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Animais

No documento BENS DE HEREGES (páginas 30-36)

Para o leitor que gosta de animais e que procura neste subcapítulo algum tipo de informação acerca das relações entre pessoas e bichos de estimação na Época Moderna, este propósito fica totalmente defraudado.

Não obstante o gosto pelos animais datar de períodos mais antigos, paralelamente à prática de coleccionar pássaros exóticos ou possuir pequenos jardins zoológicos ser anterior aos séculos aqui estudados, a maior parte das relações entre o Homem e os animais continuava e continuará a ser baseada nas questões utilitárias: o cão que guarda o gado, o gato que caça os ratos, os cavalos que são imprescindíveis para a guerra, os cavalos, burros e mulas necessários para o transporte de pessoas e bens e, naturalmente, os animais que se transformam em ali-mentos e cujos subprodutos são particularmente relevantes em termos económicos: ovos, leite, manteiga, nata, queijo, peles e couros, são os mais evidentes, sem esquecer o mel, a cera e, naturalmente, as carnes para consumo quando estavam frescas, salgadas ou fumadas, limitando--nos às situações mais comuns901.

Outras vertentes das relações entre os homens e os animais são igualmente relevantes. A caça constituiu um dos principais passatempos da aristocracia enquanto a pesca ficou particularmente conotada com a procura de alimento barato e necessário para todos em períodos de jejum e de abstinência. As touradas apareceram como uma distracção popular que também contou com elementos da nobreza e até da Casa Real. Por outro lado, a luta contra pragas, especialmente de insectos que destruíam as colheitas e danificavam outros bens dentro e fora das casas, motivou medidas diversas. O mesmo se pode afirmar em relação à pre-sença e circulação de porcos e gados nas cidades e vilas, pondo em causa a segurança das pessoas e a saúde pública, o que foi motivando a emissão de posturas municipais um pouco por todo o lado. Eis algumas das vertentes das relações entre pessoas e bichos, ao longo dos tempos.

Sem esquecer o animal enquanto elemento de companhia de crianças e de adultos, vislumbrando -se claras relações de afecto plasmadas inclusi-vamente na iconografia, desde cedo.

Nos inventários em estudo, os animais arrolados aparecem -nos como bens cujo valor económico importava ter em conta. Uns serviam de meio de transporte de pessoas e géneros, outros constituem força de trabalho e outros ainda eram criados para consumo próprio e, especialmente, para futura venda. Refira -se que nuns casos estamos perante o comércio dos próprios animais, em outros dos produtos que forneceram. Ou seja, só se inventariaram animais quando os mesmos tinham alguma utilidade, quando integraram os patrimónios de forma enriquecedora do ponto de vista material, isto é quando tinham valor económico. Consequentemente, gatos902, cães903, pássaros exóticos e quaisquer outros animais de con-vivência lúdica estão omissos – com excepção de três rafeiros “dous machos e huma femea”904, pertencentes a um lavrador alentejano –, apesar de poderem integrar as casas de algumas famílias905. As interacções não especificamente utilitárias entre homens e animais eram naturalmen-te negligenciadas em naturalmen-termos de valores patrimoniais. O deslumbramento pelos animais exóticos, a oferta de exemplares de paragens não europeias, quer a particulares quer em termos protocolares em contextos de po-der906, a constituição de jardins zoológicos907, a presença da vida animal e das naturezas mortas com animais na pintura908 ainda não tocavam os grupos intermédios, em termos de posse e exibição.

Nos inventários em estudo, 144 pessoas, isto é 26,2% do total, decla-ram possuir animais. 80 edecla-ram do século XVII e 64 do XVIII. Na primeira centúria, 34 arrolaram apenas um animal e 14 dois. Os restantes eram todos detentores de um número muito díspar que oscilou entre três e 1210, embora só nove pessoas fossem donas de mais do que 40 animais.

No século XVIII, os dados não são muito díspares: 26 pessoas inventaria-ram um, 12 declarainventaria-ram dois e as restantes einventaria-ram donas de três a 533 animais. Apenas uma possuía uma manada, as restantes não chegavam a ter 10 bichos cada. Assim, temos, 144 inventários, 125 de homens e 19 de mulheres, nos quais se refere este tipo de bens.

A maior parte dos réus detentores de animais detinha algum tipo de montada – cavalo, macho, burro ou mula – para se fazer transportar.

Mercadores, lavradores, médicos, cirurgiões, advogados mas também ho-mens com actividades mais modestas como almocreves, cardadores,

cerieiros, curtidores, tintureiros e outros faziam -se transportar em algum deste tipo de quadrúpede. Por ordem decrescente, no século XVII, machos, burros, mulas e cavalos. Em Setecentos, machos, mulas, cavalos e burros.

