CAPÍTULO
1. Antecedentes históricos do projecto europeu
A ideia de união dos países europeus é muito remota e foi surgindo em diferentes momentos e contextos geográficos dentro da Europa.
Nunes (1998) refere alguns dos acontecimentos históricos da antiguidade que tentaram criar uma certa homogeneidade na Europa, embora estes períodos fossem logo seguidos por movimentos contrários, de separação de Estados.
Como exemplos os autor refere: a romanização; o esforço de Bizâncio na conservação do espírito europeu através da organização do Estado, do exército, das letras, artes e economia; as tentativas de Clóvis, rei dos Francos e de Carlos Magno, foram de duração limitada e até fracassadas, mas não deixam de ser tentativas de unificação na Europa; na Idade Média, o cristianismo, é considerado por alguns (Pérez-Bustamante & Colsa, 2004) como um dos fenómenos precursores da UE; Dante que em 1306 publica “a Divina comédia” defendia a ideia de um imperador que dominasse os outros soberanos europeus; com o fim da guerra dos Cem Anos (1340-1453) surge o movimento de domínio da Europa pelas mãos dos Habsburgos, que com Carlos V criaram um vasto império.
No entanto, autores como Hen e Léonard (2002) referem que as principais utopias de união de Estados Europeus pertencem aos séculos XVII e XVIII.
Um dos mais conhecidos projectos é aquele que foi desenhado pelo Duque de Sully quando publicou as suas memórias do tempo em que foi ministro do Rei Henrique IV de França (1620-1635). Este seu projecto apresentava já uma ideia de união de uma Europa constituída por quinze Estados organizados sob um Conselho Comum.
No século XVIII o abade de Saint-Pierre (1713-1717) desenvolve o Projecto de Paz Perpétua onde se preconizava uma Sociedade Europeia composta por 24 deputados representantes de alguns Estados Europeus.
No “século das luzes” surgem também outros filósofos e pensadores da época que defendiam a ideia de criação de uma Europa Unida. Leibniz, apoiava as ideias de Saint-Pièrre; Jean- Jacques Rousseau também desenvolveu os seus trabalho em torno das propostas de Saint- Pièrre e o seu Projecto de Paz Perpétua; tal como também fez o filosofo britânico Bentham ou Emmanuel Kant (Nunes, 1998).
Mas não iremos aprofundar estes ideais utópicos cuja “viagem” nos poderia levar até aos filósofos gregos.
No século XIX, a Europa ficou marcada por uma época revolucionária, onde a revolução que mais e maiores consequências provocou foi a revolução francesa. A França exportou por todo o continente e para o mundo os princípios revolucionários que levaram a fim do Antigo Regime e ao começo de um novo mundo.
Foi nesta sequência de eventos que surgiu Napoleão Bonaparte que unificou a Europa através da conquista de países contra a vontade dos Europeus. Modernizou e uniformizou as estruturas dos espaços europeus e também codificou os seus sistemas legislativos. Napoleão chegou a firmar publicamente, em Santa Elena que “ele foi partidário de criar uma confederação de povos na Europa, de unificar moedas, os pesos, as medidas e as legislações” (Pérez-Bustamante & Colsa, 2004).
“No início do século XIX, com Napoleão, dá-se uma das mais típicas e relevantes tentativas hegemónicas da Europa que soçobra às portas de Moscovo e Waterloo” (Nunes, 1998, p. 25).
O Conde de Saint-Simon, foi um dos exemplos daquilo que alguns chamam da mais brilhante ideia de uma Europa unificada, quando em 1803 publica uma “Carta de um habitante de Genebra aos seus contemporâneos” defendendo a criação de um novo poder espiritual supra estatal. Também em 1814, juntamente com Agustín Thierry, Saint-Simon escreve uma obra onde se manifesta como o verdadeiro precursor da tendência institucionalista.
O século XIX foi também o século dos nacionalismos, onde os Estados-Nação afirmavam as suas identidades. Este século não favoreceu a união dos países europeus. No entanto, no plano
intelectual mantinha-se viva a ideia de uma união entre os países europeus. Um movimento artístico, literário, religioso e sentimental conduz a uma “Europa Romântica” na qual a exaltação das nacionalidades não elimina o ideal europeu (Pérez-Bustamante & Colsa, 2004). Exemplos deste movimento são Giuseppe Mazzini, herói do romantismo nacionalista que lutou por uma Itália unificada, dentro de uma Europa unida.
