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1 Exegese da narrativa do discurso de despedida (NDD)

1.9 Composição, data e local

1.10.3 Diálogo: Pedro quer seguir com Jesus (36-38)

Esses versos podem ser trabalhados como um pequeno bloco que apresenta coesão interna pelo uso dos termos u`pa,gw,, du,nasqe (du,namai) e a;rti e nu/n.

Du,namai = poder, ser capaz aparece 37 vezes no QE. Tem um sentido especial de mostrar a impotência, a incapacidade de seguir Jesus: falta alguma coisa, pois mais tarde conseguirão. O advérbio de tempo a;rti (agora) ajuda a entender que imediatamente não, depois seguirão. Os discípulos precisam de um tempo para compreender o que estão ouvindo.

45 LÉON-DUFOUR, 1996, v. 3, p. 60.

46 Glosa significa comentar ou interpretar determinado texto ou fragmento; fazer anotações no texto. 47 VIDAL, Senén. Los escritos originales de la comunidad del discipulo “amigo” de Jesus. Salamanca: Sígueme, 1997, p. 21-31, 469.

48 SCHNACKENBURG, 1980, p. 82. 49 LÉON-DUFOUR, 1996, v. 3, p. 59. 50 SALDARINI, 2005, p. 60.

No desenvolvimento do diálogo de Jesus com Pedro, este, ao perguntar sobre a sua partida, fica curioso. Aonde Jesus vai que não pode ser seguido? Jesus responde a ele que agora (a;rti), não. “O grupo joanino diferencia a negação dos evangelhos sinóticos (Mt 26.33-35 = Mc 14.29-31 = Lc 22.31-34); a expressão linguística utilizada é: ‘...A minha vida a favor de ti colocarei’, como se Pedro pretendesse salvar o Salvador, invertendo a ordem”51. Um tempo irá passar, e Pedro então estará pronto para

segui-lo — diferente dos adversários judeus, arrogantes, irônicos (7.35). Estes não podem segui-lo em tempo algum.

O personagem Pedro se mostra pronto a dar a vida pelo mestre. Jesus lhe responde ironicamente com uma pergunta ambígua, apresentando o caráter do discípulo: “A vida tua a favor de mim darás”? “Amém, amém”! “Digo para ti: não, não; (o) galo cantará até que negues a mim três vezes” (37b-38).

Em João a viagem que Jesus irá fazer é para a morte, e para ela Pedro não está preparado52 — “seguirás mais tarde” é uma construção frequentemente interpretada

como uma alusão ao martírio de Pedro53 (21.19-21). A tríplice negação de Pedro é

narrada num paralelo com o capítulo 18, e será evocada no momento em que o ressuscitado lhe pergunta por três: “Tu me amas”ς (21.15-17).

Várias são as hipóteses. O texto confirma a incapacidade do agora, reforça a diferença do antes e depois com relação à “hora”, à condição de Pedro54. Para o

narrador implícito a pergunta é um recurso literário, a fim de introduzir o diálogo não só com Pedro, mas se estendendo aos outros discípulos. A falta de compreensão de Tomé (14.5), Felipe (14.8), Judas, não o Iscariotes (14.22) “não é um mal-entendido, descreve a concepção diante da paixão”.

No final do diálogo de Jesus com Pedro (36-38), após a narrativa da tríplice negação, segue o seu anúncio extremamente categórico: “Amém, amém! Digo para ti, não, não...” (avmh.n avmh.n le,gw soi( ouv mh....). Pedro não responde nada. A palavra ressoa

51 LÉON-DUFOUR, 1996, v. 3, p. 65. 52 DODD, 1977, p. 533.

53 LÉON-DUFOUR, 1996, v. 3, p. 64. 54 LÉON-DUFOUR, 1996, v. 3, p. 65.

de forma impressionante, porém Jesus começa com seu discurso de alento a todos os discípulos.55

1.10.4 “Eu vou e vocês conhecem o caminho!” (14.1-4)

A narrativa aqui se apresenta na segunda pessoa do plural. Portanto nos possibilita reconhecer que o monólogo de Jesus nos v.1-3 é direcionado a todos os discípulos. O verbo tara,ssw (perturbar) é o mesmo usado na morte de Lázaro (11.33b) e no Jardim das Oliveiras (12.27). A revelação da sua partida aos discípulos deve tê-los desconcertado. O mesmo sentimento os perturbou. O narrador implícito onisciente faz uso do mesmo verbo como ferramenta literária. O personagem Jesus acalma os seus. Diríamos que temos uma moldura redacional em 14.1-27 com a repetição do verbo tara,ssw. Ainda em 14.1b, antropologicamente temos o substantivo kardi,a (coração), expressando semanticamente o lugar de tomada de decisão, escolhas.

