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3.1 S ER REAL E SENTIDO DO SER

3.1.1 O ser real no pensamento de Hedwig Conrad-Martius: a analogia essendi

3.1.1.1 A analogia essendi

Tomando como base a máxima de Aristóteles – “o ser se diz de vários modos” – e considerando as análises de Franz Brentanto em sua obra O múltiplo significado do ente segundo Aristóteles9, a noção inicial relativa ao ser da qual parte Conrad-Martius pode ser brevemente formulada da seguinte maneira: do ente predicam-se diversos significados que expressam seus modos de ser; contudo, ente e ser consistem em variações de um mesmo termo que assume significados diversos. A relação entre esses múltiplos significados do mesmo termo é examinada por Brentano em seu conceito de analogia, especificamente no sentido da analogia com o mesmo termo – o que remete perfeitamente ao clássico exemplo dado por Tomás de Aquino10 com relação aos vários significados de saúde: saúde em seu sentido originário refere-se apenas ao corpo; no entanto, fala-se por analogia de medicina saudável, dieta saudável, pele saudável etc. Segundo Conrad-Martius, a analogia com o mesmo termo pressupõe, então, um primeiro significado, por assim dizer, original do conceito em questão – o termo ao qual todos os outros significados remetem em sentido diferente –, de

epistemologia e a metafísica podem seguir seus caminhos. (Cf. AVÉ-LALLEMANT, Eberhard. Hedwig Conrad- Martius (1888-1966): Phenomenology and Reality, op. cit., p. 215).

7 Cf. PFEIFFER, Alexandra Elisabeth. Hedwig Conrad-Martius: eine phänomenologische Sicht auf Natur und

Welt. Würzburg: Königshausen und Neumann, 2005, p. 91.

8 CONRAD-MARTIUS, Hedwig. Das Sein, op. cit. Conforme explicado pela própria autora, as duas partes dessa

obra são baseadas em dois trabalhos realizados na década de 1930 (que não puderam ser publicados na época), dos quais ela reelaborou algumas partes em 1957; são eles: Os significados ontológicos do ser (Die ontologischen Seinsbedeutungen) e Matéria e espírito (Stoff und Geist).

9 BRENTANO, Franz. Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles. Freiburg: Herder, 1862. 10 Exemplo, na verdade, já apresentado originariamente por Aristóteles; cf. ARISTÓTELES. Metafísica. São

modo que, a partir das diversas referências ao mesmo termo, provém a possibilidade de denominá-las não como homônimas, nem como sinônimas, mas como análogas.11

Para Conrad-Martius, a concepção de analogia com o mesmo termo de Brentano pode ser aplicada ao que acontece com os diversos usos do termo ente. Isso se torna evidente quando analisamos os diferentes empregos do termo é nos mais variados juízos: nas afirmações “Maria é um ser humano”, “esta bola é igual àquela” e “um não-ente é um não- ente e não um ente”12, pode-se perceber claramente que o é expressa diversos modos de ser. Nesse sentido, destacam-se alguns aspectos fundamentais que relacionam os diversos modos de ser aos diversos âmbitos em que se encontra o ser. Por exemplo, não é possível estabelecer um nexo entre o ser empregado em uma proposição lógico-conceitual (como no princípio de não-contradição) e o ser usado em um juízo que predica uma coisa real (como o ser azul de algo); nesse sentido, mais acentuada ainda é a diferença entre o ser de algo efetivamente existente e o ser de um não-ente – retornaremos a isso. A questão que se coloca, na verdade, é: o que haveria em comum em todas essas ocorrências do termo ser? A fenomenóloga observa que em todos os casos mencionados poderia ser identificada uma ambiguidade no termo é que, ao exercer a função lógica de cópula, conduziria a um equívoco no âmbito ontológico. Em outras palavras, a pensadora trata inicialmente, portanto, de estabelecer a diferença entre o ser da cópula e o ser existencial.13 A questão leva Conrad-Martius a um exame minucioso do juízo existencial, o que, como veremos, justificará a noção de analogia do ser, bem como terá consequências significativas para a sua ontologia. Para essas análises em particular, a pensadora toma como base sobretudo os estudos de Pfänder.14

11 Cf. CONRAD-MARTIUS, Hedwig. Das Sein, op. cit., p. 17.

12 Para maior clareza, antecipamos que, por ente, em sentido amplo, Conrad-Martius entende algo que é o

próprio portador de seu ser, seja abstrato ou concreto; veremos que o ente por excelência será considerado apenas o real, por ser o próprio portador de seu ser substancialmente, não apenas formalmente.

