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Quando os punks deflagraram sua cruzada para virar o mundo de pernas pro ar, em 1976, a coisa deve ter tido início num sábado ou domingo. Isso é ponto pacífico, porque o punk nunca foi uma espontânea rebelião de rua, como diz a lenda. Foi mais uma escaramuça de fim-de-semana, que aconteceu graças a estudantes de arte fazendo arte e inventando moda. Tudo isso a quilômetros de distância dos moleques ranhentos e

maltrapilhos, que estavam ocupados demais chutando bola nalgum terreno baldio de subúrbio para se alistarem na brigada punk.

O punk foi simplesmente a maior de todas as fajutices do rock'n'roll. É verdade que bandas como os Sex Pistols e o Clash deram o merecido chute

no saco da estagnada indústria musical, abrindo uma alternativa mais arejada para o cansado & cansativo pop comercial e para o rock dos dinossauros. Ter conseguido puxar as calças dos medalhões é uma proeza e merece reconhecimento, mas, pelo amor de Deus, isso não é a

descoberta da pólvora! Meia dúzia de palavrões durante uma

comportada entrevista de Bill Grundy no programa "Today" da London Weekend Television não é exatamente o que se pode chamar de ruptura da lei e da ordem. 8

Vá até o pátio do recreio de qualquer escola primária, e você vai

escutar coisa bem pior, mas ninguém se tocava com o óbvio. Aquilo foi o bastante para levar os Sex Pistols à capa dos jornais e colocar "Anarchy

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O autor se refere à entrevista de 1º de dezembro de 1976, onde Johnny Rotten usou a palavra "fuck" ("foda" ou "foder") num programa de TV, coisa inadmissível em público na Inglaterra. O apresentador do programa foi suspenso, a imprensa fez escândalo, as famílias se

indignaram, mas o compacto de "Anarchy in the UK" vendeu e isso era o que interessava. Para outras informações sobre o episódio, veja O QUE É PUNK de Antônio Bivar (coleção "Primeiros passos" da Brasiliense). (NT)

"Sacaneado? Claro que me sinto sacaneado! É como se tudo voltasse ao

que era em 74 e 75. Mas eu tenho certeza que a coisa vai começar de novo, aqui no East End. O sentimento

tá voltando mais uma vez." (Micky Geggus, guitarrista dos Cockney

in the UK" nas paradas. Nada mau para uma banda formada por um empresariozinho de nome Malcolm McLaren a fim de agitar umas gigs de escolinha de arte e promover sua loja de roupas caras na King's Road, chamada Sex.

Não é nenhuma surpresa, portanto, que o punk tenha sido rapidamente absorvido pela ordem estabelecida que ele fingia desdenhar tão

radicalmente. Quando ele virou moda na High Street a preços da High

Street, tornou-se ao mesmo tempo um patrimônio dos que podiam comprar e não dos que poderiam viver sua realidade. Virar punk de butique

comprando na King's Road podia parecer algo "esperto" em certos

círculos, nem que você pagasse uma nota por um pano rasgado. Eu mesmo quase me tornei um punk, mas o símbolo da anarquia, que eu encomendei pelo correio pra pregar na roupa, nunca chegou.

Por volta de 1978 o recado estava grafitado nos muros. "Punk is dead" (O punk está morto), em letras garrafais. Mais um maldito ponto a favor da indústria musical, que reduziu a bandas cuspidoras aquilo que seria a rebeldia contra a sociedade. Na verdade, o movimento nem sequer continuou a ser chamado de punk. As palavras que rolavam nos buchichos eram "new wave" (nova onda). O fanzine punk mais inspirado & inspirador, SNIFFIN' GLUE (Cheirando cola), xerocava seu último número. The Roxy fechava as portas pela última vez. The Roundhouse celebrou um "love-in" (orgia de paz & amor) à moda hippy. E Johnny Rotten resumiu tudo quando, na gig de despedida dos Pistols em Winterland, San Francisco, perguntou ao público: "Vocês já tinham sentido a sensação que acabaram de ter?". Até mesmo bandas como os Stranglers, que nos deram um dos mais

