As situações que são percebidas pelos estudantes como sendo geradoras de stress em ECE são as situações relacionadas com a avaliação (M=3.25; DP=0.88) que são percecionadas como indutoras de maior stress, seguindo-se as relacionadas com os aspetos pessoais (M=3.18; DP=0.84) e as questões relacionadas com a gestão do tempo e do trabalho (M=3.15 DP=0.84). Os aspetos específicos da profissão de Enfermagem (M=2.81; DP=0.75) e os fatores relaciona- dos com a orientação em ECE (M=2.78; DP=0.84) são percebidos como induzindo menos stress, quando comparados com os fatores anteriores.
Procurámos verificar se o sexo e o ano de frequência do curso exerceriam um efeito dife- rencial na perceção de situações de stress em ECE. Verificou-se que os estudantes do sexo feminino evidenciaram níveis médios de perceção de situações de stress significativamente superiores aos seus colegas rapazes.
No que se refere à existência de diferenças na perceção de situações de stress em função do ano de frequência do curso, verificou-se que os estudantes do 2.º ano (M=3.18; DP=0.57), do 3.º ano (M=2.97; DP=0.70) e do 4.º ano (M=2.94; DP=0.74) evidenciaram uma perceção maior de situações indutoras de stress do que os seus colegas do 1.º ano (M=2.70; DP=0.75). De um modo geral, foram os estudantes do 2.º ano os que apresentaram uma perceção maior de situações de stress comparativamente com os colegas dos restantes anos.
Relativamente aos sintomas do stress, as médias mais elevadas são as respeitantes aos sinto- mas cognitivo-emocionais e físicos. Considerados os valores obtidos na escala total, verifica- ram-se diferenças estatisticamente significativas [F(1, 1281)=17.376, p=.000], tendo as rapari- gas obtido médias significativamente mais altas (M=2.08; DP=0.68) que os rapazes (M=1.88; DP=0.71). Considerada a totalidade dos sintomas do stress, repetiu-se o padrão dos estudantes do 1.º ano com pontuações inferiores a todos os outros e os do 2.º ano com pontuações supe- riores aos dos restantes anos.
No que se refere às estratégias de coping utilizadas, aquelas a que os estudantes mais recor- rem, compreendem as estratégias de coping centradas no problema.
No respeitante à existência de diferenças nas estratégias de coping em função do sexo, apenas se verificaram diferenças significativas no coping centrado no problema [F(1, 381.728)=5.460, p=.020], sendo que os rapazes obtiveram médias significativamente superiores (M=1.65; DP=1.56) às das raparigas (M=1.56; DP=1.56).
Procurámos verificar ainda se os estudantes recorriam a estratégias de coping diferentes em função do ano de frequência do curso. Os resultados permitiram constatar que os estudan- tes do 3.º ano apresentam médias significativamente superiores às dos restantes colegas [F(3, 1119.986)=26.019, p=.000], no que se refere às estratégias de coping centradas no problema. Tendo em conta as estratégias de coping centradas nas emoções, os estudantes do 3.º ano apresentam médias significativamente superiores aos colegas dos 2.º e 4.º anos [F(3, 1198.500)=7.357, p=.020].
Discussão dos resultados
Uma das principais fontes de stress percecionadas pelos estudantes em ECE refere-se às ques- tões relacionadas com a avaliação (Sheu et al., 2002; Timmins e Kaliszer, 2002; Tully, 2004; Rodrigues e Veiga, 2006). A avaliação parece ser encarada como uma situação de ameaça, po- dendo condicionar o próprio desempenho do estudante. Por outro lado, a perceção de iniqui- dade neste processo pode igualmente acarretar prejuízos ao nível da relação que o estudante estabelece quer com o orientador/supervisor, quer com os seus colegas, podendo comprome- ter o processo de aprendizagem.
Outra situação identificada como indutora de stress prende-se com os aspetos pessoais. Os dados encontrados são consistentes com resultados obtidos noutros estudos (Sheu et al., 2002; Timmins e Kaliszer, 2002; Tully, 2004; Paulino, 2007). A aprendizagem realizada em contexto prático é, por vezes, dominada pelo medo e falta de confiança nas suas capacidades. Para mi- nimizar estes efeitos salienta-se o papel do orientador/supervisor como fonte de confiança e suporte.