13 Nesse sentido, a posição de Conrad-Martius pode ser considerada próxima à de Heidegger em sua tese de

doutorado intitulada A doutrina do juízo no psicologismo, no que diz respeito à sua crítica a Brentano, para quem a cópula exerce apenas a pura função lógico-gramatical. Segundo Volpi, com relação à esfera da realidade, Heidegger afirma que no juízo existencial, o verbo ser, além da função categorial sempre implícita, assume um sentido diferente conforme o tipo de existência ao qual ele remete, não só afirmando-o, como também reconhecendo o ser-assim (Sosein) do sujeito. Desse modo, Heidegger atribui à cópula não apenas a função lógica, mas também a sua remissão à esfera ontológica. (Cf. HEIDEGGER, Martin. Die Lehre vom Urteil im Psychologismus: ein kritisch-positiver Beitrag zur Logik. In: Frühe Schriften. Frankfurt am Main: Vittorio Kostermann, 1978, p. 65-66, e VOLPI, Franco. Heidegger e Brentano: l’aristotelismo e il problema dell’univocità dell’essere nella formazione filosofica del giovane Martin Heidegger. Padova: CEDAM, 1976, p. 103-105).

14 Não somente Conrad-Martius, mas também Stein, em Ser finito e eterno, remete igualmente aos estudos de

Pfänder ao analisar a cópula segundo as definições de Tomás de Aquino. (Cf. STEIN, Edith. Endliches und ewiges Sein, op. cit., p. 113-114). Percebe-se também aqui que os estudos que as duas fenomenólogas realizaram em conjunto produziram resultados muito próximos no mesmo período.

A aparente ambiguidade da cópula é encontra uma solução, apresentada por Pfänder em seu texto Lógica15, na identificação de sua dupla função: a primeira seria apenas criar o nexo entre sujeito e predicado; a segunda consistiria na afirmação, que não deve ser entendida necessariamente como uma posição de existência.16 Pfänder conclui que a dupla função do termo é nos juízos pode ser entendida como uma analogia, dado que não haveria igualdade semântica nessa dupla função, mas sim semelhança, pois a subsistência do estado de coisas remete de certo modo à existência de coisas.17 Mesmo não concordando plenamente com Pfänder,18 Conrad-Martius examinará a possibilidade de aplicar essa analogia a todos os outros significados do termo é – o que, no limite, poderia ser entendido como admitir uma multiplicidade de homônimos do termo ser –, concentrando, porém, a investigação no momento da intuição da essência; trata-se, na verdade, de apreender precisamente o sentido – e não a função – do ser da cópula, o que requer destacar uma distinção fundamental: a diferença entre a subsistência (Bestehen)19 de um estado de coisas e a existência (Existenz) de um objeto e suas propriedades, ainda que entre ambos exista uma ligação fundamental. No primeiro momento, Conrad-Martius volta a sua análise estritamente ao ser imanente ao estado de coisas, deixando à parte a questão da existência.

O estado de coisas se encontra na base de um território amplo de proposições, relacionadas não apenas a enunciados predicativos, mas também a expressões impessoais como, por exemplo, “faz calor” ou “existem árvores”; ainda que nessas expressões o ser não apareça explicitamente, ele sempre está inserido nelas. Isso leva Conrad-Martius à questão de

15 PFÄNDER, Alexander. Logik. Jahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung, IV, p. 1-125,

1921.

16 Em seu ensaio Essência e existência, Seifert esclarece a distinção das duas funções da cópula propostas por

Pfänder do seguinte modo: a primeira função relaciona o elemento compreendido pelo conceito de predicado a qualquer tipo de existência que seja entendido pelo conceito do sujeito; a segunda função consiste não apenas em relacionar o predicado ao sujeito, mas em afirmar o predicado do sujeito, em colocá-lo, de modo a atribuir o predicado ao sujeito de maneira definitiva. Em ambos os casos, a função da cópula é claramente distinta do predicado existência. Veremos, a seguir, que Conrad-Martius admitirá o modo de existência como um tipo de preenchimento do ser da cópula que em si é formal e logicamente vazio. (Cf. SEIFERT, Josef. Essence and Existence: A New Foundation of Classical Metaphysics on the Basis of “Phenomenological Realism” and a Critical Investigation of “Existentialist Thomism”. Aletheia: An International Journal of Philosophy, vol. I, Metaphysics, p. 17-157, 1977, p. 125).