As palavras de encorajamento e de esperança de 14.1-3 reaparecem em 14.27, que apresenta a condição do GJ, um conjunto de crenças que criarão uma identidade diante da hostilidade do meio ambiente e das tensões vividas por ela.56

O verbo pisteu,ete (crer) pode estar no indicativo ou no imperativo, como sugerem alguns exegetas57. O sentido não muda, pois se trata de uma oração

consecutiva, um encorajamento, dar crédito à mensagem ou a quem traz a mensagem. No entanto, o enunciado está sob tensão e se recorre evidentemente a uma tradição segundo a qual o verbo está ligado aos sinais de Jesus.

τ “crer” conserva uma ideia estrutural pragmática veterotestamentária de apoiar- se firmemente em alguém (Is 7.9; 28.16), crer e se sustentar em Jesus58. O conjunto de

14.1-3 lembra, de fato, a despedida de Moisés, que anima o povo a entrar na Terra Prometida (Dt 1.29; 31.6.7.23). A morte de Jesus é, em certo sentido, a preparação para

entrar na Terra Prometida59. No deserto, durante o êxodo, Deus

vai à frente na caminhada para a Terra Prometida (Dt 1.33). Aqui Jesus vai na frente

55 SCHNACKENBURG, 1980, p. 88 56 VIDAL, 1997, p. 470.

57 Orígenes entendeu o final da frase como uma hipotaxis (tipo de relação gramatical pelo qual se unem

dois elementos sintáticos de distinto nível ou função e em que um depende do outro).

58 VIDAL, 1997, p. 88. 59 KONINGS, 2005, p. 271.

preparar um lugar. Decorre disso que é impossível se chegar à Terra Prometida sem Jesus; ele vai preparar muitas moradas (14.2). Uma boa proposta para quem aceita o contrato é o tratado de vida eterna. Numa época de conflitos e diversidade, quem oferecer mais ganha adeptos — mais uma marca identitária: os que pertencem aos “do caminho” irão ter moradas.

Por que a promessa de moradas?

O fonema moradas (monai.) tem a mesma raiz de “permanecer” (me,nw), próprio do QE, e possivelmente esteja evocando o permanecer em Jesus, permanecer no GJ, unido a Jesus e ao Pai — uma tríade: o Pai, o filho e os discípulos. Jesus vai para o Pai, prepara um lugar e volta para buscar os discípulos (v.3), a fim de que onde ele estiver eles estejam também. É, ainda, uma resposta final ao desejo de permanecer onde permanece o mestre (1.38). “Jesus se apresenta como o Filho que tem plenos direitos na casa do Pai e dispõe das ‘moradas’ para aqueles aos quais propiciar a liberdade de filhos, a cidadania”60 (8.35-36; 17.23-24).

A ligação do filho com o discípulo, a morada, o permanecer, o crer em Jesus por meio dele com o Pai têm a mesma conotação vista com Marta (11.25). Com essa ferramenta linguística o narrador implícito reconhece uma sentença comum que mantém uma escatologia futurista, a parousia vindoura (v.3), mas a transforma num discurso escatológico presente. O texto não revela a maneira como os discípulos alcançarão esse objetivo. Ele inicia com uma experiência presente de permanecer em Jesus, ainda que esta se consume apenas depois da morte. O v.4 finaliza a promessa num clímax: Jesus irá partir, e o seu grupo de seguidores sabe para onde ele vai, pois conhece o caminho. Para o grupo dos iniciados, essa declaração do caminho apresenta a trajetória e o trabalho de Jesus, mas no nível textual os discípulos não conhecem a produção de sentido do termo.

A frase “para que onde eu estou” (i[na o[pou eivmi. evgw.), dita por Jesus no final do v.3, torna-se “e para aonde eu vou” (kai. o[pou Îevgw.Ð u`pa,gw) no v.4, revelando uma ação em curso no momento em que Jesus fala61. Ao substituir o verbo ir de 14.2-3

(poreu,omai) por ir (u`pa,gw,), o narrador implícito passa do tema da partida para o tema

60 SALDARINI, 2005, p. 209. 61 LÉON-DUFOUR, 1996, v. 3, p. 70.

do seguimento — daí se tomar o caminho, dirigir-se ao lugar para onde ele mesmo está indo.