"antenados" hinos do punk, a canção "No more heroes" (1977), dispensaram a intimidade dos pequenos clubes para tocar no Ally Pally e outros

templos do rock, onde poderiam concentrar 6 mil otários endinheirados. Tudo acabaria bem se aquela onda toda não houvesse deixado tantos garotos a ver navios. Um contracheque quinzenal nunca seria passaporte

para o sonho, mas isso não importava, desde que um punhado de bandas ainda tocasse punk rock do jeito que viviam. Nada de palavras-de-ordem sobre anarquia. E nada de ficar tocando no estúdio enquanto a

Grã-Bretanha pegava fogo e enquanto, no quarto de hotel, tudo estava pronto para um banho quente com TV a cores.

O punk autêntico, honesto e fiel, viria direto do coração de bandas de rua, como Sham 69, Cock Sparrer, Menace e Skrewdriver.

Cock Sparrer entrará para a história como a melhor banda de rua de todos os tempos. E pode-se dizer que é algo criminoso que eles nunca tenham alcançado o sucesso comercial que tanto mereciam. Qualquer um lendo isto que não tenha sido fisgado por clássicos como Argy Bargy, Working, England Belongs To Me, The Sun Says, Riot Squad e inúmeros Outros hinos da rua simplesmente não viveram.

Tais bandas eram boicotadas e chutadas pra escanteio, ficando sempre por último nas programações e na divulgação, mas isso não as impediria de romper o cerco e atingir-nos com a sutileza dum cassetete. No final de 77, Jimmy Pursey & Cia. chegavam à maioridade e enchiam clubes por sua própria conta, tocando o punk rock como ele devia ter sido tocado desde o primeiro dia. Música de rua pra moleques de rua. 9

O advento do punk rueiro foi a invocação que faltava para o retorno do skinhead. Mas o skin que voltava não seria um papel carbono do anterior, mero revival. O skin dos anos 70 pouco tinha a ver com o skin da classe de 69, a não ser o nome do movimento e algumas tinturas. Na verdade, a nova estirpe de skinheads surgiu pura e simplesmente como punks carecas, que levavam a quebra dos valores um passo além, a fim de se diferenciar da massificação em que tinha se transformado o punk de classe média.

Mas não bastava reviver o velho visual skin, com suas armas e bagagens. Muita água tinha passado por debaixo da ponte, e a nova estirpe refletia as mudanças da década em que vivia. Em vez de máquina três ou dois, a raspagem a zero e até a careca lisa viraram norma. Ainda se usavam botas como antes, mas agora totalmente expostas, com a perna da calça acima da beira do cano. Além disso, a moda passou a ser botas de 14 e até 22

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Dá pra notar que o autor é extremamente crítico quanto ao movimento punk, opinião com a qual concordo apenas em parte (quanto ao

oportunismo "político" [leia-se "comercial"] e à diluição como

modismo), mas da qual discordo sob o aspecto musical, pois considero o punk um dos dois únicos momentos da história do rock onde este respirou a vitalidade primitiva (leia-se guitarra mal-passada, sem molho e sem legumes). O outro momento foi sua própria origem no rockabilly dos anos 50. (NT)

ilhoses, em alguns casos chegando ao joelho. Até que você acabasse de amarrá-las, a moda já teria passado.

Em vez da tradicional tatuagem no braço, as tatuagens faciais começaram a fazer parte do movimento. Agora, a tatuagem passava a ser questão de escolha pessoal, mas o fato é que muitos garotos partiam pra coisas tipo frases na testa, algo como "Made in Britain" (fabricado na Grã-Bretanha). O pior é que, como os

tatuadores profissionais não trabalhavam na face, o que se via eram tatuagens improvisadas mal e porcamente por picaretas de fundo de quintal. A coisa só pioraria mais se você deixasse um amigo bêbado chegar pro "teu" lado com uma agulha e um vidro de tinta nanquim. Sai de baixo.

Com a tatuagem você não ia ter uma segunda chance caso errasse na ortografia ou na concordância das palavras, sem falar no desenho. Sua burrice ficaria imortalizada.

