• Nenhum resultado encontrado

Andanças de Comenius pelo labirinto do mundo

No documento Download/Open (páginas 46-51)

Em 1625, Comenius refugia-se com os irmãos nos vales da Silésia, região montanhosa entre a Alemanha e a Polônia, importante polo econômico devido à extração de metais. Brevemente distante dos holofotes inquisidores de Fernando II, Comenius recebe a incumbência de buscar abrigo para os irmãos nos países vizinhos. Na viagem de ida, um fato de certo modo excêntrico o afetaria profundamente e despertaria com todo vigor sua inquietação religiosa. Ouvindo falar de um curtidor alemão de nome Cristóvão Kotter, Comenius muda rapidamente sua rota. Profeta, Kotter anunciava a breve libertação da Boêmia e a recondução de Frederico V ao trono, que havia fugido para Haia após a derrota na Montanha Branca. Não sem certa resistência inicial, Comenius paulatinamente se convence de que aquilo que soava a outros como um aparente absurdo tratava-se na verdade de uma manifestação verdadeiramente constituída por revelações. Envolto em crenças místicas e previsões apocalípticas, Comenius em momento algum negou sua incompletude e seu sentimento de esvaziamento, frente a um mundo que parecia ruir a sua volta e no qual os valores humanos pareciam se dissipar gradualmente. A transcendência buscada por Comenius obrigava-o a se destituir de uma possível soberba catedrática e aceitar tais manifestações. Diversos relatos bíblicos alegam a existência de profetas e de manifestações divinas por meio de pessoas simples ou excluídas socialmente, portanto, Comenius temia rejeitar esta prática, uma vez que a seu ver a própria razão estava em última instância condicionada ao pensamento

revelado. Além disso, certa predileção por práticas místicas desta natureza parece remontar à própria formação da Igreja dos Irmãos Morávios, que em oposição a determinado formalismo assumido pelo luteranismo e ao determinismo absoluto dos calvinistas, mantinha traços bastante claros de suas origens taboritas.

Em posse das profecias de Kotter, de quem Comenius se tornaria amigo particular por longa data, estabelece importantes contatos no estrangeiro e, ao retornar, trata de divulgar entre os irmãos as animadoras profecias do sapateiro alemão. Embora estas jamais tenham se confirmado, motivaram-no a regressar, ainda no mesmo ano aos Países Baixos, a fim de apresentar as previsões de Kotter a Frederico V. Reclamando uma audiência aceita sem resistência pela corte, Comenius é recebido com cordialidade, pois seu nome como intelectual já não era estranho nos grandes centros europeus. Porém, a empolgação de Comenius com as profecias não pareciam ser as mesmas do Rei de Inverno, que as encarou com descrença e frieza, para decepção do teólogo checo. O ceticismo do rei se confirmaria no ano de 1628, quando os Irmãos são definitiva e oficialmente expulsos da Boêmia, vindo logo após a instalarem-se em Lezno, na Polônia.

O período em que Comenius exilou-se na Polônia (1628-1641) foi aquele em que o autor firmou seguramente as principais bases de seu pensamento pedagógico e que marcou também uma de suas fases mais produtivas intelectualmente. Comenius se instala com a mulher, duas filhas, seu futuro genro e filho de pastor da Unidade, Peter Figulus Jablonský, e uma jovem de nome Christina Poniatowska, acolhida por Comenius quando do falecimento dos pais. No mesmo ano de sua chegada, Comenius dá início à redação da Didática Checa (obra concluída em 1632), onde estabelece boa parte dos parâmetros e técnicas educacionais atuais. A obra, que pode ser entendida como uma espécie de protótipo da Didática Magna, pretendia fornecer um método definitivo e seguro baseado na ordem da natureza, além de defender pioneiramente a democratização do ensino como um direito social. Neste momento inicial de sua estadia na Polônia, Comenius ainda sonhava com um retorno triunfal à Morávia, e acreditava que por meio de um forte sistema educacional, capaz de desenvolver e aprimorar a racionalidade e o senso ético de seus concidadãos, seria possível restabelecer a paz religiosa no território checo. Em seguida Comenius escreve as obras Guia da escola materna (1628), que trata da importância das mães e das amas no processo educacional na primeira idade, e uma de suas obras primas, a Porta aberta das línguas (1631), que em pouco tempo se torna grande sucesso internacional por apresentar um método rápido e fácil de aprendizado do latim, chegando a ser editada em diversos países da Europa e da Ásia. Ainda dessa época

datam uma série de escritos sobre temas que variam entre meditações, catecismos, apologética e física.

Este período em Lezno, na Polônia, também seria marcado por um novo intercurso profético, dessa vez protagonizado pela sua afilhada Christina Poniatowska. A jovem, que possuía saúde extremamente frágil “e sofrendo provavelmente de histeria devido ao choque emocional causado pela morte da mãe e pelas atrocidades que presenciara” (CAULY, 1999, p. 119), imergiu em profundos transes nos quais previa a libertação próxima da Boêmia. A fama de Christina Poniatowska se alastrou de tal forma que “em torno da jovem visionária reuniam- se verdadeiras assembleias que anotavam as suas mínimas palavras e também alimentavam as suas visões com leituras e cânticos” (CAULY, 1999, p. 120).