Entre estes, o mais nobre era o cavalo. Como se sabe, andar a cavalo ou a pé constituía um factor de distinção social. A posse e a manutenção de equídeos – muito relevantes para a guerra – apareceram nos patrimónios como animais que permitiam a mobilidade dos donos e que lhe concediam visibilidade social909. Isto é, arrolar um ou vários exemplares de gado cavalar remetia, de imediato, para alguém com um certo status.

Não obstante, os valores dos animais eram muito variados. Generica-mente mais caros no século XVIII do que em seiscentos, mas dentro de cada espécie com oscilações significativas, o que se compreende quando se está perante exemplares, jovens ou idosos, em bom estado ou mancos, não se deixa de notar que os equídeos nem sempre eram mais caros do que alguns exemplares de gado asinino e muar, como se pode verificar pelo quadro abaixo.

Quadro 13. Tipologia e número de animais

Século XVII

Animais Número total Número de possuidores

Número de pessoas que avaliaram os

animais

Preços mínimos e máximos (em réis) por

cabeça

Galinhas 1 ou 2 1 0

-Cães (rafeiros)

3 1 0

-Vacas 11 +

bezerros

3 0

-Cavalos 18 14 10 5.000 -40.000

Mulas 22 21 14 8.000 -25.000

Burros 28 20 11 900 -23.000

Machos 44 32 29 8.000 -50.000

Bois 49 14 7 3.400 -12.500

Porcos + de 100 7 4 c. 2000

Cabras 383 3 3 230 -430

Colmeias 648 5 4 250 -500

(por colmeia)

Carneiros 2733 -2933 7 2 500

Século XVIII

Animais Número total Número de possuidores

Número de pessoas que avaliaram os

animais

Preços mínimos e máximos (em réis) por

cabeça

Galinhas muitas 1 -

-Vacas 554 +

bezzerros

5 5 4.700 -7.500

Cavalos 18 + uns 16 12 12.000 -60.000

Mulas 14 12 10 10.000 -80.000

Burros 11 10 7 4.800 -12.000

Machos 38 27 21 10.000 -50.000

Bois 8 3 3 20.000 -30.000

Porcos 4 3 3 5.000 -12.000

Cabras 6 1 1 600

Colmeias + de 100 3 2 1.500 (por colmeia)

Carneiros 7 1 -

-A contabilização dos animais também não foi sempre precisa. Se uns réus explicitaram claramente quantos possuíam outros forneceram infor-mações vagas como uma vara, meia colmeia, seis vacas e seus bezerros, uma galinha ou duas, uns cavalos, etc. A título de exemplo, veja -se o caso do lavrador Manuel Álvares, natural e morador em Cabeço de Vide, de 40 anos, detido em 1665, o qual afirmou ser dono de “dous bois e tres vaquas com seus beserros e quinse porcas com suas criações e huma egoa porque os mais lhe havia tomado o inimigo”910. Neste caso, estamos não apenas perante o elenco dos animais mas também podemos verificar os prejuízos sofridos em resultado da Guerra da Restauração911. Em alguns casos, os réus eram donos de montadas que partilhavam com outros. Por exemplo, o tendeiro Simão Gomes, natural de Cabeço de Vide e morador em Estremoz, de 30 anos, cujo inventário data de 1648, informou ter “huma mula parda de sette annos que valeria vinte mil reis e era comua delle declarante e de seu cunhado Pedro Guomes que tem nella a mettade de sua valia”912. Por seu lado, em grandes transacções de gado era frequen-te haver sócios. Por exemplo, em 1709, Simão Lopes Parra, que se disse sem ofício, natural de Múrcia e morador em Peniche, de 32 anos, declarou:

“elle comprou quinhentas e trinta e tres cabeças de gado vacum em Ciudad Rodrigo por dous contos quatrocentose noventa e tantos mil reis para o que concorreu com setecentos e tantos mil reis e com mais hum

Domingos Jorge que trata de gados morador na Quintan junto a Pinhel e seus companheiros que forão seus socios no dito contrato com a venda do qual gado correu o dito Domingos Jorge e lhe não entregou a elle declarante mais que trezentos e tantos mil reis e lhe não tinha dado con-tas e lhe está devendo o resto e os lucros se he que os ouve”913.

Algumas vezes, os inquisidores ficavam informados acerca da utiliza-ção precisa dos animais por parte dos réus. Tal foi particularmente visível no caso das montadas e dos bois de arado. Por exemplo, em 1648, Leonor Pires, mulher de um lavrador, natural de Sousel e moradora em Fronteira, de 30 anos indicou que o casal possuía “huma burra com huma criança”, isto é, com uma cria, e “seis boys que servião no arado”914. O advogado Afonso de Pina Caldas, natural de Elvas, morador em Lisboa, de 37 anos, detido em 1671, também foi claro: “Antonio Dinis Queimado lavrador morador na mesma freguesia [Odivelas] tem em seu poder hum boi delle declarante. Que na sua quinta da freguesia de Odivellas tinha hum carro com dous bois que tudo valerá concoenta mil reis. Uma liteira com dous machos hum serrado outro de quatro annos […] tem hua mula que lhe serve na nora da quinta e valera quatorze mil reis. Hum jumen-to para o mesmo effeijumen-to que valera quatro ou cinco mil reis”915.

