4 DELINEAMENTO DO FENÔMENO E ANÁLISES DOS DISCURSOS
4.3 ANÁLISES DO CAPÍTULO 4, OBJETIVOS E HIPÓTESE
Concluímos o capítulo 4 destacando alguns resultados de objetivos específicos alcançados pelas análises. O delineamento do fenômeno nos propiciou identificação de vozes. Destacamos a voz que se manifesta contra o uso cotidiano e intenso do Pronaf Custeio para comodities79 e em defesa da adequação do Pronaf Custeio para suprir necessidades dos Pequenos Agricultores Familiares. Esta voz defende que a adequação do crédito rural para Agroecologia e agriculturas de base ecológica é um caminho para ser seguido e que contribuirá com as necessidades dos Pequenos Agricultores Familiares. A dualidade, entendida como unidade de opostos entre pequenas propriedades agrícolas e latifúndios é histórica no Brasil, todavia o primeiro passo do ciclo metodológico da pesquisa, ao delinear o fenômeno empírico, coloca luzes em um fenômeno singular. Neste, a unidade de opostos, se caracteriza por um estado de necessidade de Pequenos Agricultores Familiares detentores de pequenas áreas agrícolas (minifúndios) em antagonismo com uma Agricultura Familiar, detentora de áreas produtivas maiores e suficientes para o cultivo de comodities. Esta é a tensão maior do ambiente empírico revelada no delineamento do fenômeno. A tensão se enraizou e está disseminada. Por isto constatamos antagonismo entre Assistência Técnica (ASTEC) como procedimento operacional de escritório e Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) objetivando proceder orientação técnica em relações dialéticas com Pequenos Agricultores Familiares em nível de propriedade e/ou posse. Em termos do ciclo metodológico da pesquisa, o primeiro passo de delineamento do fenômeno, cumpriu sua função de gerar dados espelhos à serem interpretados pelos trabalhadores.
As análises das manifestações discursivas de contradições dialéticas, garantiram o objetivo específico de averiguar junto aos trabalhadores manifestações discursivas, não somente apontando, mas também sustentando que o ambiente
79 No caso pesquisado a comoditie principal é a soja transgênica.
empírico é pleno de contradições históricas. Estas estão confirmadas pelas categorias analíticas dilema, conflito, conflito critico e duplo vinculo.
O delineamento do fenômeno e as análises de manifestações discursivas do capítulo 4 propiciaram conhecermos respectivamente a camada interpretativa e a camada contraditória dos trabalhadores colaboradores da pesquisa.
Esquematicamente temos:
FIGURA 4.5 - ALCANCE DAS ANÁLISES DO CAPÍTULO 4.
FONTE: o autor.
As análises do capítulo 4 confirmam que os trabalhadores colaboradores das Mini-Intervenções Formativas (MIF) frente aos dados espelhos resultantes do delineamento do fenômeno, tanto adentram nas camadas interpretativa, quanto contraditória da ação humana. As análises do ambiente empírico corroboram com as teorias que elucidam quanto aos seres humanos não reagirem meramente como objetos. Os trabalhadores colaboradores agiram com base em suas atividades e interpretaram os dados espelhos a eles apresentados conforme suas lógicas. Ainda, as análises do capítulo 4 se coadunam com a teoria que explica que os seres humanos em suas atividades enfrentam contradições devidas á vários motivos embutidos e engendrados nos seus históricos de desenvolvimento de comunidades
Delineamento do
O conjunto analítico do capítulo 4 sustenta a hipótese de que contradições históricas afetam a Rede de Sistemas de Atividades.
UNICAFES.
e objetos. As análises, ao confirmarem manifestações discursivas de contradições dialéticas conforme as categorias dilema (24 frases com antagonismos), conflito (56 frases com antagonismos), conflito crítico (38 frases com antagonismos) e duplo vínculo (122 frases com antagonismos), iluminam suficientemente o contexto de pesquisa, para sustentarmos que os trabalhadores colaboradores das sessões de Mini Intervenções Formativas (MIF) vivem seu cotidiano em uma camada contraditória da causalidade humana. São resultados analíticos que referendam, que os trabalhadores colaboradores por estarem agindo em uma camada contraditória, vivem um estado de confusão, quanto ao como solucionar seus problemas. Em teoria, conforme Engeström (1989), a camada contraditória torna o olhar dos seres humanos, irracional e imprevisível.
