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CAPÍTULO 1 Condicionantes e características da política de software e serviços de TI no Brasil

1.1 Antecedentes da política de software e serviços de TI no Brasil

Com o fim da hegemonia agroexportadora e o enfraquecimento das oligarquias, o país passou por mudanças sociais, políticas e econômicas. A década de 1930 foi marcada por surto industrial, que evidenciou a necessidade de recursos humanos qualificados para funções na indústria, ampliação do ensino superior e formação de pesquisadores. Além disso, as demandas de conhecimento em C&T advindas da expansão da substituição de importações e do planejamento de grandes projetos de infraestrutura do governo Vargas mostraram-se difíceis de serem supridas sem o fortalecimento de um desenvolvimento científico-tecnológico nacional.

Neste contexto, a comunidade de pesquisa brasileira, influenciada pela racionalidade da comunidade de pesquisa norte-americana8, passou a exercer pressão junto ao Estado em prol de seus interesses e a mobilizar forças para o atendimento de suas reivindicações em relação ao apoio para pesquisa, formação e criação de infraestrutura (MOREL, 1979). Dias (2009) aponta que, no período da institucionalização da política de C&T, as diversas instituições criadas para apoiar seu desenvolvimento ou defender sua importância e a necessidade de incentivo por parte do Estado foram, em grande parte, resultado do poder de mobilização da comunidade de pesquisa9.

Nos anos 1930 e 1940, em decorrência, foram criadas diversas instituições de pesquisa e universidades importantes para a estrutura das políticas industrial e de C&T e vistas como necessárias para atender às novas demandas da República e da industrialização10.

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A origem dessa racionalidade foi o relatório “Science: the Endless Frontier”, escrito por Vannevar Bush em 1945, que exemplifica o movimento da academia norte-americana. O relatório, elaborado a pedido do Presidente Roosevelt, apresentou a importância da continuidade da pesquisa científica fora do esforço de g uerra e levou governos dos diversos países a direcionar atenção sistemática às atividades científicas e tecnológicas. De acordo com o relatório, a ciência era pré-condição fundamental ao desenvolvimento. Dessa forma, o investimento em qualificação de pesquisadores, construção de laboratórios bem equipados e fortalecimento de instituições de C&T permitiriam a realização de pesquisas cujo resultado científico levaria a aplicações e ao desenvolvimento tecnológico. A racionalidade contida neste relatório influe nciou significativamente a comunidade de pesquisa brasileira, como apontado.

9 Rio Grande do Sul, Pernambuco e Minas Gerais viram suas comunidades de pesquisa se fortalecer nos anos 1930. O destaque, porém, é São Paulo, cuja elite esforçou -se para implementar política de desenvolvimento com base na formação de recursos humanos em ciência e tecnologia, que se consolidou na criação da FFCL (MOTOYAMA, 2004).

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Dentre as instituições criadas nas décadas de 1930 e 1940, exemplos importantes são: a Universidade de São Paulo (USP) em 1934, cuja Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras (FFCL) se tornou um centro de pesquisas avançadas e influenciou atividades e a criação de outras instituições, e a Universidade do Distrito Federal, fundada em 1935 (MOREL, 1979). Outro importante exemplo, que Motoyama (2004) considera como um primeiro passo em resposta

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Dentre as iniciativas de organização da comunidade de pesquisa, uma das mais relevantes foi a Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência (SBPC), criada em 1948, com base nos modelos de associações de pesquisadores ingleses, norte-americanos, franceses e italianos. Seus objetivos eram justificar a ciência e tornar o processo de sua criação e seus resultados públicos, buscando criar entendimento a respeito dessa atividade, fortalecer a organização científica nacional e lutar pela liberdade de trabalho e por um ambiente favorável à pesquisa desinteressada. Mesmo recém-criada, a SBPC logo se tornou a representante da comunidade de pesquisa e de seus interesses frente às autoridades governamentais (MOREL, 1979).

Morel (1979) aponta que a política de formação de recursos humanos para a C&T sob a ótica desenvolvimentista tomou a forma de orientação de recursos para setores com falta de profissionais qualificados para pesquisa, o que era considerado um gargalo para o crescimento econômico.

