1 Exegese da narrativa do discurso de despedida (NDD)
1.9 Composição, data e local
1.10.2 O anúncio da caminhada da partida de Jesus (13.33-35)
Nossa perícope abre com uma unidade significante típica do GJ, tekni,a = filhinhos (13.33). Jesus, de uma maneira carinhosa, inicia a sua revelação, o anúncio de sua partida. Essa cena lembra a despedida de Jacó (Gn 49) e a linguagem é a do líder para o seu grupo.
No QE, somente aqui o termo “filhinhos” é utilizado pelo narrador implícito. Ele é colocado na boca do personagem Jesus. Em 1 João 2.1.12.28; 3.7.18; 4.4; 5.21 o termo é usado para se dirigir ao grupo e o narrador implícito o coloca na boca do discípulo João, filho de Zebedeu. Isso pode significar que, pelo emprego de um termo exclusivo de Jesus, possivelmente se esteja diante do herdeiro do cargo de líder do GJ, que como característica identitária deve imitar seu mestre Jesus.
Teologicamente, podemos dizer que o discípulo imita seu mestre, o que faz de Jesus um personagem do passado, cujas recomendações foram herdadas para serem aplicadas agora pela própria pessoa36. Esse ato teológico é um dos responsáveis pela
criação identitária de um grupo.
Exegeticamente, diríamos que quando alguém que amamos vai embora o sofrimento é intenso. O narrador implícito sabia da partida de Jesus. Sua “hora” havia chegado. Mais um pouco e ele estaria frente ao tribunal, perante Ananias. Em seguida, seria levado diante de Pilatos e condenado à morte. O narrador implícito parece ter adiantado um termo de 1 João, que supostamente foi escrito posteriormente ao QE.
Dar uma notícia ou fazer uma revelação fatídica exige cuidado na linguagem, cuidado esse que o narrador do QE empregou. A fala de Jesus é comparada à de um patriarca que, prestes a morrer, reuniu os seus descendentes para lhes dar o seu testamento e sua despedida: “filhinhos”37. Jesus se volta aos seus discípulos e revela o
fato doloroso da sua separação. Talvez por isso utilize por uma única vez no QE o tratamento amoroso tekni,a.38
Após essa fala introdutória, Jesus relembra o que disse aos judeus, seus rivais (7.33-4; 8.21): “Ainda (por um) pouco de tempo convosco estou! Procurareis (a) mim,
36 BERGER, 1998, p. 14.
37 No Testamento dos Doze Patriarcas, cf. Gad IV,1s; VI,1. 38 SCHNACKENBURG, 1980, p. 81.
mas como falei aos judeus porque aonde eu vou vós não podeis vir, mas vos falo agora”. Aplica-se aos discípulos, assim como aos judeus, uma provocação retórica39, um
desafio ao entendimento deles. Os judeus são adversários de Jesus; estes de modo algum poderão ir até ele, mas para o grupo irá lhes dizer aonde vai e como ir.
τ Jesus que fala “dos judeus” (13.33) e do que está escrito “na δei deles” (15.25 cf. 10.34) está falando a linguagem do cristão joanino, para o qual a Lei não é mais sua, mas sim marca distintiva de outra religião.40
Os fariseus no QE estão associados diretamente aos judeus e aos sacerdotes. Eles têm papel fiscalizador na sociedade. Estudiosos defendem que depois da queda do templo, em 70 d.C., os fariseus assumiram o comando do judaísmo. Na narrativa eles são símbolos da liderança rabínica emergente no primeiro século, portanto um grupo com o qual o GJ tinha sérios conflitos.41
Os fariseus são distintos dos chefes dos sacerdotes, mas estão no poder da sinagoga. Ser judeu é fazer parte, ser membro de uma sinagoga. Eles decidiam quem seria aceito ou expulso da sinagoga, perdendo assim sua identidade. Os fariseus eram responsáveis pelas crenças entre o povo, logo pelo seu comportamento. Eram líderes comunitários42, aqueles a quem o povo procurava para contar o que ouviam do GJ e que
os deixava confusos. O GJ deixa claro que os fariseus eram um grupo adversário que rivalizava a fim de manter a sua posição diante do povo.
