14. ANEXOS
14.3 Anexo 3
Encontro de Jesus com as Famílias.
Jesus veio ao mundo e viveu, assim como nós, numa família. Essa parte da história todos conhecemos, e não é nosso objetivo nos aprofundarmos nela agora. Passemos aos momentos em que Jesus, já durante sua vida pública, favoreceu com a sua presença as famílias, aproximando-se delas e adentrando as suas realidades particulares.
Ao longo de sua jornada, Cristo teve muitos encontros com diferentes famílias. Alguns desses, puderam ser descritos nos Evangelhos, servindo como pilares para o que conhecemos sobre o Plano de Deus para as famílias. Assim, queremos abordar agora com simplicidade esses momentos. Atentar para os detalhes e as realidades comuns e próprias de cada uma das cenas descritas a seguir. Este é o nosso objetivo no momento: conhecer a família, contemplando-a com a caridade com que Cristo a contemplou.
Partiremos então, para isso, do momento onde começa a vida pública de Jesus. É uma festa de casamento. Festas de casamento no judaísmo eram e ainda são um acontecimento muito simbólico. Começavam muito antes das núpcias em si, tinham por vezes um caráter de cunho aparentemente mais civil do que espiritual, mas continham elementos que nos permitem compreender o início do magistério de Cristo.
Tudo se iniciava por um contrato firmado geralmente por familiares dos noivos, primeiro porque a idade dos nubentes podia variar entre os 13 e 15 anos, segundo porque havia a formalização da contrapartida pela entrega da mão da noiva, o que se conhece ainda hoje por dote. Apesar disso, ainda existia toda a ritualística da festa em si. O noivo deveria preparar a casa para a nova família que se formaria, de modo que ao seu término, conforme o contratado, deveria buscar a noiva e oferecer um banquete em sua casa para os seus convidados.
É justamente num desses banquetes que se passa a narrativa de Jo 2, 1-11. Vamos ouvi-la atentamente agora.
¹Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. ²Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. ³Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. 4 Respondeu-lhe Jesus: MuRespondeu-lher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. 5Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser. 6Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. 7Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. 8Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram. 9Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo 10e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois,
quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora. 11Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestrealizou-ou a sua glória, e realizou-os seus discípulrealizou-os creram nele.
Acerca dessa passagem há inúmeros ensinamentos, cada qual com uma abordagem diferente, de acordo com a dimensão que se quer aprofundar. Encontramos uma reflexão feita pelo Padre Cesar Augusto dos Santos por ocasião do II Domingo do Tempo Comum, ele é um jesuíta brasileiro, que por muitos anos trabalhou na rádio do vaticano e hoje é reitor do 1º Santuário de São José de Anchieta na cidade de Anchieta no Espírito Santo. Foi também vice-postulador da causa de canonização desse santo.
Padre Cesar faz menção a outros detalhes da cena. Lembra, primeiramente, que as bodas acontecem 3 dias após se encontrar com os discípulos. Ponto que faz alusão aos três dias da ressurreição. Aponta que Maria é citada de forma isolada, fora do grupo dos discípulos, a significar que ela representa os filhos de Eva, a humanidade, que aguardavam a chegada do esposo, Jesus. As seis talhas de água, representam a imperfeição da purificação antiga, isto porque na simbologia bíblica, 7 é o número da perfeição, não 6. Além disso, está a abundância de água, que com Cristo se torna abundância de vinho. Como desfecho o sacerdote oferece a seguinte exegese:
A presença do Mestre plenifica a purificação, pois ela se dará com seu sangue, sinalizado pela abundância de vinho. Do mesmo modo a excelência do vinho novo, advindo pós ação de Jesus. Finalmente vejamos os diálogos. Jesus diz que sua hora ainda não chegou. Ele se refere à hora em que redimirá a Humanidade, com sua paixão. Maria diz: “Fazei tudo o que ele vos disser!“ É a Humanidade convertida que aceita obedecer a Deus, reconhece-o como Senhor, diferentemente dos filhos de Eva.
Portanto, João quer nos dizer que nessa cena de casamento foram realizadas, prefiguradamente, as núpcias entre Cristo e a Humanidade. A profecia de Isaías se realiza. O Senhor torna a Humanidade sua predileta, a desposa na cruz e lhe dá um nome novo: Meu Povo!
É assim que Cristo, ao iniciar, de fato, sua vida pública, encontra a família: marcada pela imperfeição, carregando a culpa do pecado original, incompleta pela falta do vinho bom. Ainda assim, já naquele momento está presente a esperança, a caridade e o amor. E é Cristo presente que completa o que falta aos noivos, sua presença restaura a família que se forma. A família é chamada a um papel central na história da salvação da humanidade, nela se dá também o prenúncio do sacrifício de Jesus por todos nós.
Ousamos acrescentar ainda à brilhante aula do sacerdote, uma observação sobre os servos presentes à festa. Não apenas ouviram Maria. Eles não hesitaram e, ao final, tiveram parte fundamental no casamento de Cristo com a humanidade. Donde podemos resgatar as palavras de Jesus no Evangelho segundo Lucas: "Somos servos como quaisquer outros, fizemos o que devíamos fazer" (Lc 17, 10). Assim devemos pedir sempre a Maria: dai-nos a graça de sermos servos quaisquer, faz-nos atentos aos pedidos de teu Filho!
