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O desenvolvimento de uma pesquisa, mesmo quando minimamente planejada, não se dá de forma linear nem suprindo todas as expectativas. Mas isso não significa que os caminhos foram trilhados, apenas que foram se constituindo ao longo da experiência.

Comecei esta pesquisa com a preocupação de tentar entender como se dá a efetivação de um currículo integrado e foi nesse ponto que vivenciei a primeira mudança em minha rota de pesquisa, exatamente porque ela não se desenvolvia a contento. Nesse sentido, paralelamente às discussões teóricas, optei por mergulhar no campo.

Ficou definido que eu acompanharia uma turma CIEJA. Primeiramente a turma deveria estar vinculada aos novos projetos dos cursos que haviam sido reformulados sob a perspectiva de um currículo integrado, visto que nossa preocupação se focava nele. Na discussão do Projeto Pedagógico – PP, o grupo que mais se destacou, seja por seu envolvimento nas discussões seja pelo nível de mudança proposto, foi o de professores de Edificações. Havia então, em 2011, duas turmas: uma de primeiro e outra de segundo ano. Optei por focar na turma de alunos recém-chegados ao Ifes, Turma 2011, se os professores e alunos permitissem a minha entrada na sala.

2.1.1 Análise detalhada do terreno: a Turma 2011

O processo seletivo dos alunos que ingressaram nos CIEJAs em 2011 foi baseado em três critérios:

1. Idade: com pontuações variando de 5 pontos, para quem tinha entre 18 e 25 anos, a 20 pontos, para quem tinha mais de 55 anos;

2. Tempo de conclusão do Ensino Fundamental: variando de 10 pontos, para quem havia concluído o Ensino Fundamental em até 5 anos, a 30 pontos, para quem havia concluído o Ensino Fundamental há mais de 20 anos;

3. Origem escolar: variando de 5 pontos, para quem estudou em escola particular, a 35 pontos, para quem estudou todo o Ensino Fundamental em escola pública.

(IFES, 2010)

Não houve, como em anos anteriores, uma prova envolvendo conhecimentos escolares de Matemática, Língua Portuguesa, Física/Química/Biologia e História/Geografia (IFES, 2009a). Portanto, o fator idade foi preponderante na caracterização da turma: mais da metade dos

alunos estava há mais de 10 anos fora da escola e apresentava algumas questões com as quais os professores não estavam acostumados a lidar.

Não obstante, a turma do primeiro ano de Edificações, denominada Turma 2011, era composta por 52 alunos jovens e adultos, com idades variando entre 18 a 47 anos, sendo que as mulheres compunham quase metade da sala. Aproximadamente dois terços dos alunos tinham renda familiar inferior a dois salários mínimos. Do total de alunos, 20% estavam empregados na construção civil, ramo de atuação do curso, e outros 20% estavam desempregados. A maioria havia buscado o curso em busca de uma melhor inserção no mercado de trabalho. Todos esses fatores influenciaram, de alguma forma, a grande evasão ou, pelo menos, a ausência dos alunos.

Já conhecia o professor de Matemática que atuaria na turma e já tinha sua autorização para entrar em suas aulas. No dia 28 de março de 201122, tive a primeira conversa com os alunos, apresentando algumas ideias sobre a pesquisa, entreguei o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido23 e iniciei a observação, abrindo a primeira página do meu Diário de Pesquisa.

O professor de Matemática, Roberto24, é experiente. além de dar aulas em turmas dos CIEJAs, tem desenvolvido pesquisas, especialmente sobre a produção de materiais para essa modalidade. Durante o período inicial de observação, o que mais incomodava o professor Roberto era o excesso de alunos na turma: 51 em uma única sala. Entre tantas outras questões, a quantidade de alunos em sala dificultava o atendimento individualizado e os trabalhos em grupo. Após diálogos entre a coordenação do curso, a coordenação da Matemática e o professor Roberto definiu-se pela divisão da turma em dois grupos.

No dia 01 de julho de 2011, o professor Roberto apresentou a professora Paula para a turma. Logo após, explicou que os alunos seriam divididos em dois grupos. Cada professor seria responsável por um desses grupos. Mas, antes disso, a professora iria ficar, por um período, na mesma sala com ele. Logo no primeiro dia, a professora Paula teceu um comentário sobre uma questão que estava sendo discutida com a turma pelo professor Roberto. Naquela ocasião, registrei no Diário de Pesquisa: Logo na primeira questão a professora Paula teceu alguns comentários. A sensação era de que o trabalho em dupla iria render bons frutos (Diário de Pesquisa, aula de Matemática do dia 01/07/2011). Essa aula foi a última do primeiro

22 Apesar de ter autorização informal do professor para conversar com os alunos, aguardei a resposta do Comitê

de Ética em Pesquisa – CEP-Ifes, aprovando o desenvolvimento da pesquisa.

