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Inicialmente, são apresentados os dados descritivos e inferenciais para os desempenhos dos dois grupos nos instrumentos de avaliação da inteligência.

Tabela 6

Resultados das análises descritivas e inferenciais dos desempenhos dos grupos G1 e G2 nas classificações das Escalas Wechsler e Matrizes Progressivas de Raven.

Grupo G1 ( n=7) Grupo G2 ( n=9)

Inferior Média DP Superior Média DP Qui-Quadrado

(p) QI.CV 85,7% 14,3% 0,37 100% --- ---- 0,001 QI.OP 71,4% 28,6% 0,48 88,95% 11,1% 0,33 0,001 QI.MQ 85,7% 14,3% 0,37 66,7% 33,3% 0,50 0,002 QI.VP 57,1% 42,9% 0,53 55,6% 44,4% 0,52 0,01 QI total 100% ---- ---- 100% ---- ---- 0,001 Matrizes 100% ---- ---- 100% ---- ---- 0,001

4.3. Análises de clusters e teste de correlação.

Foram submetidas à análise descritiva multidimensional do tipo cluster vinte e seis variáveis comuns a todos os participantes do estudo: “Escalas Wechsler de Inteligência” (índices fatoriais e classificação total), ”Matrizes Progressivas – Escala Geral” (percentil total), ”Escala dos Cinco Dígitos” (percentis por etapa, inibição e flexibilidade), ”Figuras Complexas de Rey” (etapas de cópia e memória), ”Teste de Memória Pictórica” (percentil total), ”Blocos de Corsi” (etapa de ordem inversa), ”Teste de Aprendizagem Auditivo Verbal de Rey” (somatório total e etapa de reconhecimento), ”Teste de Fluência Verbal” (etapas fonológica e semântica) e ”Teste de Torrance de Pensamento Criativo” (percentil total e percentis separados por fatores), subteste Dígitos (percentil total). A análise de cluster foi realizada em dois passos.

No passo 1, foram submetidas à análise por clusterização as variáveis referentes às classificações obtidas no Matrizes Progressivas e os índices da Escala Wechsler, buscando assim verificar possível equivalência entre as duas medidas de inteligência adotadas para o presente estudo. Destaca-se que a partição entre os grupos se apresentou com uma medida de coesão e separação forte (silhueta média de 0,8), conforme exposto na Figura 5. O tamanho dos clusters evidenciou conjuntos de variáveis relevantes para a partição do efetivo global em dois agrupamentos compostos com, respectivamente, 43,8% da amostra (G1) e 56,2% da amostra (G2) do efetivo da amostra, não havendo perda, ou seja, sujeitos-participantes não-incluídos em um dos dois grupos, conforme exposto na Figura 6.

Figura 5

Qualidade dos Clusters – Matrizes x Índices da Escala Wechsler

Figura 6

Tamanho dos Clusters – Matrizes x Índices da Escala Wechsler

Figura 7

Preditores de maior importância na formação de clusters - Matrizes x Índices da Escala Wechsler.

No Passo 2 da clusterização, foram consideradas as variáveis referentes ao QI Total das Escalas Wechsler e as demais medidas de avaliação das habilidades cognitivas. Foi identificada partição do efetivo global em dois agrupamentos, classificada como forte, sendo os dois clusters compostos respectivamente por 43,8% e 56,2 % da amostra, não havendo perda em nenhum dos dois grupos, conforme ilustrado a seguir na Figura 8.

Figura 8

Qualidade dos Clusters – Escalas Wechsler e demais índices

Figura 9

Tamanho dos Clusters – Escalas Wechsler e demais índices

Figura 10

Preditores de maior importância na formação de clusters – Escalas Wechsler e demais índices

A Figura 10, destaca os preditores de maior importância para a partição dos clusters. Foram consideradas na análise as variáveis com limiar de importância mínima próxima a 0,3 (num intervalo de 0,0 a 1,0, com índice mínimo usual de 0,5).

A seguir, são apresentadas a distribuição percentual das variáveis de maior força de partição no interior dos dois clusters, bem como a análise da comparação entre os desempenhos dos grupos em cada uma destas.

Tabela 6

Amostra de preditores com diferenças entre clusters.

