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Autora: Marisa Cintra Bortoletto

SETTING CLÍNICO

“Ao praticar psicanálise tenho o propósito de:

me manter vivo, me manter bem, me manter desperto.

Objetivo, ser eu mesmo e me portar bem.”

Winnicott (1961)

É assim que Winnicott inicia o texto “Os objetivos do tratamento psicanalítico”. Isto é, com sua extraordinária sensibilidade descreve com simplicidade e profundidade o que parece ser uma postura psicanalítica autêntica.

Lembra-nos o quanto requer do analista essa experiência de cuidar do outro. O quanto é preciso preservar nossa integridade física e emocional quando nos propomos a ajudar alguém em sua complexa estrutura emocional.

A vasta experiência clínica desse psicanalista inglês alude a uma invejável condição pessoal para poder estar com o paciente tal como ele é, e respeitá-lo mesmo que a maneira de ser do sujeito possa parecer paradoxal ou estranha.

Ele construía um setting clínico capaz de abarcar a observação tanto dos desejos como das necessidades do paciente. Diferenciava, por exemplo, “o desejo de ficar quieto” e “a necessidade de ficar quieto”, sendo que esta última poderia reproduzir uma falha ambiental e traduzir uma interrupção dos processos de desenvolvimento do self. Para tal, ora manuseava o setting, ora interpretava o material apresentado (... 1009).

Em 1954, Winnicott apresentou sua experiência clínica com pacientes regredidos, e desde essa época já preconizava a ideia de um setting diferente do tradicionalmente concebido por Freud. Os avanços nos estudos e a experiência do atendimento de pacientes borderline levaram-no a conceber um setting onde a função holding estivesse presente.

Como sabemos holding significa sustentação ou suporte, porém a tradução para o português não expressa o real conteúdo e essência dessa palavra, como veremos mais adiante na ilustração clínica.

Ao iniciar uma análise, Winnicott (1961) considerava desumano não se adaptar um pouco às expectativas do indivíduo. Todavia, jamais perdia de vista os elementos de uma análise padrão, entendendo análise padrão como a análise que trabalha centrada na conscientização da transferência. Então dizia: “Análise é para aqueles que querem, necessitam e podem tolerá-la” (p. 154). Nem sempre os indivíduos suportam um atendimento clínico que visa resgatar o que existe de verdadeiro e real em si mesmo. O processo psicoterápico deriva tanto do paciente quanto do terapeuta, cabendo a este último constituir um setting que mantenha duas características básicas: a estabilidade e a previsibilidade (Hisada 1001), de tal sorte que o paciente possa criar o seu próprio sentido de tempo e espaço: "Análise deve voltar-se cada vez menos sobre o material do paciente e mais sobre a forma como o paciente vive o setting” (p. 43).

ILUSTRAÇÃO CLÍNICA Fernando

Com quase trinta anos, chega ao atendimento psicoterápico dizendo que nunca teve vontade de falar sobre si, nem de contar seus sentimentos, segredos, questões mais íntimas. Com o passar do tempo percebeu que era muito fechado e preocupado com os acontecimentos de sua vida familiar. Nos namoros entendeu que essa característica de ser reservado estava limitando os relacionamentos amorosos, de tal maneira a não ter um relacionamento mais duradouro.

Desde a adolescência se sentia aprisionado. E referia-se a sonhos recorrentes onde estava em catacumbas egípcias, dentro de pirâmides. Eram catacumbas nos subterrâneos de uma pirâmide. Nesses sonhos ele batia e batia na laje tentando sair da tumba.

Ao descrever estes verdadeiros pesadelos, é possível entender a agonia de se sentir como se fosse um vivo-morto em seus afetos, e as inibições decorrentes deste estado da mente.

O paciente buscava compreender o porquê destes sonhos tão repetitivos. E reconheceu a necessidade de ajuda psicoterápica. Indagava-se sobre o fato de nos sonhos nunca haver saídas nem alternativas, e, a partir desses questionamentos, passa a considerar a possibilidade de compartilhar esses conteúdos numa psicoterapia.

Isso se tornou um marco em sua vida, lembrado em vários momentos do atendimento terapêutico: “Até hoje não me conformo de ter demorado tanto tempo para procurar ajuda”.

Juntos começamos a entender o significado desse aprisionamento. Uma hipótese inicial era a de que o paciente não vivia os pesadelos só ao dormir. Acordado, em sua vida cotidiana, o sentimento de que algo o impedia de fazer escolhas próprias também estava presente.

Como sabemos, desde a obra prima de Freud A Interpretação dos Sonhos, de 1900, os sonhos montam uma importante via de acesso ao inconsciente. Na maior parte das vezes, o sonho significa um desejo reprimido. Por esta razão, entendemos o sonho como uma forma disfarçada de realização dos desejos, e que nessa medida incide sobre ele uma censura cujo efeito é a deformação onírica (Garcia-Roza 1004).

Nos sonhos de Fernando observamos emoções de desamparo e desespero, uma ameaça a sua integridade e um profundo desejo de descobrir quem de fato ele é. Em sua história familiar tanto os pais como os irmãos mais velhos escondiam segredos, que anos mais tarde venho a saber, como por exemplo: o casamento dos pais já não existia muito antes da separação dos mesmos, na adolescência do paciente. Traições do casal tornaram a vida familiar um faz de conta.

A figura materna era sentida como uma mãe que infantilizava os filhos, especialmente Fernando, por ser o caçula. Vivia numa redoma onde não carecia pedir:

recebia agrados, como a comida preferida, a roupa impecável e celulares, computadores, videogames. O pai o solicitava a cuidar dos negócios da família, mesmo que o paciente dissesse não ter vocação para o comércio.

Outro aspecto era sentir-se angustiado com o intenso sentimento de culpa, quando de suas tentativas de realizar alternativas próprias. Após o término da faculdade decide seguir a vida acadêmica. E os sonhos começaram a se transformar. Então passa a sonhar que está dando empurrões em portas e mais portas, algumas se abriam outras não;

ora estava fechado numa casa, ora num avião. Por vezes, acordava assustado sem saber onde estava.

Num sonho mais recente ele está no seu quarto dormindo. Era um quarto branco e também cheio de portas. Levanta-se querendo encontrar uma saída. Tenta abrir as portas e não consegue, até que uma delas se abre como mágica. Agora se vê na cozinha,

um local apreciado por ele, pois tem como hobby a culinária. Pela primeira vez experimenta uma mistura de angústia e alívio.

Durante o processo terapêutico, um dos aspectos mais surpreendentes de Fernando era o quanto ele permitia nos aproximarmos dessas defesas intensas reveladas pelos sonhos. Os sonhos ajudaram a relação paciente-analista a consolidar-se, em termos de confiança e liberdade para expor os conteúdos, ou melhor, os “temperos” dos sentimentos abafados.

“Na travessia terapêutica que propõe Winnicott, os pacientes devem abandonar sólidas defesas construídas para evitar sobressaltos emocionais que lhes resultariam insuportáveis, de modo que cada tratamento supõe para o paciente o inevitável desafio de assumir certo estado de fragilidade existencial” (Smalinsky, Ripesi & Merle 1017).

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