O alento despertado em Comenius pelas profecias de sua jovem afilhada se imiscuía ao novo panorama político que se desenhava com a Guerra dos Trinta Anos, devido à incursão com tons de heroísmo do rei Gustavo Adolfo da Suécia, líder de uma nova frente protestante, que contava ainda com o apoio da França, Inglaterra e posteriormente da Saxônia. Embora as intenções do rei sueco visassem prioritariamente garantir a continuação do poder político-econômico da nação que comandava, especialmente a hegemonia do comércio no mar Báltico ameaçada pela expansão habsburga, tornara-se inevitável que os protestantes boêmios, especialmente Comenius, vissem no engajamento bélico do rei, igualmente protestante, uma intervenção divina em favor dos grupos reformados que tudo perderam em meio ao caos despertado pelas disputas entre os Habsburgos católicos e os protestantes, sobretudo quando suas tropas adentraram triunfalmente Praga em novembro de 1631, reconquistando rapidamente o território checo. No entanto, o desenrolar dos fatos não viria a confirmar os bons augúrios da jovem Christina Poniatowska. Com a mesma rapidez com que o território checo foi conquistado pelas forças protestantes, ele foi devolvido aos Habsburgos pelas forças do Generalissimus imperial e duque de Friedland e Mecklemburgo na Boêmia, Albrecht Von Wallenstein. Uma ponta de esperança permanecia ainda com os protestantes, por acreditarem que Wallenstein, checo de origem, tivesse maior lealdade às suas ambições pessoais do que à realeza espanhola e proclamasse a independência do território, porém, como demonstra František Kožík, o desenrolar dos fatos não foi de forma alguma animador para os protestantes checos:

El panorama del futuro se ensombreció igualmente: Gustavo Adolfo, el rey sueco cayó en noviembre de 1632 en la batalla cerca de Lützen. Ese mismo mes murió Federico del Palatinado “El rey checo de Invierno”. Las profecías resultaron falsas. Todavía por algún tiempo sobrevivió la esperanza que los exilados habían depositado en Albrecht de Wallestein. A fin de cuentas era un aristócrata checo y su ambición bien conocida de todos, así que las cosas llegaron a un punto en el que los nobles checos le ofrecieron la corona. Sin embargo, Fernando II sospechaba de sus intrigas de alta traición y lo mandó asesinar en Cheb en febrero de 1634 utilizando para ello a un oficial de baja graduación del ejército del proprio Wallestein. Así fue como se extinguió también esta llamita. En septiembre del mismo año el ejército imperial conseguió asestar un golpe decisivo al ejército sueco y con ello a los regimientos de los protestantes alemanes. En mayo de 1635 Sajonia renunció para siempre a participar en el frente anthiabsburgo a cambio de que le cedieran Lusacia. Un anõ más tarde murieron Rafael Lesczynski y Carlos el Viejo de Žerotín, ambos defensores frontales de los miembros de la Unidad de los Hermanos (KOŽIK, 1981, p. 29).

Angustiado com o trágico futuro anunciado à nação boêmia, e sentindo que o destino lhe condenaria a viver ainda por um longo período, senão definitivamente, no estrangeiro, Comenius decide se dedicar ao aprimoramento humano, e não mais se restringindo à pátria nativa, amplia suas pretensões didáticas e filosóficas. Traduz então sua Didática Checa para o latim. Realizando algumas reformulações técnicas e ampliações em relação à versão anterior de seu escrito, transforma-o em Didática Magna (1657)7, apresentando ao mundo “a arte universal de ensinar tudo a todos”. No momento de sua redação, Comenius já passara a se empenhar em seu ideal pansófico de saber total, e acreditava ter encontrado talvez não apenas um método definitivo, mas também bases epistemológicas definitivas, necessárias à reformulação do pensamento e consequentemente das relações humanas em âmbito global. Por isso o adjetivo “Magna”, indicativo da grandeza que o autor acreditava ter descoberto em seu método, conforme afirma Sérgio Carlos Covello:

Seu propósito, na verdade, é transformar o labirinto do mundo em uma sociedade cristã, onde em lugar de trevas haja luz, em vez de desordens, ordem excelente, em lugar de desassossego, tranquilidade, contentamento, alegria, liberdade e segurança. É já nesse livro que lança a ideia de uma reforma da sociedade com base na educação, chamando sua doutrina de pansofia, isto é, saber universal. Trata-se de empregar a educação como instrumento de transformação do mundo, fazendo com que o educando viva consciente de ser „a mais alta, a mais absoluta e a mais excelente das criaturas e empreenda todos os meios para atingir a perfeição, consistente em modelar-se à imagem de Deus‟ (COVELLO, 1992, p. 46).

Nos anos seguintes, Comenius se dedicaria incansavelmente às obras educacionais, pois acreditava que por meio da educação seria possível aos homens e mulheres aprimorarem- se moralmente e assumirem sua real condição humana, desenvolvendo sua racionalidade.