17 Lembramos que existência aqui deve ser entendida em seus mais variados modos, não apenas como realidade

efetiva.

18 Conrad-Martius diverge de Pfänder no que se refere à função de afirmação do termo é da cópula: para a

pensadora, o estado de coisas não está relacionado apenas ao caráter afirmativo de um juízo, mas também aos caracteres interrogativo e hipotético, e até o negativo, que não deve ser entendido apenas como mera inexistência, dado que essa inexistência pode ter consequências reais. Stein, por sua vez, acrescenta ainda mais uma possibilidade – ou uma distinção – relativa ao caráter negativo de um juízo, inserindo a noção de privação no caso dos entes efetivos, dado que pertencem à esfera do devir e, portanto, encontram-se sempre em contínua passagem do ser ao não-ser e vice-versa. (Cf. STEIN, Edith. Endliches und ewiges Sein, op. cit., p. 115).

19 Optamos por traduzir Bestehen (bem como Bestand) sempre como subsistência a fim de marcar a distinção

fundo: qual seria a essência de um estado de coisas? Em todo estado de coisas, ainda que não seja explícito, o verbo ser é elemento essencial; isso porque não é possível afirmar, interrogar ou supor algo sem que se efetue um desmembramento ou desdobramento dos seus modos de ser. Seria possível, portanto, falar de um estado de coisas negativo, no qual o momento existencial imanente consistiria em um não-ser (que teria a mesma validade do ser positivo). Mas, nesse caso, coloca-se a questão que mencionamos há pouco: seria possível falar do não- ser como uma determinação inerente ao ser do objeto? E ainda: esse ser consistiria no ser de algum modo do objeto? Com efeito, o momento existencial imanente ao estado de coisas se insere no campo de infinitas possibilidades, de modo a incluir até o não-ser de um objeto. Por outro lado, a verdade de um juízo na função afirmativa é fundamentada no momento existencial imanente a um estado de coisas. Desse modo, não é possível atribuir ao termo é uma simples ambiguidade quando, de um lado, no âmbito dos estados de coisas, o termo se refere a infinitas possibilidades e, de outro, é direcionado ao ser da coisa mesma ou à sua existência. Nesse sentido, mostra-se perfeitamente legítimo o recurso à analogia para discorrer sobre o ser; em outras palavras, entre o ser do estado de coisas (expresso pela cópula do juízo) e o ser existencial há uma relação de analogia. Com isso, tornou-se claro que “o momento existencial imanente é totalmente independente do modo de ser da esfera objetual ao qual pertence o estado de coisas”20. Seja referente a algo real, ideal, categorial, fictício ou puramente conceitual, o estado de coisas relativo àquilo que é (identidade) e não é outro (não- contradição) encerra todas as possibilidades de ser na esfera puramente lógica. Contudo, no exemplo acima, o fato de que não se possa afirmar nada sobre o não-ser sem usar o termo é conduz a questão para outra esfera: a ontológica. O que Conrad-Martius pretende ao realizar essa análise é alcançar o momento ôntico.

No juízo propriamente dito (predicativo) e no estado de coisas (simples) encontra-se um momento único do ser do qual é impossível escapar: de um lado, não é possível emitir juízo algum que não envolva a forma inerente ao ser; de outro, dado que somente é possível julgar a partir de um estado de coisas, em todo conhecimento, portanto, encontra-se um ser imanente a um estado de coisas atravessado, de certo modo, por seu momento existencial.21

20 „Das immanent existenzielle Moment völlig unabhängig ist von der Seinsart der gegenständlichen Sphäre, der

der Sachverhalt zugehört.“ (CONRAD-MARTIUS, Hedwig. Das Sein, op. cit., p. 29. Grifo nosso). Embora não desenvolva uma análise tão detalhada quanto Conrad-Martius acerca da relação entre o estado de coisas e o juízo, em linhas gerais, Stein admite essas mesmas considerações, o que pode ser identificado, por exemplo, quando a pensadora trata da verdade do juízo em Ser finito e eterno, estabelecendo a relação entre a lógica e a ontologia. (Cf. STEIN, Edith. Endliches und ewiges Sein, op. cit., Capítulo V, §11).