PREDITOR p (Significância) G1 (Desempenho) G2 (Desempenho) QI.CV 0,001 86% inferior 14% médio 100% superior

F1 - Enriquecimento de ideias 0,001 100% inferior 11% inferior

89% médio QI.OP 0,001 71% inferior 29% médio 11% inferior 89% superior QI.MO 0,002 14% inferior 86% inferior 33% médio 67% superior

Figuras de Rey - Memória 0,010 86% inferior

14% superior

33% médio 67% superior

Torrance total 0,006 71% inferior 29%

médio 55% médio 45% superior F2 - Emotividade 0,009 42% inferior 42% médio 16% superior 11% inferior 89% superior

F3 - Preparação criativa 0,009 86% inferior 14%

médio 11% inferior 33% médio 56% superior Dígitos 0,009 29% médio 71% inferior 11% superior 89% médio

Figuras de Rey – Cópia 0,010 86% inferior

14% superior 11% inferior 33% médio 56% superior QI.VP 0,011 57% inferior 43% médio 45% médio 55% superior FDT Escolha 0,011 57% inferior 43% médio 44% médio 56% superior

FAM Fonológica 0,015 57% inferior 42%

médio 56% médio 44% superior RAVLT Reconhecimento 0,032 43% inferior 43% médio 11% superior 100% médio FDT Alternância 0,047 71% inferior 14% médio 14% superior 12% inferior 44% médio 44% superior

F4 – Aspectos cognitivos 0,111 71% inferior 29%

médio

22% inferior 56% média 22% superior Nota.QI-CV = índice de compreensão verbal; F1 = Fator 1 de Torrance; QI-OP = índice de organização perceptual; QI-MO = índice de memória operacional; F2 = Fator 2 de Torrance; F3 = Fator 3 de Torrance; QI-VP = índice de velocidade de processamento; F4 = Fator 4 de Torrance.

5 Discussão

O presente estudo teve como objetivo caracterizar o perfil neuropsicológico de indivíduos com deficiência intelectual idiopática, ou seja, quando não há identificação causal da condição, e com altas habilidades/superdotação, visando identificar os pontos de força e fragilidade de cada grupo.

Entretanto, como repetido algumas vezes ao longo deste manuscrito, o objetivo maior deste estudo vai além desta confirmação esperada. Buscou-se identificar as particularidades de cada grupo, o estabelecimento do perfil neuropsicológico de funcionamento dos mesmos, comparando os grupos entre si, mas também realizando uma análise intergrupo. A seguir são discutidos os resultados encontrados em função dos objetivos específicos anteriormente descritos.

O primeiro objetivo proposto foi a identificação dos domínios da inteligência que melhor caracterizam os grupos de deficiência intelectual idiopática e de altas habilidades/superdotação. Os dados oriundos da análise descritiva e inferencial, referentes aos desempenhos dos grupos de DI e AH/SD, para além das discrepâncias esperadas na comparação entres as classificações obtidas por ambos, revelam achados que merecem discussão. De forma global, pode-se dizer que os adolescentes com DI têm como os seus pontos de força, aqui referidos a partir dos maiores escores obtidos nas Escalas Wechsler, os domínios da organização perceptual e da velocidade de processamento; e como pontos de maior fragilidade os domínios da compreensão verbal e da memória operacional. Em contrapartida, os adolescentes com AH/SD apresentam como pontos de força os domínios da compreensão verbal e da organização perceptual, e como pontos de fragilidade, os domínios da memória operacional e velocidade de processamento.

O desenvolvimento da linguagem nas crianças com DI comumente é caracterizado por atrasos, embora a causa destes ainda seja alvo de muitas controvérsias. Embora estudos apontem que tais atrasos estão diretamente relacionados à presença de déficits cognitivos globais que

caracterizam este grupo, outros sugerem grande variação no desenvolvimento de áreas linguísticas. Por exemplo, crianças com Síndrome de Down apresentam fragilidades em domínios como produção, sintaxe e inteligibilidade em sua produção oral. Porém, outras crianças com DI têm níveis de vocabulário próximos à média esperada para as suas idades (Mungkhetklang, Bavin, Crewther, Goharpey & Parsons, 2016).

Os dados supracitados corroboram os achados deste estudo em termos da identificação do pior rendimento do grupo de adolescentes com DI no Índice de Compreensão Verbal das Escalas Wechsler, que objetiva avaliar as habilidades verbais por meio do raciocínio, da compreensão e da conceituação. Este é constituído por subtestes que investigam vocabulário, formação de conceitos e raciocínio verbal.

Adicionalmente, estudos têm defendido que o QI total nas Escalas Wechsler é basicamente a combinação do domínio obtido em tarefas que envolvem vocabulário expressivo e a resolução de problemas não-verbais (Boake, 2002). Por sua vez, o desenvolvimento do vocabulário tem sido associado com a memória operacional, em especial o componente fonológico que tem como função reverberar a informação verbal enquanto uma atividade está sendo executada (Mungkhetklang et al, 2016). Este domínio também despontou como sendo de grande fragilidade no grupo de DI, ou seja, habilidades que são interdependentes e que apresentam déficits neste grupo, mas que não é possível ainda apontar se há uma direcionalidade nesta relação, ou seja, se uma delas poderia explicar os déficits da outra, ou se são dialeticamente constituídas.

