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Antagonismo e/ou complementaridade entre os gêneros?

1.2 SITUANDO O TEMA PESQUISADO

2.1.1 Antagonismo e/ou complementaridade entre os gêneros?

60 A sociedade Bororo já foi associada às sociedades do complexo cultural Jê devido à disposição espacial de suas aldeias circulares que, assim como nas aldeias Jê setentrionais e centrais, é bem delimitada a disposição espacial em uma marcada divisão entre centro e periferia. Atualmente, os Bororo são classificados como pertencentes ao tronco linguísico Macro-Jê. Não é verificada entre os Jê meridionais (Kaingang e Xokleng) a disposição circular de suas aldeias, mas a estrutura dualista opera na organização social, nas práticas e nas

disso, a associação das mulheres com a natureza, tantas vezes reiterada, não faz sentido para muitas das sociedades às quais foi atribuída (Lea, 1999:191).

Como consequência desse movimento teórico, o mundo feminino nas sociedades Jê foi considerado como “fracamente social”, apolítico e as mulheres vistas como vítimas passivas do domínio masculino. Discordando desta ideia de uma subordinação cega feminina, mas também sem querer pensar numa igualdade de gênero (que também seria uma projeção de classificações ocidentais às sociedades ameríndias) na sociedade Kaingang, buscarei uma compreensão do viés feminino partindo de pressupostos teóricos como os elucidados por Lea (1994, 1999) entre outras perspectivas feministas para o estudo das relações de gênero entre os ameríndios.

Não pretendo ressuscitar o fantasma do matriarcado, nem inverter a velha gangorra da dominação, mas, sim, desnaturalizar o universo feminino, mostrando a construção eminentemente social de gênero entre os Me bengôkre (Lea, 1999:192).

Para tanto, Lea utiliza-se do conceito de englobamento de Dumont, que refinou o conceito de hierarquia ao pensar numa lógica alternada entre esferas englobantes e englobadas. Isto nos permite pensar as mulheres não como vítimas permanentes da dominação masculina, mas como agentes que ora são englobadas e ora são englobantes nas relações sociais. A noção de agência, ou agency, desenvolvidas por Bourdieu e Giddens, também são incorporadas ao texto de Lea para se pensar os sujeitos sociais como agentes que possuem uma certa liberdade de escolha para definirem suas estratégias de ação entre as opções disponíveis, e não como autômatos que seguem as regras de forma mecânica e absoluta.

Lea não nega a existência de uma assimetria entre os gêneros, já que muitas atribuições masculinas (como a caça) são mais prestigiadas que as femininas. Contudo, esta assimetria não implica num antagonismo radical entre os sexos, como se existisse uma “gangorra de dominação” masculina e subordinação feminina. A marcada divisão entre os papéis de gênero nas sociedades Jê não implica em uma autonomia entre os mesmos, mas em uma complementaridade, que é compatível com as relações de englobamento existentes.

As mulheres carregam pesos enormes na cabeça mas não sofrem de angústias existenciais. Durante muito tempo, me incomodava não

conseguir avaliar a posição da mulher Mebengokre, mas agora enxergo melhor a complexidade do problema. A velha noção hierárquica estática, do tipo gangorra (dominação/subordinação), obscurece mais do que ilumina. O conceito de englobamento permite uma visão mais nuançada; ora a mulher engloba, por exemplo, quando seu choro é ouvido pela aldeia inteira; ora é englobada, por exemplo, quando os homens tomam decisões relativas ao mundo dos brancos. Em termos de agency, espero ter mostrado que a mulher Mebengokre é muito mais do que aquele rosto tímido e submisso que contempla o forasteiro inicialmente (Lea, 1994:29).

Se não existe igualdade em questões de gênero entre os Kaingang, pois os homens têm status e alguns direitos superiores ao das mulheres62; isto não significa que as mulheres aceitam a todas as decisões masculinas passivamente. Os homens e as lideranças são muito preocupados sobre a aceitação feminina de suas decisões e estas decisões públicas são fortemente influenciadas pelas mulheres na esfera privada. Ao contrário dos homens, às mulheres é mais aceito as blasfêmias e fofocas públicas63 contestando as decisões das lideranças. Nestes casos podemos vê-las como as porta vozes de seu grupo doméstico que reivindicam por uma via marginal, a qual ao homem é censurada. Outra via de acesso feminino às reivindicações públicas se dá através da esposa do cacique conforme demonstrou Ramos (2008:166).

A despeito de uma desigualdade nas relações de gênero aos olhos da sociedade ocidental moderna, isto não se configura como uma injustiça ou problema às mulheres de Mococa.

