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acabando-se com a sua morte.

5.9 LÍNGUAS E INTÉRPRETES

Um trecho de uma carta de Anchieta, escrita de Piratininga em julho de 1554, chama a atenção para o refinamento a que ele chegou como mestre da língua da terra, distinguindo com precisão, o que somente ele fez, embora Nóbrega tenha também intuído o problema, formações conceituais não interpermutáveis entre si. Trata-se da distinção entre língua e intérprete:

Como disse na quadrimestre de Agosto e durante esse tempo pretendemos conquistar um destes como um Índio, porque neles está muita parte da edificação ou destruição da terra como também porque como línguas e intérpretes para nos ajudarem na conversão dos Gentios e destes os que fossem aptos e tivessem boas qualidades recolhê-los para Irmãos e os que não fossem tais dar-lhes vida por outro modo.

As nuanças no ministério catequético mostram que o ofício de “língua” não se limitava à fluência no idioma dos nativos, mas numa carga intelectivo-religiosa e moral apta a fazer, como já se disse acima, migrar noções religiosas de uma língua pródiga em noções abstratas e com uma rica tapeçaria lexical para outra imediatista, com limitações nocionais num léxico de reduzidas proporções.

Nada, nos escritos antigos, leva a crer que os demais pregadores reunissem as habilidades lingüístico-intelectuais de Anchieta, a não ser talvez João Azpilcueta. O tupinólogo Plínio Ayrosa, apud Baldus (1965:11), avalia:

A obra de Anchieta, conquanto destinada apenas a facilitar aos catequistas do século XVI a aprendizagem da língua que era ‘a mais usada da costa do Brasil’, tornou-se, sem contestação alguma, obra basilar e indispensável a quantos se dediquem a estudos relativos à

lingüística americana em general e, particularmente, ao tupi-guarani.

Houaiss (1992:114), a seu turno, anota:

Quando se imprime a gramática da língua geral (1595), que fora compilada por José de Anchieta, já Azpicuelta Navarro devera ter penetrado o problema e quiçá nele iniciado a Anchieta. O fato é que essa codificação dos traços generalizáveis do tupi-guarani deve ter correspondido às necessidades e possibilidades ambientes. Sejamos humildes: hoje, pela gramática de Anchieta (mesmo, concomitantemente, recorrendo à sua tradução alemã), é-nos difícil entender o que nela se diz: mas como lembrete escrito para a transmissão e leitura oral, isto é, em voz alta entre cocatequistas e cocatecúmenos, deve ter sido guia eficaz, graças ao quê foram criados usuários seus tanto na faixa tupi-guarani, quanto na portuguesa, o que é de supor pelo bom êxito que essa via linguageira logrou no principal teatro da intercomunicação dos brasílicos com os portugueses, e descendentes de ambos os lados ou comuns.

Não eram tais jesuítas, assim, meros intérpretes, mas línguas, distinção anchietana que tem relevantíssima pertinência no estudo da obra jesuítica, já que o termo “intérprete” induz uma mediação em que seu agente não reúne as qualidades de um pregador e todos os seus predicados. Um língua poderia ser intérprete, como funcionaram algumas vezes Anchieta, Azpicuelta Navarro e Pero Correia, entre outros, em favor de Nóbrega. Mas o contrário não era necessariamente verdadeiro, ainda que o intérprete se revelasse primoroso até mesmo na reprodução da ênfase dada pelo comunicante, como fez o mediador

lingüístico de Nóbrega (2000:56) em discurso exaltado deste contra as blasfêmias de um

feiticeiro, imagem dada aos pajés ou xamãs. É o mesmo Nóbrega que dá os contornos

dessa formação do bom língua na missiva denominada Diálogo da conversão do gentio, embora também aí essa denominação inclua o mero intérprete (2000:243):

Nogueira: (....) Sabereis como o ofício de converter almas é o mais

grande de quantos há na terra e por isso requere mais alto estado de perfeição que nenhum outro. Gonçalo Alvarez: Que requere? Não abasta ser língua e saber-lho bem dizer? Nogueira: (....) e ainda que vós sejais língua e lhos sabeis bem dizer, não me negareis que se algum vos não fala à vontade, logo perdeis a paciência e dizeis que nunca hão-de ser bons”.

Noutro trecho desse verdadeiro tratado teológico (p.244), o Padre Nóbrega insiste na necessidade da instrumentalização do conhecimento da língua à forte fé cristã, esta, sim, fator de sucesso na conversão e de sua durabilidade. Como estímulo à persistência, invoca a lendária pregação de São Tiago na Espanha, de que resultaram poucos discípulos apesar de sua fé e conhecimento da língua:

Gonçalo Alvarez: - Isso é verdade, mas os Padres que lhe falam com

tanto amor, por que não os crêem?

Nugueira: Porque até agora não têm os Índios visto essa diferença entre

os Padres e os outros cristãos. Seja logo esta conclusão que quando São Tiago, com correr toda a Espanha e falar mui bem a língua, e ter grande caridade, e fazer muitos milagres, não converteu mais que nove discípulos; e vós quereis e os Padres, sem fazer milagres, sem saber sua língua, nem entender-se com eles, com terdes presunção de apóstolo e pouca confiança e fé em Deus, e pouca caridade, que sejam logo bons cristãos?

O pensamento de Nóbrega a esse respeito, no que entronca com o de Anchieta, resume-se no seguinte: a dignidade de língua alcançava-se principalmente pela força da fé, que se fazia comunicar aos gentios através do conhecimento do idioma da terra. Isso não se confundia com um largo conhecimento teológico “nesta terra onde abasta qualquer confessor e qualquer sacerdote para a doutrina e confissões do gentio, o que em outras partes não abastara” (NÓBREGA, 2000:274). O Fundador de São Paulo cria portanto na conversão dos gentios “se com exemplo e contínua conversação os sustentarem” (2000:100). Emerge, portanto, dos textos jesuíticos, especialmente dos de Anchieta, por sua nitidez, a preocupação em estremar o língua do intérprete, embora este último quase sempre tenha se tornado língua por ser admitido nos quadros da Companhia, já que se pressupunha ser “mais fácil converter um ignorante que um malicioso e soberbo” (NÓBREGA, 2000:241).

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