Nesse contexto, aconteceu a institucionalização da política de C&T do Brasil nos anos 1950, marcada pela criação de importantes instituições de coordenação e apoio à pesquisa e ao ensino superior (MOREL, 1979). Dentre elas, destaca-se o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), criado em 1951 vinculado à Presidência da República, que se tornou a instituição responsável pela elaboração da política de C&T e pela construção da estrutura de C&T brasileira, além de conceder bolsas e auxílios para a realização de pesquisa aos pesquisadores e estudantes, como estímulo à iniciação na pesquisa e para aperfeiçoamento em universidades e instituições dos países desenvolvidos (VELHO, VELHO & SAENZ, 2004)11. Atualmente, o CNPq (agora, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e vinculado desde os anos 1980 ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação - MCTI), ainda é bastante ativo no às demandas da indústria de profissionais qualificados, foi a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários (SENAI, depois Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) em 1942.

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Outras importantes instituições são a Comissão de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES), criada em 1951 com o objetivo melhorar e expandir o ensino superior brasileiro, assegurar a oferta de corpo técnico e pesquisadores para atendimento das necessidades dos empreendimentos voltados para o desenvolvimento nacional e consolidar a pós -graduação strictu sensu no país. De acordo com Morel (1979), a instituição propôs promover o aumento do nível do ensino superior no Brasil visando suprir a incapacidade das escolas e universidades de prover o quadro técnico demandado pelas transformações do sistema produtivo . Já a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) foi criada a exemplo de mecanismos de países como os EUA, a União Soviética, a Inglaterra e a França, garantindo financiamento constante à pesquisa previsto na Constituição do Estado de São Paulo. A criação da instituição foi incluída no artigo 123 da Constituição do Estado de São Paulo que o apoio à pesquisa científica seria de responsabilidade do Estado, que deveria vincular parte da receita para as atividades de C&T e atuaria por meio de uma fundação de administração privada. A lei de criação da Fundação, porém, foi promulgada apenas em 1962.

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fomento à pesquisa e à formação de pesquisadores e na implementação e difusão da política de C&T.

A década de 1950 também marcou a consolidação do capitalismo industrial no Brasil (MOREL, 1979). Nesse momento, o Estado passou por transformações e aprofundou sua atuação em questões econômicas tanto como empresário quanto investidor em áreas consideradas estratégicas (segurança nacional e indústrias de base e nascentes). Outro agente fortalecido no período foi o capital estrangeiro, que passou a ser alocado em indústrias mais dinâmicas - como bens de consumo duráveis, bem de capital e na indústria automobilística - e a fornecer a base tecnológica para as indústrias12.

Um dos marcos da mudança da atuação governamental no período foi a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, depois Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES) pela Lei nº1.628 de 1952, com o objetivo de suprir as necessidades do desenvolvimento industrial de uma instituição de financiamento para mobilizar recursos voltados ao investimento e transformação econômica e para articular a formulação e execução da política nacional de desenvolvimento econômico13. Num primeiro momento, os investimentos do BNDE se concentraram principalmente em infraestrutura, mas, aos poucos, com a criação de empresas estatais, a instituição passou criar iniciativas para financiamento e investimento em empresas privadas e indústria14 (MOTOYAMA, 2004).

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Motoyama (2004) aponta que no período, principalmente sob o Plano de Metas (1955-1960), há mudança na estrutura produtiva brasileira: os investimentos industriais passam a se caracterizar pelo grande porte e pela maior complexidade em termos de organização e tecnologia, o que restringia a modernização industrial apenas para grandes empresas estrangeiras ou estatais. Segundo o autor, a produção de bens de consumo não duráveis perde espaço para a produção de bens de consumo duráveis e bens de capital.

13O pensamento de criar um banco de desenvolvimento como o BNDE surgiu em 1951, no contexto do retorno de Vargas à presidência da república e no âmbito da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (CMBTEU). Portanto, nesse momento, convergiram o objetivo de acelerar a in dustrialização brasileira e uma reorientação da política norte- americana para os países latino-americanos, de forma que o governo dos EUA mostrou -se disposto em financiar um programa de desenvolvimento no Brasil em áreas prioritárias como infraestrutura (ARAUJO, 2007).

