• Nenhum resultado encontrado

3.2 O Brasil e as transformações do capitalismo contemporâneo

3.2.1 Antecedentes da crise da década de 1980 no Brasil

A crise da década de 1980 no Brasil está estreitamente relacionada com a crise orgânica do Estado desenvolvimentista e a reestruturação do capitalismo a nível mundial, de forma que esses dois movimentos aproximaram, cada vez mais, o Brasil a um modelo de desenvolvimento econômico baseado nos pressupostos da ortodoxia liberal. Trata-se aqui de compreender a relação hegemônica constituída historicamente da estrutura econômica do capitalismo mundial sobre as economias em desenvolvimento, tendo em vista que a cada período de reestruturação do capital impõem-se novas regras e condições para que a dinâmica desigual entre as nações continue a favorecer as superpotências econômicas.

Para Fernandes (1973), a hegemonia externa ganhou especificidades próprias na fase denominada por ele de imperialismo total18 que corresponde à etapa desenvolvimentista brasileira, em que a dominação externa foi organizada de dentro para fora e com uma amplitude muito maior. Além da intensidade, a dominação externa alcançou uma maior diversidade de componentes da estrutura social como nunca havia alcançado nas etapas anteriores. Não houve no Brasil uma burguesia capaz de promover mudanças substantivas no terreno econômico, político e social tal qual aconteceu nas economias centrais. O crescimento econômico no Brasil, a partir da orientação desenvolvimentista, não foi organizado sobre bases autônomas e nem de forma sustentável. O capital externo foi transplantado e integrado pelas elites, transformando-se em autor e dinamizador do crescimento econômico o que para o autor constitui-se como uma característica intrínseca das nações em desenvolvimento.

A burguesia local e o Estado desenvolvimentista não conseguiram congregar um projeto nacional de desenvolvimento mesmo em que pese a tentativa frustrada do próprio pacto desenvolvimentista. Embora esse Estado tenha sido autoritário, ele não conseguiu agrupar em torno de seu projeto a heterogeneidade de forças e de interesses no país. O pacto feito entre o Estado e as elites foi sustentado pela

proteção estatal ao capital nacional e o capital agromercantil e a manutenção das regras de repressão da força de trabalho via pagamento de baixos salários e a cooptação dos sindicatos pelo Estado19 (FIORI, 1994).

Além disso, a sustentação financeira do projeto desenvolvimentista foi garantida pelo endividamento interno e externo, ou seja, sofreu as consequências da incompleta capacidade do Estado de desbancar os interesses das elites e realizar as reformas econômicas necessárias para a estabilização da economia. Embora as elites não aceitassem a intervenção do Estado na economia, ela foi aceita porque seus interesses foram preservados, enquanto que as demandas da grande maioria da população não se constituíam como matéria importante para o Estado, aprofundando a pobreza e as desigualdades sociais (FIORI, 1994).

Fiori (1993, 1994) complementa que o desenvolvimento associado ao capital externo não alterou as relações de poder na sociedade. Tornamo-nos capitalistas de fato, nos modernizamos sem alterar as bases arcaicas de poder construídas anteriormente. Essa dinâmica, além de corroborar as relações de exploração entre capital e trabalho na sociedade, conduziu-a através das especificidades próprias da forma de inserção do Brasil no mercado mundial. Ou seja, já condicionada a atender o centro dinâmico do capitalismo mundial determinada pelo seu lugar e sua função na divisão internacional do trabalho.

Nesse sentido, a dinâmica da acumulação capitalista na América Latina foi desenvolvida sobre as bases da superexploração da força de trabalho. Tal dinâmica aconteceu como uma forma de assegurar para as classes capitalistas uma apropriação maior de valor, procurando compensar a menor produtividade em relação aos países centrais. As consequências foram sentidas com a total ausência de condições que promovessem a sobrevivência do trabalhador, e aqui na América Latina em especial, as políticas do Welfare State não foram necessárias no sentido de assegurar consumo e nem na diminuição do custo de reprodução da força de trabalho, sem contar com a facilidade de sua substituição, devido à imensa quantidade de trabalhadores desempregados (MARINI, 2000).

19 Para Fiori (1993, p. 12), esta estratégia de industrialização, estimulando a heterogeneidade, permitiu a convivência, também no mercado de trabalho, de setores mais modernos e com condições de remuneração e de trabalho próximas do modelo fordista com setores mais atrasados onde usou, extensivamente, mão de obra rotativa, com baixa qualificação e baixos salários.

Desse modo, conforme Fiori (1994, p. 131), “[...] Optou-se por uma industrialização com baixos salários com utilização extensiva e rotativa de uma mão de obra cuja qualificação nunca foi assumida como peça importante no desenvolvimento da competitividade microeconômica”. Tais características conformaram também a relação do Estado com as políticas sociais de tal forma que sua extensão para a população rural e aos segmentos informais não foi considerada prioridade do governo.20 As demandas foram atendidas na medida em que as lutas sociais representavam uma ameaça ao pacto desenvolvimentista, e principalmente para os segmentos da população mais importantes para a industrialização do país.

As bases constitutivas do Estado desenvolvimentista brasileiro contribuíram para que as relações de exploração e as desigualdades sociais permanecessem. Nesse sentido, conforme relata Fiori (1994) “Os Estados desenvolvimentistas prevaleceram sobre o Estado social [...]” de forma que as demandas do capital interno e externo predominaram frente às necessidades da grande maioria da população. Além disso, para Valle (2012) o Estado incorporou o econômico e tornou-se o lócus onde as frações de poder se condensavam de forma que se excluíam a participação da classe trabalhadora desse processo e delegavam para o governo, os sindicatos e os empresários a seleção das demandas que deveriam ser incorporadas no país.

Dessa forma, foram constituídas as relações entre Estado, mercado e a classe trabalhadora na fase desenvolvimentista que, por sua vez, ampliaram e aprofundaram a dependência ao capital externo pela estratégia de “fuga pra frente” e refletiram também na forma com que os direitos sociais consolidaram-se no país. No entanto, houve um momento em que não havia mais a possibilidade de empurrar pra frente os problemas financeiros do país, de forma que se instaurou uma forte crise, na década de 1980, que colocou em xeque a sustentação econômica e política desse pacto. Além disso, no enfrentamento de tal crise o Brasil efetuou novos empréstimos com o FMI e o Banco Mundial os quais fragilizaram, ainda mais, a economia do país devido às duras condições impostas por essas agências para a efetivação de novos contratos.

20 Segundo Faleiros (2006), a inclusão dos trabalhadores do campo aconteceu na década de 1970, através do FUNRURAL. No entanto, foi somente através da Constituição Federal de 1988 que esses trabalhadores tiveram pleno acesso aos direitos sociais.

Assim, nos anos 1980, através de tais contratos, o Banco Mundial conseguiu aproximar-se, cada vez mais, de importantes áreas da economia do país o que facilitou a criação de um consenso em prol das medidas de ajustamento e mais à frente, na década de 1990, a adesão a um novo modelo de desenvolvimento em bases neoliberais.