual. Assim, as questões relativas à intertextualidade e à interdiscursividade serão tratadas no nível do discurso, que é aquele no qual as relações entre gêneros, discursos e estilos são analisadas. Esses elementos fazem parte dos textos e são também elementos sociais. Nos textos, esses se organizam em relações interdiscursivas, relações nas quais diferentes gêneros, discursos e estilos podem ser

misturados, articulados e tecidos de maneira particular. Como elementos sociais, são articulados de modo particular em ordens de discurso – aspectos linguísticos de práticas sociais nos quais a variação linguística é socialmente controlada. Tais elementos estabelecem ligações entre os textos e os outros elementos do social, entre as relações externas do texto e as suas relações internas.

Embora a investigação a respeito dos gêneros seja importante, já que as transformações sociais da era da globalização podem ser vistas, de acordo com Fairclough (2003a), como mudanças na rede de comunicação das práticas sociais, meu propósito maior nesta tese não recai sobre ela, mas, na verdade, o que procuro desvelar neste percurso são os processos e as estratégias postos em funcionamento pela mídia impressa brasileira na constituição identitária da mulher que exerce função política atualmente no Brasil. Para tanto, saliento que as questões relativas à personalidade, ou identidade pessoal, bem como as relacionadas à identidade social, conforme descrito em “1.2 A identidade da mulher no universo da globalização e seu papel social”, capítulo I, são merecedoras de análise aprofundada, já que será por meio dessa dualidade constitutiva que o perfil identitário feminino, aqui investigado, aflora e deixa vir à tona questões maiores relativas à ideologia e ao poder.

Outro elemento importante a ser investigado para dar suporte ao caminho investigativo a respeito das identidades é o estilo, porque é a representação discursiva das identidades. Estilos estão ligados à identificação, enfatiza Fairclough (2003), ao empregar a nominalização em vez da palavra “identidades”, e o autor afirma que, desse modo, destaca-se o processo de identificação, ou seja, como as pessoas identificam-se e são identificadas pelas outras. E o mais importante: estilos realizam-se em série de aspectos linguísticos, incluindo-se os fonológicos (tom, entoação, duração, acento e tessitura) e os de vocabulário (léxico, metáfora). Analiso, para tanto, os aspectos fonológicos, anteriormente citados, em exposições orais, na mídia televisiva, das duas personagens principais aqui investigadas: Dilma Rousseff e Marta Suplicy.

Um dos modos de agir e interagir é por meio da fala ou da escrita, assim, o discurso figura primeiramente “como parte da ação”, no entender de Fairclough (2003). Em segundo lugar, apresenta-se nas representações que sempre são partes de práticas sociais. A representação é substância discursiva e podemos diferenciar inúmeros discursos distintos que podem mostrar a mesma área do mundo de diferentes

perspectivas ou posições. Por último, o discurso constitui modos particulares de ser, identidades pessoais ou sociais, e o aspecto discursivo referente a esse item é o estilo. Vejo, então, que o discurso apresenta-se como o palco em que o gênero e o estilo realizam-se.

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