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Em 1971, o BNDE é transformado em empresa pública. O BNDE foi elemento importante da política de substituição de importações na atividade de financiamento aos setores de bens de capital e insumos básicos. Além disso, o BNDE acompanhou o setor de informática nacional desde o início, participando de grupos de trabalho, apoiando a formação da Capre e como acionista da empresa Cobra (TAPIA, 1995), como será apresentado neste capítulo.

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Nesse período, o modelo de desenvolvimento adotado foi de industrialização por substituição de importações15. De acordo com Viotti (2008),

“A política era composta por dois elementos constitutivos. O primeiro elemento, entendido como motor do processo de desenvolvimento tecnológico, é a promoção – via industrialização extensiva – da progressiva absorção das capacidades de produção de bens manufaturados. O segundo elemento [...] é baseado na expectativa de que a industrialização (por exemplo, a assimilação de capacidade de produção) iria trazer como um subproduto a “industrialização” do processo de mudança técnica (por exemplo, o desenvolvimento de capacidade de inovação)” (VIOTTI, 2008, p.141).

A utilização do protecionismo como instrumento de política industrial, num contexto de nascimento das empresas nacionais e alocação de filiais de multinacionais no país, junto da crença de que a absorção de tecnologias estrangeiras seria suficiente para alavancar o progresso técnico no modelo de industrialização por substituição de importações tornou o país dependente da transferência tecnológica num ambiente de baixa competitividade (VELHO, VELHO & SAENZ, 2004).

Dessa forma, acreditava-se que as empresas apenas precisariam acumular capacidades específicas para operação das tecnologias estrangeiras e as atividades de C&T nas indústrias ficariam, então, restritas à adaptação e adequação das tecnologias importadas para as características brasileiras. A transferência de tecnologia, através de compra de máquinas, contratação de profissionais estrangeiros e importação de P&D do país-sede pelas multinacionais, seria suficiente para suprir as demandas da modernização em curto prazo priorizada pelo

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A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe) proveu a base teórica para a determinação do modelo de desenvolvimento para os países subdesenvolvidos. Segundo a Comissão, o meio de superação do subdesenvolvimento frente ao estrangulamento do setor externo era a industrialização (FURTADO, 1979), devido sua capacidade de transferir tecnologia, relações sociais e instituições modernas características dos países desenvolvidos (VIOTTI, 2008).

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governo, sem a necessidade de investimento em educação ou infraestrutura de C&T. Como consequência, apesar dos avanços institucionais da C&T nacional e dos objetivos que incentivaram o surgimento das instituições, o sistema de pesquisa criado não estabeleceu nenhuma relação com o setor produtivo (VELHO, VELHO & SAENZ, 2004; MOTOYAMA, 2004; VIOTTI, 2008).

Posto isto, havia na década de 1950 duas políticas de C&T no Brasil. A primeira, implícita, era realizada através da industrialização por substituição de importações e as esperadas transferências, absorção e adaptação de tecnologia estrangeira. A segunda era explícita aos textos de política, com o objeto de ampliar a oferta de profissionais, através do incentivo a P&D e a criação de universidades e instituições de pesquisa, que gerariam conhecimento em C&T estratégicos para o país e para o avanço das empresas nacionais (VELHO, VELHO & SAENZ, 2004).

Ao não serem demandadas pelo setor produtivo, as instituições científicas e a pesquisa foram marginalizadas (HERRERA, 1973), o que podia ser observado pela descrença em relação ao CNPq e sua baixa dotação de recursos. Ao mesmo tempo, ao não exercer pressão sobre a pesquisa científica, a economia nacional permitia que a determinação da agenda de pesquisa ficasse nas mãos dos pesquisadores (VARSAVSKY, 1969; VELHO, VELHO & SAENZ, 2004; DAGNINO, 2007).

No período de consolidação do capitalismo industrial no Brasil, o favorável contexto internacional contribuiu com o crescimento brasileiro acelerado e o país era cada vez mais incorporado ao sistema capitalista mundial. Apesar de problemas sociais como concentração de renda, analfabetismo e fome ainda persistirem, os elementos econômicos criaram grande otimismo na sociedade brasileira, que partia da percepção de que o Brasil estaria superando os constrangimentos característicos dos países periféricos (MOREL, 1979; DIAS, 2009). Foi nesse contexto que ocorreu, em 1964, o golpe militar.

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