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O termo estado provém do latim status que significa “estar forte”. Diverge da origem do fenômeno estado, para o qual existem diversas teorias explicativas, muitas das quais não conclusivas.

A concepção de estado, do ponto de vista jurídico, sobretudo a positivista, tende a ser reducionista e limitada, uma vez que dá ênfase apenas aos seus componentes jurídicos. Assim, Dallari (1992, p. 104) o conceitua “como a ordem jurídica soberana, que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território” ou como Bastos (1995, p. 10) que afirma ser “uma organização política sob a qual vive o homem moderno [...] caracterizando-se por ser o resultante de um povo vivendo sob um território delimitado e governado por leis que se fundam não sobrepujado por nenhum outro poder externamente e supremo internamente”.

Do ponto de vista estritamente jurídico, as definições, via de regra, seguem duas linhas. Uma, que dá ênfase à compreensão do estado como um agrupamento humano organizado em um determinado espaço (território); e outra que prioriza a organização normativa do estado. Aí, são sempre priorizados os elementos constitutivos do estado, isto é, o povo, o território o governo. Percebe-se, pois, a limitação da análise, sobretudo no tocante às origens do estado. Destaca-se entretanto, que nem todos os juristas apresentam visões limitadas sobre o estado. É o caso, por exemplo, de Bobbio, Malteuci e Pasquino (1999) que estudam o estado como forma histórica determinada. Nesse sentido afirmam que

[...] o Estado moderno europeu nos aparece como uma forma de organização do poder historicamente determinada e, enquanto tal, caracterizado por conotação que a tornam peculiar e diversa de outras formas, historicamente também determinadas e interiormente homogêneas, de organização do poder (BOBBIO; MALTEUCI; PASQUINO, 1999, p. 424).

Torres (1989, p. 40) afirma que, ao se falar de origem do estado, não se consegue de fato “[...] redigir com precisão a certidão de nascimento do Estado Moderno”, isto porque, também é imprecisa a própria compreensão do que seja Estado Moderno. O estado como é atualmente conhecido, para Torres (1989)

emerge historicamente, no período de formação do modo de produção capitalista através do “Estado Absolutista”12.

O autor acima citado chama atenção, para as monarquias feudais centralizadas que se formaram na Inglaterra e na França, as quais não podem ser consideradas instituições tipicamente feudais.

No contexto de transformação do modo de produção feudal para o capitalista emerge um novo pensar, que se torna revolucionário, no sentido de propor mudanças radicais tanto para o estado como para a sociedade e para a economia. Essa corrente do pensamento denominada liberal, prima pela” liberdade,” em seu sentido mais amplo, para o homem feudal. Opunha-se à ordem feudal, ganhando muito significado a liberdade para produzir e comercializar as mercadorias. No mesmo cenário, os filósofos e políticos da época, engendraram também a liberdade política e econômica.

O liberalismo, como doutrina política e econômica, tem sua gênese nas entranhas do feudalismo, e, contribuindo para sua derrocada, pavimentou a ascensão do capitalismo, que passou a ser sua expressão econômica.

Enquanto ideologia da nova classe dominante (a burguesia), o liberalismo, gradualmente proporcionou coesão ao conjunto das classes (dominadas e dominantes) favorecendo a queda do feudalismo. Tendo como eixo o individualismo, o liberalismo preconiza a defesa irrestrita da propriedade privada, demonstrando que a busca do interesse próprio e a liberdade plena garantiriam o equilíbrio funcional do sistema e a felicidade de capitalistas e trabalhadores.

A propriedade privada e a liberdade são os elementos fundamentais do capitalismo, sendo que a liberdade exercia um papel de necessidade orgânica vital para o liberalismo. Os diversos pensadores liberais defendem a liberdade como elemento fundamental à construção do novo sistema e da nova sociedade.

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12Estado absolutista surgiu na Europa ocidental no transcurso do século XVI. Sua principal

característica foi centralização do Poder político e militar nas mãos do monarca soberano - um rei ou príncipe hereditário - rompendo, portanto, com a soberania piramidal e parcelada que caracterizava o vasto conjunto dos domínios dos senhores feudais no período precedente.

