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CAPÍTULO 4 – A PESQUISA QUALITATIVA CRÍTICA: APRESENTAÇÃO

4.5 Abordagem descritiva e analítica dos dados

4.5.2 Análise dos elementos internos dos textos

A análise das relações internas dos textos privilegiará a investigação das questões semânticas, principalmente duas relativas ao campo linguístico: a metáfora e a modalização, junto com outros dois componentes semióticos denominados metáfora visual e modalização visual. Os dois últimos, inclusive, já foram apresentados e exemplificados no item “2.3.3 A contribuição da multissemiótica”. Tais elementos foram escolhidos por serem extremamente produtivos no corpus selecionado e por oportunizarem, por seu intermédio, a investigação de questões mais amplas relativas a eventos, práticas, estruturas sociais e lutas hegemônicas que, de acordo com Fairclough (2006), inscrevem-se nas diferentes escalas: global, macrorregional, nacional, local, urbana, regional e nas escalas específicas de instituições e organizações. Essas categorias foram escolhidas porque, ao funcionarem juntas, no universo textual investigado, permitem que determinados processos, engendrados para a constituição identitária feminina no universo político brasileiro, venham à tona com mais clareza e possibilitem que as relações desencadeadas no terreno textual desloquem-se para superfícies mais amplas ligadas aos aspectos sociais e ideológicos.

Partindo-se do pressuposto de que a mudança da metaforização da realidade ocasiona mudanças significativas no discurso, com implicações culturais e sociais, de acordo com Fairclough (2001), empreender-se a análise dos processos metafóricos que afloram em textos midiáticos preocupados com a constituição de perfis identitários de mulheres que exercem função política no cenário nacional, possibilita-nos a investigação de um elemento potente na transformação não apenas do discurso, mas, inclusive, do pensamento e da prática dessas esferas políticas.

Além disso, Fairclough (op. cit.) chama-nos atenção para a importância da análise da metáfora como elemento relevante naturalizado no interior de uma cultura e que se reflete na prática discursiva de grupos sociais específicos. Apresenta a maneira

como um domínio particular da experiência é metaforizado. Por exemplo, muitas vezes as metáforas de bens de consumo são transferidas para a educação: “Os cursos devem ser empacotados em módulos para que nossos clientes desejem comprá-los.” Diz, ainda, que as metáforas são tão profundamente naturalizadas no interior de uma cultura particular que as pessoas não apenas deixam de percebê-las na maior parte do tempo, como consideram extremamente difícil escapar delas em seu discurso, pensamento ou ação.

Os trabalhos de Lakoff e Johnson (1980) apresentam a metáfora como elemento produtivo em todos os gêneros discursivos, inclusive no discurso científico. Postulam, ainda, que a metáfora é primordialmente conceptual e faz parte do sistema ordinário do pensamento e da linguagem. Assim sendo, quando significamos determinados elementos por meio de uma metáfora e não de outra, estamos nos representando discursivamente de modo específico. Partindo-se do pressuposto de que a mudança da metaforização da realidade ocasiona alterações significativas no discurso, com implicações culturais e sociais, empreender-se a análise dessa configuração possibilita-nos a investigação de elemento relevante na transformação não apenas do discurso, mas inclusive do pensamento e da prática dessas esferas. O objetivo principal desta investigação é o de inventariar,

descrever e discutir as configurações metafóricas que são mais produtivas nos

textos midiáticos pós-modernos que constroem perfis identitários de mulheres de renome na política brasileira atual.

Ainda na perspectiva de Lakoff e Johnson (op. cit.), a metáfora é elemento primordial para nossa categorização do mundo e para nossos processos mentais. É possível explicar-se de muitas maneiras o funcionamento das metáforas, porém a ideia mais comum é de que ela é uma comparação, na qual há a identificação de semelhanças e a transferência dessas semelhanças de um conceito para o outro. A palavra vida é metaforizada, nos exemplos a seguir como recipiente:

a) A vida dele é vazia.

b) Tive uma vida cheia.

c) A vida dele continha muita dor.

No campo da política, pode-se também exemplificar com algumas configurações metafóricas. Percebe-se, nos exemplos relativos ao universo político, que a mídia encara esse território como campo de batalhas, onde, com certeza, vencerão os mais fortes e mais qualificados. Exemplifico a seguir:

a) Essa é uma linhagem de mulheres muito especiais. São mulheres fortes, que têm objetivos claros e lutam por eles. (Carta Capital, p. 16, 19 abr. 2006).

b) E a conquista do poder político é um símbolo de ascensão feminina no mundo todo. (Carta Capital, p. 16, 19 abr. 2006);

c) Roseana defende-se: “O Maranhão padece de um atraso provocado principalmente por um histórico de descaso do poder central.” (Carta Capital, 19 abr. 2006).

A essência da metáfora, segundo van Leeuwen (2005), é a ideia da transferência. Desloca-se alguma coisa de um lugar para outro, desde que haja a percepção de similaridade entre os dois lugares. A metáfora, para esse autor, é conceito multimodal que pode ser aplicado para outros universos semióticos que não digam respeito à língua somente. Muitas charges de cunho político, por exemplo, representam seus personagens (os políticos) como animais ou metade animal/metade homem, já que a função delas é fazê-los serem reconhecidos.

