acabando-se com a sua morte.
5.8 ANCHIETA: O CIMENTO DA COMPANHIA DE JESUS
Para alguns autores como Frei Vicente de Salvador, apud Taunay (2003:228), e Capistrano de Abreu, segundo artigo por este dado à publicação em “O Jornal”, em 31 de agosto de 1927, apud Anchieta (1988:24), Taunay, em São Paulo no século... (2003:228), Antônio Alcântara Machado (1988:394) em notas a Informação dos primeiros
aldeamentos, atribuída a Anchieta, afirmam que a facilidade de aprendizado da língua geral
pelo chamado Apóstolo do Brasil, que teria se dado em seis meses, segundo Pero Roiz (1955:32) e Francisco Assis Fernandes (1980:46), adveio de sua genealogia, já que seu genitor era biscainho, aliada ao seu excelente conhecimento da língua latina. Mas, como adverte Afrânio Peixoto, em introdução a Cartas, fragmentos históricos... de Anchieta (1988:32), “facilitar não é tudo”. Chegou-se a essa mesma ilação, quanto à facilidade no aprendizado, em relação a Azpilcueta Navarro.
Há duas angulações que merecem ser analisadas. A primeira parte da afirmação de Nóbrega, que, em carta escrita em Salvador a 10 de agosto de 1549, falando de Azpilcueta Navarro, relata (2000:53): “Já sabe a língua de maneira que se entende com eles, e a todos nos faz vantagem, porque esta língua parece muito à biscainha”. Essa afirmação, que veio aceita por muitos historiadores, está a merecer comprovação no terreno da Lingüística Comparada. Mas é digna de nota a rapidez com que esse jesuíta adquiriu a fluência na língua brasílica. O cotejo de trechos de diferentes epístolas de Nóbrega dá idéia disso: em carta escrita da Bahia em 1549, presumidamente em abril, ele menciona o avantajamento de Navarro, em relação aos demais jesuítas, no aprendizado da língua (2000:21), embora a referência de Navarro pregando “à gente da terra” (2000:19), esclarece Serafim Leite em nota, deva ser entendido como sendo a portugueses e seus filhos. Em carta de agosto do mesmo ano, Nóbrega afirma, conforme já transcrito, que o padre de origem biscainha “já sabe a língua de maneira que se entende com eles” (2000:53). Em janeiro de 1550, em nova carta, o jesuíta pioneiro registra: “Na língua desta terra somos alguns de nós bem toscos,
mas o P. Navarro tem especial graça de Nosso Senhor nesta parte, porque andando por estas Aldeias dos negros, nos poucos dias que está aqui, se entende com eles e prega na mesma língua” (2000:72).
A aquisição dessa língua por ele se torna mais nítida em sua rapidez quando é ela contrastada com o processo aquisitivo de outro jesuíta-língua, Antônio Rodrigues, posto em relevo nessa qualidade pelo mais reputado língua da época, Pero Correia, em carta referida por Serafim Leite em nota a Nóbrega (2000:247), e também por Cortesão (1955:206). Rodrigues fora explorador – notável sertanista nas palavras de Serafim Leite, em nota às Cartas de Nóbrega (2000:165) – por 18 anos, entre 1536 e 1553, nas primeiras tropas militares da Espanha na América do Sul, um dos fundadores de Assunção e Buenos Aires, antes de ingressar na Companhia. Sua participação na exploração começa em 1535. Um ano depois, depois de enfrentar mil agruras, inclusive ter de se repastar, para não morrer de fome, com a carne dos corpos dos companheiros mortos, alcançou a terra dos Carijó, que foram convencidos do caráter pacífico daquela coluna exploratória de famintos soldados porque “un hombre llevabamos que sabia la lengua empezó a dezir a aquellos gentiles que nosostros eramos hijos de Dios”. Ou seja, um ano depois de suas andanças exploratórias ainda não se julgava apto para se fazer entender pelos índios de língua de base tupi. Mesmo em 1557, em carta escrita da Bahia a 02 de setembro, Nóbrega, depois de afirmar que Manoel de Chaves “é a melhor língua que temos”, refere-se também a Rodrigues, que “é outrossim língua”, mas sem realçar-lhe a mesma proficiência, embora saliente a todo tempo sua condição de língua (como o faz novamente em carta escrita da Bahia a 5 de julho de 1559 – 2000:305), o que é uma tônica nas cartas jesuíticas, dada a importância dessa qualidade para os propósitos da catequese.
