4. Resultados e discussão
4.3. Análise internúcleo
Com o propósito de aprofundar o objetivo geral dessa dissertação, a seguir será apresentado o procedimento de interpretação internúcleos, conforme prevê Aguiar e Ozella (2013). A análise internúcleo vincula os seis núcleos, procurando articular as significações, bem como as mediações que permeiam os núcleos, conforme ilustrado na Figura 5.
Figura 5. Articulação dos núcleos de significação para análise internúcleos
A atividade é direcionada a um objetivo, e a transformação desse objetivo em um resultado ou produto é a motivação da existência da atividade. Na atividade humana da diarista, assim como outra atividade humana, há a prescrição de objetivos, regras e procedimentos relacionados aos resultados desejados e como fazer para alcançá-los. A prescrição é fornecida pela sociedade, pelos tomadores de serviço e pelo trabalhador. Quando em atividade, há a produção de sentidos e significados; a existência das necessidades, motivos, apropriação e desvelamento da subjetividade, considerando as múltiplas possibilidades de vir a ser sujeito.
Este é o momento de evidenciar semelhanças e contradições presentes nas significações das diaristas, a fim de continuar revelando zonas de sentido, que se relacionam com o movimento de constituição de sua identidade (Aguiar, Soares, & Machado, 2015). Para nos aproximarmos do modo de ser do sujeito, precisamos considerar a totalidade das zonas de sentido apreendidas nos núcleos (Araújo, 2015). As contradições, por sua vez, não necessariamente devem ser evitadas, pois são força motriz dentro da atividade. Podem
representar o tipo de desenvolvimento que está ocorrendo dentro do sistema de atividade (Engeström, 1987).
No sistema de atividade, os elementos interagem uns com os outros e estão sujeitos a funcionarem por meio de mudança. A mudança em uma ferramenta, por exemplo, pode mudar a orientação do sujeito em relação ao objeto. É possível que o próprio objeto e motivo também sofram mudanças durante o processo da atividade (Araújo, 2015).
As diaristas são os sujeitos da atividade estudada. Essa atividade deve ser analisada dentro do contexto de desenvolvimento e os elementos de uma atividade, por serem dinâmicos e construídos historicamente, se transformam ao longo do seu desenvolvimento. A função da faxina, da lavagem, do engomado, ou da ajuda geral são os objetos, que os distingue de outras atividades. Para tanto, toda atividade é orientada a objetivos e, portanto, incorpora o motivo da atividade.
O objeto é o espaço problema e as ações orientadas ao objeto se caracterizam por incertezas, interpretação, surpresa, ambiguidades, criação de significados e potencial para mudanças (Engeström, 2012). A primeira condição de qualquer atividade é a necessidade. Para tanto, a necessidade não determina a orientação real da atividade, é apenas no objetivo da atividade que ela encontra sua determinação. A necessidade encontra sua determinação no objeto, se objetivando nele, e esse objeto torna-se motivo da atividade, aquilo que o estimula (Heemann, 2010).
Do mesmo modo, no trabalho doméstico, o objeto é de extrema complexidade e há certa dificuldade em se padronizar o cotidiano de trabalho, isso porque o processo de organização e cuidado engloba uma união singular entre os sujeitos (Ribeiro, 2014). Ao buscar compreender como as diaristas significam sua atividade de trabalho, revelamos zonas de sentidos acerca da trajetória ocupacional (núcleo 1). A apreensão de como as diaristas significam a trajetória ocupacional revelou que esses sentidos foram produzidos pela
mediação de ferramentas psíquicas e físicas ao longo da sua vida pessoal. Isso produziu reflexos no âmbito profissional, cujas tarefas são influenciadas pela história da vida familiar.
Essas histórias se relacionam, se entrelaçam e, muitas vezes, se confundem, haja vista as relações sociais que as diaristas têm com seus patrões, clientes e usuários. Ao mesmo passo, são essas relações que estruturam a sua atividade de trabalho (núcleo 3) e mediam a sua atividade (núcleo 2). “Os vínculos afetivos que possui com esse empregador são demasiadamente fortes, que interferem até mesmo nas suas noções de ‘'lar’, de história pessoal e em sua própria concepção de sujeito” (Monticelli, 2013, p. 150).