21 Nesse aspecto, parece-nos mostrar-se mais claramente a objeção de Conrad-Martius à concepção de

Com isso, é destacado um aspecto fundamental: o ser alcançado no juízo – que leva ao conhecimento – não consiste apenas em um resultado de elaborações puramente subjetivas do pensamento, mas remete à especificidade imanente de algo objetual. Aqui se mostra o aspecto crucial da concepção de Conrad-Martius relativa ao estado de coisas que será extremamente significativo em relação à sua ontologia da realidade: o ser imanente ao estado de coisas – e por conseguinte o é da cópula – tem, por assim dizer, fundamento primordial na coisa (fundamentum in re).22

Desse modo, mesmo quando se trata de um não-ente, ao se afirmar algo sobre ele, obrigatoriamente o inexistente é inserido no ser imanente ao estado de coisas. O caso extremo do não-ente – no qual se afirma algo sobre o inexistente por meio da cópula é – destaca claramente, portanto, a essência do estado de coisas: a afirmação de seu próprio momento existencial imanente seja qual for a esfera (real, ideal, categorial, fictícia ou puramente conceitual). Em outras palavras, o ser imanente ao estado de coisas é o caráter formal de todo e qualquer ser: é o ser do qual todos os significados comungam, o qual é preenchido com um modo de existência que varia conforme a esfera à qual pertence o objetual. Desse modo, no é da cópula, o juízo alcança o em si do mundo do objeto.23

Essas análises confirmam para Conrad-Martius que a analogia é realmente um modo apropriado de compreender os diversos significados ou as diferentes aplicações do termo ser e, portanto, também de entender a relação formal que se estabelece entre o ser imanente ao

investigação lógica, na qual o fenomenólogo defende que a região do categorial sempre excede o dado sensível, não podendo ser encontrado neste último. Como explica Moura, “um nome simples como ‘tinteiro’ encontra seu ‘preenchimento’ imediato na intuição sensível, a situação muda radicalmente quando se considera um enunciado, um mero juízo de percepção, como ‘o tinteiro é verde’. Aqui, se encontramos na intuição sensível um referencial para ‘tinteiro’ e para ‘verde’, quer dizer, para a ‘matéria’ presente no enunciado, essa intuição permanece muda quanto às ‘formas categoriais’, como a forma ‘substrato’ ou a forma ‘atributo’, assim como não se encontra nessa intuição sensível nada de correspondente ao ‘ser’ da cópula. Se eu vejo a cor, não vejo o ‘ser colorido’, a palavra ‘ser’ excede o domínio da intuição sensível, não se pode encontrar o seu correlato no objeto – ou naquilo que é ‘ôntico’.” (MOURA, Carlos Alberto Ribeiro de. Sensibilidade e entendimento na fenomenologia. In: Racionalidade e crise: estudos de história da filosofia moderna e contemporânea. São Paulo: Discurso Editorial e Editora da UFPR, 2001, p. 337-390, p. 344). Ora, é justamente isso que Conrad-Martius busca encontrar: o modo de ser, implícito no estado de coisas, que preenche ou “atravessa” o ser da cópula. Para a pensadora, a “palavra” ser, talvez ainda muda, está implícita no próprio modo de existência do objeto que atravessa o ser imanente ao estado de coisas, a partir do qual, aí sim, seria possível ao entendimento apreendê-la, antes de constituir seu pleno sentido em termos husserlianos, ou seja, antes de proceder ao preenchimento de intenções significativas; o momento “zero” da constituição de sentido parte da intuição muda, por assim dizer, mas apreende cada dado hilético em seu próprio modo de doação, sendo que não há ruptura no processo: é o mesmo ser que faz a travessia do objeto ao sujeito de ponta a ponta.