Um outro trecho epistolar de Nóbrega confirma essa sua convicção de mais rápida aprendizagem da língua tupi pelos falantes do idioma basco. Em carta escrita da Bahia a 15 de abril de 1549 ele sugere a vinda de “mestre João” ou Mosen (ou Misser) Juan de Aragão, como explica Serafim Leite em nota de rodapé: “Também me parece que mestre João aproveitaria cá muito, porque a sua língua é semelhante a esta”. Por ser aragonês, presume- se que esse jesuíta falasse o idioma basco, já que o dialeto aragonês era falado no antigo reino de Aragón e Navarra, como explica Tagliavini (1993:583): “otro dialecto importante es el aragonés, que en parte se funda historicamente en el antiguo reino de Aragón y Navarra, pero que recibió gran influencia del castellano”.
A segunda conclusão é que, apesar desses indícios favoráveis, nada de conclusivo até hoje se escreveu sobre o assunto, o que conduz à suspeita de que a conclusão dos autores citados é ousada, inclusive de Nóbrega, sobretudo porque parte não de uma teoria formulada por lingüistas (nem mesmo de Anchieta e Navarro, que melhor poderiam depor sobre o assunto), mas sim de uma mera observação de historiadores que identificaram uma coincidência entre o aprendizado célere da língua geral por dois jesuítas de origem basca, muito embora a informação de Nóbrega seja de inegável valor, podendo-se até supor que a tivesse registrado por tê-la sabido daqueles mesmos jesuítas. Mas, se se tem em conta a complexidade do basco ainda nos estudos atuais, cuja classificação tem ultimamente se centrado como língua caucásica (TAGLIAVINI, 1993:250), mais apressada se torna essa conclusão. Antonio Tovar, apud Baldinger (1972:251), depois de demonstrar estar definitivamente afastada a teoria do substrato ibérico único, formulada por Humboldt e sustentada por Emil Hübner e Hugo Schuchardt, dispõe sobre o caráter complexo do basco:
El vasco es una lengua ‘indígena’, no sólo anterior a la romanización, sino a la más lejana indo-europeización del occidente. En esa lengua emerge un continente lingüístico de extensión desconocida, que fue cubierto por la invasión de las lenguas indeeuropeas a lo largo del segundo milenio a.C. Sus características, por eso, representan algo exótico en occidente, no en la fonética, que en muchos rasgos coincide con el español y con dialetos gascones, pero sí en la sintaxis y en la morfología” – sem destaques no original.
Objetivamente, o que se tem é que Anchieta, a par da habilidade que angariou como língua, imergiu no mundo dos indígenas, tornando-se uma espécie de factotum daquela comunidade jesuítica do planalto de Piratininga: praticou, junto com os demais membros, vários ofícios, alguns dos quais lhe eram absolutamente inéditos, como “fazer alpergatas” (1988:73), em completa interação com o gentio que ele sonhava poder plenamente converter.
É intuitivo imaginar que o pendor para línguas e mesmo para o saber compósito e pantológico, que admiravelmente se notava em Anchieta, independentemente de ter tido ou não uma estrutura psicolingüística pervadida pelo idioma basco no ambiente familiar, tenha facilitado o acesso cognitivo à estrutura e à gramática da língua geral, o que fica evidente na dificuldade de outros missionários, com idênticas tarefas, no aprendizado dessa mesma língua, a exemplo de Mateus Nogueira, já referido, e o próprio Nóbrega. Mas a posterior sistematização somente veio a lume depois de testada aquela primeira teorização, a que devem ter se seguido outras, na reiteração do ramerrão comunicativo. Na verdade, os escritos de Anchieta revelam um agudo senso de observação e curiosidade científica claramente identificáveis, em que se ocupa até mesmo de micrologias de relevante cunho etnográfico, que passariam despercebidos a olhos menos atentos. Por isso Baldus (1949) faz-lhe justiça: “Esses dois autores quinhentistas [Gabriel Soares de Sousa e Anchieta] fazem, aliás, observações relativas à organização familial que, na literatura sobre os índios do Brasil, só têm similares em alguns trabalhos recentes”.
O jesuíta canarino, como lembra Capistrano de Abreu, em artigo introdutório da obra de Anchieta (1988:24), tinha uma “atividade física e intelectual [que] não conheciam fadiga”. A ordenação gramatical da língua brasílica não veio, assim, como “deus ex machina”, mas de uma testagem e retestagem das primeiras abordagens teóricas do tema, que eram potencializadas pela envergadura do método catequético, o qual se tornava factível por um ir-e-vir dialético, ou seja, um intenso e contínuo relacionamento intercultural e interpessoal mediado pela argamassa da atividade pedagógica direcionada aos curumins. A gama da catequese serviu de laboratório lingüístico à observação de Anchieta.