2. Introdução
5.3. Análise e tratamento do material empírico e documental
A análise do material obtido foi feita por um conjunto de procedimentos visando interpretar os dados e articulá-los com a teoria que fundamentou esta pesquisa. Esta fase foi subdividida em três etapas: ordenação dos dados, classificação dos dados e análise propriamente dita.
Análise dos Dados
As discussões dos grupos focais foram transcritas verbatim e analisadas segundo a Análise de Conteúdo (AC) com a finalidade de identificar significados e sentidos atribuídos as vivências, e identificação de crenças e valores dos participantes sobre os tópicos propostos.
De acordo com Minayo (2007) a AC é uma técnica de tratamento de dados que “permite tornar reaplicáveis e válidas inferências sobre dados de um determinado
contexto, por meio de procedimentos especializados e científicos” (p.303).
Bardin define a AC como:
“Um conjunto de técnicas de análise de comunicação visando, obter por
procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição dos conteúdos das mensagens, indicadores quantitativos ou não que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens” (BARDIN, 1977, p.42).
De acordo com Franco (2007), a AC tem o intuito de observar e estudar as mensagens dentro de um determinado tema, as quais podem ser verbais (orais ou escritas), gestuais, documentais, silenciosas ou figurativas. Essas mensagens são portadoras de pensamentos, significados construídos coletivamente e estão ligadas a condições contextuais e históricas.
Assim, toda mensagem traz consigo um significado e um sentido. O
significado de um objeto pode ser absorvido, compreendido e generalizado a partir de suas características definidoras e pelo seu corpus de significação. Já o sentido implica a atribuição de um significado pessoal e objetivado que se concretiza na prática social e que se manifesta a partir das Representações Sociais. (FRANCO, 2007, p. 13).
A análise de conteúdo tem início com a leitura das falas, depoimentos e documentos, para posteriormente chegar a um entendimento mais profundo. Minayo
(2006) considera que operacionalização da AC ocorre em três etapas: Pré-Análise, Exploração do Material, Tratamento e Interpretação dos Dados Obtidos.
Primeira Etapa: Pré-Análise
Segundo Bardin (1977), na Pré-Análise há três finalidades para serem desenvolvidas: a escolha dos documentos que serão analisados, a formulação das hipóteses e/ou dos objetivos, e a elaboração de indicadores que fundamentam a interpretação final.
A AC tem início com a organização e transcrições verbatim das discussões dos diferentes grupos focais e segue com a realização da leitura flutuante, constituição do corpus, formulação de hipóteses e referência aos índices.
No momento da leitura flutuante, o pesquisador entra em contato com o conteúdo produzido pelo grupo e, deixa-se tomar por sentimentos, impressões e representações provocadas pelo contato com este material. Para Bardin, “esta fase é
chamada de leitura flutuante, por analogia com a atitude do psicanalista. Pouco a pouco, a leitura vai se tornando mais precisa, em função das hipóteses emergentes, da projeção de teorias adaptadas sobre o material e da possível aplicação de técnicas utilizadas com materiais análogos” (BARDIN, 1977, p. 96).
A constituição do corpus começa a ser delineada com as transcrições das sessões dos GFDs. Bardin define como corpus “um conjunto de documentos tidos em
conta para serem submetidos aos procedimentos analíticos. A sua constituição implica escolhas, seleções e regras (BARDIN, 1977, p. 96)”.
Essas regras as quais a autora se refere são baseadas em alguns princípios: o
princípio da homogeneidade, ou seja, seguir um mesmo princípio para a sua
composição, princípio da exaustividade , que verifica todos os tópicos estabelecidos no roteiro até a repetição dos conteúdos, o princípio da representatividade que contempla o universo heterogêneo da análise, e o princípio da pertinência, no qual o material é analisado e adequado ao objetivo da pesquisa, com base nos pressupostos teórico do estudo.
será investigada pelo pesquisador. Franco (2007), ressalta que algumas análises podem ser realizadas sem hipóteses pré-concebidas, entretanto, isso não significa descartar uso das técnicas para a análise do material que será estudado.
Elaboração de indicadores está relacionado com a freqüência de determinados temas no conteúdo do material explorado. Franco (2007) adverte que além de considerar a freqüência de conteúdos manifestos, é imprescindível ficar atento aos conteúdos latentes, pois “podem existir temas não explicitamente mencionados, mas
subjacentes as mensagens, passíveis de observação por parte do investigador e cuja freqüência de ocorrência passa a ser, também, indispensável para que se possa efetuar uma análise mais consistente e uma interpretação mais significativa” (FRANCO, 2007,
p. 58).
Segunda Etapa: Exploração do Material
Essa fase consiste em atingir o núcleo de compreensão do texto, para isso, é realizado uma classificação por categorias, que pode ser considerada “uma operação de
classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o gênero (analogia), com critérios previamente definidos. As categorias são rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos sob um título genérico (BARDIN, 1979, p. 117)".
A categorização pode considerar alguns critérios como: semântico (categorias temáticas), sintático (verbos e adjetivos), léxico (classificação das palavras segundo sinônimos e sentidos próximos) ou expressivo (podem ser classificadas como algumas perturbações da linguagem) (FRANCO, 2007).
Nesta pesquisa as categorias seguiram o critério semântico, pois as falas foram analisadas buscando-se identificar conceitos, valores, sentido e significados atribuídos aos temas circunscritos pelas questões norteadoras já descritas (saúde e doença mental, suas causas, fatores protetores, expectativas em relação ao tratamento, especificamente, sobre o uso de medicação).
De acordo com Bardin, trabalhar com análise temática
“consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação e cuja presença, ou freqüência de aparição pode significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido. (...) O tema é geralmente utilizado como
unidade de registro para estudar atitudes, de valores, de crenças, de tendências, etc” (BARDIN, 1979, p. 105-106).
Toda a análise deverá levar em conta o pressuposto teórico do significado da linguagem como expressão da subjetividade, que se apresenta também nos valores e crenças sobre determinado tema (MINAYO, 2000).
Terceira Etapa: Tratamento e Interpretação dos Dados Obtidos.
Nesta etapa o pesquisador realizou inferências e interpretações, considerando pressupostos teóricos sobre sofrimento psíquico e o cuidado integral. Para isso considerou-se o que Franco relata sobre produzir inferências em AC:
“tem um significado bastante explícito e pressupõe a comparação dos dados, obtidos mediante discurso e símbolos, com os pressupostos teóricos de diferentes concepções de mundo, de indivíduo e sociedade. Situação concreta que se expressa a partir das condições das práxis de seus produtores e receptores acrescidas do momento histórico/social da produção e/ ou recepção. (FRANCO, 2007, p. 31)".