As ideias de liberdade encontram ressonância na corrente utilitarista defendida por filósofos e economistas da época. É o caso de Bentham, pai e precursor do utilitarismo13 que, juntamente com J. Stuart Mill (1996), dispôs as bases da democracia liberal. Bentham defendia a ideia de que o governo deveria assegurar o mínimo, isto é os direitos de liberdade, o que seria prenúncio de um bom governo. Stuart Mill, por sua vez, em sua obra “Da Liberdade” datada de 1859, amadurece sua argumentação ao admitir o controle social, embora o mesmo somente fosse utilizado para prevenir danos outros, ou para evitar que uma pessoa infligisse um mal a outro.

As concepções do estado liberal são aprofundadas por Adam Smith, em sua obra “A Riqueza das Nações”, publicada em 1776. Ele redefine a função do Estado, de proteção aos cidadãos contra injustiças cometidas por outros cidadãos para a proteção à propriedade privada e a garantia do cumprimento dos contratos comerciais. Smith acrescenta ainda que a função do estado de proteger contra a invasão de ameaças externas fosse estendida à ampliação dos mercados externos, sob comando militar. Por fim, o estado teria a função de erigir e manter instituições que fomentassem a produção e as operações comerciais. Desse modo, o economista escocês reconfigura a função do estado liberal, apresentado como defensor das liberdades individuais das nações, como o grande articulador da liberdade comercial.

Pensadores como Adam Smith, Nassau Sênior, Bentham e Stuart Mill contribuíram para a consolidação do Liberalismo na esfera econômica. Todos defendiam um estado mínimo na regulação do mercado, mas máximo na legitimação e promoção da propriedade privada, de modo que a sociedade do capital não fosse ameaçada e pudesse garantir aos capitalistas os lucros necessários à sua reprodução.

Smith tornou-se um dos principais formuladores das idias liberais, na medida que via no mercado o meio para abolir além das classes sociais, pertencentes ao feudalismo, a eliminação das desigualdades e os privilégios dessa classe. A ideia postulada é que, a intervenção do estado somente dificultava os

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13 Corrente filosófica surgida no século XXVIII na Inglaterra, que afirma a utilidade como o valor

máximo no qual a elaboração de uma ética deve fundar-se. Baseia-se na compreensão empírica de que os homens regulam suas ações de acordo com o prazer e a dor, perpetuadamente tentando alcançar primeira e escapar da segunda. Os pensamentos utilitaristas têm Jeremy Betham e Jonh Stuart Mill os seus dois maiores representantes. Disponível em: <http://www.algosthescaofilosofia.com.br>. Acesso em: 22 dez. 2009.

prováveis ganhos que o comércio livre poderia gerar, favoreceria os monopólios, o protecionismo e a ineficiência. Outros autores, adeptos da mesma ideia, como Stuart Mill, por exemplo, defenderam pequenas doses de regulação e intervenção do estado. Todos, entretanto, convergiam para a mesma direção ao admitir que o crescimento, a realização individual e coletiva eram possibilitados pela liberdade do mercado.

O contexto sociopolítico econômico da época, como lembra Anderson (1995, p. 86) “[...] era de um Estado que preservava privilégios abolicionistas, protecionismo mercantilista e corrupção por toda parte”. Tornou-se, pois compreensível, a insistente defesa das ideias de liberdade do dinheiro e do mercado, com posterior adesão ao capitalismo, uma vez que a nova forma de governo do estado absolutista reprime as liberdades e as iniciativas dos burgueses naquele momento. Dessa forma, o liberalismo se constituía uma ideologia revolucionária para a época.

Até metade do século XX, as ideias liberais permaneceram direcionando as economias capitalistas, quando “[...] a revolução Keynesiana14 submeteu não somente a academia, mas as esferas políticas e econômicas às suas posições fundadas na intervenção do Estado na economia” (PEREIRA, 2004, p.20). O Liberalismo perde mais tarde o caráter revolucionário, apesar de manter o ideológico quando ressurge no Neoliberalismo.