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Documento exigido pelo CEP-Ifes que deve ser lido e assinado pelos participantes, consentindo a realização da pesquisa.

semestre de 2011. Nesse momento cerca de 30 alunos estavam frequentando as aulas de Matemática.

As atividades do segundo semestre foram retomadas no dia 01 de agosto de 2011, no mesmo dia da Assembleia do Sindicato que aprovou a greve dos servidores do Ifes a partir do dia 05 de agosto de 2011. Ao longo das semanas, em greve, os professores aproveitaram os momentos com os alunos para discutirem as questões que estavam sendo levantadas pelo sindicato.

2.1.2 O mal tempo: o retorno após a greve e as aulas das outras disciplinas

No dia 03 de novembro de 2011, a Assembleia do Sindicado deliberou pelo retorno às atividades a partir do dia 07 de novembro de 2011, depois de 91 dias de paralisação. Na primeira aula de Matemática, no dia 07 de novembro de 2011, estavam presentes apenas 13 alunos, mas uma média de 25 alunos estava frequentando as aulas.

Com a baixa frequência e com certo desapontamento em relação aos acontecimentos, optei por acompanhar também as aulas de outras disciplinas: Física, Português, História, Desenho Técnico I, Construção Civil I e Projeto Integrador.

Passados pouco mais de um mês e meio após o retorno das aulas, no dia 30 de dezembro as atividades foram novamente interrompidas para o recesso de final de ano e retomadas somente no dia 23 de janeiro de 2012. Essas idas e vindas e um longo período sem aulas, tanto na greve quanto no recesso de final, iam deixando os alunos mais desanimados. A turma contava, em média, com 20 alunos dos 52 que entraram havia quase um ano antes.

Com essa quantidade de alunos não fazia mais sentido manter a ideia de separar a turma em dois grupos - um sob a responsabilidade do professor Roberto, e outro da professora Paula. Também não fazia sentido dois professores acompanhando a mesma turma. Decidiram que a professora Paula continuaria com a turma. Importa dizer que, dois meses depois do retorno, após o recesso de final de ano, no dia 26 de março de 2012, o ano letivo de 2011 foi encerrado.

Ao longo desse tempo tive duas conversas com o professor Sílvio, da disciplina de Projeto Integrador. Essas conversas, cujo foco foi o currículo integrado e as possibilidades de integração que poderiam surgir nas aulas da Turma 2011, foram gravadas.

2.1.3 Refazendo o ante-projeto

Frente a tantas questões (o novo perfil de alunos, o alto índice de evasão, um longo período sem aulas, tanto na greve quanto no recesso de final de ano), aliadas ainda a um tempo em sala de aula, fomos compelidos a refletir acerca da integração e de um currículo integrado. Acabamos chegando à conclusão de que a integração se fazia presente somente no currículo prescrito, mais, especificamente, nos documentos oficiais editados pelo Governo Federal (BRASIL, 2005, 2006, 2007b) ou pelo próprio Ifes, como é o caso do Projeto de Curso Técnico Integrado com Ensino Médio – Proeja (IFES, 2009b).

Então, era necessária uma mudança na direção da pesquisa que pudesse apontá-la para horizontes que a tornariam mais próxima da própria realidade em que estava inserida. Concomitantemente a essas questões, tivemos contato com a professora Márcia Fusaro Pinto (durante uma palestra no Ifes) e com a pesquisa de Valéria Guimarães Moreira (Moreira, 2004 e Moreira & Pinto, 2004), como também com pesquisas de Cristina Frade (FRADE, 2003; TATSIS; FRADE, 2007 e FRADE et al., 2009).

A partir desse trabalho caminhei para um novo contexto teórico - as comunidades de prática - que pudesse me ajudar a entender um currículo efetivamente integrado, bem como que pudesse contribuir para a sua construção. Com a perspectiva de entender como uma comunidade de prática matemática pode contribuir para a efetivação de um currículo integrado, era necessário, portanto, repensar as ações de produção dos dados da pesquisa.