3.2 E SSENCIALIDADE E ESSÊNCIA
3.2.4 Possibilidade de mutabilidade da essência
Héring trata da mutabilidade da essência no §6 do Primeiro Capítulo de seu ensaio. Segundo o filósofo, deve-se distinguir entre as mudanças em uma coisa e as mudanças da própria coisa. Héring dá como exemplo a reforma de uma casa que, ao término dos trabalhos, passa de estreita, escura e inóspita a espaçosa, luminosa e confortável, de modo que todo o seu caráter foi alterado. Nesse sentido: a própria essência da casa sofreu uma modificação – mutou-se em uma nova essência. Esse tipo de modificação pressupõe algo que permanece idêntico; todavia, a fim de que se conserve a identidade da essência, segundo Héring, não seria de fato necessário que permanecesse uma parte dos seus traços característicos. Uma essência poderia, portanto, modificar-se completamente e, contudo, permanecer idêntica.198
195 Cf. HÉRING, Jean. Bemerkungen über das Wesen, die Wesenheit und die Idee, op. cit., p. 508-511.
196 Pode-se considerar que é precisamente na µορφή que se encontra o caráter “híbrido” da essência (cf. nota
188).
197 De certo modo, a mesma interpretação tem Borden Sharkey, em seu artigo O uso da Wesenheit de Héring,
por Edith Stein, para passar da fenomenologia à metafísica, no qual destaca como a pensadora, ao distinguir esses três tipos de seres, indica uma terceira via entre duas perspectivas tradicionalmente estabelecidas no âmbito filosófico: de um lado, Stein nega que as essencialidades existam (“efetivamente”) independentemente das coisas – uma interpretação questionável da filosofia platônica; de outro lado, distingue sua posição do realismo moderado do pensamento aristotélico-tomista, que negaria qualquer ser ao universal, aproximando a sua posição ao realismo de Duns Escoto. (Cf. BORDEN SHARKEY, Sarah. Edith Stein’s Use of Hering’s Wesenheit to Move through Phenomenology to Metaphysics. Discipline Filosofiche, Anno XXVI, n. 1, p. 193-204, 2016, p. 202).
198 De todo modo, Héring observa que, em um núcleo de essência que permanece idêntico, existe uma legalidade
Acreditamos que idêntica aqui talvez não seja a melhor expressão, mas sim a mesma. De todo modo, ainda segundo o autor, existem também alterações parciais, em que, o núcleo da essência permanece inalterado. Na verdade, nisso parece consistir a maior parte dos casos, nos quais as essências individuais compreendem um ser essencial que permanece invariável durante as atualizações de seu ser efetivo no objeto. Héring fornece, como exemplo, as alterações de caráter dos indivíduos humanos que, mesmo sendo muito drásticas, não afetariam sua essência mais íntima.199
Nesse sentido, Stein concordará com Héring apenas em parte. Para a fenomenóloga, o caráter pessoal consistiria no elemento estável sobre o qual é possível compreender o modo de ser de um indivíduo. Ainda que esse modo de ser se altere um pouco no decorrer do tempo, é possível apreender essa mudança e novamente compreender o novo modo de ser desse mesmo indivíduo.200 Contudo, sobre esse aspecto, Stein coloca justamente a questão: nesse caso, trata-se de uma essência transformada ou de outra essência? Segundo a pensadora são possíveis ambos os casos. Pode-se falar de uma transformação (Veränderung) da essência, por exemplo, no caso do desenvolvimento natural da criança para o adolescente, do adolescente para o adulto, quando são alterados sucessivamente traços individuais, mostrando gradualmente uma unidade psicofísica diversa a cada momento.201 Diferentes são os casos em que não é possível apreender nada de permanente em meio às mudanças, não se tratando, portanto, de uma transformação de essência, mas de outra essência; nesses casos, se, ainda assim, o indivíduo é considerado o mesmo, isso se deve à distinção entre a essência e seu portador, o substrato (Träger).202 Em outras palavras, o único aspecto reconhecível como o mesmo consistiria em traços perceptíveis sensorialmente – identidade estritamente aparente ou fenomênica –, mas que não manifestam mais a essência anterior. A esse processo em que uma essência não apenas se transformou, mas se tornou outra, Stein denomina mutação
podem variar completamente à vontade. (Cf. HÉRING, Jean. Bemerkungen über das Wesen, die Wesenheit und die Idee, op. cit., p. 504-505, p. 505, nota 1).