(...) Especialmente as mais velhas e que sempre viveram nas aldeias, não apresentam quaisquer questionamentos acerca dessa realidade e, mesmo quando instigadas, não defendem nenhum tipo de igualitarismo. Afirmam, ao contrário, que isso e ke ha han ke, ou seja, que as coisas devem ser assim, com cada um cumprindo as suas obrigações, próprias do seu gênero (Ramos, 2008:165).

Em Woman in the Forest, o casal de antropólogos Murphy (1974) chegou a conclusões interessantes sobre as relações de gênero entre os Munduruku, etnia com uma estrutura semelhante aos Kaingang, pois possuem a regra de descendência patrilinear e a regra de residência matrilocal. Segundo

62 Como os direitos decorrentes da patrilinearidade, em que a família do pai da criança tem o direito sobre os filhos do casal em caso de separação (Ramos, 2008).

63 Segundo Lea, no contexto Mebengokre, “as fofocas constituem um fenômeno de micro-política, para arejar assuntos que podem ser resolvidos neste nível informal; um determinado assunto pode tornar-se de conhecimento público, sendo então discutido na casa dos homens, de onde pode ser levado à coletividade” (Lea, 1994:26).

os Murphy, existe de fato um antagonismo entre os sexos, porém, esta não é uma simples relação de dominação masculina e submissão feminina, mas uma dissonância ideológica e uma oposição real (1974:113) Este antagonismo sexual refere-se mais aos homens e mulheres enquanto grupos do que enquanto indivíduos (1974:135) e o controle dos homens sobre as mulheres é muito mais ideológico do que real (1974:128).

Entre os Munduruku os homens dominam a esfera pública, sagrada, ritual, pois detém a posse de instrumentos musicais sagrados e de segredos que envolvem estas flautas, dos quais dependem a sua superioridade e controle sobre as mulheres. Contudo, segundo os mitos Munduruku, isto nem sempre foi assim, pois antigamente eram as mulheres que dominavam estes mesmos instrumentos mágicos e a situação era reversa da ordem atual. A dominação masculina deu-se através de uma revolução dos homens que roubaram as flautas sagradas das mulheres, pois estas eram inferiores, não por serem mais fracas, mas porque não caçavam, ou seja “a posição do homem não é dada pela natureza, mas pela cultura” (MURPHY et al, 1974:121).

Mitos que falam de uma dominação feminina anterior à da masculina são comuns entre vários povos indígenas da América do Sul, e como relembram os Murphy, entre os ocidentais eles também existem, como por exemplo a ideia de um matriarcado primitivo conforme defendiam teorias antropológicas evolucionistas. Hoje, entretanto, é consenso entre os estudiosos que o matriarcado nunca existiu e segundo os Murphy, esta teoria tem a mesma validade do mito munduruku das flautas sagradas e provavelmente derivam da mesma intranquilidade masculina (MURPHY et al, 1974:232), isto é, os homens têm a necessidade de se afirmarem como superiores mesmo que na prática, às vezes, isso não aconteça de fato.

Com relação à ideia de superioridade universal masculina, o casal de antropólogos propõe um instigante questionamento aos antropólogos que atribuem uma superioridade ao gênero masculino sobre o feminino devido ao fato de que enquanto este fica em casa e cuida das crianças, aquele caça e viaja: porque viajar e caçar têm mais valor que cuidar da casa e das crianças?

Como atribuir uma superioridade cultural universal aos membros do gênero masculino sem um modelo do que constitui superioridade?

Voltando aos Kaingang de Mococa então, porque pensar os homens como superiores ou dominantes por estarem associados à esfera pública e as mulheres, ao mundo doméstico? Em interessante artigo sobre gênero e sobre a oposição entre a socialidade kaingang nas casas e nos rituais, Fernandes, Sacchi e Almeida (1999) concluem a preponderância das mulheres nas casas, inversamente ao que acontece no ritual do Kikikoy: “No contexto da Casa, as mulheres desempenham papel estruturante e os homens um papel funcional.”

(Fernandes et al, 1999). E mais, sendo as casas vistas como unidades sociais estruturantes64 (Turner, 1979 apud Fernandes et al, 1999) e dada a influência da mulher no mundo doméstico e sua participação nos contextos políticos65, os autores propõem a equação: “Mulher:Casa::Casa:Comunidade”. Mesmo como as mulheres Munduruku, não tendo um instrumento de ritualização de seus poderes, as mulheres Kaingang atuam politicamente na prática, principalmente a partir de sua influência nas casas - onde somam forças com suas consangüíneas - e das casas para a comunidade.