22 De certo modo, isso não seria recusado por Husserl, em particular, quando se refere aos dados hiléticos; no

entanto, Conrad-Martius destaca a relevância do polo objetivo, do noema, na constituição do sentido. Quanto a essa mesma questão, Stein destaca que o ser dos estados de coisas, das privações e das negações é diferente do puro ser pensado e do ser do significado: os três primeiros casos têm em comum o fundamento na realidade; mesmo as privações têm fundamentum in re, ainda que não possuam uma essência. (Cf. STEIN, Edith. Endliches und ewiges Sein, op. cit., p. 115-116).

estado de coisas e outros modos de ser. Nos diversos modos de ser, a predicação está relacionada à apreensão do ser-assim (Sosein) de um objeto. Nesse sentido, mais uma vez, o exemplo do não-ente ressalta um fator importante: a diferença entre o ser-assim de uma casa amarela e o ser-assim de um não-ente mostra que, no primeiro caso, o ser é preenchido pelo como (a qualidade) de uma coisa substancial, enquanto no caso do não-ente, esse preenchimento se encerra na esfera conceitual – o ser imanente ao estado de coisas permanece de algum modo não preenchido;24 no entanto, ele não é anulado: continua a exercer seu papel fundamental.

Além dessa distinção, Conrad-Martius observa que o preenchimento material do ser imanente ao estado de coisas pode ser voltado ora à qualidade – ao como (Wie) –, ora à determinação essencial – ao quid (Was)25, no qual o objeto é apreendido por meio de um predicado de sentido geral. Na verdade, além desses dois modos, existem tantos outros modos possíveis que evidenciam os diversos estratos do ser e suas inter-relações, de maneira que o ser-assim em sua forma geral (vazia) assume a forma específica de acordo com o modo de ser do objeto visado, o que poderia significar que o momento existencial do estado de coisas é preenchido sempre com novos sentidos. Mas, aqui, surge mais uma distinção a ser analisada: há uma diferença entre uma forma ser preenchida diversamente (a forma permanece imutável) e ser formada diversamente (a forma mesma é modificada). Essa distinção será fundamental para a compreensão da fenomenologia ontológica de Conrad-Martius. A questão que se coloca aqui é: em qual dessas duas condições se encontra o ser imanente ao estado de coisas?

Considerando a segunda condição, na qual a forma mesma seria modificada, a forma do ser imanente ao estado de coisas teria de ser concebida como o ser geral a partir do qual todos os modos de ser seriam diferenciados à maneira da relação entre gênero e espécie; assim, todos os modos de ser (real, ideal etc.) seriam considerados espécies do gênero ser imanente ao estado de coisas, o que seria um contrassenso. Portanto, no que diz respeito ao ser imanente ao estado de coisas, a ideia de preenchimento com conteúdos diversos parece mais adequada, embora seja inegável que na relação forma geral – forma específica permaneça algo de essencial e, de certa maneira, coerente com o caráter inerente ao ser do

24 O não preenchimento, porém, leva de todo modo à apreensão de um ente; ocorre apenas que ele é apreendido

em seu modo negativo. A negatividade pertence à esfera do conceito formal, fazendo com que aquilo que é apreendido aqui em sentido objetual seja um objeto conceitual. (Cf. CONRAD-MARTIUS, Hedwig. Das Sein, op. cit., p. 32).

25 Adotamos o termo “quid” para tradução de “Was” no sentido estrito de “qualidade essencial” exclusivamente

para manter a coerência semântica com o termo “quididade” que, do mesmo modo, será usado para “Washeit”; o termo aqui, portanto, não remete necessariamente a concepções escolásticas.

estado de coisas: como vimos anteriormente, o ser imanente ao estado de coisas é aquele do qual todos os significados comungam em seu aspecto formal. Conciliando, então, as duas perspectivas, Conrad-Martius conclui que no mesmo é confluem, de um lado, o assentamento do ser do estado de coisas com seu momento existencial (independente) e, de outro, o modo de ser peculiar incluindo o ser-assim do objetual visado.26

Essas análises permitem a Conrad-Martius confirmar que: “O conceito de ser não admite sinonímia, nem homonímia, mas sim analogia: não há apenas uma analogia entis, mas também uma analogia essendi.”27 Resta, portanto, esclarecer em que consiste precisamente uma analogia do ser, o que, para Conrad-Martius, está diretamente relacionado à ontologia (do) real: “Somente a partir de um conceito totalmente claro de realidade é que a justa luz poderá recair no sentido do caráter analógico dos demais significados de ser.”28 Para manter a legitimidade da atitude fenomenológica, o percurso que busca alcançar a essência do ser real