A mensagem é de difícil interpretação mesmo para os discípulos. Jesus utiliza um advérbio de tempo (a;rti = agora) e essa é a diferença em relação à fala aos judeus — “agora não podeis, seguirás mais tarde” (13.36), fazendo uma ligação direta com a resposta de Jesus dada a Pedro: “Aonde vou não podeis (a) mim agora seguir, mas seguirás depois”. É como se ele dissesseμ “Agora vocês não estão preparados, ainda não entenderam a mensagem, muito menos a minha caminhada. Terão que, literalmente, assumir as minhas crenças identitárias para fazer nascer a identidade do GJ”, possivelmente dos que ficaram (1 Jo 2.9: “τs que dizem...”).
39 KONINGS, 2005, p. 270.
40 BROWN, Raymond E. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulus, 1999, p. 42.
41 SALDARINI, Anthony. Fariseus, escribas e saduceus na sociedade palestinense. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 200-210.
Um novo itinerário (34-35)43
O amor no GJ merece um tratamento diferenciado. Fundamentalmente, a mensagem do QE, contida em 3.16, é: “Pois assim Deus amou o mundo que deu seu filho único, para que o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (ou[twj ga.r hvga,phsen o` qeo.j to.n ko,smon( w[ste to.n ui`o.n to.n monogenh/ e;dwken( i[na pa/j o` pisteu,wn eivj auvto.n mh. avpo,lhtai avllV e;ch| zwh.n aivw,nionÅ). O surpreendente é que Jesus sabe que o líder deste mundo está chegando (14.30). Ainda que não tenha parte com ele, sabe que significa o fim de sua vida. Mas o mundo precisa entender que a atitude de Jesus é por “amor ao Pai” e esse amor deve permear o GJ.
O mandamento em si não é novo (Lv 19.18). O decálogo de Moisés está ligado à aliança com Deus e possivelmente o amor no QE seja um eco desse mandamento. Sua presença confirma o pacto, agora uma aliança definitiva em Jesus. Seus discípulos devem dedicar-se mutuamente ao amor de Jesus experienciado neles e, a partir daí, disseminar seu amor fraternal à humanidade. No entanto, isso parece ser novo para o GJ. O tema é retomado no capítulo 15.9-17. Em nossa perícope o que chama atenção é o termo novo (kainh.n adjetivo acusativo de kaino,j = novo) que segue como uma orientação, sendo esse o sentido do hebraico torá, normalmente traduzido como mandamento.44
O amor no QE é visto como uma identidade do GJ. O grupo oponente não ama: “τ amor de Deus não está em você” (5.42). É tempo de amar. Jesus, o mestre, ama a ponto de morrer, e como exemplo de amor lavou os pés dos discípulos — uma ação que deve ser imitada por eles, um exemplo a ser seguido por cada um.
O tema do amor é essencial para o pleno desenvolvimento da ideia de amar ao próximo: “Eu amei você, logo você ama o próximo”.
hvga,phsa avgapa/te
Esse amor é o resultado da obediência ao Pai (14.21-24).
43 FREEDMAN, David Noel (ed.). The Anchor Bible Dictionary. New York: Doubleday, 1992. v. 4, p. 385.
Provavelmente esses versículos foram acrescentados posteriormente. Literariamente, eles formam uma unidade fechada em si mesma45. Os pesquisadores
assim justificamμ “esses versículos interrompem a narrativa; são uma glosa46 do E3”47.
“A resposta de Pedro (v. 36) que se liga com o v.33 ignora o costume de Jesus”.48
O v.36 é ignorado por Pedro, que replica ao que Jesus afirmou no v.33; além disso, interrompe uma sequência que se desencadeia, até o 13.38, pela repetição em cada versículo de palavras pertencentes ao versículo anterior. De modo especial, o tema do amor fraternal não desempenha nenhum papel na continuação do Discursoν embora o termo “εandamento” (VEntolh.n) sem dúvida reapareça (no plural) em 14.15-21... Por último, a construção do ginw,skei e,vvn (reconhecer a partir de...) e o qualificativo “novo” aparecem somente aqui no QE, ao passo que voltam com frequência em I João (2.3-5; 3.16,19,24;4.2-13. 5.2). Esses dois versículos mostram ser, portanto, uma inserção redacional.49
Um tema predominante de 1 João foi antecipado pelo redator no início do discurso50. A orientação de Jesus ao seu grupo está em desenvolver a ideia de amor ao
próximo numa relação de proximidade. Essa relação é importante para a reconstrução da identidade do GJ, como se nota em 13.35: “E nisto conhecerão a todos” (evn tou,tw|
gnw,sontai pa,ntej).