Andar com algo tipo "Brittisch" (como escrever "inglez") na testa

certamente não era uma boa para o movimento. Só servia para aumentar a aura de desconfiança que a imprensa marrom se encarregava de disseminar com suas histórias chocantes e escabrosas. Na verdade, alguns dos tipos que se diziam skinheads precisavam mais era tatuar seus próprios endereços no meio da cara, para o caso de esquecerem onde moravam. Chame-os como quiser: punks carecas, cabeças-duras, cabeçudos. O fato é que eles nada tinham a ver com o espírito de 69, que primava pelo rude rigor no vestir.

Os poucos skinheads legítimos que sobreviveram aos áridos anos de glam, disco e outras excrescências do rock não queriam nem saber de qualquer identificação com os mal-encarados punks carecas. O antigo movimento não desaparecera de todo, mas mesmo numa metrópole como Londres não era nada

fácil cruzar com um skin de verdade. Para bater papo com um deles em volta duma caneca de cerveja, você teria que freqüentar certos pontos, onde o punk careca (ou o skin punk) não teria vez. Se um skin fajuto desses fosse bisbilhotar num tradicional pub skinhead, seria posto porta afora no ato, a cabeça antes das pernas. Os skins originais eram muito orgulhosos do movimento e não admitiam ver um moleque metido a skin assustando velhinhas e batendo carteiras de transeuntes apavorados.

Jimmy Pursey, letrista e vocalista da Sham 69, disse uma vez que, se o som punk já existisse em 1969, os skinheads iriam se ligar nele e adorar, mas o mais provável é que ele fosse logo tachado de música para greaser ou para hippy. Se alguém usando jaqueta de couro e cabelo moicano pintasse no pedaço (a cidade balneária

de Margate, por exemplo)

durante um típico feriado bancário, na certa seria transformado em bola de futebol como parte do programa de divertimento dos skins.

Da mesma forma, nada causava mais nojo a um legítimo ted que um raio de punk sujo, vagabundando de casaco esfarrapado cheio de penduricalhos escrotos. No entanto, eram ambos, o punk e o teddy boy, fregueses de McLaren, já que este tratava de equipar sua butique com roupa para teds, desde o tempo em que a Sex se chamava Let It Rock e atendia aqueles primitivos adolescentes rebeldes da Inglaterra.

Durante o verão de 1977, quando as batalhas entre teds e punks pela King's Road já eram quase atração turística de todo fim-de-semana, os skinheads originais costumavam tomar partido dos teds, enquanto a nova geração de skins ficava do lado dos punks.

Era o confronto do orgulho e da tradição contra o desrespeito debochado por tudo e todos. A treta às vezes não passava dos xingamentos,

correrias e sopapos de praxe, mas os tablóides sensacionalistas e até mesmo a imprensa musical emprestavam ao fato proporções de Terceira

Guerra Mundial.

Uma das bandas que teriam preferido ficar em casa naquele verão foi um grupo punk de Blackpool chamado Skrewdriver. Era a primeira viagem que faziam à grande capital, e, no que eles saíam do The Roxy com seu

equipamento após uma gig, foram atacados por uma gangue de teds. O baterista Grinton foi quem levou a pior: perdeu uns dentes e precisou de 23 pontos por causa dum suporte de microfone que lhe entrou pela cara. No dia seguinte, o furgão da banda foi roubado com todo o

equipamento dentro, deixando o líder Ian Stuart e seus rapazes com uns trocados no bolso e sem condução para casa. Não é de se admirar que eles tenham dedicado seu segundo single, "Anti-social", aos queridos teds.

Com os meses transcorrendo e o punk caindo mais e mais na aceitação geral, a nova geração de skinheads começou a se afastar da imagem punk e tratou de procurar sua própria identidade. Foi aí que o velho estilo voltou à cena, e foram reaparecendo os "crombies", as Ben Shermans, as "sta-press". Os "brogues" já se misturavam livremente com as botas e os jeans desbotados. Era o visual de 69 com sotaque de 76. Os skinheads voltaram a se preocupar com a aparência, preferindo a estica ao

deliberado relaxamento dos punks. Até o reggae skin foi redescoberto e teve espaço entre os DJs e as bandas.

