Autora: Jaqueline Evelin Martins
ANÁLISE E DISCUSSÃO
Logo nos atendimento iniciais o paciente ia dando indícios, sobre seu funcionamento psíquico, apresentando suas angústias diante de uma reviravolta em sua vida. E que tais mudanças não foram por suas próprias escolhas, ter um filho nunca fez parte de seus planos e desejos, “eu nunca tive o sonho de ser pai, e agora eu sou obrigado, não que eu não ame meu filho, mas minha vida mudou pra pior depois que ele nasceu, e aquela infeliz, me deixa louco, eu não tenho mais planos, porque agora tenho que pagar um valor alto de pensão, é o que a merda da justiça me obriga”. De algum modo Ricardo sente-se perseguido e ameaçado pela figura feminina, como a mãe de seu filho, tias, avó, colegas de trabalho e até mesmo as profissionais que fizeram parte do processo judicial.
Nos primeiros encontros Ricardo relatava de modo hostil, sobre como fora tratado pela outra psicoterapeuta, alegando que tal profissional não conseguiu compreender seu sofrimento e se voltou contra ele, o que o fez desistir do processo psicoterápico naquele momento. Seus relatos já me deixavam de algum modo acuada, no sentido em que eu também deveria ficar atenta, para não cometer o mesmo equivoco. Por mais que não me soasse como uma real “falha da profissional”, e sim como Ricardo percebia os apontamentos e interpretações fornecidos por ela.
Seus relatos surgiam de modo agressivo, com forte entonação de revolta e sentimentos rancorosos, principalmente pela mãe de seu filho, que é quem ele considera ter arruinado sua vida. A moça é uma jovem de 23 anos, de quem ele fala mal nas sessões, assim como não admite que sua família (avós e tias) tenham criado vínculo e sentimentos afetuosos pela moça. Não há um encontro, em que o enredo não seja em torno de conflitos com a moça e com sua família. Sobre sua mãe, esta reside em outro estado e ele traz manter boa relação com a mesma. Nesses encontros iniciais ia me dando conta sobre o funcionamento psíquico de Ricardo, se mostrava como o descrito por Klein sobre a posição esquizo-paranóide, tendo a cisão de objetos bons e maus utilizando-se de mecanismos de defesas ainda muito primitivos.
Desde a primeira entrevista com o paciente, já havia pré-concebido a imagem de um homem grosseiro e machista, mas que iria esperar os próximos encontros para tirar minhas conclusões quanto à minha hipótese. Sim, penso que desde nosso primeiro encontro ele já tenha me causado uma “má impressão”. E nos atendimentos seguintes, ele trazia de modo muito vivo sua revolta e ódio, depositados principalmente na mãe de seu filho: “Aquela desgraçada da Daniela acabou com minha vida, porque ela não sabe o que é ser mulher, nem o que é ser mãe. Ela pensou que e eu ficar com ela, mas caiu do cavalo.
Só que por um erro meu agora não tenho mais paz, ela me irrita de um jeito que se eu pudesse agarrava o pescoço dela. Eu não tenho mais planos, e ela ainda fica com todo meu dinheiro. Ela é uma imbecil, uma anta, só que ela tem uma família, porque a minha família virou a dela, eu que não tenho mais família”.
Se inicialmente percebia que Ricardo, causava-me sentimentos e certo incômodo que ainda não era capaz de nomear, fui me dando conta que em diversos momentos tinha que conter minhas ideias e pensamentos, para não atuar contratransferencialmente de modo negativo com o paciente. Sentia-me impotente, e por muitas vezes me questionava sobre o porquê ele ainda não havia desistido da psicoterapia.
Inicialmente o paciente me cumprimentava com aperto de mãos, antes das sessões e ao término, eu passei a não mais estender minha mão. Ele também tinha o costume de ir conversando durante o corredor, e eu dizia algo como “entendo, ok...”, e quando me dei conta, vi que ele ia falando sozinho no corredor, pois me mantinha calada. Antes de seus atendimentos, tinha a esperança dele desmarcar a sessão, ou até mesmo algum aviso sobre interromper o processo, mas para minha surpresa ele me aguardava na sala de espera.
Durante minhas supervisões, fui me dando conta de modo mais consciente desses sentimentos que Ricardo despertava em mim. Sem dúvidas, que de algum modo me identificava com as figuras dessas mulheres: de uma mãe jovem que foi acolhida por outras mulheres. E isso me causava raiva, deste homem que se apresentava a minha frente, que se queixava em ter que pagar pensão e ficar com o filho quinzenalmente. Enquanto mulher pensava também nas transformações e adaptações que esta moça teve que enfrentar, que vão desde mudanças físicas até as psíquicas, e que como sabemos o momento de puerpério também é uma fase delicada na vida das mulheres. Mesmo eu não tendo a experiência da maternidade, não tenho dúvidas que tais questões permeiam em meu íntimo.
Vi-me muitas vezes com receio de também virar alvo de ataques de Ricardo, o que me levou ficar mais contida durante as sessões, realizava breves apontamentos no sentido de compreender algo que ele me contava, mas sem grandes intervenções pois sentia que eu também poderia acabar defendendo a mãe de seu filho e estas mulheres de quem ele tanto se queixava. E isso causaria grandes impactos no paciente, juntamente com o fracasso do processo psicoterápico, possivelmente Ricardo abandonaria a terapia.
