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2. Processo de significação

2.2. A teoria da atividade como subsídio para compreender o processo de significação no

2.2.3. Sentido, significado e atividade em Engeström

A primeira geração apresentou limitações, pois Vygotsky utilizou, como unidade de análise, os processos básicos superiores. A segunda geração da teoria da atividade foi desenvolvida com base nos estudos de Engeström, que expandiu o modelo de Leontiev adicionando o nível macro a estrutura da atividade, com os seguintes elementos: artefatos,

sujeitos, objetos, divisão do trabalho, regras e comunidade (Piccolo, 2012). Segundo esse autor, o estudo de ferramentas ou artefatos deve ser visto “como componentes do funcionamento humano, integrais e inseparáveis” (Engeström, 1999), por isso, o foco do estudo da mediação deveria ser na sua relação com os outros componentes de um sistema de atividade (Daniels, 2003).

Enquanto isso, a terceira geração é de autores que investigam a teoria da atividade como uma rede de atividades (Piccolo, 2012). Esses autores buscam desenvolver ferramentas conceituais para a compreensão de diálogos, de múltiplas perspectivas e de redes de sistemas de atividade em interação (Daniels, 2003).

Como é possível perceber, Vygotsky deu ênfase ao conceito de mediação e do estudo de ferramentas e artefatos como partes do funcionamento humano, integrais e inseparáveis. Já Leontiev deu ênfase à estrutura hierárquica da atividade. Por sua vez, Engeström, ao se apropriar dessas concepções, propõe estudar a mediação na relação com outros componentes de um sistema de atividade; ou seja, ele propõe ir além do sistema de atividade singular (Bulgacov, Camargo, Canopf, Matos, & Zdepski, 2014). É com Engeström que o sistema de atividade servirá de referência nessa produção, pois, com base em suas concepções, encontramos caminhos para entender a realidade, haja vista o foco por estudar os motivos que dão sentidos e significados a atividade.

Para Engeström (1987), a atividade é uma formação coletiva, sistêmica, que possui uma estrutura mediadora complexa. O sistema de atividade produz ações e, também, é realizado por meio de ações (Daniels, 2003). Na estrutura do sistema de atividade proposto por Engeström, há uma relação de interdependência entre os elementos sociais/coletivos – representados pela comunidade, regras e divisão do trabalho – e as ações orientadas por objetos são sempre caracterizadas por ambiguidade, interpretação e produção de sentidos (Daniels, 2003; Engeström, 1999), conforme é possível observar na Figura 3.

Figura 3. Estrutura de um sistema de atividade humana.

Fonte: Engeström (1987).

Os elementos do sistema serão descritos abaixo, conforme é apresentado em Beffa (2016):

 Sujeito: representa a natureza individual, mas também coletiva, da atividade humana, indivíduo e subgrupo de pessoas;

 Objeto: é o significado, o motivo e a finalidade de um sistema de atividade coletiva: É considerado como matéria-prima para os sujeitos envolvidos em uma atividade, estando aberto a inúmeras e parciais interpretações. Essa matéria-prima, que contém um determinado conflito ou problema a ser resolvido, é vista como decorrente de constantes interpretações, reconstruções e modificações impelidas pela ação dos sujeitos, interessando revelar, portanto, o caráter contraditório e historicamente mutável dos sistemas envolvidos na produção da atividade (Beffa, 2016, p. 7).

 Ferramentas: envolvem os instrumentos da ação dos sujeitos, de forma física ou simbólica, interna ou externa;

 Comunidade: onde a atividade está situada dentro do contexto sociocultural daqueles sujeitos que compartilham o mesmo objeto da atividade;

 Regras: relacionamento entre os sujeitos e a comunidade. Tem a ver com regulamentos, normas, práticas e convenções relacionadas à prática das atividades. Pode aparecer de forma explícita (leis) e implícita (relações de amizade e poder);

 Divisão do Trabalho: distribuição de responsabilidades e a variação de papeis dos sujeitos envolvidos na execução de uma atividade dentro de uma comunidade; implica em relações hierárquicas, submissões, conflitos;

Com base nessa abordagem, é possível estudar diferentes formas das práticas humanas, ou seja, as atividades como processo de desenvolvimento (Engeström, 1987). A análise da atividade humana e das práticas humanas como processo de desenvolvimento, interligando o individual e o social, ajuda na compreensão do fazer humano, da consciência, do pensamento e da ação voltada para a mudança (Beffa, 2016).

Nesse sentido, as ações humanas são voltadas para um objeto ou objetivo e esse direcionamento é intermediado por um contexto social mais amplo, a saber: os artefatos culturais, as regras sociais, a comunidade e a divisão do trabalho. Do mesmo modo, o sujeito se direciona a um objetivo ou objeto, estando também sob mediação dos artefatos culturais ou simbólicos (ferramentas). Esse modo de pensamento altera o foco para as interrelações complexas entre o sujeito individual e sua comunidade.

