2. PRESSUPOSTOS PARA A ANÁLISE DOS TEXTOS DA MÍDIA E DA
2.2. A ANÁLISE DO TEXTO DA AUDIÊNCIA: CONTEXTO, QUADROS E SUPERTEMAS
2.2.6 Analisando quadros ou “o que se passa aqui?”
O conceito central para a análise de quadro é denominado por Goffman de “modelo” (mode, na tradução francesa e key no original). Nesse, após o sujeito ter identificado o nexo de uma determinada situação, ele utiliza um conjunto de convenções pelas quais uma dada atividade se transforma em outra que toma a primeira como modelo, mas que os agentes consideram-na como sensivelmente diferente (GOFFMAN, 1991, p.52). O combate, por exemplo, está implícito em muitos dos eventos esportivos, nos quais a luta entre times adversários e lutadores de boxe permite esse tipo de alusão. Os quadros primários estão sujeitos a dois tipos de transformações que operam segundo essa noção de modelo: a modalização e a fabricação.
Será destinada maior atenção ao conceito de modalização, visto que ele tem como função crucial responder a questão central de Goffman: “o que se passa aqui?” O autor ressalta que nesse processo de cópia e original, como exemplo poder-se-ia ter um filme policial (reprodução) e crimes reais (original). No entanto, observar um tipo de implicação, tal qual a relação entre uma representação de um
crime e a criação de um linguagem ou estilo sobre os crimes verdadeiros, não cabe ao seu estudo. O interesse dessa modalização está em tomar algumas rubricas como modelo e Goffman identifica cinco modos fundamentais para elas: Os
fingimentos (les faire-semblant), os encontros esportivos, os cerimoniais, as reiterações de ordem técnicas (les réitérations techniques) e os desvios.
Os fingimentos, segundo Goffman, “[....] são uma atividade que parece aos seus participantes como uma imitação ou uma repetição errônea, ostensiva, de uma atividade bastante transformada” (GOFFMAN, 1991, p.56) (tradução nossa). É o lúdico que está presente nessa categoria, são os passatempos, as atividades de entretenimento que também são sugeridas aos sujeitos, segundo Goffman, pela televisão, pelos jornais e revistas, como também nos romances e no teatro. Isso porque essas atividades consistem em um conjunto de maquetes da vida cotidiana.
Nessa passagem é válido salientar uma interlocução entre as categorias de Goffman e os discursos da mídia. A sua capacidade de sugerir maquetes da vida cotidiana, salientada por Goffman (1991), e a metáfora maquete é bastante elucidativa, permite também relacionar um dos modos como esses textos operam sobre a audiência: tomando a própria vida cotidiana como matriz. Goffman, desse modo, constata essa aproximação entre os cenários da vida cotidiana e os cenários sugeridos pelos meios de massa. A saber que:
[....] os cenários: esta categoria de modos compreende as seqüências da experiência pessoal que a gente relata a um auditório ou aos leitores, e todo aqueles especialmente que nos propõem cotidianamente a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, os romances e o teatro. [...] eles consistem em um conjunto de maquetes da vida cotidiana, um repertório de experiências sociais não escritas que nos livram portanto de indicações precisas sobre a estrutura deste domínio (GOFFMAN, 1991, p.62) (tradução nossa).
Nos encontros esportivos, a atividade original se configura como o combate, porém nas cópias - as lutas de boxe, os jogos de tênis e futebol – toda a agressividade é reduzida em virtude das regras de cada jogo. Mesmo nos encontros esportivos que mais se assemelham ao combate, algumas regras devem ser respeitadas. No boxe, o lutador que aplicar golpes abaixo da linha da cintura é punido, além do mais, os pés não são utilizados para acertar o adversário. Goffman sugere que essas atividades de disputa tomam como modelo os papéis de dominação da vida cotidiana e isso acontece não só nos encontros esportivos, mas também nos jogos, ambos exercem esse tipo de função.
Os cerimoniais, casamentos, funerais, fazem parte desses tipos de rituais sociais e funcionam tais quais espetáculos teatrais. Tem-se a participação de personagens que assumem papéis do marido, do representante da nação na ocasião em que um chefe de estado visita um outro país, por exemplo.
As reiterações de ordem técnicas são atividades exercidas fora do contexto de uso e tomam o original como cópia: no momento em que, em um ambiente de trabalho, um superior imita uma função real para o seu subalterno de modo a ensiná-lo o modo de fazer. Elas são também utilizadas pelos agentes nas demonstrações e exemplificações.
Já os desvios representam o oposto daquilo que foi apresentado nas outras categorias. Eles são observados quando o sujeito realiza o contrário do que seria esperado por um grupo em um dado contexto social. Como exemplo tem-se o jogador que decide quebrar as regras do jogo.
Goffman denomina essas transformações entre original e cópia de
modalização. Contudo, aquilo que lhe interessa nesse processo não é observar
cópias similares podem ser produzidas a partir de um modelo comum (GOFFMAN, 1991, p. 88). Um exemplo de modalização pode ocorrer entre essas duas cópias como se tivesse uma tradução de um texto original em duas versões nas línguas francesa e inglesa. Um fato a observar é que ambas podem servir uma base para a outra. Em se tratando de um crime, por exemplo, ele, como original, pode oferecer dois tipos de modalizações: os boletins de ocorrência policiais e as reportagens policiais.
Mesmo sendo os quadros primários centrais para a compreensão de uma dada circunstância, como foi apresentado ao longo do texto, na análise de quadros o que interessa é perceber essas re-modalizações de uma cópia na outra. No último exemplo citado enquadra-se o crime, mas as suas modalizações podem servir de fonte uma para a outra, como ocorre com os boletins policiais de ocorrência e as reportagens policiais, ou com a adaptação de um romance para um filme. Isso faz Goffman afirmar que “A análise de quadro se aplica, portanto, melhor sobre as re- transformações que sobre as transformações” (GOFFMAN, 1991, p. 89). O quadro primário estará presente, e sem ele a re-modalização não faria sentido, mas é a modalização desse quadro que é transposta.