As bandas punks de rua viraram foco de atenção para a nova geração de skinheads. No começo de 1978, eles já recebiam apoio dos punks que tinham se desiludido e que partiam pro uso de cabelo raspado e botas como forma de repúdio ao punk de plástico e como sinal de adesão a bandas como a Sham. Mesmo assim, os skinheads constituíam minoria nas gigs, onde o público era formado principalmente por punks e herberts. Os herberts eram garotos de esquina que curtiam a música mas não se ajustavam nem no figurino punk nem no perfil skinhead. Apenas em Londres e tão somente em determinadas gigs é que os skinheads predominavam amplamente, mas isso porque era ali que o movimento mantinha o sopro de vida.

Nenhuma das principais bandas rueiras era propriamente skinhead. Aquela que é considerada precursora do punk de rua, a Cock Sparrer, costumava subir ao palco usando botas, colarinho abotoado nas pontas e calças "sta-press", mas faltava a cabeça raspada para acompanhar. Da mesma forma, Jimmy Pursey tinha sido skin antes de fundar a Sham 69, mas se a banda aparecesse de repente vestida como skin numa gig, a turma toda ia pensar que era pose.

Seja como for, a Sham nunca foi uma banda puramente skin. Eles estavam era a fim de conquistar a molecada em toda parte, fosse ou não de cabelo raspado. A única que, ainda na década de 70, deixou de lado a moda punk e adotou o vestuário skin, visando satisfazer as expectativas dessa faixa de público, foi a Skrewdriver.

Quer dizer, foram os skinheads que "adotaram" as bandas rueiras como "suas" bandas. Dessas, a predileta era a dos diletos filhos de Hersham, a Sham 69. Tentar restringir uma banda como a Sham às páginas dum livro seria o mesmo que mandar Jimmy Pursey calar a boca. Ambos são

desabridos & abrangentes demais, e não se limitam aos parâmetros do sucesso, são fenômenos sociais. As letras de canções como "Borstal breakout" e "If the kids are united" podem parecer simplistas e até simplórias no papel, mas acontece que elas não foram feitas para participar de nenhum concurso de poesia barroca. É só quando são tocadas ao vivo que se pode senti-las no seu "meio ambiente", onde parecem cortar como uma gilete nova.10

Estas obras-primas de três minutos eram cantadas com tamanho orgulho e paixão, e cada palavra ecoava com tal unanimidade no meio da turma, que não dá pra descrever. Ir a uma gig da Sham era tomar parte de algo

coletivo, participar da própria banda, provavelmente a melhor das

bandas enquanto som de rua. Se você não é capaz de sacar o orgulho dum moleque que usava as palavras "Sham Army" (Exército Sham) escritas nas costas da jaqueta, tá por fora e azar seu. É porque você não está no nível da rua.

Nada resumiu melhor a Sham 69 que o show de abertura do clube punk Vortex, na Hanway Street de Londres, em outubro de 77. Jimmy e os rapazes deram uma de Beatles, subiram ao telhado e detonaram canções

10

"If the kids are united" é a canção-símbolo da filosofia da Sham 69, o que se poderia chamar, numa linguagem empolada, de

"confraternizacionismo intertribal". A letra diz coisas ingenuamente

utópicas como "Olhe em volta, o que você vê? Moleques por todo lado, com sentimentos como eu ou você", "Eu não quero ser rejeitado", "Eu não tenho liberdade", "Se ficarmos juntos, será só o começo", "Se os moleques se unirem, nunca poderão ser divididos". (NT)

como "George Davis is innocent" (o oráculo da Sham julgando inocentes os moleques londrinos, os moleques de Glasgow, e absolvendo a si mesmos) e "What have we got?", para delírio de skins e punks no meio da rua e de empregados de escritório que se debruçavam nas janelas. Acontece que o

telhado que a banda resolveu ocupar não era do Vortex Club, e os legítimos proprietários, ajudados pelos simpáticos rapazes de farda, não estavam lá muito ligados na banda.

O pobre Jimmy acabou em cana por "comportamento ameaçador", e o pique da Sham para agitar gigs começou a ser patrulhado de perto. Mas isso não abalaria as rendas do single de estréia da banda, "I don't wanna", que tinha sido lançado pela Small Wonder no próprio dia da performance do Vortex.