As ações orientadas por objeto são sempre caracterizadas por ambiguidade, interpretação e produção de sentidos, já que a atividade é um fenômeno dinâmico e construído historicamente, e tendo em vista os cinco princípios que regem a teoria: 1) o sistema de atividade é coletivo e deve ser visto em sua relação de redes com outros sistemas de atividade; 2) no sistema de atividade há uma multiplicidade de vozes, uma vez que há múltiplos pontos de vista, tradições e interesses; 3) os sistemas de atividade humana tomam forma e são transformados ao longo do tempo; 4) as contradições são fontes de mudança e desenvolvimento; por fim, 5) no sistema de atividade humana é possível a existência de transformações expansivas, isto é, quando o objeto e o motivo da atividade são conceituados novamente (Daniels, 2003).

É por meio das regras do seu ofício, dos valores e saberes compartilhados por sua comunidade de pertencimento ou seus pares, que o sujeito tem acesso aos significados. Esses significados se desenvolvem como recursos para a ação. Porém, para que haja ação, é exigido do sujeito planejamento da ação. Em sendo consciente, o sujeito pode falar sobre a atividade. Assim, a atividade possui duas dimensões: 1) objetiva, em que há a produção de objetos e serviços; e 2) subjetiva, quando há a apropriação de vários significados envolvidos na produção de novos sentidos (Bendassolli & Coelho-Lima, 2015).

Todavia, a passagem do mundo real para o mundo interno não é reflexo do mundo social. Para isso, faz-se necessário os artefatos mediadores, como, por exemplo, a linguagem e a atividade coletiva laboral (Moretti et al., 2011). A relação entre linguagem e consciência também tem sua importância, porém,

não é a palavra por si mesma o que constitui o eixo da consciência, mas os conhecimentos socialmente acumulados e objetivados na palavra. A palavra é essencial para a consciência precisamente porque nela se sedimentam, se objetivam, e através dela se atualizam os conhecimentos graças aos quais o homem adquire consciência da realidade (Rubinstein, 1965, p. 372).

A linguagem, por sua vez, denota importância, por conter elementos pessoais e transpessoais vinculados a narrativas compartilhadas, o que auxilia na denominação de determinados contextos, formas de vida, e compõe o processo de socialização; assim, também, é por meio da linguagem que o sujeito se singulariza, por meio do movimento e processo de interiorização e exteriorização (Bendassolli & Coelho-Lima, 2015).

Ao se relacionar com o gênero humano, sob mediação, o homem consegue fazer apropriações (interiorização) e objetivações do contexto em que vive (Moretti et al., 2011). Portanto, nesse movimento, há o processo de subjetivação, decorrente dos significados internalizados, e o processo de objetivação (externalização), por meio do compartilhamento de sentidos (Bendassolli & Coelho-Lima, 2015).

Para o processo de apropriação da realidade, importância se dá aos signos (instrumento de significação) e instrumentos como mediadores, pois a atividade do indivíduo sobre o objeto não é direta (Hila, 2009). Os signos são instrumentos psicológicos produzidos socialmente e são utilizados pelo gênero humano na comunicação consigo e com os outros. Caracterizam-se pela reversibilidade, ou seja, são capazes de representar algo tanto para quem recebe quanto para quem emite, embora essa representação não seja coincidente (Zanella, 2004). São, portanto, os instrumentos que orientam a transformação da atividade externa ao homem e, por outro lado, o signo que orienta a transformação da atividade interna. Eis as significações (Bernardes, 2010).

2.3. Em síntese...

O sentido é resultado da interação real existente entre o homem e o mundo, ele é inconstante e dinâmico, e mais: é o processo de produção singular dos significados. Enquanto isso, o significado é a narrativa socialmente disponível sobre determinado tema, é resultante das apropriações efetivadas pelo homem ao longo da história, isto é, produto do movimento histórico de apropriação da realidade. É imutável e estável.

Os significados são o modo como sintetizamos as práticas sociais, a forma ideal de existência no mundo objetal; porém, esses significados possuem uma relação de interdependência com os sentidos, pois a forma como o indivíduo se apropria do significado depende do sentido pessoal, cuja criação se dá pela relação entre o que incita a ação no sujeito

e aquilo para o qual a sua ação se orienta, ou seja, a relação entre motivo e fim da atividade (Asbahr, 2014).

Embora haja diferença entre sentidos e significados, estes compõem uma unidade indivisível, medida pela atividade. Desse modo, ambos são parte do mesmo fenômeno e a compreensão de ambos, mediados pela atividade, constitui o processo de significação (Bendassolli & Coelho-Lima, 2015), como é possível observar na Figura 4.

Figura 4. Sistema de atividade proposto por Engeström (adaptado).

Fonte: Bendassolli & Coelho-Lima, 2015.

A significação, apropriação da atividade pelo sujeito (Kahhale & Rosa, 2009), é um processo, pois implica no movimento de produção e transformação coletiva de significados e sentidos, além da apropriação privada (Zanella, 2004). O sujeito atribui significados a realidade objetiva, tornando-a subjetiva, por meio da atribuição de sentidos próprios (Maheirie, 2002). Assim, as significações se referem àquilo que alguma coisa significa, pois as coisas não significam por si só, tampouco significam a mesma coisa para indivíduos diferentes (Zanella, 2001). Por significação do trabalho se entende a forma como o individuo apreende, compreende e define o trabalho, assim como a importância e o valor que atribui ao trabalho (Andrade et al., 2012).