A gestão e organização do tempo e do trabalho, foi a terceira categoria de situações indutoras de stress identificadas em ECE. O stress imposto pelas exigências de conjugação das experiên- cias de aprendizagem em contexto clínico com a carga de trabalho académico e com a vida pessoal e familiar é frequente nos estudantes de Enfermagem (Paulino, 2007).
Por último, identificaram-se como fonte de stress as situações relacionadas com aspetos es- pecíficos da profissão de Enfermagem e os fatores relacionadas com a orientação em ECE. Implica um planeamento cuidado do ECE, uma clarificação de objetivos, de papéis e de res- ponsabilidades de todos os intervenientes.
No que concerne à diferenciação da perceção dos estudantes acerca das situações stressan- tes em função do sexo, verificou-se uma perceção maior de situações indutoras de stress por parte das raparigas. As raparigas tendem a experienciar mais stress do que os rapazes (Tully, 2004; Pau et al., 2007). A explicação para a perceção de mais situações de stress por parte das raparigas pode estar relacionada com as práticas de socialização, favorecendo as raparigas ao nível da expressividade das suas vivências e com um maior perfecionismo e exigência pessoal por parte das mesmas.
Relativamente ao ano de frequência do curso, foram os estudantes do 1.º ano que evidencia- ram uma perceção menor de situações indutoras de stress em ECE, comparativamente com os colegas dos outros anos. Tal poderá estar relacionado, quer com a duração do ECE, quer com o tipo de instituição/serviço onde o mesmo decorreu, bem como os objetivos estipulados. Em geral, os estudantes do 3.º e 4.º anos evidenciaram uma perceção de situações indutoras de
stress mais baixa que os seus colegas do 2.º ano (Lo, 2002; Tully, 2004).Os estudantes dos 3.º e
4.º anos munidos de uma maior quantidade e profundidade de conhecimentos e competên- cias na prática da enfermagem estarão mais cientes do ECE e de tudo o que o envolve e estarão melhor adaptados a essa realidade de aprendizagem e como tal estarão menos propensos a avaliar as situações como indutoras de stress.
No que se refere aos sintomas do stress, verificámos que os estudantes referiram uma fre- quência mais elevada de sintomas cognitivo-emocionais e físicos (Seyedfatemi et al., 2007). As estratégias de coping a que os estudantes recorreram com mais frequência foram as estra- tégias centradas nos problemas sendo os resultados consistentes com os obtidos por outros estudos junto desta população (Seyedfatemi et al., 2007), o que parece indicar que aquando as situações de stress os estudantes lidam com as exigências da situação. Os rapazes evidencia- ram uma maior tendência para recorrerem a coping centrado no problema (Swickert e Hitt- ner, 2009). Tal poderá estar relacionado com a hipótese de socialização sendo os rapazes mais encorajados e estimulados a envolverem-se em métodos mais instrumentais e de resolução das situações de uma forma mais direta e racional.
Os estudantes do 3.º ano foram aqueles que recorreram com mais frequência a uma maior diversidade de estratégias de coping para lidarem com as situações de stress. Tal poderá de- ver-se ao facto de que à medida que progridem no curso e à medida que se vão confrontando com as situações da prática da Enfermagem, os estudantes poderão também ir diversificando e aumentando o seu repertório de estratégias de coping.
Conclusões
O interesse pelo estudo do stress em ECE prende-se com o facto da (in)capacidade do estudan- te para lidar de uma forma adequada com as situações indutoras de stress ter repercussões no seu bem-estar físico e mental, com implicações ao nível da aprendizagem e do seu sucesso académico e profissional. Neste sentido, reconhece-se a necessidade de se desenvolverem es- tratégias e competências com o intuito de levar os intervenientes nos ensinos clínicos, espe- cificamente estudantes, docentes e orientadores/supervisores, a compreenderem e lidarem com o stress no sentido de se tornarem mais resilientes.
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