Porém, apesar da identificação do domínio verbal e da memória operacional em sua dimensão verbal despontarem como pontos de fragilidade na DI, estudos têm sugerido que o uso de facilitadores visuais (figuras e esquemas visuais) tem garantido um melhor e mais eficiente desenvolvimento da memória e da aprendizagem, sugerindo que a habilidade de processamento visual pode compensar os déficits no processamento verbal (Gathercole &

Alloway, 2006). Ressalta-se aqui que o domínio da organização perceptual, que avalia a capacidade de manipulação de estímulos visuais, baseada em habilidades visomotoras e visoespaciais para organizar o pensamento e criar soluções, foi considerado ponto de força no grupo DI, sugerindo que este pode e deve ser utilizado como apoio e alavanca para o desenvolvimento.

Ao considerarmos o grupo AH/SD, o que foi identificado como ponto de fragilidade no grupo de DI desponta aqui como ponta de força, ou seja, todos os adolescentes que integram este grupo obtiveram escores classificados em patamar muito superior ao esperado para as suas faixas de idade. Por outro lado, salienta-se que nos domínios da velocidade de processamento e memória operacional, este percentual diminui significativamente, circunscrevendo tais habilidades como pontos de fragilidade neste grupo, se considerarmos eles mesmos como parâmetro de avaliação.

Estudos corroboram esses resultados, apontando que crianças com altas habilidades, avaliadas pelas escalas Weschler, apresentam melhores desempenhos nas áreas de compreensão verbal e organização perceptual. Embora possam apresentar desempenho superior ao da população geral nos domínios da memória operacional e velocidade de processamento, estes são tipicamente mais baixos do que os encontrados nos domínios verbal e visoespacial (Rowe et al, 2010; Rimm et al, 2008).

Estudos têm, inclusive, questionado a pertinência de utilização das escalas Wechsler na determinação das AH/SD. Isso porque a importância assumida pelo domínio da velocidade de processamento em muitos de seus subtestes poderia penalizar indivíduos com alto nível intelectual. Estudo realizado na Espanha, com crianças com AH/SD e idades entre 6 e 13 anos, encontrou resultados semelhantes à presente pesquisa. Foram identificadas discrepâncias entre os resultados obtidos em compreensão verbal e velocidade de processamento, e entre organização perceptual e velocidade de processamento. O domínio da compreensão verbal

concentrou os maiores escores, enquanto os de velocidade de processamento e memória operacional foram os mais baixos (Molinero, Mata, Calero & García-Martín, 2015).

Como dito anteriormente, os grupos também apresentam entre si diferença, estatística significativa, quando comparados os seus desempenhos em tarefas que envolvem a organização perceptual. Os dois grupos apresentaram curva ascendente de desempenho neste domínio, sugerindo uma relação diretamente proporcional entre QI total e organização perceptual. Este domínio apresenta correlação positiva com o conceito de inteligência fluida, domínio no qual, neste estudo, a comparação entre os desempenhos dos dois grupos também foi significativa, a favor de AH/SD.

Qualitativamente, observou-se diferenças na qualidade do processo de realização dos subtestes. O grupo DI apresentou menor persistência na execução das tarefas, baixa tolerância às dificuldades encontradas nas mesmas, desistindo, em muitos casos, antes da efetivação das tarefas por inteiro. Por sua vez, o grupo de AH/SD, demonstrou alto poder de engajamento, com foco atencional elevado.

No que se refere à velocidade na resolução das tarefas, os desempenhos dos grupos foram relativamente semelhantes, se considerarmos a dimensão quantitativa. Porém, a análise qualitativa da atividade revela que, enquanto o grupo de DI demonstrou impaciência para a realização das atividades, fornecendo respostas aleatórias, o que elevou artificialmente o tempo de execução; o grupo AH/SD apresentou tranquilidade na realização dessas tarefas, ainda que as realizassem de maneira veloz, e em grande parte dos casos, conversando com a avaliadora, ou ainda, dançando ou cantarolando de maneira simultânea à realização das mesmas.

Por fim, considera-se agora o domínio da memória operacional, aqui compreendida enquanto habilidade de ordem superior que permite reter novas informações na memória de curto prazo, com a intenção de manipulação e produção de resultados dessas informações. Essa habilidade tangencia questões de concentração, habilidade de planejamento, flexibilidade

cognitiva e habilidade sequencial, sendo um componente importante o aprendizado formal e informal.