Também Victor Hugo popularizou nas suas obras a expressão “Os Estados Unidos da Europa” (mais tarde retomada por Winston Churchill) num discurso inaugural inserido no congresso da Paz de Paris, onde claramente evoca ideais europeístas.
“A profecia de Victor Hugo sobre os Estados Unidos da Europa, em 1814, no discurso de abertura do Congresso da Paz (...) continua a não passar de uma profecia, embora de facto, passados centro e trinta e cinco anos os povos tenham elegido, por sufrágio universal, um Parlamento Europeu, ainda que com poderes limitados (Nunes, 1998, p. 31).
Proudhon, nas suas obras expressa a hostilidade contra uma autoridade centralizadora e defende o federalismo europeu. Para ele, a união da Europa passa pela criação de uma federação que na sua perspectiva é a única forma de libertar os indivíduos do estatismo, a Europa deve ser assim uma “federação de federações”.
Mas a realidade política mantinha-se bem afastada destas ideias de unificação europeia. Nos finais do século XIX os nacionalismos europeus chocavam entre si, como afirmam Pérez- Bustamante e Colsa (2004). Depois de uma série de conflitos bélicos na Europa do Leste, o que surgiu inicialmente como um conflito europeu, passou a ser um conflito mundial. Entre 1914 e 1918 dá-se a Primeira Grande Guerra Mundial, que só termina com a abdicação de Guilherme II da Alemanha.
No dia 28 de Julho de 1919 assinava-se na Galeria dos Espelhos em Versalhes o chamado “Tratado de Versalhes” que declarava que a Alemanha e os seus aliados foram os verdadeiros culpados do conflito e que deviam responder elas perdas e danos sofridos pelos governos aliados e associados.
O Conde Richard Coundenhove-Kalergi publicava em 1923 uma obra intitulada Pan-Europa onde defendia abertamente a criação de um movimento europeu com o objectivo de alcançar a União da Europa e evitar o domínio militar dos bolcheviques e o domínio económico dos Estados Unidos da América.
Aristide Briand, ministro dos negócios estrangeiros francês assinou com a Alemanha, em 1925, o Tratado de Locarno a favor de um movimento Pan-Europeu. Este ministro dos negócios estrangeiros de França foi considerado por muitos como um dos maiores precursores
do movimento a favor de um projecto de unificação dos estados europeus, chegando mesmo a ocupar a presidência de honra do movimento Pan-Europeu.
No entanto os países europeus não se tinha recuperado totalmente das consequências da I Guerra Mundial. A crise económica mundial de 1929 facilitou o nacional-socialismo de Hitler que ao ocupar a margem esquerda do Rio Reno, viola as disposições do Tratado de Versalhes. Com a anexação da Áustria em 1938 e a assinatura com a Itália do Pacto de Aço, e com a invasão da Polónia estão estabelecidas as condições para ser declarada guerra à Alemanha, por parte de Reino Unido e pela França em 1939.
Durante esta época, o projecto de constituir uma Europa unificada fazia parte dos ideais nazis. Perante esta evolução histórica, não nos parece que a ideia de uma Europa unida voluntariamente tivesse tido grande sucesso. No entanto, consideramos que, utópicas ou não, as ideias de uma Europa unida têm, de facto, antecedentes históricos importantes, que merecem ser analisados.
Terminamos com uma apreciação de Nunes (1998) que revela que o facto dos ideais de UE terem pertencido apenas a uma elite, tenha sido um dos principais factores da impopularidade da Europa Unida, que ainda hoje se manifesta.
“O ideal Europeu nasce, como se pode verificar, pela nossa breve anotação, de uma elite. Elite, bem- pensante, que reunia de facto personalidade as mais destacadas, nos campos político, económico- empresarial, e cultural – escritores, petas, artistas. Não foi um movimento popular. Essa elite desenvolveu essas ideias em círculos relativamente restritos. Não soube transformá-la numa ideologia transmissível às massas. Talvez esteja neste facto, o pecado original do europeísmo, que tem influenciado negativamente a construção europeia, e que a Europa está a pagar actualmente (...)” (1998, p. 32).