Numa sociedade em que os animais eram referidos apenas pelo seu valor económico, raras vezes apareceram informações que permitissem conhecer características específicas de cada um, não obstante a prática de dar nomes aos bichos ser anterior. No universo em estudo, uma ou outra vez, foram evidenciadas particularidades como a idade, a cor, o estado dos seres arrolados e, muito raramente, os nomes. Por exemplo, em 1637, o cirurgião Fernão de Melo Palha, natural e morador em Arraiolos, de 76 anos, informou ser dono de “duas mulas huma boa em que elle declarante andava pretta picada de branco a qual comprou a Diogo Vaz e lhe deve inda alguma couza della mas não sabe quanto ao serto e ou-tra manca que he castanha”916. Em inventário de 1642, o lavrador Diogo Fernandes, natural e morador em Monsaraz, de 80 anos, além de referir a posse de um jumento “russo” de 12 anos, indicou “duas vaquas huma branqua a que chamavão Panada e outra morena do mesmo nome de oito ou nove annos de idade”917. Em 1648, foi a vez de Luzia Lopes,

cônjuge de um antigo prioste, natural de Vila Viçosa e moradora em Veiros, de 50 anos, afirmar que possuía “huma jumenta pretta nova com huma burrinha de poucos mezes”918. O mercador Manuel Henriques, o Tota, detido em 1660, natural e morador em Vinhais, de 35 anos, tinha um único boi, de nome Janeiro, o qual fora vendido “para os alimentos que trouxe” para o cárcere919. Por seu lado, em 1663, o tratante Domingos Fernandes Luís, natural de Vilar Tropim e morador em Vila Flor, de 50 anos, fixou -se nas cores dos machos para os identificar: “quatro machos hum castanho escuro de seis annos que valerá vinte mil reis outro pardo de sinco annos que valera outros vinte mil reiz outro castanho claro de quatro annos que valerá vinte mil reiz outro tambem castanho escuro mais piqueno de sinco annos que valerá quinze mil reis”920.

No quadro fizemos a destrinça entre vacas e bois na medida em que as primeiras estavam particularmente ligadas à produção de leite e os segun-dos aos trabalhos agrícolas. Como vimos, várias vezes foram referenciasegun-dos a designação de bois de arado. Carneiros e ovelhas parecem ter estado em mãos de homens ligados ao trato destas espécies e de seus subpro-dutos atendendo a que, pelo menos no século XVII, foram arrolados em grandes quantidades nas mãos de poucos. Registaram -se escassos capri-nos enquanto as varas de porcos coexistiram com a posse de um ou dois para o uso particular de certas familias, mormente em termos alimenta-res921. Estranha -se a escassíssima referência aos animais de capoeira.

Galinhas, patos e perus a par de criação de animais de pelo como coelhos estiveram praticamente omissas, se exceptuarmos dois testemunhos – bastante imprecisos – relativamente às primeiras. Não é crível que, por exemplo, lavradores, detentores de terras, de cavalos, de bois e de outros animais não tivessem igualmente capoeiras para a criação de animais de penas e de pelo, tanto mais que os mesmos faziam parte da alimentação quotidiana dos que tinham algumas posses e, no caso das galinhas, eram sempre procuradas pelos que estavam doentes922.

A apicultura está documentada desde as sociedades pré -clássicas923. Nos inventários em estudo as abelhas nunca apareceram de per si. Em contrapartida, eram arroladas as colmeias. Atendendo a que as mes-mas implicavam baixos investimentos e propiciavam a obtenção de mel

e de cera, não podermos estranhar que, nos meios rurais algumas pes-soas as tenham declarado. Como as abelhas eram dadas à agressividade face aos humanos e aos estragos em vinhas e pomares, as edilidades chegaram a emitir posturas no sentido de os donos das colmeias as man-terem à distância dos espaços urbanos924.

Os réus que arrolaram animais nos seus inventários eram maioritariamente pessoas residentes em espaços rurais, que estavam ligados à posse de parcelas de terras. Porém, estiveram igualmente presentes homens urbanos detentores de quintas nos arredores das cidades, os quais complementavam os rendimentos da sua actividade principal com a exploração agrícola, numa clara cópia dos padrões da nobreza, visível desde épocas anterio-res925. Esta realidade não obstava à presença de animais nas cidades e vilas, em ambientes urbanos, os quais frequentemente eram alvo de legis-lação camarária926 ao mesmo tempo que causavam problemas diversos, nomeadamente de segurança e de salubridade.

No documento BENS DE HEREGES (páginas 30-36)

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