Recordo-me que minha supervisora esteve de férias, fiquei por pouco mais de quinze dias sem saber o que fazer com Ricardo, sabia que ele me causava sentimentos hostis, mas não sabia como poderia ajudá-lo, e também não tinha coragem de interromper a psicoterapia. Afinal ele me pagava corretamente e não faltava aos atendimentos, por mais que eu não achasse correto, sentia que não estava fazendo um bom trabalho. Foi então que após um atendimento com Ricardo, saí do consultório com fortes dores de cabeça, e decidi que tal situação não poderia continuar. Durante a semana tive minha sessão de psicoterapia, e conversando com minha terapeuta pude tomar consciência das minhas atuações contratransferenciais, e que quem procurou por ajuda foi Ricardo, não a mãe de seu filho e nem as outras mulheres que ele trouxe em seus relatos, mas que também teria que decidir se estava disposta a continuar com um paciente com este tipo de funcionamento, se iria interromper ou até mesmo encaminhá-lo para outro profissional.
Optei por ter uma conversa franca, o mais transparente possível como paciente, na sessão que se seguiu o questionei sobre como estava sendo para ele o processo de psicoterapia, pois sentia que não estava lhe ajudando: “Ricardo gostaria que você me contasse o que está sentindo da terapia, pois fico com a sensação que não estou te ajudando”, a resposta de imediato dele foi “Você acha que eu não tenho jeito? Vai me deixar?”. Para meu espanto, o paciente respondeu que se sentia mais calmo e aliviado em poder dividir suas angústias comigo, que fora do setting terapêutico não tinha essa possibilidade, e sentia-se julgado quando tentava de algum modo expor seus sentimentos.
Ricardo indagou, se eu estava pensando em interromper suas sessões, lembro que nesse momento, me dei conta que na minha frente estava alguém que demandava tamanho sofrimento psíquico, um paciente que ficou com medo de ser abandonado, nesse atendimento lhe respondi que o questionei pois a percepção dele sobre nosso trabalho era importante para mim.
Custou-me identificar e aceitar, que o que de fato Ricardo despertava em mim, era ódio por ele, e por ter que atendê-lo, e aqui concordo com Winnicott (1947) que muitas vezes o ódio do analista fica latente e que pode assim continuar facilmente. Em seu texto o autor relatou sobre seu ódio por um garoto (paciente), e que poderia ter batido no menino se não tivesse conhecimento de seu ódio, penso que passei por algo parecido com Ricardo, e até mesmo que pudesse estar negando tal sentimento, como se enquanto psicoterapeuta, não pudesse viver esses sentimentos em relação a um determinado paciente. Mesmo não dizendo ao paciente sobre meus sentimentos a seu respeito, acredito que foi fundamental eu aceitar e perceber o impacto que ele me causava por meio da transferência, que pode ser percebido na minha contratransferência negativa. Creio que os apontamentos de Winnicott (1947) a respeito do analista, ser comparado a mãe de um recém-nascido são essenciais para o manejo da psicoterapia psicanalítica, com pacientes profundamente desorganizados.
“A mãe deve ser capaz de tolerar o sentimento de ódio contra o bebê sem fazer nada a esse respeito. Ela não pode expressá-lo para ele... O ponto mais interessante a respeito da mãe é sua capacidade de ser tão agredida e sentir tanto ódio por seu bebê sem vingar-se dele, e sua aptidão para esperar por recompensas que podem vir ou não muito mais tarde.” (Winnicott, 1947, p.186)
Com a devolutiva de Ricardo, penso que foi isso que ele quis me dizer, que eu estava lhe fornecendo um espaço, em que lhe era possível despejar todo sua agressividade, sem que lhe fosse revidado seu ódio. Mesmo em alguns momentos, que percebi atuando de modo negativo, possivelmente não foi para Ricardo algo que o fizesse interromper com os atendimentos. Pelo contrário ele mostrava que estava empenhado em dar continuidade, sendo assíduo e confiando em depositar e dividir suas angústias comigo. Winnicott (1947) apontou ainda que em algum momento o terapeuta terá que dizer ao paciente sobre tais sentimentos, mas que isto é um caminho em que o profissional terá que ser continente, dispor de paciência, tolerância e confiabilidade assim como a mãe devotada é para seu bebê.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ricardo permanece em acompanhamento psicoterápico. Creio que é importante ressaltar que mesmo identificando minhas dificuldades e sentimentos a respeito dele, estes
ainda estão presentes em nossos encontros, e provavelmente tais sentimentos hostis sejam vivenciados pelas pessoas de seu convívio. Um ponto que julgo ter sido fundamental, foi o de investigar com o paciente sobre suas próprias percepções do processo, foi naquele momento que pude ter motivação para dar continuidade em atendê-lo, pois consegui ser tocada pelo seu sofrimento que se apresenta de um modo peculiar através de sua agressividade.
Reflito que muitas vezes, nos percebemos idealizando um “tipo” de paciente, e até um modelo de sofrimento psíquico a ser apresentado. E que é mais fácil sentir empatia e compaixão por um paciente, que se apresenta fragilizado, do que com um paciente que se apresenta de modo agressivo e hostil, que muitas vezes está apenas camuflando seu sofrimento. Mesmo sem saber como seguirá o atendimento com Ricardo, acredito que será um percurso árduo e longo a ser percorrido, por nós dois enquanto dupla terapeuta-paciente. E que por ora, ainda não seja o momento de grandes interpretações e intervenções visto que o paciente, ainda encontra-se num funcionamento psíquico de relações de objetos parciais.
Acredito que um psicoterapeuta com maior experiência, provavelmente tenha conduzido o manejo de modo mais assertivo desde o início, e que talvez Ricardo não causasse em outro profissional os mesmos sentimentos que me causou, considerando a singularidade e vivências pessoais e profissionais do psicoterapeuta. O manejo com este paciente pôde acontecer de modo mais ético a partir do momento que tomei posse dos meus sentimentos, com auxílio de supervisões e psicoterapia individual.