As doze diaristas, aqui estudadas, compreendem que o seu trabalho se desenvolve ora em um espaço profissional, ora em um espaço familiar (núcleo 1). A condição de dona de casa lhes permite conhecer o exercício das atividades a serem realizadas na casa de seus patrões. Para tanto, há uma contradição ao dizerem que arrumam a casa das patroas como se fossem suas casas, já que em suas residências não necessariamente buscam um ideal de limpeza (Teixeira et al., 2015). Quando se veem em espaço familiar, é perceptível certa flexibilidade na sua atuação (núcleo 5). Quando em espaço profissional, as diaristas dizem quão difícil é estar todos os dias em casas diferentes (núcleo 2), ao mesmo passo que têm de ser relacionar com usuários e clientes, cada qual com suas particularidades (núcleo 3).
As dimensões profissional e familiar mediam uma interação sob constante tensão, pois não se estabelecem por completo: há uma relação familiar que não perde o elemento da subordinação. Desse modo, as relações não são construídas apenas pela afetividade, mas pelo aspecto da hierarquização. De outro modo, a casa, se tornando esfera produtiva, faz com que, em seu cotidiano, não haja uma delimitação precisa do que é público e privado (Teixeira et al., 2015). Por isso, há uma certa ambiguidade na posição da diarista: se ela está integrada ou excluída da família (Ribeiro, 2014).
Muitas se sentem felizes por não serem tratadas como empregadas, mas como alguém da família ou como amiga dos patrões. Para tanto, essa felicidade pode ter a ver com a recusa de identidade de trabalhadora doméstica, e por isso assumem que os lugares que trabalham são seus, lugares esses em que há um misto de sofrimento com pertencimento (Teixeira et al., 2015).
Entre os princípios básicos da teoria da atividade, está a mediação por meio de ferramentas, que moldam a maneira como se interage com a realidade. Por um lado, as ferramentas podem expandir as habilidades para manipular ou transformar objetos diferentes e, por outro, podem limitar ou restringir a percepção e manipulação do objeto em si (Quevedo, 2005).
As ferramentas propostas neste estudo variam entre aquelas físicas e psicológicas, que vão desde o uso do corpo e da mente, até o uso de instrumentos como a vassoura, a pá, o rodo, etc. A ausência desses artefatos impede a consumação da atividade. Essas ferramentas podem catalisar habilidades para manipular e transformar objetos diferentes, mas também podem limitar a percepção e manipulação do objeto (Heemann, 2010).
Por isso, as mudanças no mundo do trabalho, que conferem variações nas modalidades de trabalho (núcleo 5), trazem às diaristas diferentes modo de se relacionarem com os tomadores de seus serviços e outros grupos profissionais (núcleo 3). Quando não há condições favoráveis à realização de suas atividades, isto é, quando há impedimentos (núcleo 2), elas usam a flexibilidade do trabalho (núcleo 5), ou melhor, a partir da percepção que têm da sua atividade: usam a sua autonomia e liberdade (núcleo 4) como um recurso para enfrentar as dificuldades (núcleo 2).
Essas relações conferem uma percepção desafiadora de suas atividades de trabalho (núcleo 4), pois a atividade fim indica que casas diferentes resultam em sentidos e significados diferentes (núcleo 6), haja vista que os artefatos mediadores acabam se tornando,
também, particulares (núcleo 2). Outro aspecto a se pensar é que, enquanto no núcleo 4 o retorno financeiro é uma das representações da atividade que realizam, no núcleo 6, ele aparece como atividade fim, evidenciando outras necessidades e motivos que as impulsionam para tal atividade.
Seus modos de pensar, sentir e agir como diaristas são reconfigurados a partir de sua experiência prática. Enquanto nos núcleos 1 e 2 as diaristas apresentaram que as mães tiveram papeis preponderantes na execução das atividades que exercem hoje, a herança materna têm sido rompida aos poucos, pois seus filhos já tiveram melhores oportunidades de acesso à escola. Do mesmo modo, as diaristas conseguem apreender que as mudanças decorrentes da reestruturação produtiva merecem uma melhor reflexão sobre as trajetórias profissionais de seus filhos, de atividades que lhes garantam melhor retorno no aspecto do valor humano, ou melhor, da ascensão social.