A categoria duplo vínculo, se destacou em termos quantitativos, ou seja, predominou nos resultados analíticos. Não é uma mera coincidência, mas sim a confirmação de que o comportamento humano do ambiente empírico coincide com o descrito no conceito de duplo vínculo. Consta nos aspectos teórico-conceituais desta tese que os Duplos vínculos (BATESON, 1972; SLUZKI, 1976 apud ENGESTRÖM & SANNINO, 2011, p. 379) são processos nos quais os atores repetem pressionando, porém as alternativas geradas são igualmente inaceitáveis em seus sistemas de atividades.
A grande quantidade de perguntas retóricas encontradas nas análises de manifestações discursivas de contradições dialéticas, e que conduziram aos duplos vínculos, tem importância analítica central. A contagem e frequência das questões retóricas para identificarmos possíveis polarizações conforme categoria duplos vínculos resultou em 231 vezes nos 420 minutos de videografia o que equivale a frequência média de 0,55. A importância analítica central, é por possibilitar lastrarmos inicialmente os duplos vínculos encontrados no ambiente empírico, no ciclo de aprendizagem teórico. Aceitando a teoria, ponderamos que os duplos vínculos, do ambiente empírico atual, são referentes ao comportamento humano da camada contraditória dos trabalhadores colaboradores. Tal comportamento (duplo vínculo) é por estes estarem inseridos em seus sistemas de atividades que sofrem com a contradição histórica valor de uso e valor de troca (Contradição primária).
Ilustramos na figura seguinte o resultado analítico conforme o ciclo de aprendizagem. Na figura, destacamos as análises do capítulo 4 lastrando a fase de Transformação 1: Empírico atual, que demonstrou grande número de duplos
vínculos. Na figura, as demais fases do ciclo de aprendizagem ideal descrito em teoria, foram considerados como possibilidade (Ex: Atividade 1: Como ocorreu?) a ser investigada nos capítulos seguintes. Assim, questionamos se ocorreu/ocorre no fenômeno concreto de longo prazo. Porém, as análises já confirmaram a presença dos dilemas, conflitos, conflitos críticos e duplo vínculo, que como lentes iluminam o caminho a ser seguido. Segue ilustração do inicio da modelagem do ciclo de aprendizagem empírico:
FIGURA 4.6 - ANÁLISES DO CAPÍTULO 4 E O CICLO DE APRENDIZAGEM
FONTE: o autor. Particularização a partir de MIETTINEN (2009), QUEROL (2011).
Tanto nas criticas que evidenciam a camada interpretativa, quanto nas manifestações discursivas de contradições dialéticas, encontramos palavras que remetem a conceitos de uso cotidiano dos trabalhadores colaboradores. Os
Transformação 2:
trabalhadores colaboradores se valeram de teorias e conceitos, para problematizarem, criticarem e se contraporem ao modo de uso atual do crédito rural por eles operacionalizado. Isto remete a apresentarmos no capítulo 5 os conceitos correlatos às atividades dos trabalhadores colaboradores. Ainda, explicamos que conforme teoria, os duplos vínculos que descobrimos nas análises do capítulo 4, ocorrem como uma continuidade de uma primeira atividade, que sofre desvio-de-rumo sujeito-objeto devido a ter sido afetada por contradição primária. Logo, buscamos no objeto histórico da atividade o momento em que o sujeito sofreu o desvio-de-rumo para então apresentarmos no capítulo 5. Portanto, ás análises de manifestações discursivas de contradições dialéticas, fundamentam todas as demais análises que investigam contradições e as fases dos ciclos de aprendizagem dos trabalhadores colaboradores.