• Nenhum resultado encontrado

5 ANÁLISES DOS CONCEITOS E ELEMENTOS ESTRUTURAIS

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 195-200)

Uma característica básica, como dito às vezes, constitutiva, da atividade é sua objetividade. Propriamente, o conceito de seu objeto (Gegenstand) já está implicitamente contido no próprio conceito de atividade. A expressão

“atividade sem objeto” é desprovida de qualquer significado (LEONTIEV, 1978, p. 52).

As análises deste capítulo são correlatas aos objetivos específicos de rever os conceitos relativos ao modo de usar o crédito rural no passado do ambiente empírico; de elucidar quanto ao objeto perseguido pelo cooperativismo de crédito da categoria agricultura familiar, uma vez que o Pronaf Custeio para Agriculturas de base ecológica e agroecologia no Sistema Integrado de Crédito (SIC) da Central Cresol Baser é igual a zero; de conhecer as transformações da ferramenta Sistema Integrado de Crédito (SIC) que operacionaliza o Pronaf Custeio quanto à sua adequação para financiar os Pequenos Agricultores Familiares praticantes das agriculturas de base ecológica e agroecologia. Os objetivos específicos alcançados pelas análises são suporte para o objetivo específico que almeja responder o porquê do Abismo entre Pequenos Agricultores Familiares praticantes das agriculturas de base ecológica e agroecologia nas organizações de crédito da categoria agricultura familiar. As análises a seguir descritas correspondem ao segundo passo do esquema metodológico da pesquisa.

5.1 CONCEITOS CORRELATOS À ATIVIDADE

No estudo de Abramovay (1981) e nos transcritos das Mini-Intervenções Formativas (MIF) identificamos a Associação de Estudos Orientação e Assistência Rural (ASSESOAR) como organização preconizadora da comunidade cooperativa UNICAFES. Desde sua origem a organização preconizadora confronta com a modernização conservadora da agricultura problematizada em Delgado (2009). Este confronto gera uma unidade de opostos histórica. A unidade de opostos é providencial para entendermos o carácter histórico das contradições. Conforme pesquisas de Abramovay (1981) na Mesorregião Sudoeste do Paraná a ASSESOAR desenvolvia na década de 1970 atividades de assistência técnica juntamente aos agricultores numa linha que se pretendia alternativa à oficial. O conceito de agricultura alternativa da ASSESOAR abarcava a adoção de técnicas com uso de

fertilizantes orgânicos, de defensivos naturais e mecanização mínima adequada aos solos. Segundo Khatounian (2001) o termo alternativa é relativo as crises do petróleo nos Estados Unidos. As crises expõem na década de 1970 à sociedade americana a fragilidade da sua agricultura dependente de combustível fóssil, fertilizantes minerais e herbicidas. O próprio governo dos Estados Unidos conduziu estudos das técnicas de produção em propriedades que nas décadas anteriores haviam aderido às propostas sobretudo das escolas da agricultura orgânica e da biodinâmica. “As técnicas estudadas foram denominadas de Alternative Agriculture [...]” (KHATOUNIAN, 2001, p. 28).

Com este conceito de alternativo é que os Pequenos Agricultores Familiares e extensionistas rurais atribuíram um significado ao crédito rural. O significado oriundo da proposta alternativa se contrapõe ao modo como o crédito rural vinha sendo utilizado na concepção da modernização conservadora da agricultura. O procedimento de identificação por dados documentais revela que:

O importante a assinalar aqui é que, mesmo a assistência técnica (sejam quais forem os seus limites) desenvolve-se no quadro de um amplo trabalho de base. Cada comunidade (que corresponde aproximadamente a cada paróquia) tem o seu monitor agrícola, encarregado de difundir entre os produtores as técnicas alternativas. Em torno desta difusão, os produtores se reúnem e discutem, a partir de sua experiência concreta, prática, o significado das técnicas estimuladas pelo governo: quem ganha e quem perde com isso, as conseqüências sobre a natureza, sobre a qualidade dos produtos, sobre a vida dos agricultores etc. Vai-se formando, a partir destas discussões e destas práticas, uma unidade ideológica em torno do próprio sentido do ato de se produzir: aos elementos de origem industrial que entram no processo de trabalho, ao crédito bancário, passa-se a atribuir um significado social. O importante é que a partir deste trabalho, a própria questão técnica adquire uma dimensão social e até política. O agricultor toma consciência de que a forma de produzir é a expressão de relações sociais determinadas (ABRAMOVAY, 1981, p. 214).