O motivo que as impulsionaram a trabalhar (núcleo 1), mesmo quando ainda criança, hoje se apresenta como a forma que compreendem sua atividade de trabalho, isto é, como meio de sobrevivência e sustento (núcleo 4). Outra zona de sentido produzida é que o trabalho é representado como uma atividade que é sobrecarregada e que exige força (núcleo 4), porém, ter força e ritmo para o trabalho é algo que se traduz em dificuldade para a realização da atividade (núcleo 2), haja vista as condições físicas discriminadas e outros fatores já descritos. O ageísmo, por exemplo, também se configura como um impedimento para a realização da atividade (núcleo 2, ao mesmo passo que também é parte do núcleo 5, requisitos para o recrutamento de mão de obra).
As regras permitem certo nível de estabilidade para a atividade humana. Para tanto, na atividade da diarista não há normas, regras ou diretrizes explicitas, haja vista a condição invisível jurídico e social de sua atividade. Porém, é possível levar em consideração as normas impostas pelo SINE, o qual é responsável pelo agenciamento das diaristas aqui
representadas. As diaristas devem ter cadastros ativos e atualizados e quando agenciadas devem permanecer na residência por um período de 9 horas. Por outro lado, as normas implícitas implicam, notadamente, que as diaristas são indicadas ou referenciadas ao SINE por meio de amizades e outros tipos de relações, seja com conhecidos ou ex-patrões.
No que diz respeito ao elemento social, comunidade, as diaristas circulam em um meio sociocultural indefinido pela própria literatura, pouco se fala sobre esse gênero profissional, sobre aquilo que as torna diferente de outras atividades ocupacionais. As relações com seus pares, de mobilização e organização, ainda são muito frágeis. O SINE tem iniciativas incipientes, com reuniões que estimulam o aprendizado e a capacitação contínua, indicam formas de agir, apontando o que é verdadeiro e correto e prevendo formas de trabalhar. O SINE, muitas vezes, se responsabiliza pelo que as diaristas aprendem e executam nas residências, porém as regras são muitas vezes prescritas pelas patroas, ou pessoas em outras condições hierárquicas.
Diante disso, a divisão do trabalho pode ser observada no modo como as participantes da comunidade dividem a responsabilidade na influência e definição do objeto. A divisão social diz do lugar das patroas, clientes e usuários na concepção da atividade, mas também de outras atividades profissionais que apresentam objetos semelhantes, como as mensalistas. A distribuição das responsabilidades é, em geral, das patroas, clientes e usuários. Porém, há certa volatilidade nisso, a depender do relacionamento entre a diarista e seus tomadores de serviço, ou com outras diaristas e mensalistas.
A atividade da diarista parte de sua necessidade de fazer a faxina, a lavagem, engomado ou ajuda geral. Entretanto, sua necessidade em si não caracteriza uma atividade. Como toda atividade tem um caráter objetal, a atividade só se realiza quando a necessidade encontra o espaço problema, ou seja, o objeto – a casa para limpar, a roupa para lavar ou para engomar – que são as patroas, usuários, clientes, ou mensalistas demandando o serviço,
motivo da atividade. Os instrumentos, tais como: vassoura, pá, rodo, ferro e etc., mediam a
relação sujeito-objeto, influenciada pela aprendizagem tácita, ou da indicação e referência de algumas pessoas conhecidas e a opção da diarista ser agenciada pelo SINE. As regras, na condição do SINE, e a divisão do trabalho reforçam a estrutura do sistema de atividade. Exemplificamos esse modelo na figura a seguir:
Figura 6. Estrutura do sistema de atividade da diarista.
No entanto, o sistema de atividade é dinâmico e não necessariamente a organização da atividade da diarista é essa, o que pode contradizer o sistema de atividade. A diarista pode não encontrar utensílios e materiais de limpeza necessários à execução de suas ações; pode não querer realizar determinadas ações naquela residência, tendo em vista a relação que estabeleceu com a usuária ou com a mensalista, reordenando uma nova divisão do trabalho. Além de que a nova divisão do trabalho pode implicar na dissolução de regras impostas pelo SINE. Isso implica em uma nova organização do tempo de permanência nas residências, por conseguinte, novas regras. Por isso, reiteramos que as contradições no sistema de atividade
não devem ser evitadas, são elas que dinamizam a atividade, ao mesmo passo em que representam o desenvolvimento que está ocorrendo dentro do sistema de atividade e do próprio sujeito.