199 Cf. ibidem, p. 504-505.
200 Observa-se aqui um aspecto distintivo referente ao caráter de permanência dos objetos ideais e dos seres
reais-efetivos: por pertencer à esfera atemporal, o “lugar” fixo dos objetos ideais é imutável; já no que diz respeito aos seres reais-efetivos, por serem temporais, não é possível vincular o caráter fixo/permanente à imutabilidade. No caso do indivíduo humano, especificamente, a essência consiste em um fundamento profundo que se desdobra no movimento alternado entre ato e potência próprio do comportamento vivo (lebendige Verhalten) que consiste na vida do eu. (Cf. STEIN, Edith. Endliches und ewiges Sein, op. cit., p. 144-146).
201 Segundo Stein, na transformação de criança em adolescente, e de adolescente em adulto, reconhece-se que há
uma transformação da essência, pois não apenas houve uma atualização das determinações fundadas em sua essência, como também uma alteração de seu quid essencial. O ser essencial anterior é distinto do ser essencial posterior. A “passagem” de uma essência a outra, segundo Stein, é possível porque, na verdade, há uma essência que funda as demais, permanecendo durante toda a vida, enquanto as essências parciais duram somente em seus respectivos períodos.
(Wandel).203 Na análise da questão da mutabilidade da essência, Stein não esclarece, nem exemplifica, de que modo aconteceria efetivamente a mutação de uma essência em outra no mesmo indivíduo humano; nessa análise, a pensadora parece restringir essa condição apenas à possibilidade. Retornaremos a essa questão posteriormente.
Na visão de Conrad-Martius, no caso do indivíduo humano, é preciso considerar ainda duas situações: (i) as circunstâncias externas (empíricas) podem interferir de modo tão profundo que a essência parece ser completamente transformada, no sentido de renovação ou de destruição; e (ii) o ser humano pode ser de fato transformado no núcleo de sua essência – o exemplo desse tipo de transformação, dado por Conrad-Martius na obra O ser, é o chamado renascimento cristão.204 Nesse mesmo sentido, Stein dá como exemplo a transformação de Saulo em Paulo conforme o texto bíblico.205 Admitindo-se esta última situação, haveria a possibilidade de se atingir/tocar (Tangierbarkeit) a própria essência, de modo que ela pudesse ressurgir a partir de um novo fundamento, sendo ela mesma renovada no que ela é.206 De todo modo, nesses casos, ainda que existam transformações, o objeto é sempre reconhecível como o mesmo.
No exame da possibilidade de alteração do que supostamente seria inalterável, o ser essencial se mostra multifacetado ou multiestratificado por dimensões marcadas pelos caracteres de mutabilidade e imutabilidade, revelando, assim, a sua conexão interna com as
203 Stein usa três expressões para falar da possibilidade de alteração da essência: transformação (Veränderung) –
há alterações na essência, mas ela continua sendo a mesma; mutação (Wandel) – as alterações na essência fazem com que ela se torne outra (cf. ibidem, p. 74); e transmutação (Verwandlung), caso em que ocorre a passagem de estado de ser vivo para ser inanimado (morte). (Cf. ibidem, p. 220).
204 Héring também considera que a conversão religiosa consista em uma alteração da essência, mas não do
núcleo da essência.