Passemos agora ao capítulo 8 do Evangelho segundo São Mateus. Ouçamos com atenção como o evangelista narra os seguintes acontecimentos:
1Tendo Jesus descido da montanha, uma grande multidão o seguiu. 2Eis que um leproso aproximou-se e prostrou-se diante dele, dizendo: Senhor, se queres, podes curar-me. 3Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: Eu quero, sê curado. No mesmo instante, a lepra desapareceu. 4Jesus então lhe disse: Vê que não o digas a ninguém. Vai, porém, mostrar-te ao sacerdote e oferece o dom prescrito por Moisés em testemunho de tua cura. 5Entrou Jesus em Cafarnaum. Um centurião veio a ele e lhe fez esta súplica: 6Senhor, meu servo está em casa, de cama, paralítico, e sofre muito. 7Disse-lhe Jesus: Eu irei e o curarei. 8Respondeu o centurião: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. 9Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz... 10Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel. 11Por isso, eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacó, 12enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes. 13Depois, dirigindo-se ao centurião, disse: Vai, seja-te feito conforme a tua fé. Na mesma hora o servo ficou curado. 14Foi então Jesus à casa de Pedro, cuja sogra estava de cama, com febre. 15Tomou-lhe a mão, e a febre a deixou. Ela levantou-se e pôs-se a servi-los. 16Pela tarde, apresentaram-lhe muitos possessos de demônios. Com uma palavra expulsou ele os espíritos e curou todos os enfermos. 17Assim se cumpriu a predição do profeta Isaías: Tomou as nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males (Is 53, 4). 18Certo dia, vendo-se no meio de grande multidão, ordenou Jesus que o levassem para a outra margem do lago. 19Nisto aproximou-se dele um escriba e lhe disse: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. 20Respondeu Jesus: As raposas têm suas tocas e as aves do céu seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça. 21Outra vez um dos seus discípulos lhe disse: Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai. 22Jesus, porém, lhe respondeu: Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos.
A cena começa com Jesus descendo a montanha. A montanha está no alto, onde Deus se encontra. Deus no antigo testamento se revela na montanha, quando fala com Moisés é na montanha, é nela que Abraão vai oferecer seu filho. Assim, a montanha sinaliza a proximidade de Jesus em oração com Deus Pai. O caminho de Jesus tem origem da montanha, isto é, nos céus. Em todos os momentos críticos de sua peregrinação na Terra, Jesus sobe a montanha e desce novamente ao nosso encontro. Partindo dela, Jesus adentra a realidade de nossa humanidade.
E chega primeiro, conforme lemos no Evangelho, aos menos favorecidos. Nessa ocasião, representados pela pessoa do leproso. Reparem que ele não tem nome, não tem casa, está fora da cidade, desgarrado de sua família, sofre, implora. E prostra-se por terra. Reparem também que ele tem fé! Reparem que confessa sua pequenez e se oferece com humildade. "Se queres, podes curar-me". O leproso oferece tudo que tem! Não oferece ouro, não oferece bens, não oferece alegrias, não oferece felicidade. Ele oferece-se indigente, sofredor, desamparado, no entanto,
cheio de fé e esperança. É o suficiente para Jesus! Sua compaixão abraça o leproso, dizendo: "Eu quero". Jesus recebe a oferta! Aí está a misericórdia de Deus.
Em seguida, Jesus entra na cidade. Vem ao seu encontro um personagem controverso e inesperado. Um centurião, um oficial romano responsável por até uma centena de soldados. E faz-lhe um pedido ainda mais inusitado, para que olhasse pelo seu servo que sofria paralítico na cama. Segue-se um diálogo surpreendente e cheio de significado. Um diálogo que ainda hoje travamos com Jesus durante todas as missas que frequentamos.
O centurião afirma a sua indignidade em receber Jesus em sua casa. Mas que confia que Ele pode salvar seu servo apenas com o poder de sua autoridade. Jesus surpreendido com a fé desse homem, que não era judeu, afirma a universalidade de seu Evangelho, colocando todos os povos como destinatários de sua Boa-Nova. Finalmente, Jesus confirma sua autoridade e, mais uma vez, aceita o pobre servo como oferta de fé daquele oficial romano. Aí vemos algo inteiramente novo, o servo, com sua doença e tristeza, leva o seu senhor ao caminho da graça. Mas é o servo que toma parte primeiro na glória de Deus quando Cristo o recebe, curando-o.
Depois de curar o leproso, restaurar o servo e redimir o gentil, agora Cristo entra na casa de Simão Pedro. E lá, restabelece a saúde da sogra, que prontamente põe-se a servi-los. Aqui vemos realizar a chegada do Reino de Deus, contra o que o mal não pode resistir, tem que recuar. A sogra, ou seja, a humanidade que não pode servir, por estar acometida pelo mal, no momento em que recebe o toque de Cristo, recebe aquele mesmo "dinamismo irresistível" que está em nossa mística Pólen. E assim, Cristo entra na casa da família e vai até o seu coração, expulsando o mal e tornando-a capaz de servi-lo prontamente!
Na sequência, Jesus deixa claro que a família está a serviço do Reino, não devendo estar ensimesmada, portanto. A família não é um fim em si mesma, pois, como nos ensina Jesus, os mortos devem cuidar de seus mortos, isto é, os que não morrerem até mesmo para suas famílias, não são dignos de andar com Ele. E deixar a graça de Deus, é negar a família em sua essência, pois ela só é completa e tem seu fundamento na pessoa de Cristo.
E onde está e como vive a família? A família será sempre a mesma, ainda que diferente. Vejamos o que Jesus partilhou com as famílias que encontrou pelo seu caminho. Com a família de Lázaro partilhou a pobreza, o sofrimento, mas também a humildade e a amizade.
- Testemunhos.
http://br.radiovaticana.va/news/2016/01/16/reflex%C3%A3o_dominical_bodas_de_can%C3% A1__cristo_e_a_humanidade_/12