A Sham começou carreira com os habituais ensaios, até que fez sua primeira gig em novembro de 1976 nas sessões matinais de sábado do Walton. Seguiu-se um ano de apresentações ao vivo, que lhe valeram a reputação de feras do palco, graças ao desempenho do líder Pursey. As coisas só vieram a acontecer pra valer em junho do ano seguinte, quando Jimmy expurgou da banda quem não compartilhava de sua fé no que faziam.

A nova formação passou a contar com Dave Parsons na guitarra, Mark Cain na bateria e, poucos meses depois, Dave Treganna no baixo,

substituindo Albie Slider, que se tornava empresário de estrada da banda. Jimmy fazia e desfazia simplesmente porque a banda era ele. Isso não desmerece os outros, mas eles próprios eram os primeiros a reconhecer que não estavam disputando nenhum prêmio de melhor músico do ano. A questão é que, sem aquele homenzinho de bocarra, eles nunca seriam a Sham 69.

A boca de Jimmy não era apenas seu maior trunfo, era também seu maior problema. Quando ele a abria, seu coração vomitava. O pior é que

geralmente suas declarações faziam tanto sentido quanto um discurso de bêbado. Não era culpa dele, contudo. Jimmy não tivera boa instrução, muito menos graduação em nenhuma porra de filosofia, e ainda por cima sua opinião era cobrada em questões que políticos escolados se esquivam de responder.

Claro que Jimmy nunca foi de deixar nada sem resposta, mas quando se encaixava na pergunta era por puro acaso. Era engraçado e chegava a ser divertido. Alguém lhe perguntava uma coisa e ficava tentando catar no ar cada uma de suas palavras, enquanto ele despejava as maiores abobrinhas durante cinco minutos. Uma ou outra pausa para meditação, que, em vez de ajudar, só aumentava a expectativa de mais merda no ventilador.

Mas quando ele estava no palco a coisa mudava totalmente de figura. O cara era um fenômeno elétrico espontâneo, um fliperama humano totalmente aceso e faiscando, inesgotável e imprevisível.

Uma canção atrás da outra, falando da vida no lado mais fraco da corda e na base da pirâmide, e todas com aquele refrão no melhor estilo da arquibancada, que o "exército" entoava uníssono, fazendo como que um coro de torcida acompanhando os versos de Jimmy. "Tell us the truth", "Hurry up Harry", "I don't wanna", "The cockney kids are innocent". Cada uma delas era um sucesso, e isso era só a ponta do iceberg da Sham. Quando ele gritava "Que é que a gente ganhou?", os anjinhos de cara suja de Jimmy não titubeavam. "Porra nenhuma!" era a resposta automática.

Além do mais, parece não haver dúvida de que o cara era gente fina e sincero em seus sentimentos. Ninguém poderia acusá-lo nesse

departamento, a não ser que depositasse nele mais expectativas do que estava a seu alcance. Alguns seguidores skins embarcaram nessa e acharam que a Sham 69 podia "mudar" alguma coisa. Se não o mundo, ao menos a cabeça dos que apoiavam a banda. Jimmy também pensava assim, e,

mesmo que custasse uma hora ou metade do concerto da Sham, martelava na tecla do "mundo sem futuro" a cada semana.

Tampouco havia nada daquilo que os astros do rock tanto cultivam: a tietagem e a idolatria intangível. As gigs eram tratadas como um

churrasco entre colegas ou piquenique em família. Todo mundo cantava junto, e geralmente o grosso do público acabava em cima do palco, misturado à banda. Até o vestiário ou camarim adotava a política da porta aberta o tempo todo, e toda a comida e a cerveja trazidas para a

banda evaporavam instantaneamente numa boquinha livre. Às vezes Jimmy se deixava ficar ali, horas sentado depois duma gig, jogando conversa fora

e atendendo os fãs.

Nunca houve outra banda assim, que tivesse ao mesmo tempo a

popularidade e a simplicidade da Sham. Um concerto dela equivalia a uma viagem de ônibus lotado, onde cada brecada ia jogando alguém pra frente

No documento Espírito de 69- A Bíblia do Skinhead.pdf (páginas 71-91)