205 Cf. STEIN, Edith. Endliches und ewiges Sein, op. cit., p. 74.
206 Cf. CONRAD-MARTIUS, Hedwig. Das Sein, op. cit., p. 51. Essa possibilidade se mostra extremamente
significativa para a questão central desta tese. A fim de obter mais clareza, mencionemos um exemplo não religioso (e, portanto, acessível também aos leitores distantes do universo da fé): além da perspectiva da essência individual, Conrad-Martius considera ainda a possibilidade de alterabilidade de essência no caso de evolução de uma espécie. A filósofa trabalha com um hilemorfismo que parte do conceito aristotélico, mas sofre modificações com base nas evidências colhidas fenomenologicamente a partir das novas experiências propostas pelas ciências naturais; por essa razão, Conrad-Martius considera inadequado, por exemplo, o conceito escolástico de forma, por não alcançar essencialmente a estrutura ontológica dos entes em razão de seu caráter de fixidez. (Cf. HOLENSTEIN, Elmar. Grundzüge des Denkens von Hedwig Conrad-Martius. Orientierung, 29, p. 144-148, 1965, p. 147-148). Stein admite que a forma da espécie determina o indivíduo; no entanto, para os seres dotados de interioridade de um modo geral, sua forma individual interna possibilitaria algumas modificações no âmbito da espécie, ainda que contingentes. Nesse sentido, o artigo de Kusano indica algumas perspectivas de interpretação (cf. KUSANO, Mariana Bar. O conceito de espécie em Edith Stein. In: SANTOS, Gilfranco Lucena dos; FARIAS, Moisés Rocha (org.) Edith Stein: A pessoa humana na filosofia e nas ciências humanas. São Paulo: Fonte Editorial, 2014, p. 127-143). No caso específico dos indivíduos humanos, veremos que a liberdade permite um campo maior de variações. Lembramos que, para Héring, uma essencialidade passível de alteração não seria uma verdadeira essencialidade; como vimos, o filósofo denomina esse tipo de “essência”, ou melhor, de µορφή, inautêntica, pois esse tipo de essencialidade não apresenta um núcleo, sendo constituída apenas por um encontro casual de ποιόν. Para Héring, portanto, a essencialidade e o núcleo de essência são inalteráveis.
esferas relativas à temporalidade. Nesse sentido, Stein observa que o devir e o perecer parecem encontrar-se de um lado, e a essencialidade, de outro, em posições opostas, como seres em movimento e seres em repouso.207 Importante notar, porém, que em ambos os casos, trata-se de seres. Aliás, a diferença entre os seres da essencialidade e da essência (“realizada” no objeto sujeito ao devir) não consiste no conteúdo, dado que é o mesmo, por assim dizer: a distinção fundamental se encontra no fato de um estar em movimento e outro em repouso – a pensadora inclusive lembra que foi por isso mesmo que para o ser em repouso designou-se o termo essência. Sendo assim, perguntamo-nos se talvez não fosse mais adequado admitir que, em ambos os casos, trata-se de um único ser.
Acreditamos que aqui se encontra a chave para o que pretendemos mostrar nesta pesquisa acerca da relação entre ser e essência: devir (movimento) e essencialidade (repouso) estariam, em princípio, em lados “opostos”; mas, da maneira como a essência singular é concebida pelos três fenomenólogos – Conrad-Martius, Héring e Stein – seria possível verdadeiramente afirmar que o ser essencial se contrapõe ao devir? No que diz respeito aos seres finitos, parece-nos que não se trata de dois tipos de ser contrapostos – um temporal (caráter material) em movimento, outro atemporal (caráter formal) em repouso – que, “unidos”, constituiriam cada ente: é na unidade do ente, de cada ser existencial, que movimento e repouso se conjugam, sendo que o repouso caberia à essência, mas, nesse caso, não no sentido de algo que pairasse como uma qualidade intangível sem ingressar na existência efetiva. Dado que a essência de todo ser finito só alcança o ser como essência de algo individual temporal, isso significa que ela, mesmo consistindo em algo que permanece imutável, pressupõe a sua “realização” na dimensão temporal. Aliás, o próprio termo permanece destaca um aspecto significativo: só pode ser considerado permanente algo que dura no tempo, o que confirma a sua relação com a temporalidade. Desse modo, entende-se que o termo repouso relativo à essência não deve ser vinculado a algo precisamente atemporal, mas sim àquilo que permanece o mesmo no tempo. Uma vez que, como já explanado anteriormente, a essência singular é passível de transformação e até de mutação, trata-se, portanto, de esclarecer o que assegura o caráter imutável da essência, fazendo com que ela, mesmo em meio a todas as mudanças, seja reconhecida como a mesma, ainda que não idêntica. A tarefa nos conduz, portanto, ao exame das dimensões relativas à temporalidade que atravessam todo ente real.