7

Embora só tenha sido publicada oficialmente em 1657 como parte de uma obra maior, a “Ópera Didactica Omnia”, a redação da Didática Magna ocorreu entre 1633 e 1638, e diversas cópias foram encaminhadas por Comenius para a apreciação de críticos, além de alguns extratos que circularam pelo meio acadêmico.

A singularidade de sua filosofia desperta a atenção de um grupo de intelectuais ingleses, liderados por Samuel Hartlib. Após diversas trocas de correspondências, Comenius embarca para Londres em 1641. Recebido com pompas de rei pelo parlamento britânico, é convidado a desenvolver seu ideal pansófico em solo inglês. Para isso, Comenius pensava em transformar o país da Rainha em um centro científico mundial, capaz de irradiar as luzes da razão pelo mundo ocidental. Para tanto, Comenius pretendia fundar o Colégio das Luzes, uma espécie de órgão internacional em assuntos referentes à educação e às ciências, inspirado na Casa de Salomão, de Francis Bacon8. Comenius formou o famoso “círculo comeniano” junto a John Dury e Samuel Hartlib, outros dois pensadores estrangeiros baconianos e utopistas, que sonhavam em levar às últimas consequências os ideais de democratização da educação e das ciências, sob a evidente influência do cristianismo reformado. No entanto, agitações políticas internas fizeram com que o plano fosse abortado e não mais enxergando razões para permanecer na ilha, Comenius deixa o país em 1642. É digno de nota, porém, que embora a estadia de Comenius tenha sido bastante abreviada pelas convulsões sociais na Inglaterra, não é menos verdade que sua passagem foi extremamente produtiva e deixou efeitos duradouros, sendo considerado por seu pensamento inovador uma das grandes influências dos grupos republicanos durante a Revolução puritana, além de ter sido o principal ideólogo da Royal Society9.

Após recusar um convite vindo de Massachusetts, nos Estados Unidos, para assumir a reitoria da universidade de Harvard e um outro do cardeal Richelieu para aportar em solo francês, Comenius se decide pela Suécia. A decisão, na verdade, possuía maiores contornos políticos do que propriamente filosóficos, uma vez que o país escandinavo era uma das grandes potências protestantes e Comenius pretendia angariar apoio para a causa checa. No entanto, um encontro bastante peculiar ocorreu a caminho das terras suecas.

2. 4. 1 DISCUSSÕES SOBRE O MÉTODO: ENCONTRO COM RENÉ DESCARTES

Longe do solo inglês e a caminho da Suécia, em 1642 Comenius se dirige, junto com a comitiva que o acompanhava, a Haia, na Holanda. Lá residia a rainha Isabel da Boêmia,

8

BACON, Francis. Nova Atlântida. Trad. e notas de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

9

HILL, Christopher. Origens intelectuais da revolução inglesa. Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1992. (Col. O homem e sua história); TREVOR-ROPER, Hugh. A crise do século XVII: religião, a reforma e mudança social. Trad. Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Top books, 2007.

além de diversos membros da corte checa expatriados, com quem, acredita-se, Comenius pretendia se encontrar.

Desfrutando de grande prestígio e admiração nos Países Baixos, sobretudo por seus manuais escolares e por seus trabalhos pansóficos, é convidado por amigos em comum a realizar uma visita a ninguém menos que René Descartes. Nesta época, o autor do Cogito residia na cidade de Leida, e fala-se que raramente aceitava receber visitas, mesmo de ilustres filósofos. Como um dos grandes caprichos do destino, o tempo tratou de aproximar estes dois pensadores tão antagônicos em diversos aspectos, antagonismo este que se iniciara já na ocupação dos países checos pelas tropas Habsburgas, das quais Descartes fazia parte.

Reunidos por mais ou menos quatro horas, os dois discutiram a base de suas filosofias, ressaltando suas aproximações e distanciamentos. Intelectuais do método, ambos acreditavam na ordenação do conhecimento e apontaram a necessidade de reformas urgentes na ciência, apresentando modelos de pensamento que se pretendiam universais. Porém suas disposições contrárias se iniciam com a consideração distinta entre ambos em relação ao papel da religião. Enquanto Descartes manteve a radical separação entre religioso e secular, e atribuiu puramente à razão o papel sobre o estabelecimento das verdades científicas, Comenius permaneceu fiel a sua convicção cristã e à crença no pensamento revelado, não vendo de modo dicotômico religião e ciência, além de atribuir importância vital ao conhecimento advindo dos sentidos; enquanto “Descartes preocupou-se apenas com o intelecto, Comenius foi além, preocupando-se com as emoções e com a alma” (COVELLO, 1991, p. 63).

As divergências irreconciliáveis entre eles, não foram capazes, porém, de minimizar a admiração recíproca entre estes dois gigantes do pensamento ocidental. Após este encontro cordial, Comenius segue viagem, e embora rejeitando veementemente o racionalismo cartesiano em diversos escritos posteriores, não deixou evidentemente de reconhecer a grandiosidade intelectual de seu mentor.

2. 5 DAS ESTADIAS DE COMENIUS NA SUÉCIA, EM SAROS-PATAK, E O

No documento Download/Open (páginas 46-51)