Para Abramovay (1981, p. 257-258), os pequenos proprietários rurais do Sudoeste do Paraná demonstraram uma perspectiva defensiva: “O que querem os pequenos proprietários rurais que enfrentam a política agrícola do regime e os grandes monopólios?”. O autor ainda complementa:

Não me refiro aqui às reivindicações imediatas contidas em cada conflito que, evidentemente, não podem ir muito além de melhores preços, crédito mais farto e barato, insumos menos caros etc. A perspectiva defensiva se materializa quando se pensa na forma mais global, a longo prazo para enfrentar a situação, numa mudança de fundo no atual ‘modelo agrícola’. E aí as propostas são sistematicamente as seguintes: abandonar os financiamentos agrícolas oficiais, renunciar ao uso de insumos modernos,

reduzir a produção dirigida ao mercado, ou seja, voltar à autarcia produtiva que caracterizou o regime de produção camponês, até alguns anos atrás [...] e que foi sepultado pela nova revolução agrícola. (ABRAMOVAY, 1981, p. 259).

Referindo-se à proposta da ASSESOAR Abramovay (1981) concorda que podem ter um inegável alcance prático. O autor defende a partir da constatação de que na década de 1970 a ASSESOAR concretizou experiências na produção agrícola valendo-se de fertilizantes químico-orgânicos, defensivos naturais, à mecanização intermediária, entre outras tecnologias conforme os princípios do que denominavam agricultura alternativa. “[...] Uma rica experiência neste sentido vem sendo desenvolvida há mais de dez anos pela ASSESOAR, em seu trabalho de difusão da prática da agricultura alternativa entre os produtores [...]”. (ABRAMOVAY, 1981, p. 259).

Deste modo o crédito rural conforme os conceitos da modernização conservadora da agricultura se antagoniza com o conceito de crédito rural conforme os significados atribuídos pelos Pequenos Agricultores Familiares. A unidade de opostos também consiste em antagonismos entre a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) conforme o modelo difusionista pregada pela modernização conservadora da agricultura e o significado que os Pequenos Agricultores Familiares atribuíam a ATER conforme suas necessidades. Ainda identificamos em nossos dados históricos e MIF o antagonismo entre monoculturas e a diversificação de culturas e a agricultura alternativa. De modo geral temos os Pequenos Agricultores Familiares organizados na ASSESOAR da década de 1970, guiados por conceitos de agricultura alternativa objetivando construir autonomia quanto aos insumos agrícolas dependentes da energia do petróleo e opondo-se aos grandes monopólios.

Outros conceitos fundamentais presentes no ambiente empírico da década de 1970 e 1980 eram oriundos da escola de Chayanov (1974) que sustentava a lógica camponesa. Diversos termos foram e são utilizados para denominar o ser humano que pratica a cultura de manejar a produção de vegetais e animais. A questão principal aqui tratada não é qual o conceito mais acertado, os quais são diversos no tempo e no espaço, mas sim quais os conceitos que como ferramentas (instrumentos) direcionam as ações da Rede de Sistemas de Atividades UNICAFES.

Os conceitos de camponês e agricultura familiar se destacam no ambiente empírico, logo, os teorizamos.

5.1.1 Campesinato

Em Chayanov (1974) temos o pensamento da escola para a análise da organização e produção camponesa. O debate sobre a questão agrária russa não se vinculava somente aos problemas de acesso a terra e as transformações rumo ao socialismo. Tratavam das dimensões associadas à disponibilidade de recursos econômicos e técnicos que viabilizariam uma transformação radical nas condições de vida camponesa. A escola de Chayanov (1974) tratava de temas como melhor classificação e seleção de sementes, mecanização, uso de fertilizantes, rotação de cultivos e formas cooperativas de comercialização. São temas associados ao modo como a economia camponesa funcionava na prática. Para Chayanov (1974) estas inovações não podem ser introduzidas eficazmente se não se toma em conta o nível de racionalidade econômica própria das explorações agrárias camponesas.

A escola de Chayanov (1974) sustenta que o camponês não maximiza o lucro e a renda, logo problematiza que a lei de valor80 não se aplica para a produção camponesa. As transações do pequeno produtor não são guiadas pelo preço de mercado que iguale ao valor, ou ao menos ao preço de produção. Como consequência uma parte do trabalho excedente é cedido gratuitamente para a sociedade. Para o camponês este fato não é importante, não é um obstáculo para seguir produzindo, porque não tem consciência disto. Seu trabalho não aparece como um custo objetivo e basta que alcance sua subsistência para que siga sua exploração agrícola. A escola de Chayanov (1974) discorda de Marx por este definir a economia camponesa como economia mercantil, em que, o camponês é definido como quem vende para comprar.