Nesta seara, os grupos apresentam desempenhos com diferença estatística significativa, mas nenhum dos grupos se apresenta de forma homogênea, tendo obtido pontuações classificadas, de acordo com as escalas Wechsler, oscilantes entre DI moderado, DI e limítrofe no caso do grupo DI, e pontuações classificadas entre médio superior, superior e muito superior, nos casos do grupo AH/SD. No caso do primeiro grupo, quando comparados entre si, os sujeitos apresentam uma curva ascendente em consonância com a pontuação do QI total, apresentando desvios breves; no caso do segundo grupo a curva se repete, apresentando curva ascendente consonante com a pontuação de QI total.

Qualitativamente, observou-se que no grupo de DI o tempo de reação para iniciar as tarefas foi menor, o que pode revelar dificuldades no planejamento ou simplesmente não ter compreendido ou saber responder ao que havia sido solicitado. Por sua vez, no grupo AH/SD, identifica-se o uso prolongado do tempo, tanto no que refere ao tempo de reação, quanto ao tempo total utilizado para finalizar a tarefa, sugerindo maior esforço na manipulação das informações, assim como no estabelecimento de estratégia para responder ao que foi solicitado.

Tendo sido problematizado o primeiro objetivo específico, discute-se os dados que possibilitam responder aos três objetivos específicos, a saber, investigar as relações entre os domínios da inteligência, funções executivas e criatividade nos grupos de deficiência intelectual idiopática e de altas habilidades/superdotação. Para tanto, foram analisados os resultados oriundos dos testes que contribuíram para a partição dos grupos na análise cluster. Foram eles: todos os domínios das escalas Wechsler, a memória visual avaliada pelo Teste das Figuras Complexas de Rey, os Fatores ‘Enriquecimento de Ideias’ e ‘Preparação Criativa’ do Teste Torrance de avaliação de criatividade, e o domínio de atenção seletiva avaliado pelo subteste ‘Escolha’ do instrumento Five Digits Test.

Inicialmente serão discutidos os dados referentes à memória visual, habilidade que tem sido apontada como importante para a realização de atividades na vida diária (Zakharov, Ismatullina e Malykh, 2014). Na investigação deste domínio, um percentual significativo de crianças do grupo DI obteve classificação inferior, enquanto mais da metade dos sujeitos do grupo AH/SD foi classificado em patamares superiores.

A análise qualitativa das produções revela que o grupo AH/SD apresenta poucas omissões na reprodução da figura, enquanto no grupo DI as omissões são frequentes, conforme exemplificado pelos extratos de protocolo abaixo:

Figura 12

Extrato de protocolo de sujeito do grupo DI. Produção na etapa de memória do Teste das Figuras Complexas de Rey.

Figura 13

Extrato de protocolo de sujeito do grupo AH/SD. Produção na etapa de memória do Teste das Figuras Complexas de Rey.

Para Renzulli (2004), o êxito de tarefas que envolvem visoespacialidade e visoconstrução são o reflexo da interação do agrupamento dos três anéis. Nesse sentido, se para a eficiência da recuperação de um material visual ou dependo da percepção visual e da visoconstrução para realizar o desenho de memória, pode-se sugerir uma relação positiva entre aspectos de superdotação, visoespacialidade e memória visual, corroborando os dados supracitados.

A dimensão da memória visual também foi investigada pelo Teste dos Blocos de Corsi. Apesar dos resultados oriundos deste instrumento não apresentarem força para a segmentação dos grupos na análise de cluster, eles serão aqui discutidos por possibilitar a ampliação da discussão acerca da memória visual. Em ambas as etapas que compõem o teste, uma que avalia a memória visual imediata e a outra o esboço visoespacial da memória operacional, os escores, em ambos os grupos, não foram homogêneos em termos de classificação. Nos dois grupos foi possível identificar pontuações inferiores e medianas (embora o grupo DI tenha obtido menor quantidade de classificações inferiores do que o grupo AH/SD), e nenhum dos dois grupos obteve classificação superior no instrumento.