Outra figura relevante a ser investigada é a modalidade linguística – a modalidade visual já foi explicitada com detalhes no item “2.3.3 A contribuição da multissemiótica”, conforme informado anteriormente. A questão da modalidade pode ser vista como a maneira pela qual as pessoas se envolvem quando fazem declarações, perguntas, ofertas ou procuras, no entender de Fairclough (2003a). Há diferentes formas de fazer-se isso, acopladas a diversos níveis de envolvimento.

A modalidade é elemento importante na estruturação das identidades, ainda de acordo com Fairclough (2003a), aquilo com o que uma pessoa envolve-se é parte significativa do que ela é. As identidades são relacionais: aquilo que uma pessoa é reflete-se no modo como ela se relaciona com o mundo e com outras pessoas. As escolhas na modalidade são significantes, portanto, não apenas em termos de identificação, mas também em relação à ação (e as relações sociais da ação) e à representação. Essa diferença é mais óbvia com as declarações. O autor ilustra suas observações com os seguintes enunciados que ilustram declarações de determinado sujeito a respeito do que torna uma empresa eletrônica bem-sucedida:

a) “As empresas que são bem-sucedidas na web funcionam de forma diferente das suas concorrentes obsoletas.”

A referida autora poderia ter escrito também qualquer um dos enunciados abaixo para manifestar seu pensamento:

b) “As empresas que são bem-sucedidas na web parecem funcionar de forma diferente das suas concorrentes obsoletas.”

c) “As empresas que são bem-sucedidas na web geralmente funcionam de forma diferente de suas concorrentes obsoletas.”

d) “As empresas que são bem-sucedidas na web podem funcionar de forma diferente de suas concorrentes obsoletas.”

No enunciado a escrito pela autora há envolvimento bem maior na verdade da proposição do que nos enunciados b, c e d relação às representações, aos níveis de “afinidade” que eles têm com as mesmas.

Todas essas formulações, segundo Fairclough (op. cit.), apresentam a modalidade como relação entre o falante e o escritor – ou autor – e as representações. O autor não sugere que esta seja uma relação “privada” entre o eu racional e o mundo. A modalidade é processo relevante na estruturação de identidades (tanto nas pessoais – personalidades – quanto nas sociais), no sentido de que aquilo com o que uma pessoa envolve-se é parte significativa do que ela é.

Portanto, as escolhas de modalidade realizadas nos textos podem ser vistas como parte do processo de estruturação da própria identidade. Isso, porém, também acontece no decorrer dos processos sociais, visto que o processo de identificação é inevitavelmente transformado pelo processo de relação social.

A forma como uma pessoa representa o mundo, aquilo com o que ela se compromete (por exemplo, seu grau de envolvimento com a verdade) é parte de como ela se identifica, necessariamente em relação ao outro com quem interage. Em outras palavras, as identidades são relacionais: o que uma pessoa é resulta de seu inter- relacionamento com outras pessoas e com o mundo.

As escolhas relativas à modalidade são significativas em termos de identificação e também em relação à ação (e as relações sociais da ação) e inclusive à representação. O mesmo fato acontece com o modo, relacionado, principalmente, com os tipos de ação, funções do discurso e tipos de troca. Os autores (ou sujeitos) que empregam enunciados afirmativos para fazerem declarações apresentam-se de modo distinto daqueles que empregam enunciados interrogativos para fazerem perguntas, portanto, o modo é também significativo para a identificação.

Em relação à modalidade, essa propriedade dialética das escolhas textuais significa, por exemplo, escolha de modalidade com a intenção de evitar forte envolvimento com a verdade (como ao dizer “ele deve estar lá”, quando já se sabe que ele está lá ou não) pode ser motivada principalmente pelas relações sociais da ação, talvez como forma de discrição – embora essa seja, por si só, uma “mensagem” acerca da identidade de uma pessoa.

Desse modo, a seleção dessa configuração linguística torna-se relevante para esta pesquisa pelo fato de as escolhas a respeito dos processos de modalização nos textos serem investigadas como parte do processo de estruturação da própria identidade, além do mais, permite que a pesquisa linguístico-social, na perspectiva da ADC, que aqui se desencadeia, tenha possibilidades de investigar a tensão estabelecida pela mídia impressa entre personalidade e identidade social como estratégia específica que encobre questões mais amplas atreladas ao jogo de poder e à ideologia, as quais, ao aflorarem nesse domínio textual, permitem abordagem mais ampla das questões relativas ao estudo das identidades políticas aqui investigadas.

Considerando-se tudo que foi anteriormente apresentado na parte metodológica, o procedimento investigativo desencadeado aqui apresenta visão relacional dos textos e da análise textual, em que as relações internas (semânticas, gramaticais, lexicais) são conectadas com suas relações externas (a outros elementos de eventos sociais, a práticas e a estruturas sociais) por meio de análise interdiscursiva.

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