Para Shanin (1983) além da capacidade produtiva o camponês também demonstra uma grande capacidade organizativa. A resistência a políticas governamentais adversas manifesta-se em vários momentos da história. Segundo Shanin (1983) durante a revolução russa (1905-1906) a comuna campesina russa foi geradora de ideologia igualitária e ação de escola de ação coletiva com capacidade de revoltar-se da noite para o dia. O camponês é detalhadamente descrito em Shanin (1983) e em Chayanov (1974). Estes estudos aconteceram na Rússia em períodos turbulentos onde políticos defendiam que o camponês evoluiria para

80 Chayanov (1974) confronta com a lei de valor de O Capital (Marx, 1956).

proletariado e que estava fadado ao desaparecimento. Para Shanin (1983) os pensadores do período (1910-1925) não conseguiram colocar os camponeses como importantes para o desenvolvimento de um país, apenas os viram como algo a ser explorado. A concepção aceita internacionalmente era que o avanço econômico provocaria divisão do trabalho, estabelecimento de relações de mercado, acumulação de capital e diversificação social. O avanço econômico iniciaria pelas cidades e evoluiria para o campo gradativamente, sendo que o efeito previsto seria a polarização da sociedade camponesa, onde os agricultores ricos adquiririam características empresariais agrícolas capitalistas e os agricultores pobres perderiam suas propriedades obrigando-se a converterem-se em assalariados agrícolas ou urbanos em uma indústria emergente. O fato marcante da tese do desaparecimento do camponês é que eram muitos a desaparecerem, pois o Principado de Moscovia em 1897 em seu primeiro censo moderno contava com cem milhões de camponeses. Na Rússia não se deu um sistema dual: grandes fazendas vezes exploração do tipo familiar. Em 1913 mais da metade das terras pertencentes à nobreza foram vendidas aos camponeses e o restante foi arrendada. No ano de 1914-1915 um décimo da terra cultivada estava ocupada por grandes propriedades.

Em termos de tecnologia para a produção agrícola Shanin (1983) apresenta a Rússia com falta de maquinas, cavalos, e fertilizantes químicos. Enquanto na Alemanha aplicavam ao solo 100 quilogramas de fertilizantes, nas propriedades dos camponeses russos eram aplicados apenas 5 quilogramas. Segundo Shanin (1983) as reformas de Stolypin objetivavam instaurar uma nova ordem socioeconômica no campesinato, destruindo a estrutura social tradicional do meio rural, para então estabelecerem uma eficiente agricultura capitalista.

Para Kautsky (1986) é somente com o advento da indústria capitalista que se revela a regressão da indústria agrícola caseira de subsistência. Somente o sistema de comunicações, com suas ferrovias, correios e jornais, vai ser capaz de levar as novas ideias e produtos da cidade para os rincões mais afastados da zona rural, e colocar sob o domínio desse processo tanto as cercanias da cidade quanto a população toda do campo. Quanto mais evolui esse processo, tanto mais se dissolve essa tradicional indústria doméstica camponesa e cresce na mesma proporção, a demanda de dinheiro entre os camponeses. Eles agora não só necessitam de dinheiro para obter o dispensável ou supérfluo, mas dele necessitam igualmente

para o necessário, o indispensável. Sem o dinheiro eles já não conseguem levar em frente sua atividade. Já não conseguem viver sem o dinheiro (KAUTSKY, 1986).

Todavia para Martins (2002) o camponês não se vincula ao capitalista estabelecendo a venda de sua força de trabalho. Diversamente do que acontece com o operário, cujo trabalho é diretamente dependente do capital, o trabalho do camponês é um trabalho independente. O camponês não vende a sua força de trabalho e sim o fruto do seu trabalho, que nasce como sua propriedade. Isso porque ele ainda dispõe dos instrumentos de produção. O instrumento mais importante do camponês é a terra. Ainda que ela não seja sua, que alugue, ou pague uma renda pelo uso da terra, no período de vigência do aluguel, usará a terra como se fosse sua. Ele alugou o meio de produção, como poderia alugar, as ferramentas, as máquinas, a casa. Em principio o camponês tem autonomia em decidir o que fazer na terra (MARTINS, 2002, p. 60).

Pondera Mendras (1978) quanto ao processo de desagregação das sociedades camponesas. Porém sustenta que ainda que a sociedade industrial tenha alterado a concepção tradicional do campesinato clássico, o pequeno agricultor, conserva traços do camponês como uma categoria social.

5.1.2 Agricultura familiar: modelo político direcionador

A comunidade cooperativa União das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (UNICAFES) pela própria nominação assume que sua construção recebe e acata conceitos da agricultura familiar em um momento histórico. O conceito de agricultura familiar adotado para a atividade relativa a operacionalização do crédito rural é antagônico ao conceito de camponês. O conceito de agricultura familiar para o crédito rural assume a lei de valor (valor de uso e valor de troca), enquanto o conceito de camponês nega a lei de valor.

Em Abramovay (1998, p. 9), temos que “o termo agricultura familiar incorporou-se ao vocabulário das políticas públicas, ao discurso dos movimentos sociais e à pesquisa voltada ao conhecimento de nosso meio rural”. Nesse sentido, a adoção do novo termo em substituição aos termos depreciativos como pequena produção, pequeno produtor, colono81, agricultura de baixa renda, entre outros,

81 Em Picinatto (2010) os entrevistados da região Sudoeste do Paraná relatam que antes da denominação agricultores familiares eram reconhecidos como lavradores ou colonos.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 195-200)