Análogo aos achados supracitados, se considerarmos os resultados do subteste Dígitos da escala Wechsler que avalia esta mesma dimensão, os dados encontrados neste segundo instrumento revelam que a quase totalidade dos sujeitos do grupo DI obteve pontuação classificada como inferior nessa tarefa, enquanto somente 28% dos sujeitos obtiveram pontuação média. Por sua vez, no grupo AH/SD, somente um sujeito obteve classificação

superior, enquanto os demais obtiveram classificação média (dentro da variação normal de

índices). Embora tenha sido encontrada diferença estatisticamente significativa entre os resultados apresentados, pode-se sugerir que esta dimensão é considerada um ponto de fragilidade em ambos os grupos, considerando eles próprios como critério de comparação. Embora se aponte uma correlação positiva entre as habilidades de memória operacional e

inteligência, sugerida em diferentes estudos (Friedman et al, 2006; Colom et al, 2006; e Memisevic e Sinanovic, 2014), em nossa pesquisa, esta modalidade de memória MO foi o índice de menor diferença estatística entre os grupos.

Em termos do outro componente executivo que participou da partição dos grupos, a saber, a atenção seletiva, destaca-se que esta dimensão da atenção faz parte do domínio denominado processos controlados, estes demandam simultaneamente habilidades superiores, como controle inibitório e flexibilidade cognitiva, para inibição e ativação de respostas e rotinas. As duas etapas em que constituem a avaliação dos processos controlados (escolha e alternância) exigem o controle do nível de interferência nas tarefas, flexibilidade cognitiva e raciocínio lógico indutivo e dedutivo (Diamond, 2013; Abreu et al. 2014).

Nestas tarefas, identifica-se que aproximadamente metade dos sujeitos que compõem cada um dos grupos obteve classificação média, enquanto a outra metade do grupo DI obteve classificação inferior e a outra metade do grupo AH/SD obteve classificação superior. De modo geral, pode-se dizer que esta habilidade não se configura como característica significativa de nenhum dos dois grupos.

Por fim, problematiza-se aqui acerca das relações entre inteligência e criatividade, estas que se constituem em seara frutífera de discussão. Estudos concordam que não é possível que algum domínio do funcionamento humano, considerando em especial o domínio criativo, funcione substancialmente sem a inteligência. Porém, estes mesmos estudos afirmam que a inteligência sozinha não é suficiente para explicar a criatividade (Prieto & Ferrando, 2016).

Os dados oriundos do Teste Torrance de Criatividade revelam que, em nenhum cenário, a relação entre inteligência e criatividade se dá de forma homogênea. Salienta-se, no entanto, que se considerarmos a pontuação total obtida no instrumento, no grupo de DI somente dois sujeitos, aqueles com maiores pontuações de QI, obtiveram classificação média, em detrimento

do restante do grupo, que apresentou classificação muito inferior. Para o grupo de AH/SD, mais da metade dos sujeitos obtiveram classificação mediana.

Para fins de aprofundamento qualitativo, a análise estatística do Teste de Torrance foi realizada a partir do isolamento dos fatores que compõem o escore total. De acordo com Nakano, Wechsler e Primi (2011), considera-se que cada uma das medidas avaliadas represente um tipo de característica criativa.

As maiores diferenças entre os grupos foram identificadas no Fator 1 – Enriquecimento de Ideias, este se refere à capacidade de ver a situação de uma forma mais detalhada, por um ponto de vista diferente. Nesta dimensão, a totalidade do grupo DI obteve classificação inferior, enquanto mais de oitenta por cento do grupo AH/SD obteve classificação média.

Dados similares aos acima descritos foram encontrados em outros estudos, para os quais apenas este fator apresentou correlação positiva com níveis distintos de inteligência. Para estes, pessoas que apresentam inteligência acima da média parecem apresentar igualmente alta habilidade em elaboração-perspectiva, além de defenderem arduamente suas ideias e buscarem aperfeiçoá-las, com empenho e dedicação, além de planejamento e organização (Nakano & Brito, 2013; Nakano, 2012). Além destas, destacam igualmente a habilidade para analisar os fatos e coisas recorrendo a diferentes pontos de vista (Nakano et al., 2011). Tais habilidades têm sido apontadas como características essenciais das pessoas criativas, sendo uma das grandes preditoras da realização criativa (Wechsler, 2002; Nakano & Brito, 2013).

Pessoas com baixo desempenho neste fator, tendem a apresentar ideias de forma incompleta, comumente agindo de forma impulsiva, ou ainda, por não tentar aperfeiçoar suas ideias, seja por falta de esforço ou de dedicação à tarefa (Nakano et al, 2011). Esses resultados convergem com a observação clínica do desempenho qualitativo dos sujeitos do grupo de DI, uma vez que os mesmos demonstravam, de maneira unânime, comportamento de impaciência

ou de desatenção frente à tarefa, fazendo com que muitas vezes, houvesse descontinuidade na realização da mesma.

Em contraponto, de acordo com os mesmos autores supracitados, o percentil médio

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